importantes dos poderes públicos, tanto o federal quanto às direções da faculdade e da universidade.
de detenções ou tentativas de criminalização do movimento. Assim que a Ocupa Fabico começou, os alunos foram contatados pelo Comitê de Apoio às Ocupações (CAO) que realizou duas visitas ao prédio. Um cartaz no sa- guão da ocupação continha os telefones dos advogados, caso surgisse uma urgência.
As ocupações de universidades brasileiras têm demonstrado seme- lhanças, tanto entre elas como com outras experiências recentes em di- versos países, que permitem listar alguns padrões neste repertório de confronto. Devido ao caráter estritamente coletivo desta ação, ela implica necessariamente em uma distribuição de tarefas e na formação de comis- sões. Durante o Occupy Wall Street, por exemplo, foram organizadas
[...] biblioteca, cozinha e clínica médica gratuita, equipes de transmissão de vídeo pela internet, comitês de artes e entretenimento, pelotões de limpeza, e assim por diante. Em pouco tempo, 32 grupos de trabalho se formaram, do grupo da Moeda Alternativa a uma convenção dos falan- tes de espanhol. Assembleias gerais eram realizadas diariamente às 15h (Graeber, 2015, p. 72).
Na Ocupa Fabico foram criadas seis comissões, definidas nas primei- ras horas de ocupação. As quatro primeiras eram voltadas para a logística interna da permanência no prédio: Comissão de Alimentação; Comissão de Segurança; Comissão de Limpeza e Comissão de Organização (respon- sável por saber quantos vão dormir, providenciar colchões, arrumar o sa- guão para as atividades como aulas e oficinas etc). As outras duas comissões eram voltadas para a imagem pública e a relação do movimento com outros públicos: Comissão de Comunicação e Comissão de Articulação (respon- sável pelas questões institucionais ligadas à ocupação em si, como reunião com professores, com os diretores da Faculdade e com a Reitoria). Os alu- nos se ofereceram para integrar as comissões de acordo com suas aptidões.
A horizontalidade não é um fenômeno novo na história da luta po- lítica. Segundo Gitlin (2012), desde a segunda metade do século XX, nos Estados Unidos, isso tem ocorrido cada vez com mais frequência. De ins- piração anarquista, o modelo baseia-se essencialmente na recusa de que al- gumas pessoas possam usufruir de mais legitimidade que outras na tomada de decisões: “Desde os anos 70 ativistas se revoltam contra a autoridade de quem quer que seja, inclusive deles próprios” (Gitlin, 2012, p. 83). Em pra- ticamente qualquer ocupação recente que se analise, veremos um número impressionante de assembleias gerais, numa tentativa de instituir processos de democracia direta que não apenas determinem o funcionamento inter-
no dos movimentos, mas que também sirvam de parâmetro para a nova sociedade que se deseja atingir, com a participação direta dos envolvidos substituindo o sistema representativo.
Este modelo horizontal é experimental, definido muito mais no calor do acontecimento do que a priori, embora certas heranças culturais já deem de início uma ideia do tipo de movimento que se quer construir. Por estas ca- racterísticas, tende a ser aprimorado à medida que as ações vão transcorren- do. Um dos problemas sentidos por alguns ativistas-pensadores que partici- param do Occupy Wall Street, por exemplo, foi o excesso de deliberação: “Era antidemocrático debater pequenas questões por três horas” (Gitlin, 2012, p. 96-97). Naquela situação, foi decidido logo nos primeiros encontros que nada seria votado; o método seria trabalhar pelo consenso, buscando chegar a uma síntese que de alguma maneira contemplasse toda a assembleia. Mas a estes encontros às vezes iam mais de mil pessoas, tornando algumas discus- sões pouco produtivas. Segundo Gitlin (2012), algumas poucas pessoas às vezes bloqueavam o consenso, estendendo as reuniões por longos períodos.
Na Ocupa Fabico, as assembleias funcionavam com um debate sobre os te- mas, na primeira parte, e em seguida vinham as votações.
Outra característica do modelo horizontal é a inexistência de líderes, pelo menos de maneira explícita. Buscando coerência ao não reproduzir internamente o que criticam no sistema político vigente, a representação, os movimentos nomeiam porta-vozes quando há necessidade de algum tipo de exposição externa. Mas, na prática, esta recusa formal de eleger lideranças, apresenta contradições, uma vez que naturalmente algumas pessoas, por questões de carisma pessoal ou mesmo de ideias que costu- mam ser bem recebidas pelo grupo, passam a ser vistas como referências importantes no movimento. Como bem coloca Gitlin (2012, p. 101-102),
[...] em todos os grupos sociais os líderes aparecem. Eles surgem no cur- so da ação, quando emergem os atos de liderança. [...] Alguns são rotu- lados assim, outros não. Alguns aceitam o rótulo, outros não. Aqueles que conquistam uma reputação de liderança são tratados como líderes.
É simples (e complicado) assim: Líderes são pessoas que os outros se- guem – admiram, prestam atenção, reconhecem.
No caso da ocupação da Fabico, sempre houve relutância por parte dos alunos de assumirem uma posição de liderança, ainda que alguns tivessem uma ascendência natural sobre os colegas. Isso se dava por duas principais razões: medo de perseguições e represálias por parte de autoridades da pró- pria universidade ou mesmo das forças de repressão do Estado; e receio em
ferir o estatuto informal da ocupação, que prezava a horizontalidade e as tomadas de decisão numa espécie de democracia direta. Raramente o mes- mo ocupante era escalado para mais de uma entrevista, ou para qualquer atividade externa que implicasse em algum tipo de exposição pública – ex- posição que pode ficar bem maior quando são postados vídeos em redes sociais como o youtube e o facebook. Por um lado, os movimentos precisam de visibilidade, por outro, receiam a criminalização e a demasiada persona- lização do grupo a um integrante em particular.
Mas ainda que nenhuma das Ocupas UFRGS tenha designado líde- res oficiais, o jornal Zero Hora publicou matéria mostrando quem seriam, supostamente, alguns dos líderes do movimento11. A reportagem destaca- va três estudantes, todos eles ligados a partidos políticos de esquerda. Na Ocupa Fabico, por exemplo, havia alunos-ocupantes ligados ao PSOL e ao PT. A filiação a um partido costuma ser apontada pela mídia como uma mácula na militância social. Esta necessidade midiática de individualiza- ção de uma ação coletiva, de personificação de um grupo social é bem ilus- trada por Gitlin (2012, p. 103): “O aparato das celebridades necessita delas, procura-as e as encontra”.