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Crise de representatividade e repertórios de confronto

As sociedades capitalistas ocidentais atravessam, já há alguns anos, o que Hardt e Negri (2005) chamam de crise das democracias representati- vas. As próprias ocupações, objeto deste artigo, são sintomas desta crise.

Durante os grandes protestos de 2001 e 2002 na Argentina, quando o país teve cinco presidentes e dois ministros da Economia em um período de duas semanas, um dos gritos que marcaram as praças e demais espaços públicos ocupados pela população era Que se vão todos!, numa absoluta descrença na capacidade e na boa vontade da classe política. Em Madri, em 2011, durante a ocupação da Puerta del Sol, gritos como O povo unido não precisa de partido, Democracia real já e Não nos representam tornaram-se bastante populares e correram o mundo, sendo empregados em protestos semelhantes ao redor do planeta. Durante o Occupy Wall Street, no centro financeiro de Manhattan, também em 2011, os políticos do país eram se- guidamente retratados em discursos, peças gráficas, cantos ou encenações teatrais como meros fantoches do sistema financeiro.

No Brasil há também uma absoluta desconfiança da população com relação à classe política. Isso já havia ficado claro durante as mobilizações de junho de 2013, mas ganhou contornos dramáticos a partir das grandes marchas de 2015, contrárias e favoráveis à ex-presidenta Dilma Rousse- ff. A polarização que se viu nas ruas, nas discussões corpo a corpo e nas diversas plataformas de comunicação digitais, os verde-amarelos de um lado, os vermelhos de outro, culminou com o processo de impeachment, definitivamente sacramentado no dia 31 de agosto de 2016. Paralelamente ao percurso que levou à mudança na mais alta cúpula do poder governa- mental, revelações da Operação Lava-Jato, iniciada pela Polícia Federal em 2014, mostraram a profundidade – e a promiscuidade – das relações entre parlamentares e grandes empresas no país, reforçando a rejeição ao cor-

po político nacional e alçando o poder judiciário a uma espécie de último bastião da ética e da moral nacional – pelo menos aos olhos de parte da opinião pública.

E é neste tumultuado cenário político, de profundo abatimento dos setores progressistas da sociedade civil brasileira, que três propostas legis- lativas – mas especialmente uma delas – vão deflagrar uma série de ocu- pações em várias universidades federais de diversas cidades brasileiras.

Ocupações que, diretamente inspiradas na aplicação do mesmo repertório por parte de estudantes secundaristas a partir de 2015, sacudiram a apatia que pairava sobre setores da esquerda nacional, ainda desestabilizados pela recente remoção da presidenta eleita pelo voto popular antes ainda da me- tade de seu mandato. Jovens com poucos recursos, além de sua indignação, confrontando um oponente muito mais poderoso e chamando para si os holofotes da sociedade ao assumir o papel da resistência que tem alimenta- do os movimentos sociais através da História.

Os projetos que acenderam o gatilho de pólvora nas instituições fe- derais de ensino foram o PL da Reforma do Ensino Médio2, estopim das ocupações em escolas estaduais meses antes; o Projeto Escola sem Parti- do3 e a então Proposta de Emenda Constitucional 554, a chamada PEC do Teto de Gastos, que impõe severas restrições nos gastos públicos durante os próximos 20 anos. Esta última foi, de fato, a principal motivação das ocu- pações, devido às consequências negativas que deve trazer para a educação no Brasil pelas próximas duas décadas.

Mas, uma vez que as condições para o confronto se apresentem e fica definida a intenção de agir coletivamente para alcançar um objetivo polí- tico, é preciso decidir que táticas utilizar para que suas demandas alcança- rem o alvo. Em outras palavras, quais repertórios aplicar. Repertórios de confronto são “formas de ação coletiva” (Tilly; Tarrow, 2008, p. 20), estra- tégias utilizadas por movimentos sociais para estabelecer uma política con- tenciosa contra seus adversários. São basicamente de três tipos: violentos;

disruptivos (que provocam ruptura); ou convencionais (demonstrativos).

Como destaca Tarrow (2009), embora sejam diferentes em muitos aspec-

2 A Medida Provisória 746/16, conhecida como Projeto de Reforma do Ensino Médio, foi sancionada pelo presidente Michel Temer em 16 de fevereiro de 2017.

3 O anteprojeto de lei denominado Escola sem Partido deu origem a uma série de projetos semelhantes que estão tramitando em nove estados brasileiros. Em comum entre eles, a intenção de impor restrições ao comportamento de professores nas salas de aula.

4 Durante as votações na Câmara dos Deputados, que precederam as do Senado, ela era a PEC 241, tornando-se a PEC 55 ao chegar ao Senado. Sua aprovação definitiva se deu em votação do segundo turno no dia 13 de dezembro de 2016, com o placar de 53 votos favoráveis e 16 contrários.

tos, todos eles são performances públicas, pois tomam corpo em espaços públicos e buscam visibilidade para atingir a públicos específicos. Mas, para o autor, os repertórios que provocam ruptura são a arma mais forte destes grupos, empoderando atores fracos em seu litígio contra oponentes poderosos. Muitos movimentos que iniciam com repertórios de ruptura acabam se institucionalizando e perdendo o caráter contencioso. Outros dão um passo mais radical e passam a praticar atos violentos, cansados de serem ignorados ou criminalizados pela mídia e reprimidos pela força bruta do Estado. A deflagração de um conflito, portanto, talvez não seja o mais difícil, mas sim mantê-lo por tempo suficiente para que seus objetivos sejam atendidos. Como destaca Tarrow (2009, p. 130), “Sustentar a ruptura depende de um alto nível de compromisso, de manter as autoridades em desequilíbrio e de resistir à atração tanto da violência quanto da conven- cionalização”.

Os repertórios escolhidos para a luta política são, geralmente, herda- dos de outras situações de confronto e sofrem adaptações de acordo com a ocasião, o grau de força do oponente e o objetivo a ser alcançado (Tilly;

Tarrow, 2008, p. 40). Esta escolha também é influenciada pela História e por uma espécie de herança genética cultural:

Os trabalhadores sabem como fazer greves porque gerações de traba- lhadores as fizeram antes deles; os parisienses erguem barricadas por- que as barricadas estão inscritas na história do confronto parisiense;

os camponeses tomam terras portando símbolos que seus pais e avós usaram no passado (Tarrow, 2009, p. 40).

Símbolos, canções, bandeiras, palavras de ordem, objetos portadores de discurso como cartazes e faixas são expressões de comunicação radical presentes em diversos tipos de repertório, são heranças culturais de lutas políticas ancestrais. Dificilmente em uma marcha por direitos civis, polí- ticos ou sociais, por exemplo, não se escute o grito O povo unido, jamais será vencido. Ou ainda, no caso das cores, raros são os movimentos pro- gressistas que não se utilizem do vermelho como tom predominante. Os repertórios passam por períodos de maior utilização e por fases em que são esquecidos ou preteridos, em detrimento de outros considerados mais eficazes. E difícil precisar quais as razões pelas quais, em determinado mo- mento histórico, se tornam tão populares que podem chegar até à banali- zação, tal a frequência com que são utilizados. Segundo Tarrow (2009, p.

136), “Quando uma nova forma é ‘descoberta’, sua adequação a uma nova situação torna-se imediatamente óbvia, é amplamente adotada, espalha-se

rapidamente e dá a impressão de ser uma inovação dramática”. No caso das marchas no Brasil, citadas anteriormente, elas certamente sofreram uma influência das que haviam ocorrido em 2013 – independentemente das ra- zões que as geraram. Mas pode-se dizer que a frequência com que foram adotadas fez com que perdessem um pouco do impacto que causaram, tan- to em junho de 2013 quanto em março de 2015.

Embora o imaginário sobre os protestos de 2013 tenha registrado aci- ma de tudo as mobilizações de dezenas de milhares de pessoas percorrendo as principais ruas das principais cidades brasileiras, as ocupações causaram um impacto muito grande na continuação daqueles conflitos, especialmen- te nos meses de julho e agosto. A Câmara dos Vereadores de Santa Maria, no interior gaúcho, foi o primeiro centro de poder político ocupado naque- le ano – o único ainda no mês de dezembro5. Nas semanas seguintes, deze- nas de outras sedes dos poderes legislativos municipais e estaduais também foram ocupadas, em diversas cidades brasileiras. A forte repressão das polí- cias locais e a criminalização de manifestantes fez com que o emprego deste repertório arrefecesse, já que a permanência em um local físico delimita- do favorece tanto a identificação quanto a prisão dos ativistas. Mesmo em 2014, durante protestos contra a realização da Copa do Mundo, as marchas foram o repertório mais escolhido – ainda que não se tenha conseguido repetir os números espetaculares do ano anterior. Mas, como veremos a seguir, a ocupação como forma de ação coletiva foi retomada com força no final de 2015 por jovens estudantes de escolas públicas paulistas, causando novas tensões com o Estado e dando um sopro de renovação na história dos conflitos políticos no Brasil.

A ocupação é um repertório de confronto disruptivo, que tem sua força na quebra das atividades do cotidiano e na atenção midiática que tal ação deseja atrair. Nos últimos anos, tem sido uma das ações coletivas mais empregadas por grupos de ativistas pela educação em vários países do mundo, mas podemos remontar a várias décadas para encontrar pre- cedentes. Estudantes negros ocuparam faculdades dos Estados Unidos na década de 1960, em protesto contra políticas segregacionista e a cultura do racismo. Jovens de várias etnias tomaram universidades norte-americanas, na mesma época, em desagravo ao presidente Richard Nixon e em posição

5 Outra peculiaridade interessante no caso de Santa Maria é que, ao contrário das ocupações que vieram logo a seguir e que eram formadas majoritariamente por jovens, na cidade do interior gaúcho boa parte dos ocupantes era de pessoas de meia-idade ou mais. Tratava-se de pais de jovens mortos no incêndio da boate Kiss, ocorrido poucos meses antes, e que se juntaram aos manifestantes do transporte público, unificando as lutas e dando força ao movimento, além de uma legitimidade simbólica maior à ocupação.

contrária à Guerra do Vietnã. Os repertórios se difundem como que por contágio. Mais recentemente, no Chile, em 2006 e 2011, e no Canadá, em 2013, também ocorreram ocupações de escolas e universidades por parte de estudantes.

Geralmente as ocupações são programadas, previamente combinadas.

Mas podem também ser um repertório de momento, eleito no calor dos acontecimentos, como aconteceu em maio de 2011 em Madri. Após uma marcha que percorreu diversas ruas e reuniu dezenas de milhares de pes- soas, chegando na Puerta del Sol, marco simbólico da capital espanhola, alguns grupos decidiram passar a noite e então teve início a Acampada de Sol, que deu origem a diversos coletivos e inspirou movimentos semelhan- tes em muitas cidades espanholas. Diferentemente das marchas, onde o número de participantes é fundamental para o objetivo que se quer atingir, na ocupação ele não é determinante para o sucesso ou não da ação. É claro que, normalmente, o objetivo pode ser mais facilmente alcançado com um número grande de pessoas, além da importância simbólica de uma ampla adesão ao movimento, mas poucos ativistas podem realizar a ocupação de prédios importantes e/ou áreas bem significativas, principalmente se não enfrentarem resistência física no momento.

No caso da ocupação da Faculdade de Biblioteconomia e Comuni- cação (Fabico) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)6, sessenta alunos7, em um total de 1.410, paralisaram praticamente todas as atividades administrativas e letivas da faculdade durante 53 dias; subver- teram a rotina universitária; transformaram salas de aula em dormitórios, cozinha e sala de imprensa; impuseram restrições e regras para a entrada de pessoas no prédio – inclusive seus superiores hierárquicos professores –, criaram novos horários e agendas de atividades para a instituição, com aulas propostas por eles ou por simpatizantes e voluntários, oficinas, reuni- ões ordinárias e extraordinárias – abertas ao público ou restritas apenas aos ocupantes; organizaram apresentações musicais, teatrais, saraus; estabele- ceram regras de convivência para eles mesmos; debateram diariamente te- mas como o racismo, a homofobia, as cotas, a política nacional; e, enquan- to ocupantes sustentando uma situação de confronto, demandaram pautas

6 A ocupação foi definida em assembleia convocada pelo Centro Acadêmico de Biblioteconomia, Arqui- vologia e Museologia (CABAM) e pelo Diretório Acadêmico da Comunicação (DACOM) e realizada no dia 31 de outubro. Assinaram a Ata de presença 170 pessoas, entre alunos da graduação, pós-gradu- ação, professores e demais servidores.

7 O movimento contabiliza em sessenta as pessoas que de fato se engajaram de corpo e alma na ocupação.

Mas considera que o número pode superar os 150 se levarem em conta pessoas que não dormiam, mas compareciam regularmente em outros períodos, além dos que prestavam outros tipos de ajuda.

importantes dos poderes públicos, tanto o federal quanto às direções da faculdade e da universidade.