sofrimento do professor no espaço escolar, o mal-estar e o ado- ecimento vinculados diretamente à história do trabalho docente, ao modo de ser professor em uma sociedade que valoriza a edu- cação como via de acesso aos bens culturais e materiais, porém não oferece condições para que essa seara se concretize.
Tais condições de precariedade de todas as ordens, veri- ficadas na escola pública, denotam consequências que afetam diretamente os objetivos educacionais, e a escola permanece ancorada em práticas arcaicas e ineficazes de ensino enquanto que a criança da contemporaneidade, por sua vez, exige novas condições de ensino, em termos de ambiência e métodos peda- gógicos, que acompanhem o ritmo da sociedade atual construído a partir do desenvolvimento tecnológico alcançado nas últimas décadas, mesmo em países periféricos do capitalismo, como é o caso do Brasil (Lima & Castelan, 2012).
categorias construídas historicamente, o que nos abre possibili- dades de compreendê-las de modo concreto, na sua expressão de vida” (Bezerra, Coutinho da Silva, Bezerra & Féres, 2014, p. 134).
Mesmo considerando os limites impostos pelas condições de classe, pelas quais, cada estrato social experimenta diferentes formas de produzir a vida, e de ter/viver a infância, sejam elas assentadas no acesso aos bens materiais e culturais produzidos pela humanidade ou estando à margem das produções da cultu- ra, se pudéssemos destacar algumas especificidades comuns às crianças no momento atual, uma delas seria relativa ao tempo.
A criança de hoje, assim como os adultos, tem pressa.
Discorrendo sobre as influências de um tempo superace- lerado que abarca a atual modo de vida, também das crianças, Staviski, Surdi e Kunz (2013, p. 126) advogam que
(...) Cada criança tem seu tempo, e tentar não submeter o tem- po subjetivo do indivíduo a um tempo homogêneo da socie- dade é uma maneira de encontrar a criança na sua luta pela sobrevivência e de sermos facilitadores para que esta tenha o seu tempo de ser criança respeitado.
Essa velocidade também se dá pela via do consumo, con- tingência básica do modo de produção capitalista. Desde cedo, a criança vai sendo inserida no processo consumista que sustenta a sociedade do capital, cuja baliza é norteada pela velocidade de produção e pelo apelo ao consumo de mercadorias cada vez mais descartáveis, incluindo-se também o consumo de bens e serviços (Moura, Viana & Loyola, 2013).
A pressa em se conectar, explorar, consumir muitas vezes pode ser confundida com sintomas de hiperatividade e/ou de- satenção. De acordo com Lima (2005, p. 73), uma das atuais de- finições do denominado Transtorno de Déficit de Atenção e Hi- peratividade (TDAH) é que seja “[...] uma síndrome caracterizada por comportamento hiperativo e inquietude motora, desatenção marcante, falta de envolvimento persistente nas tarefas e impul- sividade”.
Diversos estudos apontam que esse diagnóstico, muitas vezes, pode ser visto pela comunidade escolar como uma forma de explicar comportamentos desvirtuantes ao esperado em sala de aula, visto que, além de explicar as causas de uma inadap- tação à escola (Tesser, 2010; Souza, 2010; Bonadio & Mori, 2013;
Collares & Moysés, 2014), ainda proporciona o uso métodos tera- pêuticos farmacológicos, por si só, contestáveis.
Outro desdobramento contundente, apontado por Lima (2005, p. 101, grifos do autor), é que
Nada mais confortador para alguém que descobre seu TDA/H do que poder se libertar de marcas que desde cedo se colavam a sua personalidade. Considerados “mal educados”, “indolen- tes”, “preguiçosos”, “desligados” e “bagunceiros”, todos sabem agora que tudo isso é efeito de sua constituição biológica ina- ta, de onde emerge o transtorno que tem.
Sendo considerada hiperativa, agitada, desatenta, preguiço- sa, esperta ou ‘antenada’, a criança de hoje, assim como a maioria dos adultos, é totalmente focada nas tecnologias digitais, porém, diferentemente dos que nasceram nas gerações x, y e z (nascidos a partir de década de 1980, 1990 e 2000, respectivamente), são identificadas como geração alpha (nascidas a partir de 2010), que já “nasceram imersas no mar de tecnologia”. Com isso, “são mais estimulados a interagir com a máquina desde o nascimento”. De acordo com Oliveira (2019, p. 29),
O sociólogo australiano Mark McCrindle, nomeou a geração recente de ALPHA, por dois motivos: por se tratar de uma ge- ração do momento atual com a viabilidade de iniciar um novo ciclo, e por que a palavra Alpha é a primeira letra do alfabeto grego e simboliza o início.
Segundo Oliveira (2019 p. 29), esta geração que desde cedo é cercada pela tecnologia tende a ser mais rápida neste quesito, pois nasce “com a tela posicionada a sua frente”, nasce “conec- tada em rede, diante do olhar do infans está a tela do tablet, do smartphone e do iphone”. Nesse sentido, “[...] os Alphas serão os primeiros a presenciar um sistema escolar novo, que não padro- niza, mas que valoriza as diferenças. O Ensino tradicional que se tinha com as gerações Y e Z não podem ser usados pela geração Alpha”.
Reportando-se ainda à geração Z (que antecede os Al- phas), Quintanilha (2017, p. 252) avalia que
(...) os métodos de ensino tradicionais têm extrema dificuldade em envolver indivíduos com as características da Geração Z, o que dificulta imensamente o processo de aprendizagem e a relação professor-aluno. Esses estudantes têm acesso simples e extremamente rápido à informação – não necessariamente de boa qualidade – e dificuldade em se manterem atentos e
focados em uma única atividade por longos períodos.
Por essas breves considerações a respeito dessas novas gerações, é possível inferirmos que a criança de hoje não se as- semelha àquela de 100 anos atrás. Porém, a escola, com seus métodos e conformação física e institucional, parece perma- necer imutável, como se nada tivesse acontecido em termos de transformações econômicas, históricas e sociais que, no limite, trouxeram novas formas de produção de subjetividade, inclusive, abarcando as crianças na mais tenra idade.