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A organização sócio-espacial

Para Santos (1979), o espaço é dividido e organizado, basicamente, como uma espécie de sistema, em que cada um tem um papel. Ele pode ser dividido de acordo com as classes sociais, em que existe uma condição de seleção do Espaço de maneira sequencial e contínua, pois o sistema vai moldando o Espaço de acordo com as classes sociais.

Essa lógica perversa se estabelece em todos os países, mas fica mais evidente nos países em desenvolvimento; explicitamente, é possível observar como o espaço é dividido conforme as classes sociais.

As cidades, principalmente as grandes cidades e metrópoles, servem como um observatório natural de como o espaço se divide e de como o sistema econômico “dita as regras”, ou seja, vai direcionando os indivíduos para as partes das cidades de acordo com a sua renda.

Essa divisão do espaço não acontece somente nas cidades; no campo, isso também fica bem evidente, com os latifúndios de um lado, que, reiterando, produzem muito pouco, e, contrapondo-se aos latifúndios, há as pequenas propriedades como uma forma de contrabalançar esse modelo que divide o espaço conforme o poder econômico do indivíduo. As pequenas propriedades de trabalhadores rurais trazem uma divisão mais igualitária, tanto do ponto de vista geográfico, quanto do ponto de vista econômico, uma vez que os indivíduos que ocupam esses ambientes têm como principal finalidade a sua subsistência e de sua família.

Para Santos (1979), a formação sócio-espacial pode ser estudada como uma categoria de análise; a partir dessa condição, percebe-se a existência de dois subsistemas de fluxo econômico que são interdependentes e complementares, e são oriundos do sistema global; ressalta-se que os mesmos são concebidos nos países que estão em desenvolvimento e também nas grandes cidades. Ao ponderar, mediante a noção de circuitos econômicos, percebe-se que, nas cidades, há, aparentemente, uma verticalidade do espaço produzido a partir de escolhas obtidas via circuito superior e econômico. Também são percebidos os domínios de horizontalidade do espaço social, onde as pessoas vivem coletivamente e é onde incide a ocorrência de ricos e pobres, de quem controlam e de quem são subordinados a quem tem poder.

A sociedade organiza-se espacialmente, algumas vezes, no sentido contraditório ao que seria a lógica adequada e mais coerente, pois o espaço deveria ser (re) produzido de forma a atender a todos de forma justa e inclusiva.

Para melhor compreender as nuances da relação entre sociedade e espaço, e como a sociedade se especializa, são tomadas como referência as cidades grandes, pois, nessas metrópoles, há uma complexidade maior entre a organização social e as relações sócio-espaciais.

A maioria dos estudos e pesquisas (BUKHARIN, 1933; HARVEY, 2004;

SANTOS, 1979) sobre esse tema converge para uma realidade em que a organização sócio-espacial está intrinsecamente ligada à questão econômica.

Se contextualizada a questão econômica, relacionada aos variados ambientes, principalmente nos centros urbanos, distribuídos em uma espécie de casta, é possível observar, claramente, setores distintos destinados a quem pertence à classe “A” até à classe “D”.

A divisão e a organização sócio-espacial também se dão por meio do grau de instrução do indivíduo. Os que podem estudar e obter uma formação

superior, consequentemente, ocupa uma função, principalmente em uma área que está diretamente ligada à classe social dominante, têm sempre um lugar ou função de destaque, enquanto aqueles que não tiveram meios para fazer um Curso Superior culturalmente ligado às classes “A” e “B”, como Medicina, Engenharia, Direito, Odontologia etc., estarão relegados a viverem em condições mais precárias, em um ambiente mais periférico.

Embora essas premissas sejam uma realidade quase que inconteste, há também setores nos centros urbanos em que as classes “B”, “C” e “D” se misturam.

Faz-se importante destacar que mesmo em espaço de segregação social existe, contraditoriamente, uma espécie de solidariedade entre as pessoas que vivem nesses locais. Mas, para falar de solidariedade sócio-espacial, é preciso ter compreensão das relações humanas ocorridas em sociedade, que perpassam os grupos familiares, tribos e outros.

As pesquisas realizadas sobre a sociedade principalmente nas sociedades ocidentais, capitalistas e contemporâneas, demonstram que a solidariedade quase não aparece em ambientes em que as classes “A” e “B”

predominam, ou seja, dentro das grandes cidades; mais precisamente nos bairros de alto padrão e nos condomínios fechados, essa palavra (solidariedade) praticamente inexiste, pois, nesses ambientes urbanos o que prepondera é a

“frieza” nas relações humanas, isto é, num condomínio fechado, por exemplo, onde as pessoas deveriam estreitar relacionamentos, fazendo com que esses ambientes fiquem bem mais próximos, não é o que acontece na maioria dos casos.

Nos bairros de alto padrão há um vazio nas ruas, denotando, de maneira muito clara, que não há oportunidade ou interesse pela prática de solidariedade nesses ambientes. A solidariedade está mais presente nos bairros frequentados por classes sociais como as “C” e “D”, pois, nesses locais, praticamente não há “espaços vazios”, a densidade demográfica é muito maior e há uma interação direta entre esses moradores, formando, na maioria das vezes, entre as famílias que ali residem, verdadeiros “clãs”. Nesses ambientes, pode-se falar em “solidariedade sócio-espacial”, pois cada pedaço é valorizado, os vizinhos são mais próximos, mais familiares.

Esses ambientes frequentados pelas classes mais desprovidas financeiramente, como “C” e “D”, acabam formando uma cultura peculiar de solidariedade, visto que a condição de vida de seus moradores os une por um

objetivo comum - a sobrevivência - e, sendo assim, pode-se dizer que, nesses ambientes, tem-se, sim, uma verdadeira solidariedade.