Marja Pfeifer Coelho Bruno Kegler Marlise Viegas Brenol Marcelo Xavier Parker Tiago Gautier Ferreira Borges
Manoella Neves
Satiagraha
A constituição de um acontecimento público
Marja Pfeifer Coelho
O que permite estudar um acontecimento público? A pergunta aponta para uma duplicidade: trata-se de questionar não apenas os caminhos e escolhas metodológicas que possibilitam estudar um objeto de pesquisa, mas também o que este esforço de pesquisa permite inferir. Em ambos os sentidos, é o entendimento do conceito de acontecimento público que con- duz às respostas.
Este texto recupera pesquisa de doutorado (Coelho, 2013) que estu- dou a constituição de um acontecimento público ligado ao campo proble- mático da corrupção, a Satiagraha – operação deflagrada na madrugada de 08 de julho de 2008, com o objetivo de desmontar um esquema de desvio de verbas públicas, corrupção e lavagem de dinheiro, e que teve sua anu- lação decidida pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) em 2011 (decisão confirmada pelo Supremo Tribunal Federal em 20151) – em razão da parti- cipação de servidores da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN).
No dia da operação, foram executados mandados de prisão de três personagens já conhecidos publicamente: o banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity2, o empresário Naji Nahas – que ganhou notorieda- de por ter sido acusado de quebrar a bolsa do Rio de Janeiro em 1989 –, e o ex-prefeito de São Paulo, Celso Pitta.
1 Esta decisão é posterior ao período analisado na tese de doutorado, que engloba desde o deflagrar da operação (08/07/2008) até o mês de abril de 2012 – data arbitrária, que foi definida pela presença de ocorrências sobre o acontecimento.
2 De acordo com matéria publicada em 08/07/2008 no site da Procuradoria da República em São Paulo (http://www.prsp.mpf.gov.br/sala-de-imprensa/noticias_prsp/noticia-7666/?searchterm=Satiagraha), as investigações partiram do processo do “mensalão”: duas empresas nas quais o Banco Opportunity tinha participação foram as principais depositantes nas contas do operador do esquema. O escânda- lo conhecido por “mensalão” envolvia um esquema de compra de votos de parlamentares, revelado em 2005 na Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Correios pelo ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB). De acordo com a denúncia, parlamentares recebiam quantias mensais para aprovar projetos do governo. O escândalo marcou o primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006).
As prisões de Pitta e Nahas foram acompanhadas com exclusividade pela Rede Globo de Televisão. Pitta foi flagrado abrindo a porta de sua re- sidência de pijama. Na mansão de Nahas, as câmeras acompanham o cerco da polícia, que acaba pulando o muro para efetuar a prisão. A veiculação das imagens provoca manifestações de outros atores: a operação é publi- camente criticada pela via da espetacularização pelo então presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes. A exclusividade é in- vestigada enquanto vazamento – o que acaba por levar o foco de atenção dos crimes à própria operação.
Na noite seguinte (09/07/2008), Gilmar Mendes decide liberar Dan- tas3. O banqueiro, entretanto, permanece cerca de dez horas em liberdade:
o juiz Fausto De Sanctis, que já havia decretado a primeira prisão, decide novamente decretar a detenção preventiva de Dantas, alegando a tentati- va de suborno de um delegado da PF. No mesmo dia, Mendes procederá novamente à soltura de Dantas. O vaivém provoca uma crise entre insti- tuições da Justiça: Mendes pede que o Conselho Nacional de Justiça inves- tigue o Juiz; o Ministério Público Federal posiciona-se a favor das prisões;
manifestos de apoio a De Sanctis são divulgados.
Publicamente, para além dos crimes investigados, a operação provo- ca, então, uma série de debates e contraposições sobre impunidade, sobre liberdades e garantias individuais e interesse público. Nesta linha, diversas instituições passam a se manifestar ou se ocupar do acontecimento.
Da esfera jurídica, a Satiagraha é apropriada pelo Legislativo, onde uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a investigar es- cutas telefônicas clandestinas/ilegais (a “CPI dos Grampos”) já estava ins- talada. Conversas gravadas durante a operação Satiagraha começam a ser publicizadas. Rumores de que os grampos tivessem chegado ao próprio STF acirram as posições entre as instituições. A temática da espionagem é reforçada quando o próprio diretor-geral da PF, Luiz Fernando Correa, admite ao presidente do STF que investigadores (“arapongas”, no jargão midiático) da Agência Brasileira de Inteligência participaram da Operação Satiagraha – motivo que levou à anulação da operação pelo STJ.
Este regime de dúvida em relação à Satiagraha é uma das marcas do acontecimento, levando a uma ambiguidade de posições dos principais ato- res entre o heroísmo e a vilania. O delegado Protógenes Queiroz, respon- sável pela investigação, é afastado, denunciado por quebra de sigilo (por passar informações da operação a jornalistas da Rede Globo de Televisão)
3 Nahas e Pitta serão soltos em 10/07/2008.
e por fraude processual, condenado, mas eleito deputado federal em 20104. O próprio banqueiro Daniel Dantas, preso e liberado por duas vezes, é de- nunciado e condenado por corrupção, mas seus processos são anulados junto com as provas obtidas pela operação.
Outra marca é a participação da mídia, que não se restringiu à ex- clusividade obtida pela Rede Globo no deflagrar da operação. A mesma emissora chegou a participar das investigações, com a gravação de uma tentativa de suborno a um dos delegados (o que motivou a condenação de Queiroz por fraude processual). Além disto, uma matéria publicada pelo jornal Folha de S.Paulo antes mesmo da operação terminou por beneficiar um dos investigados.
Por fim, uma última característica a ser ressaltada sobre a Satiagraha é o envolvimento de todos os poderes do Estado, especialmente da Justiça, expondo embates entre instâncias variadas, e em tal grau, que são publica- mente tratadas, em alguns momentos, como crises entre os poderes.
Essas três singularidades tornam a operação um acontecimento in- teressante para pesquisa, do ponto de vista das relações entre mídia e ins- tituições políticas em torno da visibilidade, tendo como pano de fundo o problema da corrupção, tão danoso às democracias contemporâneas. En- tender e analisar a Satiagraha como acontecimento público demandou cer- tas escolhas metodológicas e permitiu avaliar disputas de papéis de legiti- mação do regime democrático desempenhados por diferentes instituições sociais, incluindo o jornalismo. Para refazer este caminho, é preciso partir do conceito de acontecimento e entender sua qualificação como público.