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suas múltiplas interpretações, já que a sexualidade não é algo fixo, está em movimento, precisa ser significada e ressignificada (VEIGA-NETO, 1996). Conforme exemplifica L.M. (egressa 2011-2021), mesmo que, muitas vezes, venha a ser uma atitude julgada pelos outros, é sempre um movimento pessoal.

Aqui se encontra um dos pontos de divergência entre as concepções religiosa/biológica universalistas, o embasamento tradicional dos costumes do interior e as mudanças de entendimento da sexualidade que vão surgindo, conforme observamos nas entrevistas. Os entrevistados percebem o quanto a temática se torna complexa à medida que formas até recentemente pouco comuns de expressar a sexualidade, como a homossexualidade, são percebidas no seu meio social, contrapondo-se a certas verdades da fé ou mesmo da ciência. Por isso, retomam a questão pelo caminho da sexualidade “natural”, normalizada, em vez de abrir espaço para uma mudança de compreensão, para algo que, para eles, é novo.

A cultura fala muito mais alto. Desconstruir isso é muito difícil. É possível que se desconstrua essa ideia de sexo masculino e feminino. É possível. Mas desconstruir algo milenar é muito difícil (M.L., egressa 1980-1990).

A participante traz os elementos presentes na análise de Louro (2019), sobre o quanto o meio social constrói significações para determinar o masculino e feminino, as vivências da sexualidade, mas nos permite compreender que essas noções são construídas culturalmente, e, nessa perspectiva, por mais difícil que seja transformá- las, é possível, sim, desconstruí-las.

O pensamento cultural da sexualidade como algo “natural”, com identidades biologicamente criadas, influencia as relações que se estabelecem entre os indivíduos no contexto no qual a pesquisa foi desenvolvida. Os papéis sociais são tradicionalmente definidos e os sujeitos recebem papéis específicos nesse meio.

em oposição a ideia de sujeitos masculinos ou femininos naturalizados. Trata-se de uma nova concepção, a qual destaca que os sujeitos são produto de um meio social, cultural e político. Em função disso, é preciso que as análises extrapolem o ensino de papéis sociais, masculino e feminino, e focalizem a construção de identidades (LOURO, 1997).

A seguir, são relatadas três experiências que se relacionam, por abarcarem uma noção de mulher que gira ao redor da feminilidade, da maternidade e do papel de esposa.

A menina que aprendia fazer os serviços da casa, os serviços domésticos, e que chegasse uma determinada idade, casava. Eu tinha que namorar mais tarde e casar. E, eu não fiz nada disso. Tanto que eu fui mais tarde. Casei mais tarde. Meu pai dizia que eu tinha boiado. Olha que termo! Como se eu fosse uma mercadoria que tinha envelhecido. Enquanto todas as meninas tinham casado mais novas, eu me casei mais tarde (M.L., egressa 1980- 1990).

Eu casei com 17 anos. Tive meu primeiro namorado, que até então eu não queria levar a sério, né? Mas quebrei a cara. Acabei engravidando e logo casei (S.F., egressa 1991-2000).

Estudei da 5ª a 8ª série em Joatuba. Iniciei o 1º ano na [escola] Luiz Jouffroy, na sede do município. Engravidei, fui morar com o pai da minha menina. Anos depois, voltei a estudar e concluí o Ensino Médio no noturno, em Joatuba (R.N., egressa 1991-2000).

Havia a expectativa de que a menina concluiria o Ensino Fundamental e, logo em seguida, constituiria uma família. Com experiências divergentes dessa expectativa, mesmo diante das críticas que receberam, essas participantes subvertem a lógica presente nesse contexto tradicional, inclusive, possibilitando uma reflexão sobre as regras do matrimônio e a responsabilização da mulher pelos cuidados com os filhos.

Os papéis sociais aparecem bem definidos no que se refere às atribuições do homem e da mulher: ele é representado como o sujeito mais forte, enquanto ela é um sujeito dependente desse outro. Porém, a mulher é compreendida como aquela que diverge dos costumes, foge às regras tradicionais estabelecidas, principalmente, ao engravidar sem ser casada ou por sua opção de casar em idade socialmente considerada como tardia.

Em seus trabalhos sobre sexualidade no interior, Lucatelli (2018) e Garzón (2019) destacaram o peso imposto às mulheres que tiveram iniciação sexual em idade considerada muito jovem. Principalmente, engravidar antes do casamento se tornava

um problema. “Assim, as pessoas que se relacionam sem construir alianças afetivas e amorosas dentro desta lógica podem ser taxadas de ‘anormais’ por contradizerem as normas” (SANTOS; BRITO, 2016, p. 238). Por isso, geralmente, essa “etiqueta” de

“anormal” é mais direcionada à mulher, que precisa se manter zelosa em relação à sua virgindade até o casamento, quando, então, passa a ser “pertencente” ao seu marido, dedicando-se exclusivamente à educação dos filhos. O que foge desse padrão se torna “anormal”.

Em função disso, M.L. (egressa, 1980-1990) destacou que optar por aguardar, estudar, para casar somente mais tarde, teve como consequência as críticas de seu pai, que utilizou o termo “boiado”, como se referindo a uma mercadoria que ficou para trás. Por outro lado, E.S. e R.N. (ambas egressas 1991-2000) receberam críticas por engravidarem antes do casamento, enquanto ainda estudavam. As normas sempre buscando direcionar seus passos, e elas rompendo com essas determinações...

Mesmo que não encontrasse namorada. A gente ia para as festas procurar [...]. Hoje, já tenho 25 anos de casado, um enteado falecido e um filho de outro relacionamento na juventude (L.C., egresso 1980-1990).

O relato desse egresso é importante para ilustrar a contradição no seguimento das regras entre garotas e garotos. Nota-se certa liberdade dos rapazes. De um lado, as egressas E.S. e R.N., ao engravidarem ainda no período em que estavam estudando, casaram com seus parceiros e, sendo esposa e mãe, a segunda somente retornou à escola para a conclusão do Ensino Médio cinco anos mais tarde. L.C., por sua vez, ainda que também tenha sido pai na juventude, não sofreu imposição social para se casar com a mãe de seu primeiro filho. Anos mais tarde, amadurecido e em outro matrimônio, é que ele assumiu as responsabilidades paternais sobre esse filho.

Na atualidade, há mais abertura e facilidade para se discutir a responsabilização do pai, porque a legislação, refletindo os questionamentos sociais, também está mais amadurecida sobre essa questão. Até mesmo em relação a obrigar uma garota a se casar caso ela esteja grávida, como ocorreu com E.S. e R.N. (ambas egressas 1991- 2000), é um aspecto que já não possui tanto peso, apesar das críticas que ainda recaem sobre a garota quando a gravidez ocorre. Mas é possível ser mãe solo, algo que, pelos relatos, não era algumas décadas atrás.

Retomando a naturalização da sexualidade discutida na subseção anterior, conforme Louro (1997, p. 21), “[...] seja no âmbito do senso comum, seja revestido por uma linguagem ‘científica’, a distinção biológica, ou melhor, a distinção sexual, serve para compreender e justificar a desigualdade social”, criando identidades e atribuindo valor às características que constituem o feminino e o masculino em determinada sociedade. Sobre a condição do feminino, Preciado (2014) destaca que, na antropologia clássica analisada por Donna Haraway, o corpo da mulher é efeito, à medida dos imperativos da procriação doméstica, sempre em sua disponibilidade sexual; entende que esse corpo está criado sob a ótica de uma história natural, e não como um produto da história política.

Os teóricos essencialistas, por fundamento, e alguns construtivistas feministas, por equívoco, acabam afirmando a existência de um corpo (feminino) com certo grau zero, apenas como uma matéria biológica moldada socialmente a partir de sua distinção em relação ao corpo masculino, o que leva a dois erros: o primeiro é reconhecer a mulher a partir de uma capacidade natural de um corpo reprodutivo e o segundo é que ela depende e é moldada pelo outro, por uma masculinidade já fixa (PRECIADO, 2014).

Compreender os gêneros como tecnologia do poder supera essa contradição, já que tanto homem quanto mulher são produtos desse biopoder que cria sujeitos, dicotomias, sempre em uma lógica de superioridade de um elemento sobre o outro.

Nesse entendimento, é necessário desconstruir essa ideia de oposição entre masculino/feminino (LOURO, 1997).

No relato a seguir, chama atenção, de início, certa concepção crítica acerca do comportamento e interesses da menina na atualidade, principalmente sobre namoro;

todavia, contraditoriamente, a própria egressa, em sua juventude, seguiu pelo mesmo caminho:

Hoje a gente vê, praticamente, crianças falando de sexo mesmo. Muitas menininhas, né? Pessoas muito jovens querendo namorar, não quer continuar os estudos, só pensa em namoro e casar muito jovens, né? [...] Não tive muita liberdade, porque do jeito que terminei o Ensino Médio, conheci o W. [então namorado], a gente ficou juntos e tivemos as meninas (C.F., egressa 2001-2010).

C.F. casou logo após ter concluído o Ensino Médio e avalia que não teve muita liberdade. Ao comentar sobre as meninas na atualidade, as quais, tão jovens, estariam demonstrando o desejo de namorar e casar, sem pensar em continuar os estudos, a

entrevistada dá o indicativo para duas suposições: a primeira é o fato de que acredita que, diferente de si e gerações passadas, as meninas de hoje possuiriam mais liberdade de escolha e poderiam se dedicar a outras coisas que não casar de imediato, ser esposa e mãe, cumprindo com os afazeres domésticos. A segunda suposição se refere ao discurso normativo sobre a vivência da sexualidade presente na vida da entrevistada (egressa 2001-2010), o qual faz com que ela acredite que essas meninas não estariam na “idade correta” de vivenciar certas experiências, não estando, portanto, prontas para um namoro, casamento ou para serem mães, já que são “tão jovens”.

Considerando essas experiências e visões singulares, cada entrevistada, em seus diferentes tempos, compartilhou sua percepção em relação a esse contexto de interior, a qual denota, ora, um movimento mais restritivo, ora, com mais liberdade.

Mas ainda há certas experiências que demonstram o quanto a figura da mulher é constantemente vigiada e como aquele contexto social cria imagens a respeito de suas formas de viver:

Ainda há um tabu em questão da mulher [...] Já fui chamada de puta por ser solteira, beber e sair prá bar, festas (L.M., egressa 2011-2021).

A opressão se torna ainda mais evidente quando o julgamento parte de uma mulher, a qual, ainda que alvo dessa opressão, defende-a, separando ambientes que não devem ser frequentados por “mulheres corretas” ou desacompanhadas. Além disso, as egressas M.L. (1980-1990) e R.N. (1991-2000), por serem divorciadas, também compartilham experiências negativas relacionadas ao fato de não estarem comprometidas com um parceiro, principalmente as críticas de outras mulheres que não acham correto o término de um casamento.

A mulher separada, sozinha, é ameaça para a casada. É uma figura de sexo.

Os homens não veem como possível companheira (M.L., egressa 1980- 1990).

Nessa situação, a mulher fica subjugada tanto pelos homens quanto por outras mulheres, que vão criando essas identidades para diferenciá-las, como tentativa de controle de seus costumes. Assim, continua a busca por padrões para perpetuar uma imagem do feminino que seja comum a todas as mulheres e quaisquer indicativos de desvios desses padrões marcam de forma negativa aquelas que, de um jeito ou outro,

propõem-se a vivenciar sua vida a partir de novas experiências. Algumas conseguiram realizar esse novo caminho, outras, como observamos nas entrevistas, mantêm, muitas vezes indiretamente, as mesmas restrições que ao longo de sua vida sempre lhes foram impostas. Porém, não deixam de trazer aspectos que divergem daquilo que tende a ser cristalizado no meio rural.