formada por tecelões. A cooperativa ficava numa rua conhecida como “Beco do Sapo”, que se localizava no bairro de Rochdale, em Manchester, na Inglaterra (HOLYOAKE, 1933).
Muitos erros e acertos comumente ocorrem no início ou na criação de uma cooperativa; assim, para evitar erros ou fracassos, os trabalhadores tecelões (pioneiros de Rochdale) definiram trabalhar com vendas de maneira leal e honrada, ou seja, desprovidos de enganação ao cliente, sem confrontação aos lucros e somente com as vendas à vista. Inicialmente, o propósito cooperativista dos pioneiros de Rochdale, que se embasava em fundamentações socialistas, fez com que eles não obtivessem incentivos e nem apoio por parte do governo, da igreja e nem dos industriais; qualquer apoio e incentivo dessas instituições só aconteceu posteriormente, por meio da evidenciação de que o que se propunham atendia aos ideais da economia de mercado capitalista (HOLYOAKE, 1933).
Quadro 7 - Princípios do cooperativismo de acordo com o estatuto de Rochdale, em 1844
FONTE: Oliveira (2019), adaptado de Pereira (2012).
Como se verifica, os pioneiros de Rochdale criaram os princípios cooperativistas que intencionavam promover a manutenção dos valores da igualdade e da democracia. Mas, é importante destacar que, com o tempo, foi sendo necessário avigorar e robustecer esses princípios cooperativistas, de tal maneira que os mesmos foram sendo alterados, ou melhor, readaptados, de acordo com o desenvolvimento e as mudanças ocorridas no mundo. Portanto, faz- se importante destacar que ao primeiro estatuto social foram incorporados os princípios cooperativistas na data de 1844. Posteriormente, a Sociedade dos Probos de Rochdale os reformulou nos anos de 1845 e também em 1854.
Salienta-se que esses princípios têm a função de orientar a ação prática das cooperativas (SCHNEIDER, 1999).
De acordo com Schneider (1999), a Aliança Cooperativa Internacional (ACI), criada em 1895, com a função de conservar, zelar, preservar e defender o cooperativismo e os seus princípios, no ano de 1921, no décimo Congresso realizado no município de Basileia, na Suíça, assumiu os princípios criados pelos pioneiros de Rochdale. Sequencialmente, nos anos de 1937, 1966 e 1995, esses princípios foram revisados e adaptados às situações-necessidades de cada momento, como se averigua a seguir, no Quadro 8:
Quadro 8: Princípios cooperativistas referendados em congressos da ACI Local: Paris-França, ano de 1937
Princípios essenciais de fidelidade aos pioneiros 1 – Adesão aberta;
2 – Controle ou gestão democrática;
3 – Retorno pro-rata das operações;
4 – Juros limitados ao capital;
5 – Compras e vendas à vista;
6 – Promoção da educação;
7 – Neutralidade política e religiosa.
Local: Viena-Áustria, ano de 1966
1 – Adesão livre (inclusive neutralidade política, religiosa, racial e social);
2 – Gestão democrática;
3 – Distribuição das sobras:
a. Ao desenvolvimento;
b. Aos serviços comuns;
c. Aos associados pró-rata das operações.
4 – Taxa limitada de juros ao capital social;
5 – Constituição de um fundo para a educação dos associados e do público em geral;
6 – Ativa cooperação entre as cooperativas em âmbito local, nacional e internacional.
Local: Manchester-Inglaterra, ano de 1995 1 – Adesão voluntária e livre;
2 – Gestão democrática;
3 – Participação econômica dos sócios;
4 – Autonomia e independência;
5 – Educação, formação e informação;
6 – Intercooperação;
7 – Preocupação com a comunidade.
FONTE: Oliveira (2019), adaptado de Pereira et al. (2002).
Como se pode verificar neste quadro, ocorreram alterações em três congressos da Aliança Cooperativa Internacional. O primeiro aconteceu no ano de 1937, em Paris, o segundo em 1966, em Viena, na Áustria, e o mais recente foi em Manchester, na Inglaterra, no ano de 1995. Essa última alteração evidenciou sete princípios cooperativistas de uma maneira bem objetiva e clara, buscando expô-los de modo que servissem como referência para todos os tipos de cooperativas e para qualquer lugar do mundo (MEINEN e PORT, 2014).
O primeiro desses princípios é a “Adesão voluntária e livre”. O mesmo quer dizer que todas as pessoas podem se tornar membros de uma cooperativa, sendo essa uma decisão de cunho individual; portanto, não se deve existir nenhuma forma de discriminação, seja de caráter social, sexual, político, religioso ou racial. Todos os membros que queiram se integrar a uma cooperativa devem seguir os princípios orientadores e admitir as responsabilidades que competem a um cooperado. Salienta-se, ainda, que o caráter voluntário é base de uma organização cooperativa.
O segundo princípio é a “Gestão democrática”. Toda cooperativa é uma organização de caráter democrático, que deve ser controlada pelos seus membros, que têm direito de voto com peso igual a todos. Todos devem participar ativamente e gerir a cooperativa, de acordo com as necessidades coletivas e com os objetivos definidos em assembleia geral. Portanto, todos os membros têm os mesmos direitos e poder de decisão.
A “Participação econômica dos sócios” é o terceiro princípio. Todos os membros, de forma igualitária, fazem contribuição para compor o capital da cooperativa e, logicamente, controlam-no de forma democrática. Esse princípio se submete à ideia de que todos os cooperados são donos, de maneira que qualquer excedente deve ser destinado-definido pelos sócios cooperados, que têm a opção de destiná-lo ao desenvolvimento da própria cooperativa ou ao incremento das reservas de caixa, ou mesmo de distribuí-lo entre os sócios.
O quarto princípio é o da “Autonomia e independência”, o que quer dizer que toda cooperativa é independente do controle privado e estatal; é autônoma e de ajuda mútua, devendo ser controlada, sempre, pelos seus membros. Importante ressaltar que, mesmo quando se busca relacionar ou fazer alguma parceria externa a fim de obter acesso a recurso financeiro, é essencial a manutenção da democracia e da autonomia de decisões.
Já o quinto princípio é o da “Educação, formação e informação”. As cooperativas têm a função de promover educação e formação tanto dos seus membros como também de trabalhadores e gestores que, de alguma forma, estão interligados ao trabalho das mesmas. Como se constata, a preocupação de educar e promover formação tem forte ligação com a objetividade de promover capacitação profissional e desenvolvimento cultural aos seus membros e familiares atendidos. A informação é mais no sentido de realizar ações-atividades para informar quanto a vantagens e à relevância de se inserir em uma cooperativa e também de informar aos seus associados cooperados quanto às suas operações-movimentações. Esse princípio é muito importante, especialmente pela sua relevância social, mas também por ser uma via que possibilita o crescimento coletivo de todos os cooperados que compõem uma cooperativa, além disso, quanto mais a sociedade se cooperativar, a tendência é que melhor as pessoas podem viver, com mais dignidade, justiça e prosperidade sustentável.
“Intercooperação” é o sexto princípio. Com o objetivo de que os cooperados obtenham ascensão cultural, social e econômica, a ajuda mútua é fundamental como prática cotidiana; assim, a integração entre cooperativas em
nível local, regional, nacional e internacional é essencial por diversos motivos, dentre os quais destaca-se que a integração permite a vivência e a troca de experiências. Possibilita, ainda, a intervenção-partilha no campo organizacional e funciona como apoio no processo de venda e compra; nesse sentido, a intercooperação horizontal permite a ajuda mútua entre cooperativas de outros ramos e até de atuação no mesmo segmento, especialmente pela via de atendimento e até de realização de feiras e exposições partilhadas. A intercooperação também pode ocorrer no sentido vertical, por meio de ações diversas, como o compartilhamento e a potencialização do uso de mídias, a realização de eventos conjuntos, o uso de equipamentos sistematizados e até a integração de uso de espaços físicos, permitindo que esses benefícios conjuntos possibilitem ganhos de escala e uma economia de escopo (MEINEN; PORT, 2014).
E o sétimo princípio é “Preocupação com a comunidade ou interesse pela comunidade”. Para que esse princípio se efetive é preciso que os cooperados aprovem-realizem políticas que levem as cooperativas a atuarem no desenvolvimento da comunidade. A atuação das cooperativas deve ter um caráter de viabilização de um desenvolvimento sustentável, que pode ser concretizado através da prestação de serviços solidários, da geração de emprego e renda, da venda de produtos a preço de custo, e também do cuidado, zelo e conservação ambiental. Ressalta-se que uma cooperativa tem, entre suas funções, a obrigação de promover a valorização das particularidades locais e o fortalecimento dos potenciais socioeconômicos. Assim, ela deve influenciar o desenvolvimento local, possibilitando o crescimento de forma harmônica, equilibrada e sustentável.