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ALTERAÇÕES COGNITIVAS NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO

No documento SAÚDE DA CRIANÇA E ADOLESCENTE: (páginas 105-110)

ENVELHECIMENTO E ALTERAÇÕES COGNITIVAS: O PAPEL DA ATENÇÃO PRIMÁRIA NA DETECÇÃO PRECOCE

2.1 ALTERAÇÕES COGNITIVAS NO PROCESSO DE ENVELHECIMENTO

Algumas habilidades cognitivas, como o vocabulário, são resilientes ao envelhecimento cerebral e podem até melhorar com a idade. Outras habilidades, como raciocínio conceitual, memória e velocidade de processamento, diminuem gradualmente ao longo do tempo. Existe uma heterogeneidade significativa entre os adultos mais velhos na taxa de declínio em algumas habilidades, como medidas de raciocínio perceptual e velocidade de processamento (HARADA; LOVE; TRIBEL, 2013).

O envelhecimento humano é um processo dinâmico e multifatorial que ocorre ao longo de todo o curso de vida e que é acompanhado de mudanças estruturais e neurofisiológicas, com variados graus de declínio cognitivo (BERTOLUCCI; MINETT, 2007).

Os déficits cognitivos são comumente observados no processo de envelhecimento natural e representa perdas na função normal do organismo. A cognição é um conjunto de capacidades mentais que permitem ao indivíduo compreender e resolver os problemas do cotidiano, formada pela memória (capacidade de armazenamento de informações), função executiva (capacidade de planejamento, antecipação, sequenciamento e monitoramento de tarefas complexas), linguagem (capacidade de compreensão e expressão da linguagem oral e escrita), praxia (capacidade de executar um ato moto), gnosia/percepção (capacidade de reconhecimento de estímulos visuais, auditivos e táteis) e função visuoespacial (capacidade de localização no espaço e percepção das relações dos objetos entre si) (BERTOLUCCI; MINETT, 2007).

Durante o processo de envelhecimento, aproximadamente 15% das pessoas desenvolvem incapacidade cognitiva progressiva, em média 5% das pessoas acima de 65 anos e 20% acima de 80 anos desenvolvem demência moderada a grave (GURIAN et al., 2012).

Os declínios cognitivos apresentam as seguintes características: esquecimento dos fatos recentes, dificuldades de calcular, mudanças no estado de atenção, diminuição da concentração e do raciocínio. Também afeta a qualidade de vida do idoso por conduzir a perda de sua autonomia e independência (RICCI; KUBOTA; CORDEIRO, 2005; HOLZ et al., 2013).

Estudos demonstram que alterações nas funções cognitivas, juntamente com variáveis sociais, econômicas, demográficas e de saúde, podem ser fatores de risco para fragilidade. Além da idade, raça, sexo, classe social, a fluência na linguagem e o nível de escolaridade são apontados como tendo um maior impacto na cognição e nos testes cognitivos (FARIAS et al., 2013). Além de alterações da memória, estudos mostram que o envelhecimento relaciona-se também ao declínio das funções executivas e da linguagem (KLIEGEL; ESCHEN; THONE-OTTO, 2004; PIGUET et al., 2002).

No desenvolvimento intelectual do envelhecimento, existe uma perda nas capacidades cognitivas em virtude do baixo funcionamento neurológico, sensorial e psicomotor, o que reflete na capacidade de adaptação do indivíduo. Entretanto, podem haver mudanças qualitativas na vida adulta e na velhice que irão depender muito mais das oportunidades oferecidas pela cultura do que dos mecanismos genético-biológicos. A perspectiva Life-Span é uma abordagem de orientação dialética que tem colaborado expressivamente para as mudanças de paradigma acerca da velhice, que pode ser categorizado em três tipos: i) envelhecimento normal; ii) patológico; e iii) saudável, com excelente qualidade de vida com engajamento ativo com a vida (BALTES; REESE;

LIPSITT, 1980).

Outro conceito central da perspectiva Life-Span é o de plasticidade, que se refere ao potencial de mudança de um indivíduo e à sua flexibilidade para lidar com novas situações (BALTES; REESE; LIPSITT, 1980). O grau de plasticidade é consoante à capacidade de reserva da pessoa, constituída por recursos internos e externos que mudam de acordo com o tempo e com a situação (STAUDINGER; MARSISKE; BALTES, 1993). Assim, as limitações decorrentes do envelhecimento podem ser minimizadas pela ativação dessas capacidades, dependendo do grau de plasticidade individual (BALTES; REESE; LIPSITT, 1980).

Horn e Cattell (1966) propôs o modelo bifatorial de inteligência que tem demonstrado as diferentes trajetórias que as habilidades cognitivas podem seguir ao longo do

a capacidade de utilizar o raciocínio pouco habitual e a resolução de problemas que não estão facilmente disponíveis na vida prática; e ii) a inteligência cristalizada, que inclui os conhecimentos que são reforçados ao longo da vida, tornando-se habilidades familiares (HORN; CATTELL, 1966; LEZAK et al., 2012).

As habilidades cristalizadas permanecem estáveis ou melhoram gradualmente a uma taxa de 0,02 a 0,003 desvios padrão por ano através das sexta e sétima décadas de vida.

Essa inteligência cristalizada é devido ao acúmulo de informações com base em experiências de vida, os adultos mais velhos tendem a ter um desempenho melhor em tarefas que exigem esse tipo de inteligência em comparação com adultos mais jovens. Em contraste, a inteligência fluida refere-se a habilidades envolvendo resolução de problemas e raciocínio sobre coisas que são menos familiares e independentes do que aprendemos (HARADA; LOVE; TRIBEL, 2013).

A cognição de fluidos inclui a habilidade inata de uma pessoa para processar e aprender novas informações, resolver problemas, atender e manipular o meio ambiente (ELIAS; SAUCIER, 2006). A função executiva, a velocidade de processamento, a memória e a capacidade psicomotora são consideradas domínios cognitivos fluidos. Muitas habilidades cognitivas fluidas, especialmente a capacidade psicomotora e a velocidade de processamento, atingem o pico na terceira década de vida e depois diminuem a uma taxa estimada de -0,02 desvios padrão por ano (LEZAK et al., 2012).

No estudo longitudinal de Craik e Bialystok, (2006), demonstrou que as habilidades associadas à inteligência fluida declinam precocemente e de forma acentuada, enquanto as habilidades relacionadas à inteligência cristalizada tendem a se manter estáveis ao longo do ciclo vital (CRAIK; BIALYSTOK, 2006).

No estudo de Charlton et al. (2009), que investigou as diferenças relacionadas à idade na teoria da mente e explorou a relação entre habilidade cognitiva e medidas estruturais do cérebro, tiveram como resultado que a teoria da capacidade mental diminuiu com o aumento da idade e a relação entre a teoria da mente e a idade foi totalmente mediada pela inteligência de desempenho, função executiva e velocidade de processamento da informação e foi parcialmente mediada pela inteligência verbal. (CHARLTON et al., 2009).

2.1.1 ALTERAÇÕES COGNITIVAS NO ENVELHECIMENTO NORMAL

O declínio gradual nas funções cognitivas, estão relacionados com envelhecimento normal, e são dependentes de processos neurológicos que se alteram com a idade, que levam as perdas da memória, principalmente as que se refletem em dificuldade para recordar nomes, números de telefone e objetos guardados são as mais frequentes (REIS et al., 2009).

Alterações cognitivas são esperadas no envelhecimento normal principalmente na atenção complexa, ocorre o declínio na sensibilidade e na acuidade sensorial; lentificação do tempo de resposta; perda de destreza e dos movimentos finos (VERHAEGHEN;

CERELLA, 2002; PAXTON et al., 2008). Efeitos da idade variam de acordo com a complexidade de execução de tarefas ligadas a span se mantém estáveis, enquanto tarefas que envolvam atenção dividida podem estar prejudicadas (ARDILA; BERNAL, 2007).

Na função executiva, ocorre a preservação de raciocínio para material familiar.

Declínio de habilidades como solucionar problemas não familiares ou complexos, prejuízo na flexibilidade mental e na distinção entre elementos relevantes e não relevantes para solucionar um problema. Funções pré-frontais sofrem alterações, como memória operacional, inibição e manutenção de objetivos (BRITO-MARQUES; CABRAL-FILHO, 2004).

A função de aprendizagem e memória, sofrem falhas no desempenho de testes de memória e podem sofrer influência de outros fatores, tais como redução da automonitorização e de falhas estratégicas e executivas. Redução considerável na memória operacional e na memória visual mais do que na memória verbal. Na linguagem em geral, as habilidades verbais tendem a se manter estáveis ao longo do envelhecimento.

Vocabulário e raciocínio verbal podem, inclusive, apresentar melhora mesmo em décadas avançadas (VERHAEGHEN; CERELLA, 2002).

Na função perceptomotor, ocorre análise perceptual básica, reconhecimento de objetos e formas e a cópia de figuras simples se mantêm intactos, ocorre declínio no julgamento visuoespacial (BRITO-MARQUES; CABRAL-FILHO, 2004). Na acurácia ao realizar cópias complexas e interferência na lentificação (PAXTON et al., 2008).

Na função cognição social, há presença de declínio nas habilidades de teoria da mente ocorre juntamente com o declínio de outras áreas, como quociente intelectual de execução, função executiva e velocidade de processamento (VERHAEGHEN; CERELLA, 2002).

2.1.2 ENVELHECIMENTO E AS DEMÊNCIAS

A demência é um emergente problema de saúde pública, pois é uma das doenças mais comuns no idoso e a maior causa de incapacidade e mortalidade. Com envelhecimento populacional essa doença assume proporções epidêmicas, estando presente em 10% dos indivíduos acima de 65 anos e em 50% dos indivíduos acima de 85 anos. Abaixo dos 60 anos, a incidência é muito baixa (0,5%) e aumenta com o avançar da idade, podendo chegar a mais de 50% da idade muito avançada (NITRINI et al., 2005;

FARIA et al., 2011).

A demência é uma diminuição no funcionamento mental ou cognitivo, caracterizada por pelo menos dois déficits cognitivos, incluindo o de memória, associados ao comprometimento do funcionamento cotidiano do indivíduo. Além dos déficits de memória, uma demência deve apresentar o desenvolvimento de pelo menos uma das seguintes perturbações cognitivas: afasia, apraxia ou uma perturbação do funcionamento executivo (envolve a capacidade de pensar abstratamente e planejar, iniciar, sequenciar, monitorar e cessar um comportamento complexo) (JUNIOR; MARTINS; MARIN, 2016).

Diversos processos patológicos podem produzir a síndrome demencial, e as peculiaridades de sua apresentação clínica dependerão de sua etiologia. Essas doenças podem ser classificadas em dois grandes grupos: demências irreversíveis (como a doença de Alzheimeir, demência vascular, demências fronto-temporal, demência com corpúsculo de Lewy e demência subcortical) e demências potencialmente reversíveis (secundárias a um comprometimento do sistema nervoso central, como condições que afetam esse sistema e se cronificam em distúrbios psiquiátricos) (VERHAEGHEN; CERELLA, 2002).

A maioria dos estudos de incidência de demência segundo sua etiologia demonstra que a doença de Alzheimer é a causa mais frequente, compreendendo cerca de 50 a 70%

do total das demências, seguindo-se a demência vascular, cuja frequência está entre 20 a 30% e que ocorre em consequência de hipertensão ou arteriosclerose (PAPALÉO; KLEIN, 2007; NITRINI; CAIXETA, 2006).

Estudos avaliaram a frequência estimada de demência segundo a faixa etária, e foi demonstrado que a prevalência dobra a cada cinco anos. Em 30 anos, a partir dos 60 anos de idade, ela passava de 0,7 a 38,6% (FILHO; NETO; MAIA, 2013). Teixeira e Caramelli, (2006), relatam que a prevalência de todos os tipos de demência é maior entre mulheres.

Um estudo na cidade de São Paulo avaliou 100 pacientes ambulatoriais com demência atendidos em hospital público e em clínica privada, e constatou que a doença de Alzheimer (DA) foi a causa principal de demência (54%), independente do nível socioeconômico dos pacientes (FILHO; NETO; MAIA, 2013).

No estudo epidemiológico, realizado na cidade de Catanduva, no interior do Estado de São Paulo, a DA, isoladamente, foi responsável por 55,1% dos casos de demência acima dos 64 anos de idade, enquanto a DA associada à doença cerebrovascular, foi responsável por 14,4%. A demência vascular, isoladamente, correspondeu a 9,3% dos casos e outras demências primárias, como demência frontotemporal e demência de corpos de Lewy, com 2,6 e 1,7%, respectivamente (TEIXEIRA; CARAMELLI, 2006).

No estudo de Filho, Neto e Maia (2013), com idosos acompanhados pela estratégia saúde da família, 30,7% dos idosos apresentaram diagnóstico possível de Alzheimer, dentre estes 36,3% pertenciam a faixa etária de 80 anos a mais (FARIA et al., 2011).

No documento SAÚDE DA CRIANÇA E ADOLESCENTE: (páginas 105-110)