A autocrítica do processo criativo em Vigotski
3.4 Finalmente o conceito de criatividade em Vigotski
demonstrarem que o contrário também é verdadeiro. Como afir- ma Vigotski (1996b), a criatividade encontra seu ponto zero no caso de enfermos com diagnóstico de afasia, que perdem a ca- pacidade de agir livremente, de se apoiar na imaginação e formar qualquer intenção quando não estão diante de situação concreta.
Para Vigotski (1996b, p. 206), é de grande interesse a investigação desses casos de adoecimento como material de pesquisa sobre as mudanças no desenvolvimento; ele afirma que a “patologia nos proporciona a chave para entender o desenvolvimento e o desen- volvimento é a chave para entender as mudanças patológicas”. A perda da atividade criativa em consequência da dissolução das FPS possibilita o acesso às formas mais primitivas de conduta em que a não liberdade, ou a total dependência da situação concreta, condiciona o comportamento que se limita, ancorado na situação percebida.
As pesquisas com pessoas acometidas por lesões de guerra e que passaram a sofrer alterações do funcionamento psicológi- co levaram Vigotski a concluir que as alterações no pensamento em conceitos culminam em maior dependência das percepções diretas e impossibilitam a imaginação criativa, ou seja, a cria- ção de algo diferente da situação imediata. A repetição de uma frase errônea do ponto de vista da impressão imediata (como, por exemplo, a neve é preta), ou ainda a definição do que não é um objeto e para que ele não serve (por exemplo, a nuvem não é branca ou o garfo não serve para cortar) apresenta-se como uma tarefa impossível nesses casos. Vigotski (1996b) também cita o caso de uma pessoa incapaz de pegar um copo de água, quando ordenado, mas que realizava perfeitamente essa operação quan- do tinha sede. Assim, encontramos em Vigotski (1996b) a defesa de que existe uma complexa conexão entre a liberdade de agir segundo os interesses (aspecto emocional), a formação de con- ceitos (aspecto intelectual) e a imaginação criativa.
como formação psicológica distintiva do humano, indispensável para explicarmos as transformações históricas na atividade ins- trumental-simbólica (o gesto, a fala, a pintura rupestre, a escrita etc.); b) outra psicológica, que compreende a criatividade como uma neoformação que se origina das relações sociais, salta qua- litativamente ao longo das idades, desde as vivências interpsi- cológicas infantis até a vivência intrapsicológica promovida pela formação de conceitos.
A criatividade em seu aspecto filosófico-antropológico é mais do que tudo uma reafirmação do pressuposto marxiano do selo distintivo do ser social. Segundo essa perspectiva, pela natureza intencional da ação humana (prévia ideação), espera- -se determinado resultado, produz-se um momento subjetivo, ou seja, imagina-se antes da ação propriamente dita. Para Vigotski é graças à especificidade humana de idealizar antes de concre- tizar que as criações (fundamentalmente os instrumentos, sig- nos) passarão a regular e auxiliar no domínio da conduta. Seus argumentos referentes ao caráter criativo da atividade humana se apóiam na distinção entre o funcionamento psicológico do animal, o funcionamento humano natural (elementar, reprodutivo, de sobrevivência e, portanto, não criativo) e o complexo/superior que inclui a criatividade mediada pelas criações humanas arbi- trariamente produzidas e transmitidas historicamente por meio das relações sociais.
Tais conclusões não inauguram propriamente uma desco- berta teórica para o campo da psicologia, contudo, ainda que essa noção de criação não contenha uma elaboração sistemá- tica e original das questões polêmicas debatidas no interior da psicologia criatividade, dá um importante passo nessa direção, por afirmar o pressuposto materialista de um fenômeno de co- mum associação com a dimensão imaterial, irrealista, subjetiva.
Um fato demonstrativo da relevância dessa abordagem da criação em Vigotski foi comentado pela pesquisadora Parada (2013), segundo a qual, entre os anos de 2006 e 2012, o intérprete mais mencionado no Brasil como referência para auxiliar na com- preensão das ideias de Vigotski sobre a criatividade é Fernando Gonzalez Rey, um pesquisador que propõe uma teoria histórico- -cultural da subjetividade. Ocorre que, ao interpretar as ideias de Vigotski, González Rey (2005, 2007) se distancia radical e in-
tencionalmente do pensamento materialista, com a justificativa de haver uma suposta negligência da discussão dos fenômenos subjetivos.
Assim, explicar a constituição do psiquismo sem perder de vista a materialidade que se manifesta em substâncias e formas distintas é um grande desafio, nem sempre captada pelos intér- pretes de Vigotski. As explicações reducionistas, incapazes de compreender o movimento e a integração objetividade-subjeti- vidade, ora tendem a um determinismo do mundo externo (estí- mulos) sobre o comportamento, ora recaem a uma compreensão de que tudo pode ser explicado pelas conexões neurais e pelo funcionamento de áreas específicas do cérebro. Ambas, para Vi- gotski, apresentam limites metodológicos quando desconsideram o papel da ação prática verbal e sua tendência afetivo-volitiva na reestruturação dos sistemas funcionais que reorganizam e dão base à conduta complexa humana.
Seu principal objetivo, com essa forma de caracterização do problema, presente dos primeiros aos últimos trabalhos, era tomar como base não a semelhança e continuidade, mas aquilo que se inaugura, particulariza, diferencia e explica a origem do ser social em contraste com os outros seres vivos. Por isso a insisten- te distinção entre
• atividade animal (responde a estímulos internos e ex- ternos) versus atividade humana (movida pela inten- cionalidade, mediação simbólica);
• lógica presente no movimento do real, na realidade ob- jetiva (externa e anterior ao sujeito) versus lógica subje- tiva (que não é irrealista), prioritariamente subordinada à objetividade, mas que se emancipa gradativamente da mesma, graças ao desenvolvimento da imaginação criativa;
• reprodução (voltada para manutenção, conservação e que, assim como a memória, nunca é uma cópia mecâ- nica ou um reflexo especular) versus fantasia (que se subordina progressivamente à decisão, vontade e inte- resse social e pessoal de criar).
Como procuramos demonstrar, foi só após a realização de seus próprios experimentos e revisão de outros tantos trabalhos que foram divulgados no início da década de 1930, que Vigotski
elaborou sua teoria sobre a formação de sistemas psicológicos, trazendo para o centro de seus questionamentos o problema das idades. Desde então, encontramos contribuições de Vigotski so- bre a psicologia da criatividade em trabalhos no campo da psico- gênese infantil. A origem da criatividade na infância é, segundo Vigotski, marcada por maior realismo e subordinação à objetivi- dade (pobre em fantasia) em comparação com a criatividade no adulto, marcada pela liberdade de fantasiar graças à formação dos verdadeiros conceitos.
Concluímos que, com esse momento de superação do es- quematismo, a reformulação caminhou para um aprofundamen- to, confirmação e atualização das primeiras ideias do autor. Com essa autocrítica teórica, a imaginação criativa ganha o status de neoformação que emerge na segunda metade da infância e se consolida na adolescência quando, pela primeira vez, a imagina- ção e os interesses estabelecem estreita relação com o pensa- mento crítico, ou seja, o pensamento conceitual.
Para Vigotski, a criatividade é, portanto, um acontecimento tardio, não está presente no início da vida e, sendo uma neofor- mação, resulta de uma síntese sistêmica, impulsionada pelas as- pirações (força motriz) próprias de cada idade que movimentam e são ao mesmo tempo transformadas pela evolução intelectual conquistada com o pensamento abstrato-conceitual, dando di- reção e sentido pessoal e social para a criação. Um novo modo de se relacionar com os outros e consigo mesmo é desencadeado originalmente por cada nova situação social de desenvolvimen- to, primeiro na relação entre os outros e a criança (interpsíqui- cas), depois dela consigo mesma (intrapsíquica, ou pensamento crítico-reflexivo). As motivações se alteram em conexão com a situação social da respectiva idade psicológica, até o momento em que o verdadeiro conceito se forma (na adolescência). Ocorre, então, uma requalificação das intenções que comparecem nas relações sociais com alto potencial inventivo.
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