educação e ao trabalho. Foram várias publicações acerca dos testes usados para estes dois setores da sociedade.
No entanto, se fizeram presentes outros temas que, em minoria, indicavam outros rumos de interesse da Psicologia, como as publicações de Aniela Ginsberg, Egon Schaden, Antonio Candido e de Gilda Mello e Souza. Corrobora essa afirmação o fato da Sociedade de Psicologia de São Paulo ter se constituído com a presença de atores de vários campos do saber, como já explicitado. Entretanto, o que antes parecia se configurar como uma psicologia plural, interdisciplinar, aos poucos foi se convertendo numa psicologia voltada para os temas que consagraram essa ciência entre os anos de 1910 e 1920, sobretudo no que se refere à atuação daqueles oriundos de várias áreas do conhecimento, que desenvolviam atividades na escola e no trabalho. Tal situação poderia estar relacionada com a comprovação da necessidade de uma formação específica e regulamentação profissional do psicólogo. Necessidade essa que foi sendo construída a partir da criação das sociedades e dos cursos de Psicologia.
Em meio a esse debate, a Congregação finalmente aprovou o projeto e instalou uma comissão para viabilizar a implementação do mesmo. Tal comissão era composta por: “Milton da Silva Rodrigues (Estatística), Rosina de Barros (Biologia), Annita Cabral, Egon Schaden (Antropologia), Paulo Sawaia (Biologia), João Cruz Costa (Filosofia) e Noemy Rudolfer (Psicologia educacional) ” (Ramozzi-Chiarottino, 2001, p. 21). Em 1957, o curso de Psicologia foi criado pela Lei nº 3.862, de 28 de maio, sancionada pelo Governador do Estado de São Paulo, com o seguinte currículo:
Quadro 7: Currículo Escolar do Curso de Psicologia (FFCL/USP), 1957
1º Ano 2º Ano 3º Ano
Biologia Sociologia Psicologia Experimental
Fisiologia Biologia Psicologia Diferencial
Estatística Fisiologia Psicologia da
Personalidade
Introdução à Filosofia Estatística Psicologia Patológica e do
Anormal
Psicologia Experimental Antropologia Psicologia Comparativa
Psicologia do Desenvolvimento Psicologia Social Psicologia da Aprendizagem Fonte: Lei nº 3.862, de 28 de maio de 1957.
De acordo com Bosi (1994), o Curso de Psicologia que começou a funcionar em 1958, na rua Maria Antônia, tinha Egon Schaden e Gioconda Mussolini como professores da cadeira de Antropologia. O primeiro fôra contratado como catedrático após a saída de Emilio Willems, enquanto Gioconda era a primeira assistente.
Gioconda Mussolini ministrou a disciplina de Introdução à Antropologia com Destaque dos Problemas de Personalidade e Cultura da cadeira de Antropologia, oferecida aos alunos do segundo ano do Curso de Psicologia. Essa disciplina era ministrada no primeiro e no segundo semestre, tinha duas aulas e um seminário por semana. Além dessa disciplina, a Cadeira de Antropologia possuía outras três disciplinas: Introdução à Antropologia, Aculturação dos Índios no Brasil, As Culturas Africanas e seu Papel na Formação do Brasil.
De acordo com Pereira (2013), com o falecimento do professor Plínio Ayrosa73, a cadeira de Etnografia e Línguas Indígenas do Brasil sob sua
73 Plínio Ayrosa (1895-1961), filólogo, professor titular da USP.
responsabilidade foi incorporada à Cadeira de Antropologia. Essa situação resultou na proposição de disciplinas como Etnografia do Brasil, ministrada em 1964.
Para a análise da participação de Gioconda Mussolini no Curso de Psicologia, foram considerados os programas da cadeira de Antropologia no período de 1959 a 1968. Não foi possível a localização dos programas referentes ao início do curso e o correspondente ao término das atividades de Gioconda Mussolini na USP.
Inicialmente, o programa de Introdução à Antropologia com destaque dos problemas de personalidade e cultura era constituído por quatro tópicos. Sua bibliografia era a mesma da disciplina de Introdução à Antropologia, bem como era acrescida de obras, indicadas em sala de aula, sobretudo no terceiro tópico relativo à relação entre cultura e personalidade.
O primeiro tópico correspondia à abordagem da relação raça e cultura.
Eram explorados os fatores da diferença racial, o isolamento de um determinado grupo e a preservação das diferenças raciais; aspectos, características e variabilidade da cultura; dimensão simbólica do humano, tipos de análise da cultura (histórica, estrutural).
O segundo tópico girava em torno da relação entre contatos raciais e culturais. Propunha-se a compreensão da situação de contato e a análise racial e cultural a partir de conceitos como miscigenação, preconceito racial, mudança cultural, aculturação, assimilação. Por fim, abordava-se a relação entre cultura e civilização.
No tópico referente à cultura e personalidade, explorava-se as determinantes socioculturais do comportamento humano, a estrutura social, inconsistências culturais e anomia, estudo tipológico da personalidade, a relação entre a estrutura social e a estrutura da personalidade, os níveis de integração da personalidade, conceito e fundamentos da personalidade básica, estrutura social e participação cultural, tipos de personalidade relacionadas ao preconceito, tensões grupais, conflitos raciais e culturais e o homem marginalizado.
Por fim, o último tópico estabelecia a correlações entre antropologia e as demais ciências, bem como abordava a antropologia aplicada.
Em 1964, houve alteração no nome da disciplina e seus conteúdos ficaram mais resumidos. Denominada Cultura e Personalidade, foi composta pelos seguintes tópicos: 1. Indivíduo, cultura e sociedade; 2. Características, aspectos e
variabilidade da cultura; 3. A integração da cultura: função e padrão; 4. Mudança cultural como evolução e como processo histórico; 5. Aculturação e assimilação; 6.
Determinantes socioculturais do comportamento humano; 7. Estrutura social e participação cultural; 8. Estrutura da personalidade; 9. Bases e funções do preconceito racial e de outras formas de etnocentrismo e; 10. Conflitos raciais e culturais e o problema da marginalização.
Em relação à primeira configuração do programa, deixou de existir a discussão sobre a relação da antropologia com as demais ciências humanas e a antropologia aplicada. Os demais tópicos do novo programa foram reformulações realizadas a partir do que existia anteriormente. Apenas o tópico “Indivíduo, cultura e sociedade” foi acrescido, conferindo ao programa uma melhor clareza sobre a relação entre esses três aspectos.
Em 1966, outra mudança no programa. A disciplina Cultura e personalidade passou a ser ministrada no primeiro ano do Curso de Psicologia, com duas aulas e um seminário por semana.
Os conteúdos estabelecidos foram os seguintes: I – Introdução; II – A cultura; III. A sociedade; IV – Mudança social e V – Cultura e personalidade. No primeiro tópico, a Antropologia era apresentada como a ciência que busca oferecer uma visão integrada do homem e também se fazia sua comparação com as demais ciências. Referente ao tópico da cultura, observou-se que se manteve a apresentação das características, aspectos e variabilidade da cultura e foi acrescida a discussão sobre o homem como animal que simboliza e a abordagem da cultura sobre a perspectiva funcionalista e configuracionista. O terceiro tópico, a sociedade, foi apresentado considerando os seus conceitos básicos (grupo, social, status, papel e pessoa), bem como a interpretação antropológica sobre a estrutura social.
Os conteúdos referentes aos tópicos quatro e cinco, respectivamente, Mudança cultural e Relação cultura e personalidade foram os mesmos apresentados em 1964. Mudança cultural foi apresentada como processo evolutivo e histórico, relacionada aos processos de assimilação e aculturação.
Em Cultura e personalidade, foram explorados os determinantes socioculturais do comportamento humano, estrutura social e participação cultural, estrutura da personalidade, bases e funções do etnocentrismo, conflitos raciais e culturais e o problema da marginalidade.
Uma última mudança se produziu no currículo no ano de 1968, quando a disciplina voltou a ser ministrada no segundo período, três vezes por semana e nos dois semestres. O programa foi dividido em duas partes. A primeira correspondia relacionava os aspectos relativos à cultura com os seguintes temas: bases protoculturais da adaptação humana, simbolização, funções gerais da cultura;
características, aspectos e variabilidade da cultura; padronização, relação indivíduo, sociedade e cultura; estrutura social e participação cultural; dinâmica cultural;
persistência e mudança; aculturação, assimilação e minorias.
Na segunda parte estavam presentes temas relacionados à personalidade.
Estrutura da personalidade básica, a relação dessa com a individualidade e a sociedade, conflitos raciais e culturais, problema da marginalidade, bases e funções do preconceito racial e etnocentrismo foram temas que se mantiveram nessa nova reformulação.
Foram acrescidos os seguintes temas: conceito de natureza humana, ritual, promoção de status, problemas psicológicos dos ritos de iniciação, doenças mentais entre primitivos, hostilidade, feitiçaria, tanatomania, aspectos sócio psíquicos da aculturação.
Nesse mesmo ano foi introduzida a disciplina de Antropologia cultural para estudantes de outros cursos que não o de Ciências Sociais, com três horas semanais em dois semestres, também composto de duas partes. A primeira denominada de introdução diz respeito ao campo da antropologia e sua integração, conceito antropológico de cultura, relação entre simbolização e criação da cultura, natureza e dinâmica da cultura e a relação entre cultura e civilização.
Na segunda parte o programa de Antropologia cultural apresentava o estudo antropológico dos problemas brasileiros, contato entre índios e brancos, integração do negro na sociedade, integração de imigrantes estrangeiros, persistência e transformação de comunidades rurais isoladas.
A análise da bibliografia foi realizada a partir do programa da disciplina Introdução à Antropologia referente aos anos 1959 e 1962. Isso porque a lista de referências dessa disciplina era compartilhada com a de Personalidade e Cultura.
Com relação aos anos utilizados, a escolha ocorreu pela falta de publicação das listas de referências nos anos posteriores nos Programas Aprovados pela Congregação da FFCL/USP.
O programa de Antropologia possui referências que podem ser classificadas de acordo com seus títulos. Assim, foi possível encontrar obras que abordam os princípios da Antropologia, campos de estudos e pesquisas, sua metodologia, a intersecção com outras áreas do conhecimento (Ernesto Frizzi, John Gillin, J. K.
Penniman, Robert H. Lowie, Wilhelm Schmidt, Fritz Graebner, ClydeKlukhohn, George Montandon, S. F. Nadel, A. R. Radcliffe-Brown, Florestan Fernandes, Arthur Ramos, Abram Kardiner, E. E. Evans Pritchard, Felix M. Keesing, James J. Roney Jr., H. G. Barnett).
Um grupo de autores foi mencionado nas referências por seus trabalhos vinculados à área da Biologia e à Paleontologia humana, que indicam o uso desse conhecimento na configuração do trabalho do antropólogo. Os temas recorrentes foram: genética, teoria da evolução, seleção natural, evolução humana. Os autores foram os seguintes: E. Sinnot e L. C. Dunn, Edward Colin, Th. Dobzhansky, William C. Boyd, G. S. Carter, G. G. Simpson, J. Huxley, P. Amos Moody, M. Boulee, H.
Vallois, R. Ruggles Gates, W. E. Le Gros Clarck. A esses temas também foi associada a questão da raça (L. C. Dunn, Th. Dobzhansky, A. C. Haddon, K. Birket- SmithW. C. Boyd, E. W. Count, H. Vallois. H. L. Shapiro, Philip Wittenberg, E. R.
Reuter, Franz Boas).
Outro grupo de textos abordava a questão da cultura, sua definição, seus conceitos fundamentais e sua relação com o desenvolvimento da personalidade (A.
L. Kroeber, Edward Tylor, Robert Redfield, Ruth Benedict, G. Bateson, Douglas Haring, Ralph Linton, Margaret Mead, A. I. Hallowell, C. Kluckhohn, H. Murray, John J. Hogniman, Robert Park).
Foram também abordados temas relacionados a estudos indígenas (Charles Wagley, Eduardo Galvão, Egon Schaden, Fernando Altenfelder Silva), com imigrantes estrangeiros, afro-brasileiros (Arthur Ramos, Roger Bastide, Florestan Fernandes, Costa Pinto, Donald Pierson, Tullio Sepilli).
Outros textos de brasileiros também faziam parte da lista de referências, sobretudo os que abordam a história da formação da sociedade e da cultura brasileira como Caio Prado Júnior, Pedro Calmon, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Oliveira Vianna e Fernando de Azevedo. A história não apenas fez parte das aulas de Gioconda, como também esteve presente em seus trabalhos com pescadores, como será tratado no capítulo seguinte.
No que se refere às aulas de Gioconda Mussolini, todos os três ex- estudantes de Psicologia daquela época que entrevistamos, concordaram que eram muito animadas, consistentes. Comentaram que, de algum modo, foram influenciados por Gioconda Mussolini, sobretudo, com a aproximação com a Antropologia.
Uma de suas ex-alunas, Ana Almeida (2014), explicou que as aulas de Gioconda Mussolini eram apenas discussão de conteúdo, sobretudo relacionado à cultura, não existindo a apresentação de relatos de pesquisas realizados por ela ou por seus colegas antropólogos. A ênfase recaía sobre os conceitos teóricos que caracterizavam a área da Antropologia como um todo, física e cultural. A primeira aparece representada pela bibliografia referente aos conteúdos da biologia genética e da teoria da seleção natural de Darwin, como trataram os autores Julian Huxley, George Gaylord Simpson, G. S. Carter, Paul Amos Moody, Th. Dobzhansky.
Por sua vez, a Antropologia Cultural contou com uma lista de referências que incluía os estudos de Ralph Linton, Ruth Benedict, Robert Park, C. Kluckhohn, também contemplados nas disciplinas ministradas por Donald Pierson e Herbert Baldus na ELSP. Além desses também podem ser citados Arthur Ramos com o tema referente ao negro no Brasil e os textos de Caio Prado Júnior, Gilberto Freyre sobre a história da sociedade brasileira.
As pesquisas referentes aos estudos com indígenas, imigrantes e afro- brasileiros podem ter sido abordadas, como podemos observar nas referências bibliográficas do programa de Introdução à Antropologia, mas apenas como exemplo de algum conceito ministrado. Na disciplina de Antropologia Cultural esses estudos estavam contemplados na segunda parte denominada de estudo antropológico dos problemas brasileiros.
Com relação às pesquisas que Gioconda Mussolini desenvolvia, nenhum de seus ex-alunos soube dizer sobre as atividades que realizava fora da sala de aula.
Inclusive sobre sua relação com a Sociedade de Psicologia de São Paulo que foi forjada no contexto uspiano. Duas de suas ex-alunas, Ana Almeida e Mary Jane Spink, mencionaram que também nada sabiam de outros professores, ambas sentiam que o sistema de cátedras não proporcionava uma circulação das informações sobre as pesquisas que os professores realizavam. Essa explicação também foi corroborada por Arrigo Angelini (2014), catedrático de Psicologia Educacional, ao ser perguntado sobre as atividades de Gioconda Mussolini.
Respondeu que não saberia dizer sobre nenhuma das cátedras, incluso a de Psicologia Social regida por Annita Cabral.
As mesmas interlocutoras mencionadas anteriormente acreditam que tal fragmentação podia ser referente ao período que classificaram como ‘confuso’. Isso porque ambas entraram no Curso de Psicologia em 1964, ano do golpe militar.
Segundo Mary Jane Spink (2013), para além desse cenário político, havia um outro movimento dentro do próprio curso, que era de disputa, definição curricular, se a Psicologia seria uma Ciência Biológica ou Humana. A interlocutora mencionou que isso ocorreu quando “fecha Brasília e volta o pessoal de Brasília, a Carolina Bori e vários outros”. O fechamento de Brasília refere-se à invasão e à ocupação policial do campus da Universidade de Brasília em 1965, tendo como uma das consequências a demissão ou o pedido de demissão de quase 200 professores.
Ainda na fala dessa interlocutora sobre essa disputa, o behaviorismo foi a corrente que apareceu como sendo a modernidade. Era o que havia de mais avançado. Representava a possibilidade da Psicologia ser ciência. Essa perspectiva teórica foi introduzida no curso de Psicologia da USP em 1961 com a visita do professor Fred Keller (1899-1996) que foi responsável pela instalação do primeiro laboratório de Condicionamento Operante nas dependências do Edifício de Fisiologia, na Cidade Universitária. Carolina Bori foi sua principal aluna. Quando foi transferida para a UnB, convidou-o para trabalhar lá.
Essa disputa teve seu desfecho em 1968 com a renúncia de Annita Cabral à cátedra de Psicologia. Para Ramozzi-Chiarottino (2001), Annita Cabral viu-se obrigada a renunciar, uma vez que não mais contava com o apoio de seus alunos e de seus assistentes, “a maioria deles, deslumbrada com as ideias de Keller sobre Condicionamento Operante, considera-a ‘ultrapassada’” (p. 92). Esse desfecho para a disputa resultou, de acordo com Mary Jane Spink (2013), no fortalecimento da psicologia experimental no Curso de Psicologia da USP.
Além dessa motivação, segundo depoimento de Walter Cunha (2014), a saída de Annita Cabral da cátedra tinha um outro cenário para além do Curso de Psicologia, que estaria no contexto da própria FFCL, ou melhor, às oposições que Annita Cabral enfrentou na criação do curso.
D. Annita que, por causa das inúmeras tarefas administrativas que teve por conta da criação do Curso de Psicologia, e por não ter defendido tese de Livre Docência para passar a catedrática efetiva, foi objeto de um movimento estudantil em 1968 que questionava sua
atuação, tanto docente quanto administrativa, esta por seu despotismo, e visava sua descontratação. D. Annita acabou sendo despojada de qualquer poder (como ela disse,
"catapultada" pelos próprios desenvolvimentos do ensino da psicologia que ela pôs em marcha). Como seu Assistente, sou testemunha (e as atas da Congregação da FFCLUSP atestam para quem quiser ver) da grande oposição despeitada que sua iniciativa de criar o curso provocou na época, inclusive com a exigência de que se submetesse a um concurso de livre docência que seria chefiado por quem mais se lhe opunha [Noemy Rudolfer] - que, segundo D. Annita, "queria colher sua cabeça numa bandeja" (Cunha, 2014).
Essa citação de Walter Cunha traz aqui um outro elemento que aproxima Annita Cabral e Gioconda Mussolini: o fato de não ser catedrática e de não possuir titulação para pleitear a cátedra foi, sem dúvida, entrave na carreira de ambas.
No caso de Annita Cabral, que era doutora, lhe faltava a livre-docência;
Gioconda Mussolini não concluiu sua tese que, de acordo com Ciacchi (2015) possuía mais de 500 páginas.
A respeito dessas dificuldades vivenciadas por ambas, Gilda de Mello e Souza, em depoimento, mencionou que:
O machismo dos primeiros tempos da FF era notório. Propunham-se condições desiguais para homens e mulheres. Estas precisavam ser muito melhores e trabalhar como loucas para garantir seu lugar e ainda assim dava-se na maioria das vezes, preferência aos homens. Mesmo no grupo de Clima havia uma disceriminação (sic) sexual – era uma discriminação mais sofisticada, através de tarefas diferenciadas ou do tipo de piada feita.
Isso teve uma influência muito inibidora e desestruturadora (sic) entre as mulheres das primeiras turmas. A Gioconda Mussolini, que nunca conseguiu suportar a hostilidade latente, vivia insegura e dividida – não conseguiu redigir em vida a sua tese. Annita Cabral, que era uma estrela, não conseguiu se realizar. As alunas medianas eram inteiramente desconsideradas e as estrelas, combatidas e acabavam exercendo permanentemente um processo de auto-censura. Nos grupos mais esclarecidos as discriminações se estabeleciam através das brincadeiras ou na verificação de que determinados temas podiam contaminar socialmente a mulher – já os homens podiam estudar o que bem lhes parecesse (Souza, s/d).
Percebemos, então, que diferentemente de Aniela Ginsberg, que se tornou doutora e docente da PUC de São Paulo, Gioconda Mussolini parece não ter conseguido se realizar profissionalmente, considerando que não alcançou o topo da carreira universitária da época, que obteria com o título de doutora.
No caso de Aniela Ginsberg, a própria configuração da PUC era diferente.
Esta universidade surgiu a partir da junção da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Sedes Sapientiae (Sedes) com a Faculdade de São Bento, que já tinha Aniela como docente desde 1950. Aniela, nessa instituição, foi responsável pela organização e direção do centro de orientação psicológica, chefe da clínica psicológica, realizando atividades que eram de interesse para a época, como o
ensino de Técnicas de Exames Psicológicos, Psicodiagnóstico de Rorschach. Claro que teve méritos ao desenvolver pesquisas voltadas para temas interculturais. Não precisou propor uma formação ou temas de pesquisa e métodos num ambiente que, nos casos de Annita Cabral e Gioconda Mussolini, era hostil.
Um conflito que gerou entrave na titulação de doutora de Gioconda foi seu posicionamento contrário aos teóricos de sua época, sobretudo ao de seu orientador e chefe da cadeira de Antropologia. Este, certamente, pelos embates teóricos e metodológicos, não a apoiava.
Annita Cabral possuía doutorado, mas não tinha o título de livre docente.
Existia uma disputa teórica entre o Gestaltismo (Annita Cabral) e neobehaviorismo e, paralelamente, havia um movimento de destituição da cátedra.
Tanto Gioconda quanto Annita foram mulheres que, em nível institucional, tinham pouco apoio nos seus próprios espaços de trabalho. Mais do que pioneiras, foram desbravadoras. Desbravadoras porque inicialmente e, durante o tempo que estiveram na Faculdade de Filosofia, foram hostilizadas e desacreditadas de seu potencial enquanto produtoras de conhecimento, restringidas na pesquisa de determinados temas pelo simples fato de serem mulheres.
4 ENTRE ANTROPOLOGIA, SOCIOLOGIA E PSICOLOGIA
As produções intelectuais de Gioconda Mussolini, apresentadas no Curriculum Vitae, são datadas da década de 1940 a 1960 e são as seguintes:
• Alterações da estrutura demográfica-profissional de São Paulo – da Capital e do Interior – num período de catorze anos (1930 [sic]/1934), de 1943;
• Urbanização e desenvolvimento industrial no Estado de São Paulo (1944);
• Notas sobre os conceitos de moléstia, cura e morte entre os índios Vapidiana (1944);
• O cerco da tainha na Ilha de São Sebastião (1945);
• Os meios de defesa contra a moléstia e a morte em duas tribos brasileiras:
Kaingáng de Duque de Caxias e Bororó Oriental (1946);
• Festa de Folia e Festa de Devoção (1946);
• O cerco flutuante: uma rede de pesca japonesa que teve a Ilha de São Sebastião como centro de difusão no Brasil (1946);
• Os pasquins do litoral norte do Estado de São Paulo e suas peculiaridades na Ilha de São Sebastião (1950);
• Povos e trajes da América Latina (1951);
• Búzios Island: A caiçara commuity in Southern Brasil (1952);
• Aspectos da cultura e da vida social no litoral brasileiro (1953);
• Persistência e mudança em sociedades de Folk no Brasil (1955);
• Os japoneses e a pesca comercial no litoral – norte de São Paulo (1963);
• Evolução, Raça e Cultura (1969).
Além dessas, Gioconda Mussolini realizou diversas resenhas de autores, verbetes sobre sociólogos brasileiros para um dicionário alemão, traduções de livros e a tese de doutorado inacabada.
Sendo o objetivo deste capítulo compreender o pensamento de Gioconda Mussolini e identificar as relações entre Antropologia e Psicologia foram consideradas para análise apenas as produções em que Gioconda Mussolini foi a única autora, bem como aquelas publicadas em meio acadêmico e que foram mais significativas em termos de quantidade – as produções sobre pesca. Nesse sentido,