economia nacional. O discurso da SCI era claro a este respeito: a eliminação do escravismo deveria implicar a própria remoção das suas bases sociais de sustentação. O escravo não teria substituto sob quaisquer formas, fossem elas servis ou semi-servis, com imigrantes submetidos a qualquer modalidade de contrato que tolhesse a vontade do trabalhador agrícola, a sua liberdade de vendedor de força de trabalho, e o seu direito de tornar-se um capitalista rural. Daí o ferrenho combate às Leis de Locação de Serviços, consideradas todas prejudiciais, bem como aos agentes comissionados de imigração, apontados praticamente como sucessores dos traficantes negreiros. O discurso da Sociedade Central de Imigração apontava desse modo para a implantação exclusiva de um mercado de trabalho livre no campo e de uma nova classe média de capitalistas rurais. O destino dos velhos latifundiários, neste novo sistema, não traz dificuldades de previsão: deveriam render-se ao progresso, corrigir o descompasso de suas práticas econômicas tradicionais frente ao anunciado avanço das relações capitalistas, sob pena de tombarem junto com o antigo sistema econômico. O discurso da SCI demonstra nesta questão uma faceta reveladora do teor reformista de seu pensamento. A classe dos fazendeiros é uma destinatária privilegiada do discurso. Há o elogio e a valorização de toda iniciativa, partida dos grandes donos de terras, que venha ao encontro das doutrinas preconizadas pela entidade. Por outro lado, usa-se como identificação de interlocutores dissociados da postura esclarecida, a representação dos potentados territoriais, abusivos e insensíveis às necessidades materiais e morais do país. A estratégia do discurso, mais do que constatar as diferenciações de mentalidade no interior da classe dos senhores rurais, fustiga o adversário sem encurralá-lo, a fim de deixar aberta a possibilidade de ajustes em condições razoáveis.
Ou seja, o discurso buscava a todo o transe o convencimento, não a abertura de hostilidades irreconciliáveis. O teor reformista do discurso também se faz nítido no projeto proposto para a questão agrária brasileira, que pode ser enfeixado em sua parte articulada sob o nome de “Democracia Rural”. O termo democracia exige um cuidado em sua interpretação, levando-se em conta o sem-número de sentidos em que o seu signo se desdobrou através do tempo. Para entendê-lo, tomamos como referência o ideário liberal em que se enuncia. Os valores de individualismo, eficiência, adaptabilidade e competição embutidos no projeto permitem sua compreensão como uma proposta restritiva e seletiva, cuja realização e usufruto estavam de antemão destinadas aos capazes e flexíveis. Àqueles que por
deficiência inata ou incapacidade de adquirir os requisitos necessários para exercer o papel de atores enquadrados do processo desta “democracia rural” estava reservada uma peremptória rejeição. Não é cogitada pela SCI a contribuição autônoma tanto dos imigrantes quanto dos nacionais – em suma, dos trabalhadores- nas decisões quanto a todo o processo global de transformação econômica e social. Esta postura exemplifica-se por excelência na preocupação de evitar a introdução de imigrantes contestadores da ordem constituída, tal como se fazia sentir nos Estados Unidos à época, os grandes líderes entre os países de imigração.
Outro sinal de que não se esperava uma reação positiva dos grandes proprietários era o apelo aos poderes de pressão do Estado e da lei, através do imposto territorial, e o interesse em dispor das terras devolutas pela reforma da Lei de Terras de 1850, pelo recurso à desapropriação de terras marginais às ferrovias e outras medidas, entre as quais as inspiradas na Lei Torrens e na experiência de Wakefield, oriundas dos grandes países imigrantistas do mundo. Para esta parte do discurso, vemos o Estado como o maior destinatário. A virtual estreiteza do espaço público e a larga permeabilidade deste à presença do Estado não o tornava apenas o principal destinatário do discurso. A fragilidade da iniciativa particular e a marcante indefinição de limites entre o espaço público de atores individuais, o espaço do Estado e o espaço propriamente privado, obrigava a convocar o Estado no Brasil como agente imprescindível para o sucesso dos planos da SCI.
A SCI imprimiu uma auto-representação construída a partir de sua consciência de elite. Assumindo a causa imigrantista como cruzada, tomaram a postura de combatentes de escol, um conjunto destacado perante o restante da sociedade. Identificados com o que julgavam ser os mais elevados interesses do Brasil, os ideólogos da Sociedade Central colocavam-se numa posição de imparcialidade, acima dos interesses partidários e das classes sociais. Assumiam desta forma uma função de mentores intelectuais de uma política geral para a construção da nacionalidade. Seu respaldo encontrava-se na racionalidade e na eficiência da formação técnica, inconfundíveis com as paixões e os particularismos existentes na sociedade. Especialistas dos assuntos de que tratavam, tiravam da pretensa superioridade do conhecimento científico a autoridade para elaborar as melhores soluções para os grandes problemas do país, expressando-as com a retórica da decisão ponderada, do tecnicismo e do cientificismo. Estes tecnicismo e cientificismo
adotados como fontes do pensamento da SCI são chaves para se explicar a verdadeira química social constante de seus planos, na qual a população brasileira estaria para ser forjada à sua (auto-)imagem e semelhança. O povo brasileiro, com seus negros e homens de cor, que a ciência evolucionista aplicada ao social considerava comprometidos com a inferioridade racial e, mercê desta, cultural, deveria receber o contributo europeu para a construção de uma nação de matriz verdadeiramente civilizada. Branqueamento étnico, aculturação européia, seriam os recursos tanto para a salvação de um Brasil em crise no presente, quanto para garantir a saúde de seu organismo social no futuro.