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reconhecer que, mesmo diante das tentativas de silenciar ou limitar as práticas sobre sexualidade na escola, muitos pesquisadores desenvolveram e continuam buscando caminhos possíveis para que essas práticas aconteçam.

Gilsete Pereira Rocha (2017) desenvolve sua pesquisa no município de Nova Venécia; de forma específica, busca um caminho para o ensino de sexualidade para crianças do ensino fundamental. Em seu trabalho, são crianças da 5ª série da rede municipal de educação, dentro de uma perspectiva de alfabetização científica, como destaca a autora.

Destacamos que ganha importância as vivências culturais dos estudantes em conferir significados à sexualidade, mas, para a pesquisadora, o ponto de partida é o pressuposto biológico (ROCHA, 2017), que em nosso entendimento confere a sexualidade um caráter essencialista, neste ponto se distancia de nossa perspectiva.

No trabalho “Gênero e Sexualidade na Escola: da Educação Legal à Educação Real”, de Ana Paula Brasil (2017), a perspectiva é direcionada para as relações que acontecem no contexto educacional do IFES Campus Linhares. A pesquisadora percebe que há lacunas e contradições entre aquilo que está presente nas legislações para o que se vivencia no ambiente escolar. Pontua que:

[...] embora sendo irretocáveis os acentos democráticos da documentação oficial, contudo, dada a performance real da maior parte dos/das profissionais da educação, aqueles textos figuram como protocolos de uma utopia necessária, mas absolutamente intangível. É desconcertante o descompasso entre o que se existe na documentação e o que se vive na cultura educacional (BRASIL, 2017, p. 34).

Demonstra-se mais que positivo a análise da autora, que não parte de um ideal universalista para compreender esse fenômeno, mas se pauta na construção contextualizada dessas contradições. De certa forma, é o significado biológico de gênero e sexualidade que entra em conflito com a pluralidade existente nas relações humanas. Não é possível falar que o ambiente é democrático se essa pluralidade, constantemente, sofre investidas dos padrões estabelecidos. Estes devem ser problematizados; isto sendo possível, distancia-se dos aspectos meramente biológicos (BRASIL, 2017). Aqui, a autora se aproxima de Foucault e teóricos pós- estruturalistas ao analisar os aspectos sociais que são construídos de maneira dinâmica.

Partindo desse mesmo entendimento, o trabalho de Isadora Lee Padilha Ferri (2018)

“Secundaristas em Práticas Educativas Feministas” traça um caminho para demonstrar que a concepção de gênero, assim como de sexualidade, é histórica.

Nesse sentido, promover um ensino com base nessa noção, rompe com as limitações ou os processos de assujeitamentos tão fortes em nossa sociedade e no ambiente escolar. Essa pesquisa, foi realizada na região serrana do Espírito Santo, em Santa Maria de Jetibá, no Campus IFES-Centro Serrano; buscou elaborar uma prática educativa de caráter feminista, com o intuito de ser uma ação emancipadora contra uma “educação [que] tem servido à elite branca, heterossexual e cisgênero” (FERRI, 2018, p. 106). Chama a atenção para a construção de um ambiente verdadeiramente democrático, em que a diversidade não seja motivo de desigualdade, pois esta cria as generalizações da violência contra as mulheres e o preconceito sexual, causa de assassinatos homofóbicos (FERRI, 2018).

Além disso, para além das práticas educacionais estabelecidas pela escola, presente em sala de aula, a autora propõe abranger as práticas presentes na vivência dos estudantes nos demais ambientes. Da mesma forma estabelecida em nosso trabalho, compreende que não são práticas que se encerram na ação docente em uma aula, mas as relações que acontecem e são carregadas de diferentes sentidos, tão influenciados culturalmente.

Sobre os aspectos culturais, esse município em que desenvolveu seu trabalho, assim como o nosso campo de pesquisa, tem como característica forte influência pomerana, aliás, também, é considerado um município pomerano. Mas, enquanto em nossa escola há uma diversidade maior, nota-se de acordo com uma imagem (figura 5) apresentada em sua dissertação, que a maioria dos alunos é branca. De 18 alunos que aparecem na foto da oficina realizada em 2016, somente quatro são pretos.

A análise étnica contribui na discussão sobre a diversidade cultural, já que as tradições, educação familiares, tendem a entrar em conflito nesse ambiente plural, ainda mais se são criados certos padrões a serem seguidos com base em uma ou outra cultura. Além do mais, destaca a autora que a escola está localizada em uma região rural (FERRI, 2018), mas não podemos realizar uma aproximação com o local onde nos inserimos, já que os estudantes do IFES estão em período integral na escola, enquanto os participantes de nossa pesquisa, egressos e os que ainda estudam, dividem seu dia entre escola e trabalhos na roça.

Com isto, não buscamos em nosso trabalho o direito ou o verdadeiro sentido de falar sobre “sexualidade” em um contexto interiorano, sobre o qual já explicamos o porquê de utilizarmos o termo “escola do interior”: nem o que é ou não é rural. Simplesmente, sendo fiel a nossa perspectiva de pesquisa, diferenciamos esses dois contextos para não se pensar que só por que se diz “região rural”, seja possível estabelecer, fielmente, ligações analíticas de uma cultura única.

Além disso, o caminho encontrado pela a autora para destacar a importância de práticas feministas na escola aconteceu de forma contextualizada, compreendendo os problemas que ali se apresentavam, sendo premissa para novas práticas. Da mesma forma, pensamos que nosso trabalho ganha sentido quando partimos daquelas respostas que só podem ser encontradas em situações específicas presentes no campo pesquisado (FERRI, 2018).

Um terceiro trabalho desenvolvido no Ensino Médio Técnico do IFES, aconteceu no Campus Colatina e foi proposto pela pesquisadora Maria do Carmo Conopca (2019), que analisou a questão da diversidade sexual com base na legislação que regulamenta o uso do nome social, principalmente no esforço de manter a permanência desses estudantes, transexuais ou travestis, muitas vezes discriminados no ambiente escolar. É um trabalho com enfoque na questão de gênero, conforme o qual "a inclusão na escola configura um caminho para se alcançar a igualdade de oportunidades” (CONOPCA, 2019, p. 13).

Acreditamos que a questão da inclusão é algo a ser analisado em todos os contextos, principalmente em escolas do interior, muitas vezes carregadas de discursos normativos e excludentes. Mas a autora concluiu que após um estudante ter conquistado o direito de usar o nome social, ao mesmo tempo em que há pessoas que compreendem a situação, têm outras que permanecem críticas a tudo isso (CONOPCA, 2019). Por isso, as pesquisas, as práticas educativas devem ser ações constantes. Sempre analisando os problemas que se apresentam nos diferentes contextos, principalmente a partir das relações estabelecidas na escola.

Na procura por outros trabalhos que nos ajudassem compreender as práticas educativas sobre sexualidade desenvolvidas em escolas regulares de ensino médio do interior, encontramos as pesquisas de Nathally Gomes Lucatelli (2018) e Adriana

Marcela Monroy Garzón (2019), realizadas em duas escolas diferentes do interior de Minas Gerais, que contribuíram com o nosso olhar ao propormos essa temática de estudo em nosso campo de pesquisa, como já mencionamos, localizado no interior do Espírito Santo, e apresenta características semelhantes àquelas encontradas nesse levantamento bibliográfico.

Lucateli (2018) parte da investigação sobre a construção da identidade da mulher presente na escola, influenciada pelo meio em que se está inserida, mostrando que a escola extrapola seu aspecto de ensino curricular por seu aspecto de inserção no contexto social ao afirmar e normalizar os devidos papéis aos sujeitos escolares.

As garotas da pesquisa destacaram que são sempre julgadas pelo comportamento afetivo e sexual, principalmente quando, nesse meio rural, uma delas engravida. A culpa é colocada sobre ela por ser mãe tão jovem, sem ser casada, enquanto seu parceiro só fez o que seria natural ao homem. Também a mãe da garota se torna culpada, por não ter tido o cuidado necessário na educação de sua filha e seu pai se torna vítima dessa transgressão (LUCATELLI, 2018).

As singularidades apresentadas pelos contextos rurais estão dadas principalmente pelas práticas e noções muito conservadoras sobre a sexualidade. Neste contexto, a religião e os valores tradicionais direcionam uma maneira restrita de vivenciar e expressar a sexualidade. Além disso, nas sociedades rurais são tecidas relações sociais mais homogêneas e próximas, pois os povoados são constituídos por um número menor de famílias e os papéis sociais de homens e mulheres raras vezes são modificados ou diversificados (GARZÓN, 2019, p. 34).

A escola tem um papel fundamental nessa educação do jovem do interior já que é “[...]

uma instituição de extrema relevância social, obviamente, ela exerce papel determinante na transmissão dos padrões de comportamento aceitáveis ou não”

(LUCATELLI, 2018, p. 25). Neste caso, encontra-se certa ambiguidade no que se refere ao seu papel social, por um lado a escola tende a manter irretocáveis esses padrões encontrados no meio rural, mas pode ser também local privilegiado de transformação.

Além do mais, ao abordar questões relacionadas a sexualidade, é possível notar nas escolas que foram apresentadas nesses trabalhos que surgem certas regras ao lidar com esse tipo de temática. Primeiro, as religiosas – ligadas à tradição da comunidade em que está inserida – e, segundo, mantém o aspecto médico e curricular daquilo que

será abordado, presente nos documentos oficiais. São práticas que buscamos extrapolar com a cartografia em nossa relação com os participantes da pesquisa, observando os caminhos encontrados pelos alunos na superação dessa falta e transformação daquilo que o ambiente escolar propõe.

Convém destacar que o conhecimento sobre sexualidade, presente na vida desses jovens, também provém do acesso a novas tecnologias e nas conversas informais com seus colegas e amigos, seja na rua ou nos corredores das escolas, já que em sala de aula, muitas vezes, prevalece o silêncio das práticas educativas; e em algumas casas dialogar sobre sexualidade ainda é tido como um tabu, que fazem surgir certas tensões na relação entre alunos, escola e o convívio familiar e social (IZQUIERDO;

PAULO; SANTOS, 2020).

Em suas práticas de ensino sobre sexualidade na escola do interior, por meio das quais desenvolveu sua pesquisa, Lucatelli (2018) mostrou que inicia seu trabalho em sala conceituando gênero, sexo e sexualidade, com base naquilo que está expresso no currículo, analisando os aspectos biológicos, binários, de construção de sujeitos, macho e fêmea, homossexual e heterossexual, que já estão presentes no contexto dos alunos e facilita a possibilidade de inserção na discussão. Em seguida, a autora problematiza essa conceituação partindo de autores como Joan Scott, Guacira Lopes Louro e Michel Foucault, mostrando que, “a partir do momento em que as diferenças corporais são socialmente notadas e hierarquizadas, engendra-se a relação entre gênero e poder” (LUCATELLI, 2018, p. 50). Também problematiza a própria realidade social em que os alunos estão inseridos, refletindo sobre as construções de papéis sociais ligados a sexualidade.

As questões relacionadas a esse ensino também são observadas na pesquisa de Garzón (2019), as quais analisam as propostas direcionadas às discussões sobre sexualidade nas escolas do interior, partem somente do pressuposto médico, e tendem a manter e a reproduzir as estruturas, muitas vezes injustas, presentes no contexto social do interior, como dito muitas vezes, tão tradicional e conservador. Isso leva-nos a perceber a necessidade da realização de pesquisas voltadas para essas escolas, além de práticas que possam transformar aquelas já tão engessadas.

Na realização de rodas de conversas em seu campo de pesquisa, Garzón (2019) observou que se torna muito mais positivo reconhecer que a relação que os alunos estabelecem entre si, no contexto educacional, é satisfatória para a construção do entendimento sobre a vivência da sexualidade. Trata-se de uma perspectiva, importantíssima para nossa pesquisa, que não parte, simplesmente, da pergunta “o que é a sexualidade?” para encontrar uma fórmula de vivência que seja considerada boa ou ruim, mas que amplie seu olhar para os muitos modos de construí-la e vivenciá- la.

Também, sobre a utilização dos recursos tecnológicos é possível perceber que

O adolescente camponês, no processo de construção de identidade e de reconhecimento de seu corpo e sua sexualidade, ainda dentro do modelo biomédico e biológico e sexista, utiliza a tecnologia como forma de contestação ante essa precariedade e ausência de uma educação para a sexualidade. Desta forma, a tecnologia como parte dos modos de vida do adolescente camponês na atualidade traz um senso de conforto e abertura a temas relacionados com o corpo e o sexo. Contudo, carrega lógicas da globalização e do capitalismo que precisam ser problematizadas (GARZÓN, 2019, p. 135).

Por fim, a autora avaliou como positivas as práticas desenvolvidas com os alunos em seus contextos culturais, e destaca a possibilidade dos diferentes discursos dos alunos na construção do estudo sobre sexualidade. Porém, mesmo diante de toda potencialidade de caminhos possíveis na sua proposta educativa, fecha sua perspectiva ao afirmar que “a sexualidade como dimensão educável possibilita novos caminhos na promoção da saúde” (GARZÓN, 2019, p. 168). Infere-se que todo caminho possível de ensino convergirá para a “promoção de saúde”. Só muda a forma de caminhar, mas a intenção permanece a mesma do discurso médico, pedagógico e biomédico já existentes. Mesmo assim, a pesquisa permitiu-nos ampliar o olhar sobre a questão da sexualidade, sobre o que está presente nesse contexto do interior.

A necessidade consiste sempre em buscar fundamentações para novas práticas educativas que consigam ampliar nossos entendimentos, sem que se parta do princípio de criar generalizações, aquelas que limitam os vários caminhos possíveis, mas fazer com que as vozes presentes nas pesquisas e principalmente nas experiências dos alunos e alunas possam direcionar os trabalhos presentes e futuros sobre sexualidade.

A seguir, apresentaremos o referencial teórico do estudo. Dentre tantos autores que trabalham sobre a questão da sexualidade, buscamos uma maior aproximação com Michel Foucault. Então, a metodologia da pesquisa, assim como a perspectiva na intenção de elaborar prática de ensino, parte de autores que, em alguns sentidos, restritos ou amplos, tendem a se aproximar mais do pensamento foucaultiano.

4 SEXUALIDADE, BIOPODER E PERSPECTIVAS DE ENSINO

Como foi observado nos trabalhos do levantamento bibliográfico, é possível encontrar muitos teóricos como fundamentação e referência para o desenvolvimento de pesquisas relacionadas a questão da sexualidade, além de diferentes abordagens no que se refere a prática de ensino e intervenções no campo educacional. Algo que é essencial para que se possa, realmente, problematizar certos conceitos, que são constantemente reforçados em práticas estritamente curriculares, e possibilitam novos entendimentos e diferentes caminhos para que o ensino aconteça. Não sobre a busca de conceitos certos ou errados, mas na construção investigativa desses sentidos construídos e presentes em nosso cotidiano, na própria experiência da sexualidade.

Dessa forma, nesta seção, buscamos esclarecer as formulações conceituais que se encontram com nossa pesquisa, considerando nosso objetivo em cartografar as práticas de ensino sobre sexualidade no contexto educacional. Partimos da análise sobre a história da sexualidade realizada por Michel Foucault, assim como outros pesquisadores que desenvolvem uma abordagem que pode ser chamada de pós- estruturalista, com base no referido autor.

Para uma melhor apresentação, fizemos a divisão em duas subseções; na primeira, buscaremos esclarecer dois conceitos fundamentais na compreensão de sexualidade na perspectiva foucaultiana, que são o biopoder e a própria sexualidade; e posteriormente fazemos a análise do pós-estruturalismo como perspectiva educativa a partir da análise de Alfredo Veiga-Neto (2017), buscando superar as práticas também cristalizadas na educação brasileira, que se polarizam em tradicionais e progressistas.