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IMIGRANTES INDESEJÁVEIS

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 172-184)

Para Tarquinio de Souza Filho, sócio-diretor da entidade, a democracia era inevitável e invencível, constituindo insensatez resistir-lhe. Desenvolvendo este argumento a fim de provar a importância do ensino técnico para o Brasil, tema do livro de propaganda que redigiu para a Sociedade, ele postulava que o melhor procedimento em relação a ela, no fito de colher-se dela os benefícios, e de evitar-lhe os perigos e os inconvenientes, inclusive de que degenerasse em “demagogia ou socialismo”, seria imprimir-lhe um caráter moderado e contido, mediante a ilustração, a propagação do ensino. Os povos modernos, ensinava, estavam fazendo isto. Assim, a instrução representava uma condição básica de força, de progresso e de estabilidade social. No Brasil não existiria a "questão social", ou seja, a questão operária típica dos países industrializados. Porém, ele deveria prevenir-se, antecipando-se ao perigo pela utilização, entre outros recursos, do mesmo remédio.235

Na mesma linha de pensamento, a rejeição à intervenção estatal se articula com a inconveniência do assistencialismo aos operários. O Estado não deveria entrar em funções industriais. Tarquinio cita a propósito o exemplo dos ateliers de travail, definida por ele como concessão do Estado francês aos socialistas, porque buscava apaziguar tais elementos, que haviam arvorado a “esfarrapada bandeira do imaginario direito ao trabalho.” 236

No artigo “Emigração européa”, de 1887, Zózimo Barroso observou que, em vista de “factos de desordem e anarchia, indigencia ou estado de mendicidade e enfermidade de alguns emigrantes”, o governo e a opinião pública dos Estados Unidos, passaram a se preocupar muito com a “qualidade dos emigrantes”, para ele com razão.

O ellemento socialista allemão, fructo natural do regimen do despotismo militar do Império, perseguido na mãe-pátria, procura quartel principalmente nos Estados-Unidos. A Italia, Bohemia, Polonia, o Egypto e até a Turquia, têm derramado ultimamente na Republica americana muitos homens violentos, descontentes e desmoralizados, que não são precisamente elementos de ordem e progresso social. Da Gran-Bretanha aconteceu virem idiotas e invalidos”,

235 Tarquinio de Souza Filho. O ensino technico no Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1887, p.51.

236 Ibidem, p.185.

tendo havido reclamações de autoridades norte-americanas para com as da Grã-Bretanha, em relação à imigração irlandesa.

Aproveita o articulista para considerar que, se tais coisas ocorriam nos Estados Unidos, como não seria no Brasil, onde o governo fazia contratos para introdução de imigrantes com prejuízos; onde há “carolice (não religião) ainda não havia casamento civil;

onde os serviços públicos eram deficientes” por causa do favoritismo e dos empenhos que em geral determinavam a escolha dos empregados de todas as categorias?”; onde falta boa lei de naturalização; onde há lei de locação de serviços draconiana, e “autoridades partidárias enragées, sempre promptas a servirem aos mandões políticos, até com desumanidade, como se vê nas violências contra escravos, até no Rio de Janeiro.”

Segundo ele, o governo fazia tais contratos havia talvez 50 anos. Ele diz que, com as portas abertas pelo Brasil, já sendo barrada nos Estados Unidos, tenderia a vir para cá “a corrente perigosa dos elementos da anarchia, vicios e miserias sociaes”, abundantes na Europa de então, e para países de administração frouxa e inexperiente”.

Critica a idéia de usar a imigração para solucionar coisas limitadas como o suprimento de braços na atividade agrária, “a expensas do thesouro publico. Isto é favorecer o interesse particular de uma classe, e de uma classe abastada e bastante instruida, para cuidar de seu proprio interesse.” Para ele, a intervenção do Estado na imigração é justa e legitima, por ser “de interesse geral e vital do povoamento” do território e prover ao adiantamento nacional. “Os fazendeiros que precisam de trabalhadores para substituir os seus escravos, podem e devem ir procural-os por si mesmo e a sua custa, como fazem os chefes de fabricas e officinas industriaes.”

Afirma: “A immigração de europeus pacificos e laboriosos é tão necessaria e será tão benefica ao Brazil, (...) como é nociva a escravidão do negro, que aviltou o trabalho, estragou as terras e amolleceu o proprietario.” Continuam as críticas ao aparelho estatal, chegando à própria modalidade do sistema:

“Ha bom numero de annos que o parlamentarismo se tornou omnipotente em nossa patria, e os partidos politicos degeneraram em bandos de pretendentes e subservientes ao serviço de um chefe occasional, que impõe á nação por meio da camara da sua feitura, as suas idéas particulares, seus preconceitos, seus sentimentos e até seus caprichos, sem outra preocupação, ao que parece, sinão a conservação do poder, a posse do cofre das graças e dos empregos.

Nestas condições, tudo naturalmente decahiu e atrazou-se, excepto a despeza publica e o funccionalismo, que apresentam progresso admiravel”.

Ele concluiu que a nação precisa de um “poder superior” para lembrar políticos e partidos de suas obrigações.

Advertido por seu colega Rebouças da reação negativa da folha Germania, de São Paulo, às suas ponderações sobre a imigração oriunda da Alemanha, Zózimo Barroso comentou esta crítica em carta de dezembro de 1887, da qual A Immigração publicou trechos. Insistindo, perante a crítica, na sua aversão aos imigrantes alemães de tendência socialista, dizia:

“É possivel que trabalhadores socialistas sejam em geral mui robustos e intelligentes, mas que fariam em nosso paiz bom serviço como fermento tenho minhas duvidas.

“Em todo caso não desejamos ver procurar o Brazil os socialistas (ou como melhor nome tenham) da ordem dos Lingg, Spies, Engel, Fischer, etc., ultimamente executados em Chicago, não obstante os rogos e as ameaças dos Kathedersozialisten, Sozialdemokraten, (e que sei mais?) do Velho Mundo. Estes assassinos politico, que atiraram bombas de dynamite n’um theatro e reunião de homens, mulheres e crianças inoffensivos, matando e ferindo a muitos, pertenciam quasi todos á Alemanha. Dos sete condemnados á morte cinco eram allemães. (...)

“Não pretendemos, nem por sombra, tornar a Allemanha responsavel pelo acto perverso desses infelizes (...).”

Após assim se referir aos chamados “mártires de Chicago”, e ao episódio de Haymarket, marco do movimento anarquista então muito forte dentro do socialismo militante, ele continuava a missiva demonstrando, por outro lado, sua estima pelos bons imigrantes alemães, que ele esperava continuarem a vir para o Brasil, trabalhar junto com os brasileiros, em seu próprio benefício e no “engrandecimento moral e material de nossa patria”.237

Mais tarde, em outro artigo, “A boa immigração”, cuja redação data de dezembro de 1887, de Lausanne, Suíça, ele se reportou ao artigo anterior, lembrando que buscara, entre outras coisas, alertar a diretoria da Sociedade sobre os “serios inconvenientes” da possibilidade de ida para o Brasil, como emigrantes, de “homens invalidos, desmoralisados

237 “Germania de S. Paulo”. Idem. Bol. N. 43, Março 1888, pp.2-3.

ou violentos e incontentaveis, elementos de anarchia e depravação”, abundantes, segundo ele, na Europa de então. Era preciso verificar o “caracter moral” dos indivíduos que se propunham a ir para o país. Seu argumento básico eram os fatos ocorridos nos Estados Unidos, “paiz novo e americano”, como o Brasil, e que portanto - como de hábito nas falas da SCI - deveria servir a este último de modelo e estímulo. Informou que nos Estados Unidos houvera tentativas de barrar a entrada de imigrantes desprovidos das condições julgadas indispensáveis de “validez, moralidade, habitos de trabalho e de respeito á lei e á ordem.”

Repetiu declarações do Presidente Cleveland, acerca dos prejuízos causados pelos interesses partidários que se sobrepõem aos interesses da nação, como reforço às suas críticas ao partidarismo e ao favoritismo presentes na administração pública brasileira. A prática de ambos fomentaria a incompetência administrativa, ao tolerar, em favor de interesses a eles ligados, a deficência profissional, a falta de experiência, e outras falhas.

Citou, sem detalhar, manifestações de menosprezo no Senado brasileiro contra a SCI, por ele classificados de injustas e levianas, eis que se voltavam para pessoas que agiam em favor da imigração européia, “da infusão de sangue novo e puro no nosso organismo social e politico, anemiado e corrompido pelo virus deleterio do captiveiro, que fez de nossa jovem nação um povo bastardo, decadente, um povo de senhores e escravos.”238 Voltou aos exemplos norte-americanos para expor medidas propostas no Senado dos Estados Unidos, visando

“assegurar a boa immigração e impedir o influxo do fermento de vicios, da perversão das idéas, em individuos ou grupos soi-disant politicos – socialistas, anarchistas, nihilistas, que querem destruir – não reformar – a presente ordem social, para crear em logar della excessos, desordem e miseria.”239

Informou que no dia 14 daquele mesmo mês, um senador, Morill, propusera um projeto restringindo a imigração, explicando que se deveria examinar o caráter dos candidatos, pelos consules dos EUA, antes de deixarem os portos, mudando a prática menos cuidadosa dos comissários do Estado, relativa aos recém-chegados. Segundo este

238 A Immigração. Bol. n.45, Maio/Jun. 1888, p.1.

239 Ibidem, p.2.

senador, ao visitar Castle Garden, em New York, quando chegara um navio de Antuérpia, o parlamentar norte-americano duvidara, ao ver os imigrantes, que todos eles se tornariam válidos cidadãos para o seu país. A mesma proposta de Morill havia sido ventilada pelo próprio Zózimo, em janeiro do ano anterior, no artigo Bureaux d’Emigration. Ele propusera instalar estes bureaux nos países mais populosos da Europa, serviço público em que poderia

“perfeitamente ser aproveitado o aparelho caro, e de utilidade, quasi nulla para fins praticos e progressos da Comunidade, como é o nosso corpo diplomatico e o consular”. Queria que se reformasse o corpo diplomático e o consular, cujas “legações e consulados, presentemente repartições estereis ou mortas” deveriam ter organização moderna, voltada para interesses econômicos e comerciais, como outras das grandes nações.240

No reverso da caracterização de imigrantes ideais, aparece o temor da introdução de elementos de raças inferiores. Aqui cabe a utilização do critério racial que, na nossa reconstituição do pensamento da SCI, afirmamos ter sido aplicado por seus ideólogos.

Diante do problema posto da mão-de-obra, os setores da intelectualidade da elite empenhavam-se em sugerir as mais diversas fontes de obtenção dos novos braços para executar o trabalho no país: indígenas, libertos, ingênuos, europeus ou africanos imigrantes, asiáticos, nacionais. Em torno daquelas propostas que num determinado momento apresentavam maiores condições de exequibilidade, acirravam-se os seus opositores.

Muitas vezes, as próprias características de um dado grupo, apontadas por alguns como vantajosas para seu aproveitamento no trabalho, eram as mesmas indicadas como perniciosas por aqueles que as desaconselhavam.

Há rejeição manifesta pela imigração asiática ou africana, dentro do discurso aqui estudado. A própria SCI nasceu durante a agitação de um protesto frente à possibilidade de uma imigração chinesa, trazida em fins de 1883 pelo mandarim Tong King Sing, diretor da China Merchant’s Steam Navigation Company.

O episódio dera azo à manifestação de um espírito de cruzada por parte dos futuros fundadores da SCI, espírito este que se mostrou útil para impulsionar seu iminente nascimento. Em vários artigos e notas, os dirigentes da sociedade demonstram a discordância e até uma ojeriza ante a formação de uma corrente imigratória dos chineses, identificados sob a noção de “coolies”, virtuais semi-escravos. Há numerosos artigos e

240 Ibidem, p.2.

notas especialmente dedicados a eles, no claro e persistente intuito de desclassificá-los do papel de trabalhadores braçais, quanto mais do papel de imigrantes: “Trabalhadores chinezes”; “Perigos da colonisação asiática”; “Manifesto contra a introducção de Chins”;

“Com a China”; “Chins”; “Missão chineza”; “Chins no Brazil”; “Ainda chins”; “Chins e coolies”; “Chins na republica do Equador”; etc.

Com efeito, chegou-se a dar início a uma imigração chinesa para o Brasil, em condições análogas às que regiam a imigração de “chins” para Cuba. Traficantes negreiros de nacionalidade portuguesa, de forma particular açorianos, articulavam remessas de chineses para o Brasil, lançando mão de contatos de que dispunham a partir de Macau.

Neste esquema, algo em torno de dois milhares de chineses teria vindo ter ao Rio de Janeiro, entre 1854 e 1856.241 Contudo, este tráfico promissor não foi avante, pressionado por vários fatores, donde se destacam a reprovação inglesa e a recusa cultural e política a esses imigrantes.

Num dos discursos de Taunay, proferido na Câmara, este critica Afonso Celso Jr., deputado por Minas, o qual, após viagem aos EUA, segundo ele elogiara o “trabalhador- machina”: o “chim”. Um dos argumentos usados por Taunay é o da “historia scientifica”, que já teria tranqüilamente provado a incapacidade do chinês para ser o vetor do progresso esperado pelo Brasil.242 Os chins são os grandes elementos disfóricos do discurso da SCI.

Citando um publicista argentino, ela concordava plenamente em que a sua introdução nos países imigrantistas constituía "crime de lesa-patria"243. As numerosas caracterizações negativas dos chineses encontradas nos documentos da época têm nos artigos e nas notas d'A Immigração um consistente resumo. Depauperados fisicamente, carregados de vícios como o jogo, o uso do ópio, o infanticídio, a degradação da mulher, o desrespeito às leis e a completa inadaptabilidade à vida civilizada de matriz européia, eles são o retrato da praga social - a "praga amarela". Taunay, por exemplo, afirmava que então os Estados Unidos repeliam o chim como se fosse lepra244. As avaliações positivas da atuação dos chineses em diversas terras asiáticas vizinhos de sua terra natal - Java, Sumatra, Filipinas, etc. -, em ilhas caribenhas como Cuba e Guadalupe, no Oeste dos Estados Unidos, e nos países

241 Luiz Felipe de Alencastro e Maria Luiza Renaux. “Caras e modos dos migrantes e imigrantes”. In:

Alencastro, Luiz Felipe de (org.), Op. cit., p.295.

242 A Immigração. Bol. n. 5, Set. 1884, p.4.

243 Idem. Bol. N. 3, p.10.

244 Ibidem, p.4.

abertos pela colonização européia na Oceania, como aquelas redigidas por publicistas como Tavares Bastos, são sistematicamente ignoradas pelos membros da SCI. Estes se empenhavam em convencer a "grande lavoura" fluminense, em primeiro lugar, que a imigração chinesa apenas agravaria o atraso do sistema de trabalho até o momento baseado no trabalhador escravo.

Nascendo num momento de intensificação do “perigo” de introdução de chineses em grande número, quando da missão de Tong King Sing, a fim de combater este pretendido perigo, a Sociedade Central de Imigração tornou a ver outro momento desse tipo na fase que envolveu imediatamente a lei de abolição da escravatura. Por ocasião de sua promulgação, a SCI oficiou ao príncipe chinês de 1a. classe Ching, “presidente do Tsungli- Yamen”, o ministério dos negócios estrangeiros, e a membros de conselho, pedindo que não se consentisse a saída de nenhum súdito do “poderosissimo Imperador Kuang-Su dos portos do Imperio do Meio”, antes da nomeação e posse de enviados extraordinários e ministros plenipotenciários do Brasil na China e da China no Brasil, com suas credenciais aceitas.245 Com certeza, temia-se que o desenlace legal do processo de libertação dos escravos fizesse recrudescer no seio da classe proprietária rural, especialmente nos senhores de terra fluminenses, os esforços pela utilização dos trabalhadores asiáticos.

No mesmo sentido, também em 1888, dá-se conta na mesma edição que a SCI oficiara também a Liu-ta-jen, enviado extraordinário e ministro plenipotenciário da China em Londres, mostrando a ele os fins a que a associação se destinava, narrando também os acontecimentos da abolição e as consequências visíveis da lei de 13 de maio. Arvorando-se a interpretar, como dizia, os interesses da maioria dos fazendeiros do Brasil, arredava qualquer tentativa que pudesse se dar de escravização dos chins que porventura fossem introduzidos no país. Ela tentava evidenciar o quanto a lei de locaçãod de serviços de 15 de março de 1879, então vigente, se prestava a terríveis abusos. Poderia portantos ser motivo de graves injustiças contra os trabalhadores chineses, "cuja causa e direitos devem ser incessante e cuidadosamente vigiados por intelligentes e zelosos protectores". Assim, lembrava a conveniência de se impedir a saída de "filhos do Imperio do Meio" dos portos de sua terra natal, enquanto não fossem nomeados cônsules brasileiros lá e principalmente cônsules chineses no Rio de Janeiro e em várias cidades provinciais que introduzissem em

245 “Chins”. A Immigração. Bol. N. 51, Dez. 1888, p.8.

seu seio "aquelle elemento". Este caráter de proteção de que se alegava ocupar-se a associação é reforçado pela Gazeta de Notícias, ao relatar o fato, pela lembrança da publicação por este jornal, das contas e cadernetas de dívidas de colonos, com a qual eram denunciados os desmandos dos contratadores de "infelizes serviçaes, que viam indeterminadamente prorogado o tempo de sua libertação como servos da gleba, em que se haviam constituido." Encerrava o argumento perguntando, em vista disso, o que seria então dos "pobres e desprotegidos chins".246

Estas passagens revelam-se sumamente ilustrativas dos grandes suportes do discurso da SCI, discurso racista, é claro, mas sustentado pela perspectiva do colonialismo.

É assim pois vemos, por trás do verniz de urbanidade e da polidez diplomática utilizada para dignatários de uma raça inferior, a decidida postura de rejeição a esta última, com quem se é obrigado a conviver num mundo hierarquizado mas de partes em comunicação.

Em verdade, levando-se em conta a difícil situação histórica do Império Chinês, naquela época de espoliação imperialista mesclada de inferiorização frente ao concerto das nações

"civilizadas", os pedidos de evitar-se a imigração, por conseguinte o contato do chinês com os brasileiros, junto às alegadas preocupações humanitárias com a proteção dos indefesos trabalhadores orientais, reveste-se de uma ácida ironia. Estes textos, provavelmente redigidos pelo autor de Inocência, grande detrator do elemento chinês, ilustram a ideologia colonialista, por agregar o racismo de viés evolucionista com o liberalismo de feições pretensamente humanitárias e favoráveis ao livre jogo de idéias e ações.

Mas os chineses, grande ameaça do período, não foram os únicos elementos raciais cuja entrada no país, junto com a dos japoneses, apontados como uma espécie de fachada sua, na opinião da SCI, deveria ser impedida. Incluídos nesta desclassificação racial estão os eventuais imigrantes africanos, citando-se ainda, nos últimos boletins, os “turcos”. São, entre outros, grandes elementos disfóricos no discurso emanado dos boletins de “A Immigração” e de outros documentos oficiais da SCI. Fiscalizando o assunto, o periódico da entidade denunciava, neste 1888:

“Está averiguado que á rua do Hospicio existem dous grandes depositos de quinquilharias, bugigangas, bentinhos, rosarios, etc., cujos donos mandam vir, á sua custa, do Levante, por via Marselha, esses vendedores ambulantes, homens e mulheres, para darem sahida áquelle genero

246 "Com a China". Idem, p.8.

de negocio, inundando todos os nossos centros de população. Parece que os lucros teem sido muito avultados, de maneira que estamos litteralmente ameaçados de verdadeira praga.”

Anunciava ainda a chegada, no próximo vapor francês, de mais quinhentos desta malvista nacionalidade. Além disso, sempre fiel à sua posição contrária ao que seria puro assistencialismo, informava da presença de vinte e sete “turcos vagabundos” no asilo de mendigos, embora todos possuíssem dinheiro, “alguns de cem a duzentas libras esterlinas.”

247

A imigração indesejada assume imagens catastróficas, de praga, inundação, representada sempre escorrendo, em copiosa quantidade, nos textos. A caracterização reflete a intenção de retirar desses imigrantes indesejáveis a condição plenamente humana.

No texto "A emigração turca" há uma interessante descrição destes recém-chegados do Oriente Médio. Segundo ele, em certo dia, percorria as ruas da cidade do Rio de Janeiro, numa vozearia confusa, uma multidão de "turcos", levando mulheres e filhos. Serviam-se de animais domésticos, amestrados, que utilizavam para conseguir recursos de modo a

"manter-lhes a ociosidade". Traziam os filhos menores atados sobre estes animais "em posição deshumana", e com vozes de lamento, as mulheres os utilizavam para comover a multidão e assim obter sustento para o seu "amor pelo ocio". A partir disto o comentarista assevera que, embora muito se quisesse a imigração, esta deveria ser de famílias que se aplicassem ao trabalho e ensinassem novas técnicas aos brasileiros. Não de turcos, pessoas que saem pelas ruas dançando, vendendo objetos de significado supersticioso e exibindo animais para manter o seu "amor pela vagabundagem". Lembrava que diversos países se fechavam aos turcos. Diz que Taunay já pedira ao governo que trancasse as portas do país,

"para que não infiltrassem em nosso organismo, em vez de sangue forte, o virus malefico de um povo indolente" que abusa da caridade e dos "bons sentimentos" para manter o seu vício, e "incutindo nos filhos os mesmos costumes e assim perpetuando a ociosidade."

Considerações de especialistas no assunto atestam que a denominação “turcos” era genérica. A partir da constatação de que o nome “turcos” revestia uma variedade de populações submetidas ao Império Otomano à época, chegou-se à convicção de que quase todos os imigrados “turcos” no Brasil eram sírios e libaneses. Desde 1871, quando teriam chegado os primeiros “turcos” ao país, os sírios e libaneses deveriam constituir a imensa

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 172-184)