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A Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras – USP

No documento A TRAJETÓRIA DE GIOCONDA MUSSOLINI: (páginas 36-43)

França, Alemanha e, num segundo momento, em Portugal. Inicialmente foram contratados 13 professores, entre esses, os franceses Pierre Deffontaines18 (Geografia), Etienne Borne19 (Filosofia), Emile Coornaert20 (História da Civilização) e Paul Arbousse-Bastide21 (Sociologia). No ano seguinte foram contratados, em caráter de substituição aos três primeiros, Pierre Monbeig22, Jean Maugué23 e Fernand Braudel24 para as respectivas cadeiras. Além desses, também foi contratado mais um professor para a cadeira de Sociologia, o francês Claude Lévi- Strauss25. Esse movimento também foi observado em outras instituições, como a Escola Livre de Sociologia e Política.

Nesse sentido, Candido (1996b) apontou que a Sociologia e a Antropologia no país contaram com a influência de dois grupos de pesquisadores estrangeiros – os franceses na FFCL e os americanos na ELSP, apesar dessa instituição também ter recebido europeus. A respeito disso, segundo Ciacchi (2007), Gioconda Mussolini parece ter seguido os passos de seus professores franceses. De acordo com Candido (1996a), esta era a tendência do grupo do qual fazia parte na Faculdade. Caracterizava-se pela pesquisa empírica, para o “contato direto com a realidade” (p.125). A composição desse grupo parecia ser daqueles que iniciaram seus estudos nos primeiros anos de funcionamento da FFCL como alunos e por lá continuaram como professores auxiliares, assistentes e catedráticos. Tal tendência e grupo podem ser observados a partir da pesquisa realizada por Antonio Candido26

18 Pierre Deffontaines (1894-1978) foi um geógrafo francês que inaugurou a cátedra de Geografia da USP na década de 1930.

19 Etienne Borne (1907-1993) foi um dos fundadores do departamento de Filosofia da USP.

20 Émile Coornaert (1886-1990) foi historiador e jornalista.

21 Paul Arbousse-Bastide (1899-1985) foi sociólogo e um dos fundadores da Faculdade de Filosofia da USP. Lecionou Sociologia e Política nesta Universidade.

22 Pierre Monbeig (1908-1987), geógrafo francês, foi professor na USP entre 1935 e 1936.

23 Jean Maugué (1904- 1990), foi um filósofo e professor francês, chefe da cadeira de Psicologia do curso de Filosofia da FFCL da Universidade de São Paulo entre 1935 e 1944.

24 Fernand Braudel (1902-1985) foi historiador francês, representante da Escola dos Annales.

25Claude Lévi-Strauss (1908-2009) foi antropólogo estruturalista e etnólogo. Foi professor de Sociologia na USP nos anos iniciais de sua fundação.

26 Antonio Candido (1918 - ) foi sociólogo brasileiro e crítico literário.

que resultou no artigo Opinião e classes sociais em Tietê (1947). Sobre essa pesquisa, o autor esclarece que:

Foi baseado no meu primeiro trabalho de campo. O professor Roger Bastide estava interessado em folclore africano. Em 1943 ele organizou uma excursão a Tietê, onde um professor negro de música da escola normal, chamado Afonso Dias, promoveu um batuque.

Fomos o professor Roger Bastide, as assistentes dele, Lavínia Costa Vilela, Gilda, minha mulher, e Gioconda Mussolini, eu, assistente da outra cadeira, e alguns alunos (...). Percebi que a realização do batuque foi um choque na cidade, suscitando certa reação moralista, sobretudo por parte da igreja. Então, disse ao professor Bastide: ‘Professor, não é bom eu ficar aqui para estudar a repercussão disso na cidade?’ Ele disse: ‘Boa ideia’. Eles voltaram no dia seguinte e eu fiquei lá uma semana fazendo entrevistas e anotando observações (...) (Candido, 1996b, p. 240).

Posteriormente, o entrevistador pergunta se, nesse artigo, os métodos da pesquisa foram definidos ao longo da investigação, recebendo a confirmação de Antonio Candido.

Era 35 o número de alunosmatriculados na subseção de Ciências Sociais e Políticas da FFCL no ano de 1935, ano esse em que Gioconda Mussolini entrou como aluna na instituição. Além dela, eram também alunos: Mario Wagner Vieira da Cunha27, Lavínia Costa Villela28 e Lucila Hermann29.

De acordo com Leite (1994),

Nas primeiras décadas, a Faculdade de Filosofia foi dominada pela Ciência Positiva a serviço do Estado. Mais tarde, a profissionalização e o ensino secundário dominaram as aspirações de alunos e professores. Durante décadas, pairou sobre a instituição a necessidade de conjugação de ensino e pesquisa. A importância dada ao objeto e ao método de cada ciência era estabelecido pelos seus limites. Agora, começa a confluir para a necessidade e para os problemas da interdisciplinaridade, tanto nas Ciências Humanas quanto nas Exatas e Biológicas. (Leite, 1994, p. 168)

Ainda segundo a mesma autora, a nova faculdade – seu pensamento e ações – enfrentou a oposição das escolas já existentes, como Medicina, Politécnica e Direito. “Ao dogmatismo opunham à liberdade de criação, julgamento e crítica estimulando o conhecimento baseado em critérios científicos, no aprofundamento das especializações” (p. 170). Além dessa oposição das escolas tradicionais, a

27 Mario Wagner Vieira da Cunha (1912-2003), bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, Licenciado em Filosofia e Ciências Sociais, Professor-adjunto da FFCL da Universidade de São Paulo.

28 Lavinia Costa Vilela (?) foi primeira assistente de Sociologia na FFCL.

29 Lucila Hermann (1902-1955), Mestre em Ciências pela ELSP em 1946.

nova faculdade também enfrentou dificuldades financeiras. Apresentava-se como uma fonte de despesas e por isto sofreu com a ameaça de corte por parte do governo.

De um lado, os professores estrangeiros se desdobrando através de conferências livres, programas de cursos e de pesquisa para aperfeiçoamento nos níveis educacional, profissional e intelectual dos alunos efetivos e ouvintes das primeiras turmas. De outro, o coro dos professores nacionais preteridos, os conservadores das escolas profissionais e o governo estadual ameançado [sic] continuamente a vida da jovem escola, pelo corte de verbas (Leite, 1994, p. 171).

Durante o período de 1940 a 1950, já se percebia “novas atitudes de trabalho intelectual, de rigor e espírito crítico” (Leite, 1994, p. 172) no contexto da faculdade. A autora acrescenta ainda que a politização foi acentuada com o fim da Segunda Guerra Mundial e do Estado Novo, voltando-se mais, nesse sentido, à formação do professor. Para Limongi (1995), a recém-criada Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras e o Instituto de Educação tinham um papel importante na resolução do problema da formação do professor secundário.

Até o decreto que criou a Universidade, incorporando no seu systema a Faculdade de Philosophia, Scienciase Lettras, de São Paulo, que é a primeira iniciativa desse gênero, no Brasil, o professor do ensino secundário, em todas as escolas desse grau, no paiz, não recebia, nem tinha onde receber nenhuma preparação especial, para o exercicio do magisterio (...). E’ na Faculdade de Philosophia, Sciencias e Lettras que o candidato ao magisterio de qualquer disciplina ou grupo de disciplinas afins, em escolas secundarias, irá apprender ‘o que ensinar’, para apprender ‘como ensinar’, no Instituto de Educação (USP,1936, p. 16).

Para Limongi (1995), esse objetivo atribuído à Faculdade de Filosofia teve repercussão na composição de sua clientela. Se a princípio não houve muitos interessados e inscritos nos cursos oferecidos, depois da campanha junto aos professores normalistas que estavam inscritos nos cursos de aperfeiçoamento e de especialização, as inscrições foram reabertas e a faculdade contou com um expressivo número de normalistas em seus quadros.

Além delas, a clientela da FFCL era composta por pessoas oriundas da elite paulistana que ingressaram por vestibular ou eram dispensados mediante diploma ou matrícula noutro curso de nível superior. Após seis meses essa clientela mudou, observou-se uma evasão de alunos, sobretudo daqueles que foram dispensados mediante apresentação de diplomas ou matrícula em curso de nível superior. No ano seguinte, também se observou pouca procura pelos cursos da FFCL, a universidade

buscou solucionar o problema. Conseguiu que o governo do Estado implantasse o comissionamento de professores primários, garantindo dispensa de suas atividades com a manutenção de seus vencimentos salariais.

Entretanto, parece que tal concessão não ocorria de imediato para todos.

Em entrevista, publicada por Pinheiro Filho e Miceli (2008), Mário Wagner Cunha contou sobre a existência de dois grupos entre os que frequentavam a FFCL: os que não possuíam nenhum vínculo trabalhista e apenas estudavam e, aqueles que possuíam vários empregos para poder se manter. Pouco tempo depois, ele começou a fazer parte do primeiro grupo, pois passou a ser professor comissionado. O mesmo parece ter ocorrido com Gioconda Mussolini. Ela obteve dois tipos de comissionamento. Um por motivo de estudos no Instituto de Educação (1933-1934) e na FFCL (1933-1937) e, outro para desenvolver atividades docentes nesta instituição (1938-1949).

Além do trabalho como professora normalista e do curso em Ciências Sociais e Políticas, Gioconda Mussolini, no mesmo ano que ingressou nesse curso, também exerceu a função de pesquisadora social no Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, na Seção de Documentação Histórica e Social. Nessa instituição permaneceu até 1936. Esse departamento teve como diretor Mário de Andrade30, de 1935 até 1938, quando foi exonerado do cargo.

Entre os anos de 1934 a 1939, Gioconda participou como pesquisadora em algumas investigações, como a O padrão de vida dos operários de São Paulo, realizada por Horace Davis31 na ELSP, bem como O Padrão de vida dos lixeiros de São Paulo e Assistência filantrópica na cidade de São Paulo, realizados por Samuel Lowrie32 e Bruno Rudolfer33.

30 Mario de Andrade (1893-1945) foi um romancista paulistano, um dos expoentes do Movimento Modernista no Brasil. Contribuiu na implantação do Departamento de Cultura na década de 1930.

Além disso, foi um dos signatários do Manifesto da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo da ELSP.

31 Horace Davis (?) era norte-americano, um dos precursores da Sociologia Aplicada no Brasil. Foi responsável pela disciplina de Economia Social da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

32 Samuel Lowrie (?), norte-americano, também contribuiu na introdução da Sociologia Aplicada no Brasil. Foi professor de Sociologia da Fundação da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e técnico em pesquisas sociais da Divisão de Documentação Histórica e Social do Departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de São Paulo.

33 Bruno Rudolfer (?), foi estatístico e integrou na ELSP o quadro da Subdivisão de Documentação Social e Estatísticas Municipais do Departamento de Cultura.

De acordo com Raffaini (2001), as pesquisas sociais correspondiam ao estudo da realidade da cidade no que se referia ao modo como a população vivia, seja em termos de ocupação profissional ou de lazer. Eram realizadas seguindo os critérios científicos da época e tinham como metodologia o diagnóstico dos problemas da cidade para posterior elaboração de soluções no que se refere a reorganizar a vida urbana.

Tal proposta, segundo Oliveira (2005), apresentava-se como uma tentativa do governo paulista de recuperar a sua hegemonia por meio da cultura, bem como constituiu-se no meio pelo qual os intelectuais brasileiros começaram a desenvolver uma consciência sobre o seu papel no “processo de construção e condução da nacionalidade”. Nesse sentido, a autora ressaltou o papel da cultura como “elemento de transformação da realidade brasileira, bem como de cidadania” (Oliveira, 2005; p.

12).

No ano que saiu do Departamento de Cultura, Gioconda Mussolini conseguiu a remoção para um grupo escolar na Capital, onde permaneceu no cargo até 1938, quando passou a ser professora comissionada – a princípio como membro do Centro de Pesquisas e Documentação Social e depois como Auxiliar de Ensino da Cadeira de Sociologia I da FFCL (Mussolini, 1965). Nesse momento, Gioconda Mussolini possuía o título de Bacharel em Ciência Sociais e Política e o de Licenciada por ter realizado o Curso de Didática, também na FFCL, que lhe permitiu atuar como professora no ensino superior. Em entrevista, Arrigo Angelini (2012) contou que a situação de professor comissionado era concedida a partir de solicitação direta do professor catedrático ao governo do Estado. O possível professor comissionado era escolhido dentre os alunos que se destacavam na referida disciplina.

O Centro de Pesquisas e Documentação Social foi criado em 1939, após uma conferência de Annita Cabral intitulada O Ensino da Sociologia na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Tal conferência fez parte do movimento em defesa da Faculdade, que corria o risco de ser fechada pelo governo. Realizou-se então uma série de depoimentos. Após a conferência, esses professores tiveram autorização do governo de São Paulo para instituir na FFCL um centro de pesquisas que teve Lucila Hermann como diretora entre os anos de 1939 a 1940.

Nesse mesmo ano, Annita Cabral foi convidada para ser 1ª assistente das duas cadeiras de Sociologia da FFCL, ministradas respectivamente por Paul

Arbousse Bastide e Roger Bastide (Ramozzi-Chiarottino, 2001). Gioconda Mussolini, por sua vez, recolheu questionários para o estudo Transmissão de profissões de pais e filhos. Um dos temas de interesse dos pesquisadores era a questão da mobilidade profissional. Tal escolha foi devido ao questionamento da afirmação de que o operário brasileiro é essencialmente móvel e de que isso seria danoso para a economia e o futuro industrial de São Paulo. A partir dessa preocupação, Gioconda Mussolini, juntamente com Lucila Hermann, Nair Ortiz, Cecilia Castro Paiva e Rita de Freitas, escreveu o artigo: Alterações da estrutura demográfica-profissional de São Paulo – da Capital e do Interior – num período de catorze anos (1930 (sic) /1934), que foi publicado na Revista do Arquivo Municipal em 1943.

Gioconda permaneceu como professora comissionada junto à Cadeira de Sociologia I até 1944, quando passou à Cadeira de Antropologia até 1949, de modo interino, na condição de 2º Assistente. Posteriormente, foi contratada como Auxiliar de Ensino dessa última Cadeira no período de 1949 a 1951. Ao fim desse período, foi nomeada 1º Assistente da Cadeira de Antropologia em caráter de substituição.

Como parte do corpo docente da FFCL, realizou a pesquisa Estereótipos raciais e nacionais, a princípio em colaboração com Lavínia Costa Vilela no Setor de Opinião Pública dos Fundos Universitários de Pesquisa e, posteriormente, com alunos do Curso de Ciências Sociais da FFCL em 1949. Gioconda Mussolini colaborou no inquérito de opinião pública sobre a guerra realizado em 1944, além de participar como pesquisadora da investigação realizada por Emilio Willems intitulada Cunha: Tradição e transição em uma cultura rural do Brasil em 1945 e da investigação A sociologia do café, juntamente com Florestan Fernandes34, Antônio Candido e Egon Schaden35.

Foi também, no período de 1946 a 1952, professora de Estudos Sociais na Escola Técnica de Comércio Alvares Penteado e de Sociologia na Escola de Enfermagem da USP.

34 Florestan Fernandes (1920-1995) foi sociólogo e deputado federal. Iniciou seus estudos na Sociologia e na Antropologia nos anos de 1941 na USP. Em 1945, assumiu como professor assistente a cadeira de Sociologia da USP, ministrada por Roger Bastide. Nos anos de 1980, filiou- se ao Partido dos Trabalhadores – PT. Como deputado por esse partido, ajudou a elaborar a Constituição de 1988.

35 Egon Shaden (1913-1991), brasileiro e neto de alemães de Santa Catarina, foi colega e orientador de doutorado de Gioconda Mussolini na FFCL/USP. Em 1941 foi nomeado primeiro assistente da cadeira de Antropologia, tendo assumido a cadeira em caráter efetivo em 1949. Foi o criador da Revista de Antropologia em 1953.

Apesar de não mencionar em seu currículo, Gioconda Mussolini também foi professora da disciplina intitulada Introdução à Antropologia com destaque dos problemas de Personalidade e Cultura, no Curso de Psicologia em 1958, conforme aponta Bosi (1994).

Em 1965, realizou pesquisa sobre

‘A contribuição dos japoneses à pesca paulista’ (...) [com o objetivo de] integrar o interêsse a respeito da organização da pesca em nosso litoral (principalmente em seus aspectos sociais) e o interêsse sôbre a aculturação dos japonêses no Brasil, está sendo feito à base de pesquisas na Ilha de São Sebastião, na cidade de Santoá [sic] e na Ilha Grande (Estado do Rio) (Mussolini, n.d, paginação irregular).

Em 1965, Gioconda Mussolini estava cursando o doutorado sob a orientação de Egon Schaden na FFCL-USP. A sua tese era “sôbre populações caiçaras do litoral-norte de São Paulo, tendo como principal campo de análise a ilha de São Sebastião” (Mussolini, n.d, paginação irregular). No livro Ensaios de Antropologia Indígena e Caiçara, o título provisório da tese de doutorado dado por Gioconda Mussolini era Persistência e Cultura em Ilhabela.

No documento A TRAJETÓRIA DE GIOCONDA MUSSOLINI: (páginas 36-43)