comunitários em detrimento dos fatores mais gerais que explicassem as estruturas das sociedades complexas.
O trabalho de Gioconda Mussolini combina o uso de conceitos provenientes da história, geografia, sociologia, psicologia e antropologia. Essa forma de pesquisa parece ter sido configurada desde sua formação na FFCL e ELSP, como observamos na análise dos programas que nos propomos nos capítulos anteriores.
No entanto, Ciacchi (2015) defende a ideia de que essa interação entre disciplinas foi construída ao longo da formação e atuação profissional dessa pesquisadora que teve como início o curso de aperfeiçoamento de professores no Instituto de Educação. O mesmo autor também acredita que essa experiência despertou o interesse de Gioconda Mussolini pela carreira no ensino superior.
O seu trabalho de pesquisadora ocorreu no período referentes ao inverno (junho, julho e agosto) quando existia uma fartura da tainha nessa região. A quantidade de peixes era tão imensa que se podia encontrar entre os pescadores tanto aqueles que faziam da pesca o seu principal meio de subsistência quanto outros que apareciam apenas nesse período. A esses, Gioconda Mussolini denominou como não pescadores.
De acordo com Mussolini (1980a), o ciclo de trabalho nos barcos correspondia à captura do peixe, ao transporte para Santos e à venda no mercado.
Depois disso, eram pagas as despesas, repartido o lucro, reparadas as avarias nas redes e nos barcos e preparada a embarcação com óleo e gelo para retornar ao mar em busca de mais peixes, no caso específico a sardinha. A autora ainda destacou a quantidade de potencial humano esse tipo de pescaria exigia: duas equipes, sendo uma no barco e outra na rede, seja na pequena pesca ou não de grande escala.
Neste último caso, não ocorria a partilha dos lucros e nem as despesas, pois as empresas pagavam ao pescador um ordenado fixo pelo dia trabalhado.
Referente ao trabalho na pesca, Gioconda Mussolini (1980b) demonstrou que a atividade pesqueira estava baseada num sistema de relações pessoais que interferia na compreensão da pesca enquanto atividade econômica. A participação da família e da vizinhança produzia para o pescador um conflito entre as demandas desses e o resultado da pesca como meramente comercial.
Outro aspecto característico da atividade pesqueira do pequeno pescador era a dificuldade que esse enfrentava para adquirir seus próprios instrumentos de pesca, o que o impedia de concorrer com os proprietários de barcos e empresas. Segundo Gioconda Mussolini (1980a), o pescador trabalhava com instrumentos rudimentares (muitas vezes produzidos por ele mesmo) que eram confeccionados no próprio lugar. Além disso, também enfrentava dificuldades para conservar o pescado e não possuía outros meios para a sua subsistência e a de seus familiares. Para garantir uma renda familiar, o pequeno pescador acabava desenvolvendo atividades agrícolas nas proximidades de sua casa. Essas dificuldades eram vivenciadas, de modo geral, por todos os pescadores.
Apesar de ser também realizada em barcos, a pesca da tainha ocorria de modo diferente do da sardinha. A diferença estava relacionada ao modo como se comportava cada espécie, do período e da frequência com que aparecia. Assim, Gioconda Mussolini realizou uma análise considerando três etapas no aparecimento
da tainha: seu início, seu clímax e seu declínio, que perfaziam um total de três meses.
Assim, quando já em fins de maio, uma ou outra tainha aparece e cai, incauta, na fisga do facheador, prenunciando a ‘estação’, fala-se em ‘tainha solta’; quando depois, nos meses de junho e julho, após o sopro dos esperados SW [ventos sudoeste], aparecerem em grandes magotes [cardumes], marchando às centenas para o norte, sempre próximas à costa, usa-se a expressão ‘peixe de corrida’, finalmente, em agosto, a tainha é ‘peixe de arribada’, porquanto, parando no ponto a que tenha chegado, não sobe mais, começando a voltar para o sul, ocasião em que seu número vai decrescendo consideravelmente, até se reduzir ao aparecimento esporádico de uma ou outra durante o ano (Mussolini, 1980a, pp.
264-265).
Em cada um dos períodos, Gioconda Mussolini analisou as alterações no modo como se realizava a atividade pesqueira. No início da estação, era comum os pescadores optarem por realizar a pesca à noite, ir muito longe, próximo ao continente para encontrar tainha, retornando para a ilha apenas pela manhã. Isso garantia a venda do peixe no início da temporada. Nesse período, os pescadores costumavam usar as redes de maior profundidade para cercar o peixe. Durante o dia, faziam com que a rede tocasse o fundo do mar para evitar que o peixe fugisse por baixo. No entanto, para pescar tainha o mais importante era o tamanho da malha. O peixe devia ficar preso pela cabeça. Para tanto, segundo Gioconda Mussolini, os pescadores usavam com maior frequência o tresmalho, uma antiga rede composta por três malhas que consistia:
[numa] parede frouxa de malha fina no centro e duas paredes de malhas largas (do tamanho da cabeça de uma tainha) de cada lado, ligadas a tralhas e cabos comuns. Desta forma, as três redes ficavam sobrepostas. Era uma “rede de espera” que, fundeada por meio de um chaço ou poita, era recolhida depois com os peixes que se emalhavam, quer viessem por um lado, quer por outro. Conhecida também por “orbitana” ou “rede de português”, também foi denominada “feiticeira” porque, segundo o pescador, “peixe que nela bater não escapa”. O peixe grande ficava retido na malha grande; o pequeno, mesmo atravessando a malha grande, ficava detido na malha do meio ou preso no saco formado pela superposição das duas redes (Mussolini, 1980a; 270).
No entanto, ainda segundo a autora, o tresmalho que os pescadores estavam usando não mais possuía as características de quando foi criado. Havia sofrido alterações. O novo tresmalho era uma rede com apenas um tipo de malha e com saquinhos de areia, no lugar dos chumbos, que foram retirados para não espantar os peixes. Além dessas alterações, também não possui cabos.
Gioconda Mussolini descreveu o cerco da tainha da seguinte forma:
saem duas canoas, cada uma delas com uma rede (as duas juntas constituem o “terno”
de tresmalhos) e três homens. À pequena distância seguem canoas que vão ‘aparar tainha’.
As canoas que transportam o tresmalho têm um mestre (popeiro), um chumbereiro e um proeiro. De início, todos remam. Quando se vai procurar mantas [cardumes] para cercar, o proeiro é que vai indicando a posição a ser seguida: ‘Para fora! Para o nosso lado! A baroste!’ Avistando o cardume, que de dia reconhecem por um ligeiro marulhar e opacidade em forma circular no centro do cardume e à noite, por um clarão típico a que na Ilha denominam de “incêndio de tainha”, localizam-no para começar a largar. A manta, quando em movimento, deve ser avistada a uma distância mínima de uns vinte metros, para que haja tempo suficiente para o cerco. Então, as duas canoas agem da seguinte forma:
aproximam-se e uma delas lança à outra a “ourela” da rede, terminada pelos dois cordéis (...); esta segunda canoa toma o final da rede da primeira e, transpassando-a na sua própria rede uma braça, amarra os dois cordéis. Lança, então, a “ourela” de sua rede à primeira canoa que faz o mesmo. As duas redes se encontram, agora, unidas. A isso chamam eles
‘perfiar’ as redes. Começa-se, então, o cerco: o proeiro vai dirigindo e remando; o chumbeiro, apenas lançando o chumbo e o mestre, “lança uma duchada de rede e dá uma remada”, isto é, lança a cortiça. Tudo isso é feito com o mínimo de barulho possível. Porém, quando o cardume se espanta por um barulho involuntariamente feito, esquece-se a precaução: tudo se precipita num turbilhão. Mestre e proeiro já não se encarregam de sua missão: a sua única preocupação é cercar o peixe enquanto é tempo. O chumbeiro vai lançando o chumbo; mas a cortiça é deixada, caindo a rede n’água aos montões e abrindo- se por si.
Descrevendo um círculo, as duas canoas se aproximam novamente e, passando uma pela outra, sempre lançando rede, fazem com que as duas partes do tresmalho novamente se justaponham. Está fechado o cerco. No interior dele as tainhas saltam desesperadamente. As outras canoas que foram ajudar a ‘aparar’, colocaram-se ao redor, a intervalos, tendo içadas as ‘entreparas’. Muitas vezes uma canoa penetra dentro do círculo, a fazer o barulho sobre os bordos com os remos, para ‘assustar’ o peixe. A vibração dos remos na canoa produz um barulho surdo, característico, que fica nos ouvidos da gente, mesmo depois que acaba a estação.
Ao cabo de algum tempo, começa-se a recolher. Cada uma das canoas que transportou o tresmalho vai agora pelo mesmo lugar por onde veio. E a rede, suspendida, se apresenta como um agulheiro de peixes. Os que não se emalharam ainda, saltam agora, mas vão bater de encontro às entreparas [redes] e se deposita no fundo da canoa de espera.
Chegando as duas canoas ao ponto de partida, desatam os cordéis, recolhem a rede e voltam à terra com o respectivo carregamento que vai se amontoar num lugar comum.
Quando se faz mais de um lance, vai-se deixando a partilha para o final. Quando na divisão sobram peixes, são eles vendidos no momento e o dinheiro repartido. Quando não há comprador, o peixe que sobra é cortado em postas e distribuído no quinhão.
Da partilha se encarregam os mestres; e a primeira porção que se tira é o “terço do tresmalho”.
Conforme observou, cada um dos componentes desse tipo de pesca possuía uma função a ser desempenhada. Essa apenas passa a ser secundária quando se tem o risco de perder o cardume ou parte dele, em consequência dos peixes se assustarem.
Dado o sucesso da pesca, depois de realizava a venda e a divisão dos gastos. A partilha do peixe ocorria da seguinte forma:
1) o proprietário do “terno” de tresmalhos e das duas canoas recebe 1/3 do total de peixe e mais um quinhão; 2) o proprietário de uma canoa e uma parte do tresmalho recebe 1/2 de 1/3; 3) o adulto que entra com serviço apenas ou a criança que trabalha como adulto recebem 1 quinhão; a criança, meio quinhão (Mussolini, 1980a; 272).
Ao final da temporada da tainha, as atividades de pesca se restringiam ao conserto de rede (arrastões de praia e de tresmalhos): substituição de partes danificadas, produção de redes novas e sua preparação para a pesca, (colocação em água de casca de aroeira, mangue ou cajueiro para se tornarem resistentes) e, finalmente, colocar para secar na praia.
Outro tipo de pesca descrita por Gioconda Mussolini foi a do cerco flutuante.
Esse tipo de pesca era realizada com a utilização de uma rede que foi descrita por Gioconda Mussolini a partir de características como suas divisões, espessura e tipo do fio, largura e profundidade, o funcionamento da rede enquanto engenho de capturar os peixes e no processo de despesca.
A pesquisadora se ateve a explicar como a despesca era realizada, visto que a captura não possuía, como na pesca da tainha, um empenho maior por parte dos tripulantes. Por não necessitar de um manejo na pesca em si, visto que a rede funcionava como uma armadilha deixada no mar e visitada a cada 4 ou 3 horas para fazer a retirada dos peixes, esse tipo de pescaria criou a possibilidade de colocação da rede próximo às residências dos pescadores. Quando uma ou outra se encontrava um pouco distante, os donos das redes costumavam contratar homens daquela localidade para fazer a despesca e as mulheres para fazer reparos nas redes.