Dos cinco textos selecionados para análise, observamos que todos consistem em relatos etnográficos nos quais Gioconda Mussolini buscou analisar os grupos de pescadores por meio da caracterização da atividade pesqueira e das relações estabelecidas entre os membros dos grupos que se configuravam em torno de sua identidade, construída a partir da pesca. Em dois dos textos foi possível observar uma discussão teórica e metodológica sobre as finalidades e as escolhas da pesquisadora na realização de sua pesquisa. Ambos foram publicados entre os anos de 1950 a 1960.
O artigo Aspectos da cultura e da vida social no litoral brasileiro foi publicado originalmente em 1953 na Revista de Antropologia. Esse ano, o mesmo em que esse periódico foi fundado, segundo Peixoto e Simões (2003), deu início a um período de definições disciplinares que se fizeram sentir nas publicações seguintes ao longo da década.
Tais definições foram fruto do desenvolvimento do campo da Sociologia e da Antropologia tanto na FFCL/USP quanto na ELSP. Ainda segundo os autores mencionados anteriormente, os artigos presentes na revista durante o período de 1953 a 1972 demonstram o interesse de sociólogos e antropólogos pelos estudos de comunidade, pesquisas sobre contato, assimilação e mudança cultural. Além desses
campos teóricos, a maioria dos autores brasileiros publicaram, nos primeiros 10 anos, artigos cujo interesse estava voltado para temas brasileiros como a sociedade rural tradicional, a imigração estrangeira.
Também dentro desse contexto podemos situar os demais trabalhos de Gioconda Mussolini aqui analisados que podem ser compreendidos a partir da seguinte definição:
A pesca representa, em geral, uma forma de organização de trabalho e produção que transcende os limites meramente familiares para se converter em atividade comunitária (...).
Mas é na pesca, ao redor da rede, que se estabelece toda uma série de interações entre os moradores de um bairro, unindo-os em cooperação, e fazendo com que constituam, realmente, um grupo local.
Todo o conservantismo da vida litorânea se tornou possível graças ou ao seu isolamento ou à pertetuação (sic) das primitivas condições na área em apreço. De fato, dada a trama de relações que se estabelece dentro de uma área – por menor que esta seja e por mais tênues que as relações nos pareçam -, um segmento qualquer, mesmo entregue a uma economia fechada, se entrosa num conjunto maior. Desta forma, não raro o equilíbrio da vida social e a cultura desses pequenos aglomerados se modificam por fatores que exercem sua ação à distância, atraindo para a órbita de influência dos centros de que se irradiam, os moradores das pequenas unidades marginais. Para isso, porém, é preciso que haja
‘motivos’ que levem a alterar-se a trama de relações estabelecida (...). Motivação suficiente para os moradores dos pequenos núcleos litorâneos se entregarem a uma mobilidade pronunciada, com a conseqüente quebra da organização dos grupos locais e a perda dos elementos de sua cultura de ‘folk’. (Mussolini, 1980d; 238-239).
A análise que Gioconda Mussolini fez da atividade pesqueira propõe que se considere os vários contextos em que ela pertence. A pesca aparece como uma questão socioeconômica em que está presente a relação entre trabalho, produção e economia familiar, que está envolvida pela lógica capitalista e de acumulação de capital; mas também se refere ao domínio das relações comunitárias em que vigoram sentimentos (vizinhança, pertencimento), cooperação. Relações essas que são configuradas a partir da circunscrição espacial, mas também em função da história daquele grupo.
Apesar de considerar o grupo de pescadores como fechado, Gioconda observa também que ele estabelece relações com todas as configurações antes apontadas, constituindo-se num todo capaz de alterar essas ligações. Para tanto, é necessário que existam motivos para a mudança. Essa, por sua vez, pode ser aceita ou rechaçada pelo grupo que, como consequência, podem abandonar aspectos de sua cultura.
Um segundo texto, Os Japoneses e a Pesca Comercial no Litoral Norte de São Paulo, publicado em 1963 na revista Museu Paulista, é iniciado com Gioconda
Mussolini fazendo considerações sobre dois tipos de análise - sincrônica e diacrônica –, suas potencialidades e limitações.
No que se refere à análise sincrônica da pesca comercial, poderia considerar como recorte a relação entre dois pontos: as comunidades pesqueiras - de onde partem os barcos - e o porto de Santos, lugar para onde os barcos se destinam.
Esses pontos também seriam locais de pesquisa.
Num extremo, estaríamos diante de portos, por exemplo (para nos circunscrever ao litoral paulista), no qual o nível organizatório de mercado capitalista é responsável não só pela existência de mecanismos complexos de crédito, como pela confluência dos maiores barcos e dos mais variados aparelhamentos de captura. No outro extremo, atingiríamos as pequenas comunidades, através de cujas estruturas as populações locais são postas na órbita daquele mercado por uma série também complexa de relações e ajustes, que muitas vezes começam por integrar grupos de vizinhança num nível mais nitidamente comunitário ou mesmo regional (Mussolini, 1980c; 243).
A pesquisadora mencionou que esta análise favorece a compreensão da dinamicidade existente entre esses pontos, bem como permite observar a ocorrência de alterações. É possível acompanhar grupos distantes que mantém a prática da pesca de modo tradicional, integrando apenas um elemento novo como o preço; ou um outro grupo capaz de “deslocar-se para o grande centro, definitivamente ou não, passando neste caso a oscilar (...) entre ele e a sua praia de origem, integrando a mão-de-obra (...) flutuante na pesca” (Mussolini, 1980c; 244).
Além dessas transformações, outra analisada foi a formação de uma unidade, provocada pelo caráter abrangente dos barcos na pesca comercial - ir a diferentes portos (partindo de cidades como Niterói, Rio de Janeiro ou Santos com destino à região sul ou norte do país). Nesse sentido, o conhecimento acerca do período de uma dada espécie ou a procedência não mais importaria, perdendo-se assim qualquer vinculação com o seu contexto local.
Do ponto de vista da análise diacrônica, tanto o aspecto local como o histórico estão contemplados. No entanto, corre-se o risco de outros aspectos, tais como a difusão e a expansão da pesca comercial, serem minimizados. Todavia, ao se recuar no tempo se observa:
o momento em que o número ainda limitado de barcos e a sua pequena potência davam aos diferentes segmentos litorâneos uma fisionomia própria, permitindo-lhes preservar, pelo isolamento, as suas características distintivas, resultantes da contribuição de diferentes etnias e da adaptação das soluções por elas trazidas, inclusive de áreas culturais diversas do país de origem, a condições específicas não só da nossa costa, como do estágio de
desenvolvimento tecnológico e econômico encontrado pelos imigrantes (Mussolini, 1980c;
245).
A preocupação de Gioconda Mussolini em estabelecer as vantagens e as limitações desses tipos de análise está associada a diversas críticas acerca dos estudos de comunidades e dos relacionados à aculturação. Para Peixoto e Simões (2003), Gioconda Mussolini parece combinar esses dois modelos de análise como uma terceira alternativa frente ao debate sobre os estudos de comunidade. Esse correspondia “à concentração em dados singulares, em detrimento de fatores gerais, aos problemas de representatividade na seleção das comunidades para estudo e às finalidades práticas das pesquisas” (Peixoto e Simões, 2003; 394).
Assim, ao considerar enquanto interesse de pesquisa o estado da Guanabara - formado pela cidade do Rio de Janeiro e anteriormente Distrito Federal – Gioconda Mussolini destacou a importância das contribuições portuguesas e espanholas na pesca nesta região, influência também vista no litoral paulista. A autora também explicitou a uniformidade da região, marcada por suas semelhanças naturais, de suas praias pequenas, com faixa de areia pequena, e seu relevo acidentado, bem como pela relação histórica, quando canoas iam até Parati para dali transportar aguardente para o porto de Santos.
As relações dentro desse trecho litorâneo se mantiveram constantes (...), de uns 35/40 anos a esta parte, passou a assumir caráter comercial e destaque crescente entre as outras subculturas regionais, e os barcos de pesca desbancaram as canoas de voga como elemento de transporte e comunicação. Pelas mesmas rotas, se bem que com ritmo diverso, continuaram a circular barcos, peixes, homens e inovações técnicas pesqueiras, muito embora, evidentemente, as configurações espaciais inter-regionais se alterassem em função do significado econômico que as unidades envolvidas adquiriram ou perderam e, em consequência, do papel positivo ou negativo que elas passaram a desempenhar na redistribuição das populações da área (Mussolini, 1980c; 247).
Diante de tal constatação, Gioconda Mussolini circunscreveu sua pesquisa.
Não tinha a pretensão de realizar um estudo de difusão de cultural, mas, sim, de considerar esse grupo no contexto de uma comunidade em mudança, no caso a da Ilha de São Sebastião (Mussolini, 1980c). Assim, pretendia entender a comunidade como lugar onde as alterações se manifestam e é uma fonte de informações que podem ser analisadas somente no contexto mais amplo de mudança social ou cultural.
Na análise que Gioconda Mussolini estabeleceu, três itens foram considerados, visto que correspondiam a facetas do mesmo período histórico, a
saber: 1) introdução, na Ilha de São Sebastião, de uma rede de pesca, o cerco flutuante, que a tradição local conservaria com o nome de ‘cerco de japonês’; 2) instalação, na área das salgas, de pequenas indústrias destinadas à produção de um elemento da dieta japonesa, o ‘iriko’ (peixe seco); 3) participação dos japoneses na pesca santista, na qualidade de armadores.
No primeiro item, a pesquisadora tinha como intenção compreender o desenvolvimento da pesca numa baía da Ilha de São Sebastião que ficava fora da rota dos barcos, mas estava voltada para o porto de Santos, portanto um local que atraia a frota pesqueira. A explicação oferecida foi a do sucesso da introdução do cerco flutuante (rede) e da grande produção de pescado ali iniciada em 1920. Esse acontecimento começou a atrair a atenção de outros municípios vizinhos e também a demandar o aumento no quantitativo de barcos a fim de possibilitar o escoamento da produção.
Para o segundo item de análise, Gioconda Mussolini estabeleceu também um recuo histórico que indicou a instalação das indústrias de salgas no início de 1930.
Com sua expansão, os japoneses passaram a utilizar a sardinha comprada dos barcos das empresas de pesca. A exploração desse peixe começou em 1910 por influência dos espanhóis que dominaram o mercado paulista por muito tempo. Isso possibilitou que as traineiras (rede de pesca) se estabelecessem nas proximidades das indústrias, ocasionando a utilização dessas como estação entre os mercados de pesca e as pequenas comunidades.
Por fim, o terceiro item correspondia à atuação do japonês como “armadores de pesca” (Gioconda Mussolini, 1980c). Esse tópico de análise pretendia abordar a perspectiva que esse imigrante tinha de pesca enquanto mercado de trabalho, bem como sobre a relação empregado – empregador. Gioconda Mussolini fez uso de aspectos psicossociais como atitudes, valores, motivação, vontade coletiva e sentimentos para analisar as alterações num determinado contexto cultural a partir das relações da comunidade. Esses aspectos eram abordados como manifestação da aceitação ou do rechaço das alterações produzidas na atividade pesqueira e, consequentemente na vida em comunidade.
Essa forma de análise empregada por Gioconda Mussolini não era consensual no debate sobre estudos de comunidades. Esses aspectos representavam um risco decorrente da exaltação de aspectos dos grupos
comunitários em detrimento dos fatores mais gerais que explicassem as estruturas das sociedades complexas.
O trabalho de Gioconda Mussolini combina o uso de conceitos provenientes da história, geografia, sociologia, psicologia e antropologia. Essa forma de pesquisa parece ter sido configurada desde sua formação na FFCL e ELSP, como observamos na análise dos programas que nos propomos nos capítulos anteriores.
No entanto, Ciacchi (2015) defende a ideia de que essa interação entre disciplinas foi construída ao longo da formação e atuação profissional dessa pesquisadora que teve como início o curso de aperfeiçoamento de professores no Instituto de Educação. O mesmo autor também acredita que essa experiência despertou o interesse de Gioconda Mussolini pela carreira no ensino superior.