4 SEXUALIDADE, BIOPODER E PERSPECTIVAS DE ENSINO
Como foi observado nos trabalhos do levantamento bibliográfico, é possível encontrar muitos teóricos como fundamentação e referência para o desenvolvimento de pesquisas relacionadas a questão da sexualidade, além de diferentes abordagens no que se refere a prática de ensino e intervenções no campo educacional. Algo que é essencial para que se possa, realmente, problematizar certos conceitos, que são constantemente reforçados em práticas estritamente curriculares, e possibilitam novos entendimentos e diferentes caminhos para que o ensino aconteça. Não sobre a busca de conceitos certos ou errados, mas na construção investigativa desses sentidos construídos e presentes em nosso cotidiano, na própria experiência da sexualidade.
Dessa forma, nesta seção, buscamos esclarecer as formulações conceituais que se encontram com nossa pesquisa, considerando nosso objetivo em cartografar as práticas de ensino sobre sexualidade no contexto educacional. Partimos da análise sobre a história da sexualidade realizada por Michel Foucault, assim como outros pesquisadores que desenvolvem uma abordagem que pode ser chamada de pós- estruturalista, com base no referido autor.
Para uma melhor apresentação, fizemos a divisão em duas subseções; na primeira, buscaremos esclarecer dois conceitos fundamentais na compreensão de sexualidade na perspectiva foucaultiana, que são o biopoder e a própria sexualidade; e posteriormente fazemos a análise do pós-estruturalismo como perspectiva educativa a partir da análise de Alfredo Veiga-Neto (2017), buscando superar as práticas também cristalizadas na educação brasileira, que se polarizam em tradicionais e progressistas.
separação entre os sãos e os loucos e o normal e o anormal. E, por fim, seu foco se concentrou na forma que o ser humano, por si só, se reconhece enquanto sujeito, sendo que o domínio da sexualidade serviu para seu processo de análise (FOUCAULT, 2009).
É essa linha referente a sexualidade que está presente em nosso processo de pesquisa; porém, precisamos fazer o mesmo caminho que Foucault estabeleceu como proposta investigativa, sendo que primeiro observou que havia um tipo de poder peculiar no ocidente para depois perceber como o sexo e a sexualidade ganharam importância para aquele poder emergente.
Segundo Foucault (2019), até o século XVII o poder pode ser compreendido como poder soberano, ligado ao poder que se exercia sobre o direito de vida e morte dos súditos. O soberano, em sua defesa e sobrevivência, deixava viver ou fazia morrer ao expor a vida de seus súditos nas guerras ou ao matar aqueles que deveriam ser punidos. Este poder derivava da pátria potestas da Roma antiga, onde o pai poderia dispor da vida de seus filhos e escravos, já que ele a havia concedido. “O poder era antes de tudo, nesse tipo de sociedade, direito de apreensão das coisas, do tempo, dos corpos e, finalmente, da vida” (FOUCAULT, 2019a, p. 146).
Mas, há uma transformação nesses mecanismos de poder, que se desloca do direito da morte à gestão da vida, surgindo estratégias que passaram a reconhecer o ser humano em sua existência biológica, enquanto corpo-máquina passível de disciplinamento e corpo-espécie, ligado aos controles reguladores da população.
Segundo Foucault (2019a), as disciplinas do corpo que visam adestrar, desenvolver aptidões, corrigir certos desvios – escolas, prisões, hospitais, exército e as regulações da população – controle de natalidade, gestão da saúde, práticas políticas, econômicas, são os dois polos que possibilitaram a organização desse poder sobre a vida denominado de biopoder.
Observa Peter Pál Pelbart (2007, p. 59):
[...] se o poder, num regime de soberania, consistia num mecanismo de supressão, de extorsão, seja da riqueza, do trabalho, da força, do sangue, culminando com o privilégio de suprimir a própria vida, no regime subsequente de biopoder ele passa a funcionar na base da incitação, do reforço, da vigilância, visando a otimização das forças vitais que ele submete.
Dessa forma, o biopoder é analisado e compreendido enquanto ato, um poder a ser investigado em suas aplicações, nos métodos utilizados, nos resultados que produz e nas resistências que incita (FOUCAULT, 2009). Assim, enquanto o poder busca produzir identidades em um sentido universal, as resistências tendem para a criação de novas formas de vivência. Entendemos essa resistência como um processo que consiste em liberar as práticas discursivas, e estão para além de simplesmente dizer não ao poder, tendo como característica uma potencialidade criativa, pois “há sempre a possibilidade de mudar as coisas nessa relação entre poder e resistência”
(FOUCAULT, 2004, p. 268).
Como esse biopoder se espalha em diferentes campos em nossa sociedade, Foucault (2009) aconselha que a análise não parta de uma perspectiva abrangente num sentido universal, mas que se realize a partir de uma experiência fundamental. Sendo assim, em nossa pesquisa, aproximando-nos da análise de Foucault sobre a objetivação dos sujeitos, também escolhemos a sexualidade como tema de análise desse poder exercido sobre os indivíduos num processo de sujeição, já que a sexualidade, como um dos dispositivos da tecnologia de poder, ganha importância nesse contexto do biopoder, pois o sexo se encontra na articulação entre o disciplinamento do corpo individual e as regulações sociais da população (FOUCAULT, 1990).
A obra “História da sexualidade I: a vontade de saber” indica que não houve principalmente uma censura sobre o sexo (hipótese repressiva), mas a construção de uma aparelhagem discursiva ligada aos mecanismos de poder do interesse público e que, a partir do século XVIII, se distinguiram em quatro estratégias, que irão definir dispositivos específicos a respeito do sexo: a histerização do corpo da mulher; a pedagogização do sexo da criança; a socialização das condutas de procriação; e, a psiquiatrização do prazer perverso, compondo técnicas disciplinares juntamente com as regulações, fundamentando-se em normas (FOUCAULT, 2019b).
Segundo Foucault (2019a, p. 7-8), a sexualidade é definida como um dispositivo do poder que surge a partir do
Desenvolvimento de campos de conhecimentos diversos (que cobriam tanto os mecanismos biológicos de reprodução como as variantes individuais ou sociais do comportamento); a instauração de um conjunto de regras e de normas [...] que se apoiam em instituições religiosas, judiciárias, pedagógicas e médicas.
É possível perceber que a partir do final do século XVI e ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX há uma explosão discursiva sobre o sexo, que utilizava um vocabulário autorizado, com linguagem apropriada, com retórica e metáforas para falar de sexo.
Surgindo, assim, certo controle das enunciações; onde e quando falar de sexo; em quais relações sociais e entre quais interlocutores era possível dialogar. O ocidente vai criando dispositivos que determinam e normatizam a verdade sobre o sexo (FOUCAULT, 2019a).
Tais dispositivos, historicamente, iniciam-se com a confissão religiosa como primeira técnica a produzir essas verdades, vinculando o ato sexual ao desejo e à carne como origem do pecado, além de incitar o discurso, o falar sobre sexo. Passa-se a valorizar essa produção da verdade: o discurso verdadeiro sobre si. Sendo que a confissão se difunde em diferentes instâncias e nossa sociedade passa a se dedicar a expressar o sexo conforme seus discursos de verdade.
Para além de um poder repressor, que criava interdições, o dispositivo da sexualidade baseou-se numa “multiplicidade de discursos” ou saberes que constituíam as verdades sobre o sexo. Esses discursos, religiosos, médicos, pedagógicos, jurídicos que são descritos por Foucault (2004) na análise histórica sobre a sexualidade nortearam a produção conceitual relacionado às questões do sexo, transformando-os em saberes científicos. Por isso, conforme o filósofo, o Ocidente busca apoio no discurso verdadeiro da ciência e só terá validade, o qual só são consideradas verdades, as teorizações que se baseiam nesse discurso, seguindo suas regras.
Foucault (2019a) buscou analisar a forma minuciosa como, ao longo do século XVIII, desenvolveu-se novas técnicas de conhecimento e se passou a ter domínio da sociedade, constituindo o biopoder – classificando e hierarquizando todos os seres, a partir de estratégias variadas. Compreendemos que essa ciência que se estruturou ao longo dos séculos, naturalizou o homem enquanto sujeito biológico caracterizando uma concepção essencialista dos corpos, consequentemente, da sexualidade e dos gêneros (LOURO, 2007).
[...] Uma forma de sexualidade é generalizada e naturalizada e funciona como referência para todo o campo e para todos os sujeitos. A heterossexualidade é concebida como ‘natural’ e também como universal e normal [...], as outras formas de sexualidade são constituídas como antinaturais, peculiares e anormais (LOURO, 2019, p. 19).
É baseado nesse sentido universal conferido a sexualidade que a sociedade se estrutura, principalmente em sua rede de ensino, como observamos nos trabalhos apresentados em nossa revisão de literatura e análise do currículo direcionado ao ensino médio. Na verdade, possibilita de forma sutil a normalização presente no biopoder, já que a escola, também, está ligada ao disciplinamento dos corpos (FOUCAULT, 2019a) e não distante das regulações sociais, criando sujeitos.
Conforme Guacira Lopes Louro (2007, p. 210), a partir de Foucault, a sexualidade deve ser compreendida como algo sendo construído historicamente, “[...] produzida na cultura, cambiante, carregada da possibilidade de instabilidade, multiplicidade e provisoriedade”. Não sendo possível falar em sexualidade como pressuposto conceitual que abarca a multiplicidade de significações presentes na cultura nem como elemento que constrói as identidades subjetivas, baseada na concepção de sexo biológico.
Foucault (2004, p. 260) afirma que a sexualidade faz parte de nossa liberdade de vivenciarmos o mundo e o sexo “é uma possibilidade de aceder a uma vida criativa”, por isso não devemos permanecer fixos nas regras estabelecidas por aquele discurso verdadeiro da ciência sobre sexualidade que tende a criar, somente, o mesmo processo de subjetivação. Mas voltar nossa atenção para a possibilidade de algo novo. Dessa forma, no próximo tópico, buscamos analisar o desenvolvimento do estudo sobre sexualidade na escola, baseado numa perspectiva pós-estruturalista, enquanto nos distanciando das diferentes perspectivas pedagógicas que também encontramos na revisão bibliográfica, tais como: pedagogias críticas ou tradicionais, libertadora, tecnicistas, biomédicas, etc., costumeiramente apresentadas como práticas de ensino.