O cooperativismo é muito importante. As cooperativas são ou podem ser uma das maiores instituições que geram resultado positivo. Uma porcentagem significativa da população brasileira depende direta ou indiretamente dos negócios das cooperativas. As mesmas proporcionam empregos diretos a milhares de brasileiros, portanto, vários são os desafios percebidos e mencionados no decorrer de todo o trabalho que o cooperativismo brasileiro enfrenta, porém, vale ressaltar alguns que são importantes e mais comuns no cotidiano.
Princípios como autonomia, autogestão, democracia, participação e solidariedade são difíceis de serem atingidos e desejados por todas as pessoas.
Para Cornforth e Thomas (1990), “na cultura individualista e materialista do capitalismo, o apelo do trabalho em cooperativas, com o pressuposto da adesão voluntária e com objetivos sociais e solidários é muito baixo”.
Essa cultura citada pelos autores nada tem a comungar com a ideia do cooperativismo, pois ele surgiu justamente pela necessidade das pessoas de se juntarem, porque individualmente os objetivos a serem alcançados podem se tornarem mais difíceis do que viver em cooperação.
A demora de retorno financeiro é também um entrave à consecução de uma cooperativa e isso pode ser um dos fatores que fazem com que muitas pessoas abandonem o projeto cooperativo assim que obtêm outro emprego, causando a própria dissolução da instituição.
Outro desafio é a eficiência. Toda e qualquer organização é composta por pessoas que ocupam funções interdependentes, portanto, é importante que cada pessoa cumpra sua função de maneira a ser competente, pois a ausência de ações nitidamente definidas, como administrativas, de gestão, supervisão, operação, vendas, dentre vários outras, contribui para práticas erradas e conflitos estruturais. E muitas são as barreiras à eficiência como, por exemplo, a falta de democracia e transparência em tomar as decisões conjuntas com todas as pessoas que são sócias de uma cooperativa, princípios estes que possibilitam um maior conhecimento, crescimento e participação das pessoas nas organizações.
A falta de participação efetiva de cooperados, a ingerência administrativa, transformações econômicas, o desconhecimento e o desinteresse das pessoas envolvidas no cooperativismo e até mesmo os conflitos entre sócios e dirigentes são fatores enfrentados no cooperativismo brasileiro, que são prejudiciais e que podem colidir com os interesses e objetivos das instituições.
Muitos são os desinteressados em conhecer os documentos que regem e dão suporte e também possibilitam distinguir os direitos e deveres que existem para com o cooperativismo, além disso, há também as pessoas que não conhecem a fundo os princípios e os valores cooperativistas e ainda não participam das reuniões, das assembleias e demais eventos que possibilitam um melhor conhecimento e entendimento da realidade de suas cooperativas.
Embora o cooperativismo passe por diversos problemas e desafios, ele é de suma importância para o crescimento de milhões de pessoas que possuem impossibilidades de trabalhar e competir no mercado de forma individual e assim procuram se integrar às cooperativas como meio de crescer e até mesmo de buscar recursos para sobreviver às dificuldades.
O cooperativismo brasileiro busca gerar riquezas como também compartilhar as mesmas. Nesse sentido, o importante não é somente buscar lucros e sim adquirir bons resultados econômicos e sociais de forma compartilhada para a instituição e seus associados. Portanto, é de se esperar que a sociedade brasileira desperte cada dia mais para o cooperativismo, tendo compromisso, participando ativamente de sua existência na sociedade cooperativista e empresarial, bem como procurando ajuda mediante convênios
com entidades especializadas, sejam públicas ou privadas. É necessário promover aperfeiçoamento especializado e capacitação profissional dos associados e empregados por intermédio de encontros, cursos, palestras, congressos, simpósios, workshops e vários outros momentos que possam contribuir com o conhecimento e a formação.
Outras medidas que podem ser adotadas para prevenir possíveis desafios e assim contribuir com os resultados positivos do cooperativismo são: a transparência nas ações, ou seja, proferir sempre a verdade e agir de forma a zelar pela imagem e realidade em que a cooperativa se encontra; melhorar as práticas administrativas a fim de trazer união entre os associados; promover a conexão entre cooperados e dirigentes; extinguir o individualismo e optar pelo interesse coletivo. É necessário que os gestores busquem meios para que os cooperados tenham consciência da necessidade de conhecer o cooperativismo e também devem expor sobre os valores e princípios do mesmo e assim aprimorar a comunicação e o entendimento para que todos possam se envolver de forma objetiva, evitando possíveis falhas de diálogo. É de suma importância o estímulo e o apoio às vendas das produções tanto nos comércios locais, como nacionais e internacionais.
Sendo assim, é necessário administração, conhecimento, envolvimento, informação, participação e troca de experiências de todos no que tange às reuniões, às assembleias e ao dia a dia das cooperativas para que possam acompanhar efetivamente todo o seu funcionamento e ainda identificar precocemente alguma deficiência, podendo, dessa forma, tomar medidas preventivas.
5.7 – Propostas para o Cooperativismo no contexto atual
Nesses últimos anos, muito se tem discutido sobre o cooperativismo, especialmente no Brasil. O cooperativismo brasileiro tem sido um importante fenômeno de análise em pesquisas acadêmicas e também por governos das mais variadas esferas. Existem muitas controvérsias sobre o seu limite e potencial de capacidade para promover desenvolvimento, melhoria nas condições de vida e de atuação como organizador social, porém, é quase consensual que o mesmo tem crescido rapidamente e ampliado a sua atuação desde o seu surgimento.
Entendendo que o cooperativismo tem sido importante no processo de produção e de organização sócio-espacial do Brasil, e que esse é um importante
motivo para pensar o desenvolvimento da produção e articulação do território brasileiro, é que se busca evidenciar elementos propositivos por meio do cooperativismo para o atual contexto vivido. Nesse sentido, a Organização das Cooperativas Brasileiras, definiu em documento intitulado “Propostas para um Brasil mais Cooperado” rumos de desenvolvimento para que seja considerado pelo Governo Federal.
De tal maneira, foram constituídos cinco pontos temáticos e vinte três recomendações, as quais identificam o cooperativismo como algo que causa mudanças econômicas e sociais através da geração de emprego, trabalho e resultados positivos. Assim, as “Propostas para um Brasil Mais Cooperado” são conduzidas para que o cooperativismo seja necessário e de relevância para o desenvolvimento socioeconômico, reconhecendo seu valor e propostas para um país mais justo, que promova o bem estar e com oportunidades para todos.
Verifica-se que a OCB teve como intenção produzir um documento com propostas que garantam o desenvolvimento e a valorização das causas e princípios dos variados ramos do cooperativismo, para que eles sejam um modelo de negócio consolidado.
Salienta-se que o documento “Propostas para um Brasil Mais Cooperado - Contribuições do cooperativismo para a Presidência da República 2019 a 2022” é decorrente de um procedimento participativo da organização cooperativista. De acordo com o documento, foram ouvidas mais de 1,3 mil lideranças cooperativistas através de pesquisa de opinião e de grupos focais que consistem em um método qualitativo que congrega participantes em uma entrevista, a qual mostra opiniões sobre produtos ou serviços. A pesquisa contou com a representatividade de todas as vinte e sete unidades estaduais.
Foram definidos cinco eixos temáticos com propostas para a Presidência da República, como se vê no quadro 13:
Quadro 13 - Propostas para o Cooperativismo brasileiro
1 - RECONHECIMENTO DA IMPORTÂNCIA ECONÔMICA E SOCIAL DAS COOPERATIVAS: Esperamos que o próximo governo busque fortalecer o papel do cooperativismo como parte da agenda estratégica do país, reconhecendo os diferenciais das sociedades cooperativas e seu alto impacto para o desenvolvimento de pessoas e comunidades. Isto não significa somente concordar com a sua importância, mas que este fator seja o propulsor de ações efetivas para dar maior competitividade às cooperativas, com destaque para a regulamentação do adequado tratamento
tributário ao ato cooperativo. Propostas: Adequado tratamento tributário ao ato cooperativo; Legislações e políticas públicas de apoio e estímulo ao cooperativismo;
Espaços de representatividade e de participação.
2 - COOPERATIVISMO COMO MOTOR DE DESENVOLVIMENTO DO PAÍS:
Destacamos a importância de propostas que valorizem o papel das cooperativas para combatermos a fome, alcançarmos a segurança alimentar e a melhoria da nutrição no Brasil e no mundo, por meio de uma produção agropecuária sustentável. Também consideramos fundamentais as políticas públicas que reforcem o papel das cooperativas na inclusão financeira, desenvolvimento regional e redução das desigualdades, bem como para superarmos os atuais desafios de transporte e logística de escoamento da produção brasileira, promovendo o desenvolvimento econômico e social do país. Propostas: Segurança alimentar, combate à fome e agregação de valor nas cadeias produtivas; Inclusão financeira e desenvolvimento regional; Transporte e logística de escoamento da produção; Fortalecimento da pequena mineração.
3 - COOPERATIVAS EM PROL DE CIDADES E COMUNIDADES MAIS SUSTENTÁVEIS: Destacamos diversas propostas de como as cooperativas podem contribuir, ainda mais, com o governo para prestação de serviços de interesse público com maior dinamismo e eficiência, com foco na ampliação do atendimento de saúde da população brasileira, no acesso à energia de alta qualidade no campo e nas cidades, no avanço à educação inclusiva, equitativa e de qualidade e em diversos setores econômicos onde as cooperativas atuam com destaque. Propostas: Acesso universal aos serviços de saúde; Energia de qualidade no campo e nas cidades; Educação inclusiva, equitativa e de qualidade; Mobilidade urbana; Aproveitamento do potencial turístico e de lazer; Moradia própria e construção de unidades habitacionais.
4 - COOPERATIVISMO COMO PLATAFORMA DA ECONOMIA COLABORATIVA:
Pensar em cooperativismo é também refletir sobre políticas públicas de incentivo às novas tendências de se trabalhar em rede, conectar pessoas e colocá-las no centro das tomadas de decisão de seus próprios negócios, por meio do empreendedorismo coletivo e da autogestão. Assim, sugerimos ao governo propostas de apoio às cooperativas como opção sustentável para milhares de trabalhadores brasileiros contarem com melhores condições de inserção de seus produtos e serviços no mercado. Propostas: Geração de emprego e renda por meio do empreendedorismo coletivo; Comércio justo e acesso a produtos e serviços; Inserção de cooperativas em novos mercados.
5 - CRIANDO BASES PARA UM PAÍS DO FUTURO: Uma parte significativa dos
desafios para empreender no Brasil diz respeito à viabilização, por parte do governo, de um ambiente de negócios favorável aos investimentos. Neste sentido, acreditamos serem fundamentais as medidas de simplificação tributária, responsabilidade fiscal, combate à corrupção, desburocratização das atividades econômicas e de retomada de investimentos em infraestrutura e logística, dentre diversos outros desafios para a recondução econômica do país. Propostas: Simplificação tributária e responsabilidade fiscal; Desburocratização e melhoria do ambiente de negócios; Qualificação profissional e promoção social; Investimento em infraestrutura e logística; Proteção e melhoria da qualidade do meio ambiente; Estímulo a instituições eficazes, responsáveis e transparentes; Segurança pública.
FONTE: OCB (2018), organizado por Oliveira (2019).
Diante do exposto, avalia-se que o sistema cooperativista brasileiro se encontra em boas condições de dialogar com governo de qualquer que seja a esfera. O mesmo se mostra estruturado para enfrentar as condições adversas oriundas do capitalismo e ainda promover desenvolvimento e melhoria nas condições de vida dos trabalhadores.
Ainda nesse sentido exposto é significativa a regulamentação em lei complementar do tratamento tributário dos atos praticados pelas cooperativas.
Tendo em vista as peculiaridades das mesmas, é imprescindível uma tributação diferenciada a fim de que o cooperativismo se desenvolva em melhores condições no país. Para Suzin (2020, p.1):
O adequado tratamento tributário não configura benefício ou isenção tributária, não representa imunidade, não é sinônimo de tratamento privilegiado e sim, trata-se de não incidência na cooperativa e incidência no cooperado. Trata-se do redirecionamento da tributação incidente sobre as operações praticadas da pessoa jurídica (cooperativa) para a pessoa física ou jurídica do cooperado, uma vez que a fixação da riqueza se dá na pessoa do cooperado e que na pessoa da cooperativa há apenas os descontos dos custos. (...) O Sistema Cooperativo Nacional vêm trabalhando assiduamente em defesa desse adequado tratamento tributário nas mais diversas frentes de atuação e em prol de todos os ramos do cooperativismo, pois este é o momento de desmistificar conceitos equivocados desse tipo societário que é tão relevante para a economia nacional e para a sociedade.
É entendível que o que se busca não são privilégios, inclusive que poderia fragilizar o estado, assim como muitas empresas privadas têm pressionado o governo para abrir mão de parte da arrecadação. Não é isso, o que
se busca é parceria junto ao governo para se criar melhores condições de atuação e consecutivamente promover uma economia mais colaborativa e mais sustentável.
Ainda como políticas de incentivo e fortalecimento ao cooperativismo, houve uma ação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que é o “Programa Brasil Mais Cooperativo”, lançado em 4 de julho do ano de 2019. Foi assinada também a Portaria Nº 129 pela Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, Tereza Cristina Corrêa da Costa, com propostas de apoio ao cooperativismo rural em todo país. Verifica-se que o intuito é oferecer auxílio especializado, promover intercooperação e formação técnica, como também proporcionar qualificação de ações de gestão, produção e venda nos comércios institucionais e privados, isto é, aumentar o ingresso, por cooperativas, às negociações privadas, como os grupos de cooperação que congregam pequenos e médios supermercadistas com a finalidade de instituir diferencial competitivo para os componentes, defendendo o bem-estar e a liberdade das empresas integrantes, as chamadas redes supermercadistas, e dos comércios institucionais, como, por exemplo, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Para que essas ações aconteçam, é necessária a cooperação de trabalhos com entidades governamentais e representantes do cooperativismo. O exposto pode ser percebido na portaria, a qual estabelece a instrução de governo Brasil Mais Cooperativo, delibera suas orientações, instrumentos de execução, interesses de gestão, e oferece diversas providências. No seu Art. 1º:
Fica instituído o programa de governo Brasil Mais Cooperativo tendo por objetivo apoiar o cooperativismo e o associativismo rurais brasileiros, por meio da adoção, entre outras, das seguintes medidas destinadas às cooperativas, singulares ou centrais, e às associações de produtores rurais: I) promoção e fortalecimento da organização social; II) apoio à intercooperação; III) ações de formação e de assistência técnicas; IV) qualificação de processos de gestão; V) organização da produção; VI) fomento e ampliação da comercialização nos mercados privados e nas compras governamentais; e VII) acesso aos mercados nacional e internacional. (PORTARIA Nº 129, DE 4 DE JULHO DE 2019)
As orientações técnicas do programa Brasil Mais Cooperativo estão presentes no Art. 2º que estabelece:
I - a qualificação da gestão e da organização da produção das cooperativas e associações, preferencialmente as da agricultura familiar;
II - promoção de intercooperação, por meio da integração, formação de redes produtivas, beneficiadoras e de comercialização, ou ainda de intercâmbios de conhecimento e de experiências entre cooperativas e associações, considerando as realidades regionais;
III - a ampliação do acesso aos diversos mercados, privado e de compras governamentais, com prioridade às aquisições de alimentos da agricultura familiar em compras públicas;
IV - a implantação de ações e de projetos de educação, de formação e de capacitação em cooperativismo e associativismo rurais, voltados para os técnicos, dirigentes, associados e familiares dos associados; e
V - a promoção à internacionalização da produção de cooperativas, preferencialmente as da agricultura familiar.
(PORTARIA Nº 129, DE 4 DE JULHO DE 2019)
Sobre os objetos de implementação do programa Brasil Mais Cooperativo estão os de:
I - oferta de serviços de Assistência Técnica e Extensão Rural - Ater para gestão, produção, comercialização e organização social das cooperativas e associações;
II - ações e projetos de formação e capacitação técnica que atendam às necessidades das cooperativas e associações rurais, priorizando as da agricultura familiar;
III - celebração de termos de fomento, colaboração, acordos de cooperação, convênios, termos de execução descentralizados, entre outros instrumentos, realizados com entes governamentais, ou instituições privadas, voltados para o fortalecimento do cooperativismo e associativismo; e
IV - articulação de iniciativas de investimentos entre entes governamentais e representantes do cooperativismo para otimização dos recursos em prol do cooperativismo e associativismo rurais. (PORTARIA Nº 129, DE 4 DE JULHO DE 2019)
O programa Brasil Mais Cooperativo é coordenado pela Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativismo (SAF), através do Departamento de Cooperativismo e Acesso a Mercados (DECAM), ambos têm o intuito de deliberar as metas, os resultados e os indicadores a serem obtidos durante o período de um ano por este programa de governo. E é responsabilidade do SAF proporcionar a articulação das decisões e atuações as quais abrangem o apoio ao cooperativismo rural no âmbito do MAPA.
De acordo com a Portaria Nº 129, de 4 de julho de 2019, os custos para as atividades e projetos desenvolvidos por meio do Brasil Mais Cooperativo se fazem através de fundos orçamentários da União registrados todos os anos
nas estimativas do MAPA, dos órgãos e das entidades participantes do Programa, ressaltados os limites de movimentação, de comprometimento e de pagamento da programação orçamentária consignada.
Neste sentido, o programa de governo Brasil Mais Cooperativo pode potencializar as cooperativas, que são vistas como uma sociedade de importância para os diversos segmentos produtivos, inclusive para a agricultura familiar que é um dos principais núcleos de produção de alimentos no Brasil.
O cooperativismo é evidentemente muito importante para o Brasil, especialmente pela função e ações desenvolvidas, que inclusive podem ser representadas através dos principais índices obtidos, veja a seguir (fluxograma 5):