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O IMIGRANTISMO E SUAS VERTENTES

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 43-53)

ANTECEDENTES E DESENVOLVIMENTO

1.3. O IMIGRANTISMO E SUAS VERTENTES

Um aspecto fundamental do pensamento das elites nacionais do período, frente às necessidades de ajustamento ao capitalismo internacional em expansão e à economia industrial em ascenso nos centros mais avançados do sistema, está na formulação da necessidade cada vez mais urgente de encetar reformas no modelo herdado do passado colonial. Tal postura ideológica é indicada por Maria Thereza S. Petrone:

“O país dos latifúndios escravocratas devia adequar-se às novas necessidades que o capitalismo industrial imprimia ao mundo e para os ideólogos do progresso daqueles tempos o binômio imigrante-pequena propriedade tornou-se ponto-chave de seus pensamentos e de seus programas”36.

Dentre estes citados “ideólogos” é possível distinguir alguns nomes. Desde o Visconde de Abrantes, o qual, em 1846, propunha “um sistema de venda de terras públicas aos imigrantes, regulamentado depois pela Lei 601”37, até publicistas brasileiros que se manifestaram em favor da colonização por meio da pequena propriedade e pela garantia do acesso à terra para os imigrantes, a exemplo de Aureliano C. Tavares Bastos, Augusto de Carvalho e J. C. de Menezes e Souza, vários foram partidários desta modalidade de povoamento e utilização da terra. Destarte, entre estes “ideólogos” pertencentes à elite brasileira, é legítimo incluir-se, senão todos, pelo menos parte expressiva dos membros da Sociedade Central de Imigração, em cujos boletins se detecta a crença no papel futuro da pequena propriedade para o “progresso” e “civilização” do Brasil. Esta alentada expectativa atingia por vezes a intensidade de uma verdadeira convicção, fazendo com que os adeptos deste tipo de povoamento tendessem a vê-lo como a “panacéia” nacional, tal como Petrone diz mais adiante em seu livro: “No pensamento de muitos, a colonização

36 Maria Thereza S. Petrone, op. cit., p.17.

baseada na pequena propriedade na qual seriam instalados imigrantes era a solução para todos os males econômicos e sociais do país”38.

Na elite, o debate sobre os fins e a utilidade da colonização ocupou e dividiu os espíritos. Ele se tornou mais acirrado na década de 1840, por dois motivos: as dificuldades não definitivamente resolvidas de atrair imigrantes da Europa, e a cisão aprofundada na destinação da política imigratória. Uma ala expressiva dos cafeicultores paulistas tencionava aproveitar o imigrante para suprir de mão-de-obra seus cafezais, eis que se previa a extinção do tráfico negreiro. Os dois eixos em que se concentrava o debate sobre a política imigratória e de colonização eram a necessidade de se remover quanto antes a escravidão para que o seu reverso ideológico, o trabalho livre do imigrante, a sucedesse; e as formas de se enfrentar os problemas das colônias e seus componentes, no esforço de alcançar o sucesso econômico.

Um trabalho publicado em 1846 pelo Visconde de Abrantes abordou as duas problemáticas. Este servidor governamental se inclinava para a colonização alemã, para ele a mais apta a superar as dificuldades e oferecer bons resultados. Mais inflamados, publicistas de décadas seguintes debruçar-se-iam sobre as sugestões de Abrantes.

Aureliano C. Tavares Bastos, Augusto de Carvalho e J. C. de Menezes tornaram-se, junto a ele, expoentes da parcela da elite favorável à colonização mediante a pequena propriedade.

Um alvo de suas críticas é o sistema de parceria, tentado pelos fazendeiros paulistas, inspirados no exemplo do Senador Vergueiro na década de 1850, a fim de viabilizar o uso do trabalho do imigrante. A par da condenação da escravatura, a grande propriedade também é representada por estes ideólogos como um estorvo ao desenvolvimento econômico a ser impulsionado pelo trabalho livre e europeu. Põem em relevo a necessidade de taxar com rigor os grandes proprietários que detinham largas extensões de terra sem nelas fazer cultivo, ao passo que ficavam reservadas às colônias de imigrantes pedaços de terra nem sempre apropriadas à agricultura. O modelo de estrutura agrária defendido por estes ideólogos se baseia no farmer norte-americano39.

37 Giralda Seyferth, “Construindo a nação; hierarquias raciais e o papel do racismo na política de imigração e colonização”. In: Maio, Marcos Chor e Santos, Ricardo Ventura (orgs.). Raça, ciência e sociedade. Rio de Janeiro, FIOCRUZ/CCBB, 1996, p.45.

38 Maria Thereza S. Petrone, op. cit., p.18.

39 Giralda Seyferth, op. cit., p.47.

Vale a pena observarmos mais de perto as posições tomadas por Tavares Bastos no tocante à imigração, e não apenas como recurso para ilustrarmos com mais detalhes a existência dessa corrente pró-colonização em pequena propriedade, na época. Interessa principalmente a forma articulada como o citado publicista a defendia dentro do conjunto de propostas que apresentou para o progresso do país, e que os testemunhos indicam haver alcançado repercussão tanto durante a breve vida pública deste parlamentar e jornalista, quanto posteriormente à sua morte prematura, em 1875. Outro motivo para isto reside na iniciativa de Tavares Bastos num sentido prático, no final dos anos de 1860, ao tentar aglutinar forças a favor da imigração, concorrendo decisivamente para a fundação de uma sociedade dedicada a promovê-la. Antes de mais nada, no entanto, é preciso ter em conta que o pensamento do publicista alagoano não atribuía a nenhuma das medidas por ele preconizadas, tais como a imigração européia e a colonização em pequenas propriedades, a qualidade de panacéia dos males brasileiros, diversamente a várias outras opiniões. Mais que isto, a implementação de cada uma delas era representada como eficaz na medida da sua interligação com outras a serem adotadas pela nação, num amplo programa reformista.

A defesa da imigração européia (e também norte-americana) para o Brasil aparece jungida à apologia de outras providências, entre as quais cabe citar a disponibilização das terras devolutas aos imigrantes para a formação de pequenas propriedades, a redivisão da propriedade agrária e a emancipação dos escravos, diretamente associadas à política de imigração no esforço de alteração econômica, e de forma indireta a numerosas medidas ligadas a direitos civis, regime político, etc. Assim é que, além do trato específico tal como aparece em Reflexões sobre a imigração, palavras sobre o tema se fazem presentes em outras partes da obra desse autor, visto numa relação de dependência com outros.

Conforme se lê à página 379 de O vale do Amazonas40:

“A imigração para o Brasil depende certamente de variadas condições: o casamento civil, a liberdade de culto exterior, a proteção e favores aos cultos dissidentes, a discriminação do domínio público, o regime das terras, o sistema administrativo, a escravidão e outras causas conspiram contra esse grande interesse do país.”

40 Apud Evaristo de Morais Filho. As idéias fundamentais de Tavares Bastos. Rio de Janeiro: Difel; Brasília:

INL,1978, p.170.

E ainda liga à questão da imigração algo à primeira vista tão distinto desta: a questão do regime aduaneiro. A envergadura da presença pública de Tavares Bastos, que já era expressiva enquanto vivo, deu bastante ressonância ao conjunto de suas propostas, no qual se inclui o da imigração européia, eis que o parlamentar e publicista representou em sua época uma das vozes categorizadas do liberalismo e dos ideais de progresso, grandemente prestigiados.

Outro imigrantista de relevo foi o médico francês Louis Couty, que se radicou no país e se tornou professor da Escola Politécnica e do Museu do Rio de Janeiro desde 1878.

Trabalhando com uma nova disciplina, a “Biologia Industrial”, o francês pesquisou a realidade brasileira. Assumindo a postura do cientista com olhar objetivo, discriminou aqueles que considerava os grandes problemas nacionais e recomendou soluções para os mesmos. A par da defesa da imigração européia, demonstrando suas vantagens, ele instava com os senhores de escravos por uma melhoria da força de trabalho nas fazendas com a introdução de trabalhadores livres. A pequena propriedade parecia-lhe a forma agrária ideal para aproveitar os recursos da terra e do trabalho, e para isso sua fala aos grandes proprietários territoriais incluía a idéia da venda de terras aos imigrantes e a ligação mais estreita da fazenda com as técnicas de processamento e comercialização racionais da produção agrícola. Em relação aos negros, a opinião que Couty emite é a mais desfavorável possível: seriam incapazes de acompanhar o progresso social anunciado pelo liberalismo, não por sua condição sócio-cultural precária, e sim pela inferioridade da raça à qual pertenciam. Agrilhoados mais a um patamar insuperável na escala racial do que propriamente à escravidão, seriam eles até mesmo responsáveis pelo estado degradado em que viviam nesta. Devido à ociosidade e à sujeição a baixos instintos que os caracterizaria, depreende-se que a própria liberdade representaria para os negros uma vadiagem irremediável, conforme os exemplos e as imagens utilizadas na argumentação do pesquisador francês. A Sociedade Central de Imigração tomou os pressupostos de Couty como uma de suas grandes inspirações. Por ocasião de sua morte prematura, em 1884, cerca de um ano após a composição da sociedade, esta prestou-lhe homenagens, inclusive contribuindo e angariando fundos para erigir-lhe um túmulo monumental, em reconhecimento de sua importância para o encaminhamento da solução imigrantista baseada na pequena propriedade.

Esta seria, nas suas linhas principais, a descrição da corrente ideológica que preconizava a colonização em pequenas propriedades, aquela que julgava imprescindível tornar o imigrante europeu um proprietário rural no próprio momento de sua instalação no país. Não se pode esquecer que nas posturas imigrantistas havia nuances. É o caso daqueles que, embora reivindicassem a imigração européia, não se adentravam na defesa da disseminação da pequena propriedade, como forma de remoção da predominância da grande propriedade. Também é o daqueles que, mesmo reconhecendo a excelência da introdução de europeus, preconizavam, de olho na possibilidade de crise iminente pela falta de braços à lavoura, a utilização de imigrantes negros, ou de coolies indianos e chineses, como paliativos.

Em relação ao setor agrícola e comercial cujo funcionamento representava a mais dinâmica e compensadora atividade da economia brasileira, a historiografia nos mostra, no entanto, que este modelo imigrantista de colonização em pequenas propriedades foi suplantado pela forma como os grandes fazendeiros, nomeadamente os cafeicultores paulistas, desejavam que se utilizasse o braço imigrante.

Historiadora da imigração, e especificamente do imigrantismo, Paula Beiguelman, ao se debruçar sobre este movimento desenvolvido dentro do círculo das elites brasileiras, pôs em destaque aquela que seria a sua liderança mais conseqüente e poderosa. Esta era proveniente do setor de ponta da cafeicultura paulista, o “novo Oeste”, na época disputando o poder de decisão política e concentrando a primazia econômica na cafeicultura, em detrimento do “Oeste antigo” e do Vale do Paraíba, que caminhavam para a decadência.

Em A crise do escravismo e a grande imigração, a autora desenvolve um raciocínio teórico a respeito dos efeitos da adoção do imigrante para o crescimento econômico e a emergência de uma industrialização, num contexto marcado também pelo fim da escravidão. Faz a crítica de uma explicação de certa forma corrente entre os historiadores, em que se aplica um esquema teórico identificando os imigrantes para o Brasil desta época a trabalhadores desenraizados, sem bens de produção e possuidores apenas de sua força de trabalho. A partir dessa premissa, resvala-se para uma analogia desses imigrantes com o proletariado submetido ao capitalismo manufatureiro inglês, massivamente originário dos camponeses atingidos pelo cercamento dos campos e sua transformação em pastagens,

igualmente desenraizados do meio rural. Paula Beiguelman estabelece que este esquema assim utilizado resulta inadequado, pois

“basta observar que a focalização do aparecimento de um proletariado dispondo unicamente de sua força de trabalho tem em vista, em termos de história econômica, explicar a passagem do artesanato à indústria capitalista, na sua etapa manufatureira. Não se trata, evidentemente, de uma chave pronta a ser extrapolada para a análise dos processos particulares de industrialização”41.

Ou seja, o processo de industrialização brasileiro, em especial o paulista, é dotado de uma especificidade que se deve ter sempre em vista. E a forma de instalação do mercado de trabalho livre e assalariado, via cafeicultura paulista, também. Em torno deste ponto, é ilustrativa a análise de Verena Stolcke e Michael Hall, sobre a introdução do trabalho livre nas fazendas cafeeiras de São Paulo. Esta introdução aparece como um processo não tão fácil. O entrechoque entre os interesses e as expectativas mútuas entre fazendeiros empregadores e imigrantes contratados permeia um verdadeiro jogo de acomodação, que inclui desde tentativas coercitivas por parte dos cafeicultores e eclosão de revoltas e tumultos da parte dos recém-chegados até acordos e concessões. No fundo, a classe latifundiária paulista desenvolve pela experiência concreta sua capacidade de lidar com o trabalho livre, cujo dinamismo e caráter contratual eram totalmente estranhos à sua vivência escravocrata. Passando pelas formas principais de contrato e pela disposição de mecanismos de compensação financeira do novo investimento, os fazendeiros mais empreendedores obtiveram para sua classe a solução necessária. A dupla de autores conclui:

“Os fazendeiros que inicialmente assumiram a tarefa de encontrar uma maneira de substituir o trabalho escravo foram os primeiros de um notável grupo de empresários agrícolas e comerciais. A sua decisão de reorganizar a produção mediante o emprego de trabalho livre é por si só sintomática”42.

41 Paula Beiguelman. A crise do escravismo e a grande imigração. 3ª ed. São Paulo: Brasiliense, 1985, p.26.

42 Verena Stolcke e Michael Hall, “A introdução do trabalho livre nas fazendas de café de São Paulo” in Revista Brasileira de História. São Paulo: Marco Zero, nº 6, 1984, p.120.

Outra contribuição importante consiste na análise da identidade dos atores da elite cafeicultora paulista envolvidos no projeto imigrantista. Beiguelman tenta discernir os setores que a formavam, dos quais nem todos estavam acordes na solução que se buscava dar para suprir de braços uma atividade econômica na qual o escravismo se tornava cada vez mais impraticável. Para proceder a esta distinção entre os cafeicultores, ela se apóia no critério geográfico, dividindo o espaço aberto pela fronteira agrícola que a sua atividade ia estendendo. Delineia três áreas econômicas: o Vale do Paraíba e os dois “Oestes”

existentes na segunda metade do século passado: o Oeste antigo, centrado em Campinas, e o Oeste mais novo, centrado em Ribeirão Preto. É reiterado pela autora que, devido ao surgimento posterior de uma outra área a “oeste”, resultante de uma expansão maior da fronteira agrícola, alguns tenderam a designar conjuntamente como “Oeste velho” os dois

“oestes” em questão. Isto produziria um equívoco capaz de comprometer todo o entendimento da situação, por confundir duas áreas diversas não só do ponto de vista econômico, mas político. Ela distingue:

“o Vale do Paraíba, de cultura velha, constitui a área proporcionalmente mais abastecida de escravos em termos de suas necessidades produtivas, e a menos rentável em termos relativos; o Oeste mais novo apresenta atributos opostos; e o Oeste campineiro situa-se intermediariamente”43.

Com efeito, é o Oeste novo, chamado por Octavio Ianni de “segundo Oeste”, que defende com mais veemência a solução imigrantista, na ótica de Paula Beiguelman:

“a lavoura mais nova do Oeste da Província de São Paulo, desenvolvida depois da lei de 1871 (quando decresce o interesse pelo investimento em escravos), tendia a se organizar na base do trabalho imigrante, e se voltava para as possibilidades propiciadas pelo surto imigratório italiano”44.

A autora indica que tal desinteresse evidenciava para o país a viabilidade de se assestar um golpe final na escravatura45. Enquanto outras propostas e tentativas de suprimento de mão-de-obra são derrotadas ou se mostram simples paliativos, a exemplo da

43 Paula Beiguelman, op. cit., p.11-2.

44 Ibidem, p.9.

introdução de coolies, ou do tráfico interprovincial, o escravismo seria golpeado através de leis, como a proibição do tráfico, e a liberdade dos nascituros.

Na defesa da imigração européia em São Paulo, a liderança imigrantista manobraria nos escalões do governo central e provincial, ao mesmo tempo que realizava as suas experiências com o trabalho imigrante; suplantaria as pretensões das outras áreas dentro do espaço cafeeiro, inviabilizando suas propostas alternativas; e marcaria sua posição a nível nacional, como se deu no Congresso Agrícola de 1878. Alcançado o objetivo de iniciar a imigração subvencionada, proposta sua, o “novo Oeste” tornou-se o grande beneficiário das correntes imigratórias, atraindo-as com larga vantagem sobre as regiões congêneres da grande lavoura.

Esta hábil exploração da influência política por parte do imigrantismo paulista se arrematou com a utilização do abolicionismo em seu auge, numa manobra em que, segundo a autora, o primeiro capitalizou o clima de catástrofe induzido pela agitação do movimento abolicionista. O contexto assim criado teria sido indispensável para abalar o equilíbrio de forças, naturalmente tendente a manter o instituto escravista46.

Esta utilização de forma alguma significou uma aliança de irmãos, pois, subjetivamente, os dois movimentos não se identificavam. Joaquim Nabuco, crítico severo do imigrantismo, percebia os desígnios da grande lavoura de “pressionar o trabalho nacional livre e liberto e, principalmente, de perpetuar o sistema territorial e agrícola em que a escravidão se inseria”47. Assim é que, obtida a Abolição, a ascensão do abolicionismo pára bruscamente, sem obter as mudanças de caráter estrutural preconizadas por Joaquim Nabuco, o grande teórico do movimento48. A propósito, podemos, apoiados em Richard Graham49, acrescentar ao nome de Nabuco na pretensão destas mudanças o de André Rebouças, também abolicionista de destaque, além de secretário da Sociedade Central de Imigração, na qual também as defendia.

Outro dado que não deve ser desprezado, num plano mais amplo, é que dentro do encaminhamento do processo político-institucional em que se colocou o problema da transformação do trabalho, mesmo sob pressões sociais exógenas à classe dos grandes

45 Ibidem, p.12.

46 Ibidem, p.16.

47 Ibidem, pp.14-5.

48 Ibidem, p.19.

49 Richard Graham. Escravidão, reforma e imperialismo. São Paulo: Perspectiva, 1979, p.94.

proprietários, a exeqüibilidade da solução imigrantista vinha ao encontro do cuidado geral da classe dominante em se manter como tal numa ordem sócio-econômica a ser modificada por esta transformação.

Comparando os dois sistemas propostos para reger a política imigratória na segunda metade do século XIX, Caio Prado Junior analisa-os, arrolando as vantagens do “plano da

‘colonização’”: Ressalta as perspectivas “mais amplas” defendidas pelos partidários da colonização em pequenas propriedades. E conclui: “A razão última estava com estes, certamente. Mas nada puderam contra o interesse poderoso dos proprietários”50. Ou seja, na correlação de forças políticas envolvidas na questão, o peso daquelas voltadas para o atendimento às demandas da classe dominante compreensivelmente seria o decisivo, naquele momento histórico. Ilustrativo desta postura, reflexo da consciência de sua superioridade político-econômica, era o argumento dos maiores dirigentes da cafeicultura paulista contra o projeto concorrente de colonização: a falta de capitais necessários por parte dos imigrantes; isto tornaria inúteis as tentativas de estabelecê-los em núcleos coloniais nos quais tivessem a chance de obter propriedade de terras.51

Portadores de uma opinião vencida, estes partidários do chamado “plano da colonização”, que o autor não identifica explicitamente, mas que se depreende sejam ligados aos setores “progressistas” e de alguma forma não comprometidos com os interesses estritos da grande propriedade, certamente são ponto de interesse para o estudo a ser empreendido sobre um órgão em que se defendia a imigração e também a pequena propriedade, como o era a Sociedade Central de Imigração.

Cabe lembrar igualmente, que, da mesma maneira como as proposições mais amplas e radicais do abolicionismo foram frustradas mas não perderam, para a história, o seu valor de fermentação ideológica e motor político, quaisquer outras vertentes do imigrantismo não endossados pela cafeicultura do “Oeste novo” merecem exame. No caso da SCI, estamos diante de um locus de formação de opinião e conjugação de esforços sediado na Corte fluminense. O caráter dessa associação pode nos apresentar um viés pouco explorado da visão imigrantista fora de São Paulo, mais próximo talvez à opinião do governo imperial em matéria de política de povoamento. A especificidade do Rio de

50 Caio Prado Junior, História econômica do Brasil, p.193.

51 Paula Beiguelman. A formação do povo no complexo cafeeiro: aspectos políticos. 2a ed. rev. e ampl. São Paulo: Pioneira, 1977, pp.59-60.

Janeiro e sua perspectiva regional novamente podem enriquecer os estudos na área, como o demonstraram trabalhos tais como os de Mary Heisler Motta e Lucia Maria Guimarães.

Por outro lado, a sua condição de capital do país e a presença de atores políticos e sociais com projetos para todo o conjunto da nação constituem fatores de interesse para a avaliação do pensamento norteador da SCI.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 43-53)