No final do século XIX e início do XX a psicologia surgia as- pirando ao status de uma ciência autônoma. De abrangência epis- temológica, com diferentes objetos, métodos e teorias, nascia sob influência dos ideais positivistas, prometendo objetividade e neu- tralidade. Naquele momento, de acordo com Patto (1984, p. 77), em
14 Segundo Nunes (1994), o campo da saúde coletiva se estruturou no bojo do Movimento da Reforma Sanitária brasileira e a partir dos anos de 1980 pode ser compreendido sob uma tri- pla dimensão: como corrente de pensamento, como movimento social e como prática teórica.
Para o autor, a saúde coletiva abrange um conjunto de saberes e práticas interdisciplinares de saúde que tem como desafio “compreender e interpretar os determinantes da produção social das doenças e da organização social dos serviços de saúde” (Nunes, 1994, p. 19).
15 A atenção psicossocial vem sendo definida como um conjunto de ações teórico-práticas, político-ideológicas e éticas que supera o modelo manicomial e é capaz de constituir um novo paradigma para as práticas em saúde mental (Costa-Rosa et al., 2003).
que pese sua aparente heterogeneidade, haveria “[...] uma homo- geneidade mais definidora de sua natureza e de seu papel social”.
Conclui a autora que a natureza da psicologia seria ideológica e seu papel social o de adaptar o indivíduo à sociedade.
Respondendo às exigências do capitalismo nascente e aos interesses das classes dominantes, a psicologia produziu conhe- cimentos que afirmavam ser possível analisarmos os fenômenos humanos e sociais pelas mesmas vias de análise das ciências na- turais. Concebeu esses fenômenos como universais, passíveis de serem previstos, medidos e controlados, contribuindo significati- vamente para a padronização de comportamentos e a constru- ção de práticas normativas e adaptativas.
Dicotomizando sujeito-objeto, indivíduo-sociedade, obje- tividade-subjetividade, conhecimentos psicológicos cunharam e difundiram concepções individualizantes, fragmentadas e a-his- tóricas de homem, naturalizaram o desenvolvimento humano, afirmando-o como um processo universal e explicando as injus- tiças sociais como sendo decorrentes das diferenças individuais (Bock, 1999).
A psicologia se desenvolveu historicamente, enquanto ci- ência e profissão, pautando-se nessa visão liberal de homem e de mundo. Essa visão contribuiu para que o homem fosse compre- endido como um sujeito livre e dotado de potencialidades inatas e o contexto social fosse entendido como mero espaço de cultivo.
Não fomos capazes de, “ao falar de fenômeno psicológico, falar de vida, das condições econômicas, sociais e culturais nas quais se inserem os homens” (Bock, 2004, p. 25), e, com isso, teríamos contribuído muito mais para ocultar essas referidas condições.
Assim, um ponto a se considerar nas pesquisas em psicolo- gia é que nossa ciência não é neutra, nem desinteressada. Patto (1984) nos alerta que toda ciência nasce comprometida com in- teresses históricos e seria, portanto, ideologicamente determina- da. Se toda ciência fosse, em primeiro lugar, ciência da ideologia que a precedeu, uma formação ideológica distinta da ideologia dominante permitiria a libertação do discurso científico. A ciência romperia com sua determinação ideológica ao atentar-se para o caráter de ocultação do real que a produção do conhecimento pode assumir. A psicologia, por sua vez, reproduz essa leitura ide- ológica nas diferentes abordagens, produz conhecimentos acríti-
cos que acabam por justificar uma dada ordem social à medida que responsabiliza e explica a vida e seus embates pelo crivo do individual.
Esse é um primeiro desafio que desejamos destacar no per- curso do desenvolvimento das pesquisas em psicologia que fa- zem interface com a saúde mental infantojuvenil: a ciência que ajudamos a produzir estará sempre alinhada a determinados in- teresses, pois não há conhecimento que seja descomprometido.
Ciência e ética são indissociáveis e, isso posto, precisamos con- tinuamente nos perguntar: Para quem produzimos/pesquisamos?
Para que produzimos/pesquisamos?
Essas questões nos remetem a pensarmos a produção do conhecimento como uma ação comprometida, todavia cabe-nos perguntar com o que e com quem. Enquanto pesquisadores, os resultados de nossas pesquisas direcionam práticas profissionais que podem ser inclusivas ou excludentes, interferem na vida das pessoas, podem contribuir para que socialmente se desvelem ou se ocultem preconceitos que legitimam formas de interpretar a vida e seus percalços.
Ciência e política não são excludentes. Como afirma Mar- cuse16 (1966/2009, p. 159), “o cientista é responsável pelas conse- quências sociais da ciência” e as inflexões decorrentes de nossas análises/conclusões, entendemos, adquirem um “valor social” à medida que “torna-se progressivo ou regressivo, construtivo ou destrutivo, libertador ou repressivo em termos da proteção e me- lhoramento da vida humana” (Marcuse, 1966/2009, p. 160).
Para que produzimos? A produção do conhecimento não deve estar apartada do movimento prévio de produção da vida e da busca por respostas às necessidades. Não há razão para pes- quisarmos se, de alguma forma, o fruto desse trabalho não pro- vocar inflexões que se somam a outros e se traduzam no alívio da miséria da existência humana, pois, parafraseando Bertolt Brecht, essa seria a mais legítima, senão a única finalidade da ciência.
Sabemos que o papel salvacionista delegado à ciência vem sendo criticado, apontado como uma das grandes falácias da modernidade. Como assinala Harvey (2007), essa capacidade transformadora da ciência foi alimentada durante o século XVIII
16 Hebert Marcuse é reconhecido como um filósofo representante da Escola de Frankfurt, mas há autores como Loureiro (2005) que defendem sua clara filiação filosófica ao marxismo.
pela crença de que o homem produziria a objetividade científi- ca, a moralidade, leis universais e a arte autônoma em favor da emancipação humana. A razão tiraria a humanidade das sombras e o progresso viria como consequência.
Todavia, o século XX indicou-nos que o projeto iluminista não se concretizou: duas grandes guerras mundiais, com seus campos de concentração, ameaças de destruição em massa por armas nucleares, a destruição e ameaça de ecossistemas, agressões ao meio ambiente, são algumas das produções huma- nas que confirmam a falácia do projeto iluminista de conquistar a compreensão do mundo e do homem por meio da composição de verdades absolutas. A esperança de conquistar o progresso moral, a justiça social e a felicidade parece ter sido transformada muito mais em um processo universal de opressão.
O que pretendemos assinalar é que, se, sozinha, a ciência nunca poderá redimir as mazelas sociais porque sua essência está enraizada na estrutura social, tampouco a ciência deveria ocultar e justificar tais mazelas. Outrossim, esperamos que nos- sas pesquisas tenham relevância social e tragam contribuições para a sociedade, os serviços e práticas de cuidado em saúde.
Reproduzimos neste discurso as dicotomias tão presentes em nossa formação, como se de um lado estivesse a teoria e, do ou- tro e a reboque desta, a prática. Logo, entendemos que a leitura marxista permite a superação dessa compreensão à medida que concebe a teoria como “[...] representação ideal do real em sua essência” e que toda “prática competente não pode prescindir de consistentes conhecimentos, sob pena de conformar-se com respostas imediatistas presas ao plano da aparência fenomênica do real” (Moreira, 2013, pp. 15-16).