das idéias que defende. Isto explica a utilização nos boletins da palavra de um grande número de pessoas e de instituições. Não são apenas os exemplos de adesão e de apoio à causa que ganharam espaço n’ A Immigração - e de certa forma estes também fazem parte do discurso, ilustrando-o.
A propostas da SCI formam dois conjuntos, cada qual baseado numa dada tipologia das terras brasileiras passíveis de utilização pelos imigrantes. Assim, o primeiro se refere às terras devolutas e inexploradas do país. Para delinear que terras seriam estas, usaremos a enumeração das situações jurídicas de terras, definidas como devolutas, feita pela lei n.
601, de 18 de Setembro de 1850, marco legal da introdução de uma nova concepção sobre a propriedade da terra no Brasil oitocentista. Seriam: as que não estivessem sendo utilizadas pelo Estado; as que não se encontrassem sob legítimo domínio particular, nem houvessem sido recebidas por concessão governamental, desde que se cumprissem acerca destas as condições legais ou, em caso contrário, fossem revalidadas por esta própria lei, pelo fato de nelas haver algum cultivo; as que não estivessem ocupadas por posses legitimadas também pela própria lei. A apresentação desta definição como sendo a idéia que a SCI fazia das terras devolutas é tanto mais adequada quanto se mostra claro que a Sociedade pautava suas ações pelo respeito estrito à ordem legal, embora necessariamente a criticasse em alguns pontos. O modelo principal deste tipo de “colonização” seria essencialmente o norte- americano, com o qual à época se ocupava e se colonizava o Far-West. No caso dos imigrantistas dos quais tratamos, a presença da civilização, que a estes últimos deslumbrava nestas nações, ex citando-os com impulsos miméticos, ganhava extensão exemplar em algumas de suas dependências. Isto se devia ao fato de que certas áreas coloniais do mundo afiguravam-se como modelos ou campos de observação de políticas de ocupação econômica e povoamento de territórios “vazios” - quer dizer, políticas de colonização. As possessões britânicas da Austrália e do Canadá, bem como as regiões bravias do Oeste estadunidense, para os imigrantistas da SCI, assim como fora também, por exemplo, a Argélia francesa para os imigrantistas da Associação Internacional de Imigração199, - estes territórios compareciam nos argumentos expendidos nos textos dos imigrantistas em geral.
Com a Sociedade Central não foi diferente.
Sempre informados e atentos ao que ocorria nos países "civilizados"do mundo, era neles que os sócios da entidade iam buscar fontes de inspiração. Em relação à ocupação de terras devolutas, o maior inspirador foi o modelo de Wakefield e Torrens. Com o fito de montar um sistema auto-sustentado de imigração e colonização, o estadista colonial Wakefield coordenou várias idéias suas sobre a melhor forma de prover à ocupação de
199 Aureliano C. Tavares Bastos. “Reflexões sobre a imigração”. In: ______. Os males do presente e as
terras incultas. Formou assim o que foi chamado "escola de colonização sistemática."200 Comparando o modo de se distribuir essas terras nos Estados Unidos com o das colônias inglesas, Wakefield preferiu uma modalidade diversa de venda: enquanto na nação americana as terras eram vendidas a baixo preço, pela sua "colonização sistemática", as terras incultas deveriam ser postas à venda a preço alto. Segundo as fórmulas de sua teoria, colocadas aqui em traços gerais, a prosperidade das colônias novas dependeria da mão-de- obra abundante para os capitalistas, de acordo com o tamanho do território; trabalhadores da metrópole poderiam ser trazidos, como assalariados destes capitalistas; para impedi-los de obter terras nas colônias em pouco tempo, era preciso que o preço das mesmas fosse elevado. Ao mesmo tempo em que, estimulados pela possibilidade de tornarem proprietários, os trabalhadores se empenhariam em economizar e manter-se empregados, o total do produto da venda dessas terras se reverteria a um fundo de imigração. Com ele, se providenciaria o transporte de colônias de trabalhadores para as terras incultas, equilibrando-se os elementos terra cultivada, mão-de-obra e soma de capitais. Com isso, se atenderia ao objetivo de fazer a colonização com o mínimo gasto por parte do governo metropolitano inglês, e se teria o cuidado de evitar a dispersão dos colonos, concentrando- se a população. A formulação dessas idéias coube, como já dissemos, a Wakefield e especialmente a Torrens. Mercê de suas aplicações práticas, elas apresentaram falhas, o que levou o governo britânico e as autoridades coloniais a adaptá-las e alterá-las significativamente. O grande campo de aplicação desta "escola" foi a Austrália.
Era este modelo, já modificado no final do século XIX, que os imigrantistas da SCI defenderam, nas suas propostas do que concerne à terra tendo, conexas a esta, outras medidas. Ao lado da defesa da transmissão da propriedade por endosso, cognominada "lei Torrens",201 por exemplo, comparecem as reivindicações pela implantação de leis de franca inspiração norte-americana, destacando-se a lei de homestead. Num artigo a respeito da colonização nos Estados Unidos, a SCI explicava, baseada num texto da Semaine Industrielle de Liège, Bélgica, as regras para os compradores de terras, com a legislação concernente: homestead, sobre o lar ; preemption; sobre derrubadas; e sobre territórios
esperanças do futuro. 2a. ed. São Paulo: Nacional; Brasília: INL, 1976, pp.63 e 75.
200 Paul Leroy-Beaulieu. De la colonisation chez les peuples modernes. Deuxième Édition. Paris: Guillarmin et Cie., 1882, p.470.
201 A Immigração. Boletim n.32, Maio 1887, p. 1
desertos, a desertland. Mostrava por meio dessas regras, as grandes facilidades dadas aos compradores, que até poderiam, sem se naturalizar, comprar terras de propriedade das ferrovias.202
O segundo conjunto de propostas tem como objeto de atuação as terras improdutivas possuídas pelos grandes fazendeiros. Elas estariam na situação tipicamente nomeada por “grande propriedade territorial”. Combatendo o “monopólio territorial”, além da escravidão, a Sociedade propôs medidas encabeçadas pela implantação do direito de desapropriação pelo Estado e o imposto territorial sobre terras incultas, principalmente à beira das estradas de ferro, vistas como necessárias à colonização.
Embora tenha declarado, no artigo “Evolução Rural”, que sua “formula preferida – Immigrante-proprietario”, embora exigisse “a subdivisão do solo”, não indicaria, porém, “a destruição da grande propriedade territorial”203, a Sociedade Central de Imigração defendeu, mesmo que a longo prazo, a extinção do latifúndio e a implantação da pequena propriedade territorial, em seu lugar. A principal proposta para que estas terras participassem da chamada “Democracia Rural”, termo caro particularmente, entre os sócios-diretores, a Rebouças e Ennes de Souza, constituía-se na divisão das grandes propriedades pelos seus próprios proprietários, feita diretamente por eles ou por incumbência de empresas agrícolas e colonizadoras. Realmente, a parte do projeto global da SCI voltada para a questão agrária inclui-se no projeto cognominado "democracia rural".
Este projeto aparece formulado em todos os seus contornos nas idéias e propostas de André Rebouças, embora não se deva subestimar a colaboração tanto propagandística quanto de formulação de seus companheiros. Estes também o levantaram como bandeira e enunciaram proposições que também o compõem.
Sobre a idéia geral de redistribuir a propriedade da terra, abrindo acesso a ela para uma parcela maior da população, através da difusão das pequenas propriedades, propunha- se uma estratégia de conversão da ordem agrária de então. Esta estratégia foi construída levando-se em conta as circunstâncias econômicas e políticas de seu tempo. É óbvio que não se constituiria numa "reforma agrária" revolucionária, tal como se dera na França, cuja revolução de 1789 a entidade em geral considerava euforicamente, e cujos resultados na
202 A Immigração. Boletim n.8, p.5-6.
203 A Immigração, Bol. nº 3, Dez.1883/Ago.1884, p.8. Os boletins, de 1 a 5, foram republicados juntos, sob esta datação.
estrutura agrária francesa seus diretores louvavam. Num dos animados debates incluídos nas sessões da diretoria, consta que Tarquinio de Souza Filho, Américo dos Santos, Taunay, Wenceslau Guimarães e Beaurepaire-Rohan concordaram ser a França o mais opulento e feliz entre os países europeus, onde o problema da divisão territorial e da miséria a ela ligada encontravam-se equacionadas de forma satisfatória204. Longe de ser um processo violento de ruptura com a ordem agrária herdada do Brasil Colônia, a "democracia rural" forçosamente teria que contar com o apoio de pelo menos uma parcela dos grandes proprietários. Nesse sentido, a transformação que os membros da SCI esperavam no meio rural e que necessariamente se refletiria no meio urbano onde se situavam, não poderia trazer a dissolução total do latifúndio, conservando-se aqueles que fossem considerados produtivos.
Temos assim - e isto é da alçada do discurso - a busca de um convencimento de fazendeiros mais sensíveis aos conselhos ilustrados partidos da entidade, que fazia questão de se colocar como "amigo leal, vigilante e sobretudo perspicaz da lavoura"205, valorizando todo apoio que indivíduos e grupos dentre os fazendeiros lhe ofereciam.
A primeira etapa do processo de "democracia" no meio rural se constituiria numa centralização de atividades ali realizadas. Os "engenhos centrais" e as "fazendas centrais"
deveriam surgir, resultantes da subdivisão das grandes propriedades em lotes a serem vendidos ou arrendados a colonos, fossem libertos, nacionais ou imigrantes. Os proprietários inteligentes e aquinhoados em capital efetuariam bem esta mudança. Os demais dividiriam suas fazendas e as venderiam em lotes a imigrantes. A fazenda ou engenho central, aparecendo, consertaria o erro de se achar que a grande propriedade territorial seria a única capaz de reunir recursos e condições para a produção compatível com a oferta de produtos a baixo preço. Essas mesmas unidades produtivas, administradas por empresas, obteriam tudo isto e ainda proporcionariam aos agricultores vizinhos a propriedade territorial junto com a “liberdade e independência, indispensaveis nas relações sociaes hodiernas”206. A aquisição de máquinas e demais equipamentos permitiria que nas terras remanescentes em mãos dos antigos proprietários fossem montados, às expensas destes ou por empresas que com estes se combinassem os "engenhos centrais". Nestes, o
204 "Sessão da diretoria em 7 de Agosto de 1890". A Immigração. Bol. N. 69, Julho 1890, p.8.
205 "Imposto territorial". A Immigração. Bol. N. 67, Maio 1890, p.4.
206 “Evolução rural”. Idem, Bol. N. 3, pp.8-9.
produto das novas propriedades em derredor, receberia beneficiamento e embalagem, para ser vendido e repassado ao mercado que melhor pagasse. As vias de transporte, sobretudo o trem, exerceriam nessa organização um papel relevante.
Para chamar a atenção para a viabilidade dos "engenhos centrais", especificamente voltados para as propriedades cultivadoras de açúcar, a SCI dava bons exemplos:
"Para o assucar, esta evolução já se está realisando no municipio de Campos, em torno do engenho central de Quissamã e dos circunvizinhos na antiga fazenda de Porto Real, que foi colonia do Estado, e hoje é engenho central e foco attrativo de immigrantes."207
Caso também acompanhado e noticiado copiosamente é o da colônia de libertos em Paraíba do Sul. Num momento evolutivamente posterior, estes engenhos e fábricas
"centrais" produziriam um novo elemento: as "fábricas centrais", que representariam uma etapa industrializante a partir do meio rural. As "fábricas centrais" habilitar-se-iam a produzir para um circuito comercial internacional artigos agrícolas já prontos para o consumo direto.
Coadjuvando esta transformação, reformas sociais e políticas far-se-iam necessárias.
A mais visada pelo discurso é a lei de imposto territorial, um imposto que seria progressivo, lançado de acordo com a produtividade da terra em questão. Em 1884, a SCI colhera opiniões sobre o lançamento de um imposto territorial. Uma delas, proferida pelo dr.
Rodrigues Peixoto, deputado geral e “lavrador” no município de Campos, manifestou-se favorável. Julgava este proprietário e político que convinha preparar a divisão da propriedade territorial, o que se obteria facilitando a transmissão de domínio - ponto sobre o qual, lembramos, Taunay já tentara legislar - à maneira do que praticava a Austrália.
Assim, desapareceria o imposto de transmissão, boa fonte de receita no Brasil, mas seria substituído pelo imposto territorial, “que se recomenda pela conveniencia de compellir o proprietario, que é pouco diligente, a passar as suas terras, á quem as possa fecundar com proveito proprio e do paiz.” Fica óbvio o destaque dado a esta opinião de um membro da classe dos fazendeiros, e pelo qual se percebe quem eram os destinatários da mensagem nela implícita. Logo em seguida o mesmo Rodrigues Peixoto acrescenta a proposta,
207 "Evolução Rural". Idem. Bol. N. 3, p.8.
bandeira de reformistas da “democracia rural”, de uso do registro de terras, o qual até forneceria dados para lançar-se o preço sobre as terras a serem vendidas.208
Outra ordem de necessidades, esta em relação aos capitais, receberia satisfação com a instituição de um sistema de crédito, suportado por um eficiente sistema financeiro.
Ainda outra providência seria o desenvolvimento do ensino técnico, tanto rural quanto urbano. Num projeto de imposto territorial desenvolvido pela SCI, parte da receita deste imposto teria destinação justamente para a manutenção de escolas através do país.
Um ponto de valor em todo este projeto é a constatação de que embora tivesse como campo privilegiado e ponto de partida o meio rural, ainda o principal espaço de realização econômica do Brasil, ele se destinava a uma transformação geral no país, da qual meio urbano não ficaria excluído. Certamente, tanto Rebouças quanto outros partidários deste projeto se inspiravam na França, cujo capitalismo desenvolvia-se sobre uma organização agrária considerada mais racional, e na expansão capitalista que se dava nos novos estados agregados pela progressão da conquista econômica de terras agrícolas, pastoris e mineiras, inclusive ensejando o surgimento de prósperos centros urbanos.
Com tais propostas, os membros da SCI mostravam-se desvinculados dos interesses específicos defendidos à época pelos grandes proprietários, fossem eles cafeicultores paulistas ou quaisquer grandes fazendeiros, embora seu discurso tenha-os constantemente como destinatários. A Sociedade tentava convencê-los e cooptá-los para seu projeto, reiterando-lhes as possíveis vantagens de uma reordenação fundiária. É um dos maiores indicadores de sua postura politicamente reformista.
O principal agente humano desta transformação agrária seria o imigrante- proprietário, figura e slogan básico do pensamento da SCI a respeito da substituição do trabalho conjugada com o acesso à terra pelos cultivadores da mesma. A este respeito, vale a pena ler o texto que se segue:
“Immigrante-proprietario
“A missão importantissima, complexa e múltipla da Sociedade Central de Immigração póde no emtanto, resumir-se assim:
“- Dar ao Brazil a melhor população possivel;
“- Collocar essa população nas melhores condições de progresso e felicidade.
208 “Imposto territorial”. A Immigração. Bol. N. 5, Set. 1884, p.7.
“A melhor população – está plenamente demonstrado, - só nos póde ser fornecida pelos paizes mais avançados da Europa, por immigrantes espontaneos, dirigindo-se ao Brazil na persuasão de aqui encontrarem elementos para melhorar a sua sorte.
“Os europeus emigram, deixam patria, lar, familia, à procura principalmente da propriedade territorial.
“O grande desideratum do emigrante – cumpre jamais esquecer – é possuir um lote de terra, perfeitamente demarcado e com o seu titulo de dominio.
“Todas as formas de colonisação com salariado, parceria, arrendamento, etc, etc, podem provar mais ou menos bem; não satisfazem, porém, a grande aspiração do immigrante.
“É preciso afastar toda idéa de tutela, de subserviencia, de dependencia. O immigrante livre, independente, perfeito senhor de suas acções, trabalhando, economisando, capitalizando para si, e para sua familia – eis o empenho maximo.
“Cumpre não confundir o problema de immigração com o da substituição dos braços necessários á grande lavoura. Esta quer salariados e chega a preferir até os de raça inferior. O escopo da immigração, porém, é de ordem muitissimo mais elevada; busca organizar os elementos que devem formar a grande nacionalidade brazileira, senhora da maior e melhor parte do continente Sul-Americano. Exige por isso mesmo, a maior selecção nestes elementos.
“Ora, para que o immigrante activo, laborioso, intelligente, progressivo, venha para o Brazil, é preciso que este paiz offereça condições de bem-estar para si e para sua familia, impossiveis de encontrar na Europa.
“Evidentemente, a mór parte dessas condições acham-se grupadas em torno da propriedade rural, onde o immigrante póde quotidianamente accumular o producto dos seus esforços para si e para seus filhos.
“Assim é que os Estados-Unidos – os grandes mestres nesta materia – dão ao immigrante, logo ao chegar, um titulo provisorio de propriedade territorial, que é substituido por outro definitivo, logo que o lote de terra apresente certo numero de bemfeitorias.
“Mas aqui, no Brazil, onde achar terras para collocar immigrantes-proprietarios?
“Todo o vastissimo território do Imperio está nominalmente possuido. Podeis ir aos ultimos sertões de Goyaz e de Mato Grosso; por toda parte encontrareis proprietarios nominaes de dezenas até centenas de leguas quadradas.
“As terras realmente nacionaes, as terras ditas devolutas, são raras; ainda não demarcadas, e, quasi sempre, em situções impossiveis para os immigrantes.
“No estado actual de propriedades ruraes illimitadas e indivisas, para estabelecer immigrantes de modo conveniente, assegurando-lhes um bem-estar, que attraia seus parentes da Europa, e produza uma corrente continua de immigração, indispensavel é recorrer á zona lateral das estradas de ferro. Cumpre (sic) desaproprial-a por lei especial, afim de dividil-a em prazos de facil venda aos immigrantes.
“Essa operação poderia ser feita directamente pelos proprietarios de terras, ou então por companhias e compradores, como tem acontecido nos suburbios desta capital.
“Todos sabem como é lucrativo comprar uma propriedade rural e revendel-a, depois de retalhada em pequenos lotes. Na provincia ds (sic) Rio Grande do Sul, onde o problema da immigração está mais avançado, citam exemplo de uma fazenda de legua quadrada, que produziu 900:000$ vendida em prazos aos colonos.
“Quizeramos poder convencer aos grandes proprietarios que, na crise actual de excessos de terras e de falta de braços para cultival-as, nada tem elles melhor a fazer do que dividirem suas fazendas em lotes, e vendel-as aos immigrantes.
“Esse é realmente o maior serviço e o mais positivo concurso que podem prestar á immigração. Deste modo o grande problema do immigrante-proprietario teria a solução mais rapida e benefica pelo concurso immediato dos proprios interessados.”209
O estabelecimento de imigrantes se faria tanto nas terras devolutas a ser franqueadas pelo Estado por venda ou doação, ou nos lotes resultantes da autodivisão das grandes propriedades, visando o lucro das vendas e da implantação de engenhos centrais em suas antigas sedes. Loteando as terras, atrair-se-ia imigrantes europeus com preços acessíveis e crédito, a fim de que as adquirissem e cultivassem. A produção posterior destes lotes seria valorizada e sua sobrevivência econômica viabilizada através de acordos com engenhos centrais a ser fundados no interior de cada área loteada ou próximo a ela. O engenho central funcionaria como o ponto de contato entre as pequenas propriedades recém-nascidas e a economia, posto que nele se daria o processamento industrial dos produtos dos lotes, como o café, ao mesmo tempo que através dele surgiriam as possibilidades de transporte e de financiamento desta produção.
Um instrumento poderoso para a realização deste objetivo de povoar e valorizar a terra, aproveitando-a economicamente, constituía-se na construção de estradas de ferro, tal como estava sendo feito nas imensidões antes "vazias" dos Estados Unidos. No terceiro manifesto da associação, endereçado à província de São Paulo, a SCI elogia o novo arranque da energia empreendedora paulista. Lembra o passado bandeirante. Diz que depois de um tempo de apatia a energia retornava nos empreendimentos econômicos de São Paulo, atribuindo-a ao estímulo dado pela estrada de ferro inglesa que ligou São Paulo a
209 A Immigração. Bol. n. 2, Dez. 1883/Ago. 1884, p.5.
Santos. Neste momento, São Paulo era a província com mais extensas ligações ferroviárias.
Assim, o texto conclamava os paulistas a esforçar-se pelo bem do país todo, na solução dos problemas sociais e do trabalho que ameaçariam o futuro do Brasil, enquanto os louvava por já ter abrigado até então mais de 50.000 italianos. Para resolver o problema de São Paulo de receber mais operários para seu progresso, a SCI só via como saída a atração de imigrantes, através do acesso aos terrenos laterais das estradas de ferro. Propôs então a fundação de uma Sociedade Paulista de Immigração, convocando a elite proprietária paulista a fundá-la. Lembrava aí o exemplo dos EUA. A questão principal seria tornar o imigrante um proprietário de terra, citando várias nacionalidades européias como candidatas. Tal objetivo se tornaria mais fácil ao se valorizar o papel da “propaganda” e da estimulação do “espírito público”.
Outro artigo de propaganda, sob o título "Immigração e estradas de ferro”, voltava ao tema. Explicava que, na América, a função da ferrovia é principalmente povoar, servir de instrumento à imigração. Toda empresa ferroviária deve ser ao mesmo tempo de colonização. No Brasil, elas devem ter direito de desapropriação das terras marginais, para loteá-las. Sem população e sem produtos, as ferrovias seriam impossíveis. Obstáculos às ferrovias estavam na escravidão e no monopólio territorial. O escravo não viajava, produzia menos que o homem livre e consomia muito menos; o controle das terras por parco número de fazendeiros mantinha as terras laterais, as que seriam mais adequadas à imigração, incultas. Ambos repeliriam o imigrante. As soluções que a SCI propunha eram, em primeiro lugar, o imposto territorial, pelo menos nas terras marginais; e em segundo, a legalização do direito de desapropriação de terras incultas marginais, para loteamento e venda a imigrantes. Este direito poderia ser do Estado; das compahias de estradas de ferro;
e de empresas especiais de imigração.
Ele faz cálculos de quantas terras, lotes e famílias a ser instaladas poderia se operar nas terras laterais às ferrovias. Prevê a formação de uma corrente imigratória só semelhante à que povoou a Far-West (exemplo dos EUA). Calcula os lucros possíveis dados pelos imigrantes ao Estado, usando impostos de exportação e importação como exemplos.
Lembra que nos EUA, cada imigrante é computado como valendo pelo menos 3.500 dólares, sendo que imigrantes com habilidades especiais chegam a valer milhões de dólares.