Conforme alguns autores e pesquisadores, a educação sexual no Brasil pode ser dividida em seis períodos (RIBEIRO, 2004). Desde 1500, com o início do primeiro período na Colônia até os dias atuais. Mas não abordaremos o histórico como um todo; preferimos concentrar no sexto período, destacado pelos autores. O período em questão teve como marco a promulgação da LDB (BRASIL, 1996) e dos PCN’s (BRASIL, 1997), que instituíram a orientação sexual como um dos temas transversais a serem trabalhados na escola e corresponde ao período atual.
Reconhecemos a importância dessa contextualização sobre a educação sexual, pois
“[...] é possível afirmar que conhecer a história da Educação Sexual no país, pode facilitar, ao educador, o engajamento com a temática e o empenho para trabalhar em prol de um novo rumo” (FIGUEIRÓ, 1998, p. 132). Buscamos realmente trilhar esse
“novo rumo”, para além do que se convencionou chamar de “educação sexual” ou
“orientação sexual” na escola, por compreendermos que essa abordagem sistematizou a sexualidade dentro de um discurso pedagógico oficial. Tal discurso surge como estratégia na organização daquilo que é permitido ser ensinado na escola.
É importante indicar, mesmo que rapidamente, que algumas perspectivas adotadas na educação brasileira, que podemos observar nas pesquisas encontradas, tende a ser eugenistas, higienistas, médicas, biomédicas, religiosas e autoritárias, não incentivam o ensino a ir além dos fatos organizados como conteúdos curriculares, já
que a sexualidade está relacionada às práticas e respostas consideradas certas ou erradas (BRITZMAN, 2019).
Percebemos que, nessa forma de ensino, as ações a serem tomadas pelos indivíduos se fecham naquelas duas respostas possíveis, certo ou errado, que se transformam em características de conduta e construção de sujeitos. Ou sendo sinal de perversão ter uma inicialização sexual tão jovem, principalmente para as garotas que, de forma específica no interior devem zelar pela virgindade, resguardando-se para seus futuros maridos, sendo consideradas “safadas”, “vagabundas”, caso se relacionem fora das regras do casamento (LUCATELLI, 2018; GARZÓN, 2019).
Dentre as polêmicas relacionadas à questão da sexualidade e gênero na educação brasileira, destacamos que em 2011 o ministério da educação com o programa escola sem homofobia buscou incentivar novas perspectivas e olhares sobre a questão da sexualidade na escola:
O Estado passava a reconhecer a necessidade de desenvolver uma política educacional voltada às questões de direitos humanos que envolvessem a abordagem de gênero e sexualidade. Em resposta, um pânico moral foi criado a partir da promoção de uma campanha sobre a suposta nocividade do material para as crianças (BALIEIRO, 2018, p. 4).
Conforme Fernando de Figueiredo Balieiro (2018), os opositores aos materiais que seriam utilizados nas escolas construíram um discurso moral sobre tal ensino desvirtuar as crianças, já que se baseava em certas perspectivas que foram denominadas de “ideologia de gênero”. E, para o bem do futuro da nação, esse ensino não poderia ser realizado nas escolas. O próprio ex-presidente Jair Bolsonaro, na época deputado federal, discursou condenando as ações do ministério da educação, pois não se tratava de conscientizar sobre os direitos humanos e diversidades, mas sim incitar crianças nas escolas, desde os quatros anos de idade, a serem homossexuais. Disse na época que “não estava perseguindo boiola”, mas que, para o governo da época, “no dia que a maioria da garotada nas escolas for homossexual, está resolvido o assunto” e que isso se tratava de “um plano imoral” (BOLSONARO, 2011).
Esse discurso era semelhante ao da bancada evangélica e outros grupos conservadores, fazendo com que a presidenta Dilma Rousseff, sob críticas de aliados políticos, suspendesse a utilização do material, concordando com o discurso de
incitação a homossexualidade presente nesse material didático que, de “kit anti- homofobia”, passou a ser chamado “kit gay” (BALIEIRO, 2018).
Ganha força, naquele período, o discurso do movimento Escola sem Partido em torno da noção de “ideologia de gênero” que, supostamente, estava sendo proposta nas escolas, sendo que as orientações na organização de planos municipais, estaduais e nacionais de educação não poderiam se articular com base naquelas temáticas,
O professor passou a ser visto como um intruso nocivo na sacralizada relação entre pais e filhos, algo atestado em slogans como “meus filhos, minhas regras” ou “não se meta com meus filhos”, suscitando a formação de páginas no Facebook como Mães pelo Escola sem Partido (BALIEIRO, 2018, p. 11).
Essa construção discursiva em torno da moralidade nacional teve como efeito a supressão e limitação de grande parte das questões relacionadas a gênero e sexualidade, presentes nos Parâmetros Curriculares Nacionais anteriores e que objetivavam uma discussão mais ampla, conforme análise da BNCC em vigor (BRASIL, 2017; ROCHA, 2017). E, em sua dissertação, Pedro Clares Ribeiro (2019) afirma que a proposta final da BNCC está alinhada à uma tendência moral-tradicional, retirando as conquistas e possibilidades de diálogos que foram conquistados ao longo da história da educação sexual brasileira.
Por isso, torna-se ainda mais necessário o desenvolvimento de práticas educativas que retomem os aspectos positivos do trabalho sobre sexualidade na escola, compreendendo que as práticas não devem ser realizadas de forma impositiva pelos professores ou muito menos deixarem de acontecer. É necessário que a abordagem busque ser sempre “uma reflexão crítica, que combata qualquer forma de preconceito, reconheça as diferenças, promova os direitos individuais, bem como os coletivos e faça o enfrentamento a qualquer tipo de discriminação e violência” (RIBEIRO, 2019, p. 83).
O ambiente escolar não se limita àquilo que é estabelecido em suas legislações, já que “a escola é um espaço onde diversas relações se constroem, ultrapassando os limites do que se costuma chamar de educação” (LUCATELLI, 2018, p. 9). Ou seja, é necessário reconhecer as práticas educativas presentes nas próprias ações dos estudantes. Contudo, por mais que a maioria das pesquisas encontradas nos repositórios não dialogue diretamente com a que propomos, não podemos deixar de
reconhecer que, mesmo diante das tentativas de silenciar ou limitar as práticas sobre sexualidade na escola, muitos pesquisadores desenvolveram e continuam buscando caminhos possíveis para que essas práticas aconteçam.