que o acontecimento público é ou será, em sua configuração, também um acontecimento jornalístico (sendo o reverso não válido, como visto), mais e necessariamente que um acontecimento midiático.
Sendo assim, o jornalismo é fonte fundamental para a apreensão da constituição pública dos acontecimentos, conforme Babo-Lança (2011).
Constituição que implica na “estabilização de uma definição comum”: “a narrativa e o relato jornalísticos ajudam a estabilizar o acontecimento e a reduzir sua contingência” (p. 06). As notícias contam (com as ambigui- dades próprias de sua produção), as arenas reagem, os atores trocam suas posições óticas, a experiência pública se configura.
Com esta formulação teórica, é possível depreender que estudar um acontecimento público requer buscar este caráter em sua tripla dimensão;
dar conta da visibilidade e da ação pública – especialmente dos jogos dis- cursivos que se estabelecem em torno dos problemas públicos que o acon- tecimento provoca. Este texto relata como esta tarefa foi empreendida para a Satiagraha.
No estudo da Satiagraha, foram necessárias operações de reformula- ção de uma narrativa com diversas fontes, identificando adensamentos de visibilidade, temas, atores, conflitos. Os procedimentos foram viabilizados por uma combinação de movimentos, entre Análise de Conteúdo e Narra- tologia: enquanto a primeira foi utilizada para apontar regularidades, di- mensionar o acontecimento (como propõem Leal e Antunes, 2011) e abrir entradas para a narrativa, dando conta especialmente da visibilidade ob- tida, esta proporcionou o acesso aos jogos de linguagem e à disputa pela palavra pública – às intrigas, conflitos, às ações operadas pelos sujeitos afe- tados, às suas estratégias, como lembra Motta:
As narrativas são formas de relações que se estabelecem por causa da cultura, da convivência entre seres vivos com interesses, desejos, von- tades e sob os constrangimentos e as condições sociais de hierarquia e de poder. [...] Quem narra tem algum propósito ao narrar, nenhuma narrativa é ingênua (Motta, 2007, p. 146).
Entende-se que para reconstituir um acontecimento público é neces- sário abordar uma dimensão midiática, mas também outras arenas mobili- zadas. Em um primeiro momento, portanto, foi necessário delimitar onde/
de quais veículos ou lugares seriam retiradas as narrativas e ocorrências.
A constituição do universo de pesquisa obedeceu a algumas observações iniciais sobre a Satiagraha e a participação dos atores. Os principais sujei- tos/instituições – assim considerados aqueles que se manifestaram publi- camente ou que tiveram grande envolvimento nas tramas – foram incorpo- rados ao universo de pesquisa.
Uma primeira seleção foi elaborada com base nos veículos que parti- ciparam do acontecimento. Como a Rede Globo de Televisão acompanhou com exclusividade a operação e participou da filmagem da tentativa de su- borno de um delegado da PF, suas matérias não poderiam deixar de ser incluídas. Optou-se pelo que foi veiculado no Jornal Nacional, principal telejornal da Rede.
O jornal Folha de S.Paulo (FSP), que publicou a reportagem anterior à operação, também foi por isto incorporado ao universo de pesquisa. Ainda neste sentido, a revista Veja, responsável pela divulgação do grampo entre o ministro Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres, também foi selecionada.
Por fim, considerou-se interessante agregar também ao universo de pesquisa outro veículo, O Estado de São Paulo. Além da questão simbó-
lica de se tratar de mais um jornal de referência5, suas matérias integram a Agência Estado, uma das principais agências de notícias do país. Desta forma, amplia-se a visibilidade como critério para o corpus, sabendo-se que se trata de qualidade fundamental na conformação de um acontecimento público.
Optou-se por uma busca nos acervos digitais dos veículos escolhidos.
O termo utilizado foi “Satiagraha”, resultando em muitas ocorrências em todos eles; inclusive expandidas no tempo. Por fim, também foi realizada busca pelo mesmo termo “Satiagraha” nos portais do Senado Federal, da Câmara Federal, do Ministério da Justiça, do Supremo Tribunal Federal (STF), do Superior Tribunal de Justiça (STJ), da Justiça Federal, Ministério Público Federal, ABIN e Polícia Federal – sujeitos e instituições envolvidos.
A ideia era ter um registro de quando houve alguma divulgação sobre o acontecimento a partir de estruturas de comunicação destas instituições.
Para todo este levantamento, também foi necessário determinar um período, que inicia, necessariamente, em 08/07/2008, data em que a ope- ração foi deflagrada. O corte final foi arbitrário, encerrando o intervalo em abril de 2012 – mês em que ainda ocorreram referências à Satiagraha na cobertura da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Cachoeira6.
Uma segunda operacionalização realizada tratou de dispor as ocor- rências do universo de pesquisa em relação ao tempo, a fim de identificar adensamentos – possibilitando assim, lidar diretamente com um dos parâ- metros de pesquisa, a visibilidade. Esta ação foi operada para as fontes da mídia, apontando os momentos em que o acontecimento teve maior pro- dução deste campo. Assim, escandindo as ocorrências dos quatro veículos, foi possível perceber quando todos deram atenção à Satiagraha, em proces- so de orquestração, como visto com Alsina (2009), quando é valorizada sua transcendência social.
5 Este conceito, de acordo com Berger (2003, p. 47), provém de uma pesquisa sobre Comunicação e Pro- dução da Realidade desenvolvida em doze países, analisando os jornais que servem como referência em cada um deles, com os textos publicados em Imbert e Vidal-Benyato (1986) e Imbert (1987). De acordo com Marocco (2011, p. 91), Vidal-Benyato (IMBERT e VIDAL-BENYATO, 1986) estipula três características para um jornal deste tipo: servir de referência para outros veículos, pautando-os; ser lugar privilegiado para a presença e expressão de políticos, instituições, entidades, para a comunicação com grupos dirigentes; servir como fonte para embaixadas estrangeiras sobre a realidade e os proble- mas do país.
6 Comissão Parlamentar Mista de Inquérito criada em abril de 2012 para investigar a atuação do empre- sário de jogos ilegais Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, e suas ligações com agentes públi- cos e privados. A CPMI baseou-se na operação Monte Carlo da Polícia Federal. Nas últimas ocorrências coletadas para o universo de pesquisa, a Satiagraha é relembrada a partir de Protógenes Queiroz e de suas relações com Idalberto de Araújo, sargento aposentado da aeronáutica que atuou na operação e que foi preso em 2012, durante a operação Monte Carlo.
Já as ocorrências registradas nos sites institucionais de órgãos do Es- tado surgem quando estes atores se envolvem diretamente com o aconte- cimento e foram utilizadas, em segundo momento, para cotejamento das ações dos sujeitos e instituições, e do que não foi visibilizado (ou o foi com pouca intensidade) pelos veículos selecionados.
O corpus final da pesquisa resultou em 587 edições dos quatro veí- culos analisados, e por 514 ocorrências nos sites institucionais. Para a mí- dia, a operação seguinte foi discriminar as entradas por formatos e gêne- ros, de forma quantitativa, demonstrando a relevância e a participação de diferentes vozes nas notícias, ao longo do tempo. Para as instituições ana- lisadas, a distinção feita mostrou formas diferenciadas de se comunicar – por notas ou notícias – e a apropriação do acontecimento pelos órgãos públicos em momentos diversos: há uma transição entre 2009/2010 que demarca a saída do acontecimento de um plano mais político, com alta produção da Câmara dos Deputados e do Senado (a Satiagraha pautou uma Comissão Parlamentar de Inquérito em andamento no congresso), para uma “judicialização” do acontecimento, em que o peso das ocor- rências ligadas ao Poder Judiciário aumenta, e também o das produzidas pelo Ministério Público Federal.
Se esses movimentos deram conta da amplitude e visibilidade do acontecimento – de sua publicidade como compartilhamento e como envolvimento de instâncias variadas –, a entrada propriamente na nar- rativa buscou as intrigas, as disputas. Para tanto, cada ator implicado foi apresentado7; a entrada do acontecimento em cena, o deflagrar da opera- ção, foi recuperada através da veiculação com acompanhamento exclusi- vo da Rede Globo de Televisão, compondo o “marco zero” da narrativa;
por fim, os títulos em capas dos impressos analisados e das escaladas do telejornal, somados aos das ocorrências dos sites institucionais, foram classificados em temas, abrindo a narrativa para os principais conflitos registrados.
Partindo da veiculação com exclusividade das prisões de Dantas, Pitta e Nahas pela Rede Globo de Televisão, observou-se que a narrativa tomou diferentes rumos temporais: aquela que se refere “ao passado”, relativa, em um primeiro momento, às investigações realizadas pela PF sobre os delitos cometidos; a relacionada “ao futuro”, com os desdobramentos, especial- mente jurídicos, da operação; e a que trata de recontar o “tempo zero”, a operação em si, como foi deflagrada.
7 Ver detalhamento em COELHO, 2013.
A grande reviravolta deste acontecimento está na imbricação destas temporalidades: a própria operação é investigada – e então sobre ela é feita uma prospecção “do passado”, para além do seu deflagrar, com im- plicações “no futuro” – a operação termina por ter suas provas anuladas judicialmente.
Na narrativa, o “nó” sobressai no momento em que o então ministro da Justiça Tarso Genro determina a investigação para apurar possível vaza- mento na operação. Este deslocamento é provocado em razão da visibilida- de na Rede Globo de Televisão.
Optou-se por caracterizar os conflitos partindo das oposições/posi- cionamentos entre os atores envolvidos. Esta escolha segue o entendimento de Motta e Guazina (2010), de que o conflito é uma categoria cara à políti- ca, onde o embate entre concorrentes é próprio à dinâmica do campo polí- tico, e ao jornalismo, para o qual opera não apenas como um valor-notícia, determinando a seleção de fatos, mas na elaboração da notícia, enquanto uma “metacategoria dramática” (p. 134).
Em determinados momentos, a mídia figurou na Satiagraha como ator, entrando na narrativa para se manifestar em oposição a outros ato- res. Isto ocorreu nos episódios em que houve necessidade de defesa de sua atuação: logo após a entrada do acontecimento em cena, sob a temática do vazamento; no tema “Michael”8, recontado a partir da negativa ao pedido de prisão da jornalista da Folha de São Paulo; sob a temática “suborno”, por ocasião da revelação de que um cinegrafista da Rede Globo participou de filmagens durante a investigação.
Outros conflitos implicaram embates travados entre instituições do Estado. Nestes conflitos, a mídia também desempenha um papel im- portante, na medida em que tece discursivamente as oposições, muitas vezes reforçando antagonismos, provocando respostas, promovendo a própria dinâmica agonística – mas os principais opositores são da esfera política. Foram examinados conflitos envolvendo os temas “algemas”9,
8 Episódio anterior à operação, em que a jornalista Andréa Michael, da Folha de S.Paulo, publica matéria sobre a investigação em curso, quando esta ainda era sigilosa. A divulgação permite à defesa de Dantas ingressar com um habeas corpus preventivo, tendo encadeamento direto, portanto, com o tema “pri- sões de Dantas”. Além disto, serve como referência para posicionamentos da mídia e do Estado após a operação.
9 Demarca as ocorrências em torno do uso de algemas visibilizado na operação. Considerado abuso da polícia pelo presidente do STF, mobiliza atores em posições contrárias (defesa do uso/condenação do uso). Torna-se um problema público que provoca ações normativas do Estado – a edição da Súmula Vinculante do STF, os projetos de Lei do Legislativo.
“prisões de Dantas”10/”crise do judiciário”11, “grampos”12/”grampo STF”13/”ABIN”14.
Cada conflito analisado foi resumido em um quadro com uma sínte- se das argumentações dos atores. A título de exemplo, são reproduzidos abaixo os quadros para um conflito da mídia e um do Estado. O deta- lhamento das análises pode ser consultado diretamente na tese (Coelho, 2013).
Quadro 1 – Conflito Rede Globo x Outros veículos (tema Vazamento)
Posições
Privilégio/convite Furo jornalístico
Audiência e uso acrítico Trabalho árduo, credibilidade e acesso são justificativas a fontes variadas são justificativas Erro da PF, que convidou/apuração Direito à informação/resguardo da fonte
Fonte: COELHO, 2013, p. 157.
10 Neste tema estão relacionados os episódios de prisão e soltura do empresário, que motivam a “crise do judiciário”. As decisões do presidente do STF, Gilmar Mendes, pela liberação de Dantas e os pedidos de prisão feitos pela PF, endossados pelo MPF e decretados pelo juiz Fausto de Sanctis provocam debates e manifestos de magistrados e advogados. Pode-se considerar como um episódio, concatenado ao “Caso Michael” – o habeas corpus preventivo julgado por Mendes tem origem nesta situação anterior – e que provoca o tema da crise do judiciário.
11 Com o segundo habeas corpus de Dantas, o presidente do STF encaminha os despachos do juiz De Sanctis ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a outros órgãos administrativos do Judiciário, provo- cando manifestações de apoio ao juiz por parte de magistrados. As discussões entre a primeira instância e o STF ganham tal proporção que se fala em “crise”, “impeachment”. Os magistrados que apoiaram De Sanctis também sofrem sanções.
12 Ocorrências sobre gravações realizadas nas investigações, que foram sendo divulgadas após a operação, envolvendo políticos, como o telefonema entre o ex-deputado Luiz Greenhalgh e o chefe de gabinete do governo Lula, Gilberto Carvalho.
13 Ocorrências sobre a suspeita de monitoramento do gabinete do ministro Gilmar Mendes, levantada por uma desembargadora, reforçada pela publicação de um diálogo entre Mendes e o senador Demóstenes Torres – e creditada à participação da ABIN na Satiagraha. Pode ser entendido como um episódio den- tro da temática maior dos “grampos”; de qualquer maneira, a diferenciação facilitou a discriminação das ocorrências relacionadas a esta situação.
14 Refere-se às ocorrências sobre a participação desta instituição na operação Satiagraha, desde sua reve- lação até suas consequências (anulação da operação).
Exclusividade
Outros veículos Rede Globo
Quadro 2 – Conflito Gilmar Mendes/STF x PF/Tarso Genro (tema Algemas)
Posições
Abuso Prática cotidiana; proteção
(do policial, do preso, do entorno) Estado Policialesco
Igualdade Oposição ricos x pobres
Dignidade humana Integridade humana
Pedagogia da opinião pública
Fonte: COELHO, 2013, p. 185
Em síntese, estes foram os procedimentos que permitiram estudar a Satiagraha enquanto acontecimento público. Assim convertida em objeto de pesquisa, restava ainda uma compreensão do acontecimento – uma ta- refa de ordem interpretativa viabilizada pelo esforço empírico de pesquisa e pela fundamentação teórica.