OCIDENTAL
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Dentre as 426 participantes do estudo, 342, cerca de 80,28% do total da amostra, afirmaram ter ingerido algum tipo de bebida etílica. Dessas, 336 responderam com qual idade consumiram álcool pela primeira vez, de forma que 77,38% (260) afirmaram ter ingerido álcool antes dos 18 anos (IC 95% = 62,37 – 95,27), sendo a faixa etária de 16 a 18 anos com maior número de representantes (n = 111; 33,04%) (IC 95% = 28,08 – 38,38).
As jovens que ingeriram bebida alcoólica com 18 anos ou mais representaram 22,62% (n
= 76) (IC 95% = 18,33 – 27,54). Essas prevalências são demonstradas na figura 1.
Figura 1. Distribuição de idade de início do consumo de bebidas alcoólicas por universitárias de Porto Velho.
Os resultados encontrados assemelham-se àqueles verificados em outros estudos, cuja finalidade era observar a ingestão de álcool entre os adolescentes. Como exemplo, em dados da Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE) , 55,5% dos alunos matriculados na nona série do ensino fundamental afirmaram ter ingerido em algum momento da vida uma dose de bebida alcoólica, e cerca de 21,4% sofreram algum episódio de embriaguez (IBGE, 2016).
Em outro exemplo, o II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (INPAD) (2012) verificou um aumento de 13% para 22% entre aqueles que declararam ter experimentado álcool com menos de 15 anos, no período de 2006 a 2012. A média de idade encontrada entre as acadêmicas que iniciaram na infância/adolescência foi de 15,6, inferindo uma tendência à precocidade no consumo de tal substância.
As implicações da prática deste hábito em tão tenra idade são inúmeras, dentre elas, prejuízo ao desenvolvimento neuronal, afetando a capacidade cognitiva e adoção de comportamentos destrutivos, que incluem atos violentos, gestações precoces não desejadas e acidentes (NIAAA, 2017). De acordo com dados obtidos no estudo Álcool e a Saúde dos Brasileiros - panorama 2019 (CISA, 2019), o número de internações parcial ou totalmente atribuíveis ao álcool, entre 2010 e 2017, em valores absolutos foi de 2.056.763, das quais 179.115 ocorreram abaixo dos 17 anos. Ainda que represente apenas 8,7% do total de internações por causa relacionadas ao uso de álcool, esse é um número que não pode ser desprezado.
O comprometimento das funções cognitivas está relacionado ao padrão de uso de álcool, sendo assim, para o uso crônico em sujeitos adultos, esperam-se alterações na capacidade de realizar funções executivas, como controle inibitório e memória de trabalho e episódica verbal, nas habilidades sociais e no processamento visuoespacial (FUENTES et al., 2008), então em indivíduos imaturos, com determinadas áreas cerebrais ainda em desenvolvimento, o prognóstico em relação às consequências tendem a ser ainda mais negativos.
Nesse âmbito, o consumo de bebidas alcoólicas desde a adolescência também predispõe ao uso abusivo e a dependência química pela substância (CISA). Segundo alguns estudos o risco de desenvolver vício é quatro vezes maior quando o uso é iniciado antes dos 15 anos (NIAAA, 2017). Essa dependência promove diversos danos psicológicos, nos processos de aprendizagem e relações interpessoais, sendo marcada pela compulsão
no consumo e procura, perda de controle do limite de uso, aparecimento de sentimentos negativos quando esse consumo não é possível e recaídas (FUENTES et al., 2008).
Somado a isso, o relatório do II LENAD também permite a discussão acerca da diferença entre os gêneros no consumo de bebidas alcoólicas. Esse estudo direciona para conclusões de uma mudança no padrão de consumo entre as mulheres, assemelhando-se ao dos homens na ingestão na adolescência. O relatório explicita um crescimento expressivo na proporção de meninas que declaram beber cinco doses ou mais em uma ocasião regular (de 11% para 20%, no período de 2006 a 2012), assim como início do consumo regular até os 15 anos de idade (de 69% para 74%, no período de 2006 - 2012).
A distinção do consumo por sexo é relevante, pois sabe-se que o gênero feminino tem questões referentes ao metabolismo do álcool pelo organismo que colaboram para um poder maior de toxicidade e efeitos. Estudos demonstram que as mulheres sintetizam em menor quantidade a álcool desidrogenase (ADH), uma enzima, produzida no fígado cuja função é degradar o álcool, e, além disso, elas possuem teor mais alto de gordura e menos água na sua composição corporal (MINCIS; MINCIS, 2011), o que favorece uma resposta mais exacerbada quanto à toxicidade. Ademais, o estabelecimento da dependência química e de outras complicações por esse consumo atingem mais rapidamente as mulheres do que os homens, mesmo utilizando quantidades menores (CISA, 2019).
Dessa forma, a mudança no padrão de consumo é um fenômeno percebido entre as mulheres adultas e adolescentes, como demonstrado no último PeNSE: 26,9% das meninas, na faixa etária entre 13 e 17 anos, declararam ter vivenciado pelo menos um episódio de embriaguez, sendo que, entre os meninos, esse índice foi de 27,5% (IBGE, 2016). Entender as variáveis que compõem este problema é vital para o adequado planejamento em saúde pública.
Para que esse entendimento seja possível é preciso clareza quanto aos fatores que influenciam para o consumo. De acordo com o PeNSE, o acesso ao álcool ocorreu majoritariamente em festas, seguido por obtenção com amigos, aquisição em mercados, lojas e bares, com familiares, de outras formas, em casa sem autorização, dando dinheiro para outra pessoa comprar e com vendedores ambulantes (IBGE, 2016).
Artigos demonstram que a adoção de comportamentos de riscos entre os adolescentes é uma constante influenciada pelos amigos e familiares (TOMÉ et al., 2015).
Os fatores que favorecem o consumo de bebidas alcoólicas podem ser estratificados da seguinte forma: individuais (curiosidade, diversão e escasso conhecimento sobre os riscos),
microssociais (pais e familiares) e macrossociais (convenção social), de forma que as ações e atitudes dos pais bem como a oferta de bebida pelos mesmos são as que possuem mais peso (BRITO et al., 2015).
Essas peças, atuantes para a decisão em fazer uso de bebidas alcoólicas, foram notadas neste estudo, de forma que se assemelham as literaturas existentes. Em relação às universitárias, ao serem questionadas sobre os motivos que as fazem beber, 131 (77,5%) colocaram festas/baladas, 17 (10,1%) outros (comemorações, prazer, costume e vontade própria), 9 (5,3%) ansiedade e os outros motivos (pressão de amigos, problemas familiares, tristeza, problemas na faculdade e estresses no trabalho) somaram 12, aproximadamente 7%, sendo alta a probabilidade das usuárias que relataram esse padrão devido a festas/baladas possuírem amigos com esse mesmo padrão, o que colabora com a perpetuação do hábito (figura 2).
Figura 2. Motivos para o consumo de bebidas alcoólicas por universitárias de Porto Velho.
Mediante ao exposto, é evidente que a facilidade de acesso, mesmo com as regulamentações e leis existentes, somada a não coibição do consumo pelos responsáveis, mais a necessidade de se adequar aos pares com quem convivem, são determinantes para a consolidação do hábito entre os adolescentes.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O consumo de álcool em todas as faixas etárias é motivado por diversos fatores e facilitado por se tratar de uma droga lícita e altamente comercializada. Desse modo, a consolidação do beber precocemente e regular, é visível entre os jovens (INPAD, 2007).
O estudo realizado, portanto, permite inferir que os achados em Porto Velho/RO assemelham-se aos encontrados em outros locais, sendo incisivo na percepção de que as jovens do sexo feminino iniciam características de uso de bebidas alcoólicas cada vez mais cedo e em quantidades crescentes, convizinhando com os achados dos jovens do sexo masculino.
Com base na mudança observada no comportamento feminino em relação ao etilismo, é importante conhecer as repercussões orgânicas e psíquicas que a precocidade no contato com o álcool pode gerar, como, por exemplo, de acordo com alguns estudos, a maior quantidade de tecido celular adiposo favorecer maior concentração de álcool na circulação sanguínea (EDWARDS et al., 2005), e, além disso, sendo as mulheres mais propensas a apresentar efeitos neurotóxicos (SQUEGLIA et al., 2011).
No entanto, é perceptível que ainda há uma lacuna do conhecimento no que tange a evolução do consumo de álcool por menores do sexo feminino, não sendo possível, por exemplo, inferir por meio destes dados quais as motivações e as repercussões orgânicas de tal ato, sendo indicada a realização de novos estudos para melhor compreensão.
Com isso, as comorbidades relacionadas a este hábito são inúmeras e de grande relevância quanto a saúde pública, sendo algo ainda mais misterioso no convívio feminino, visto que se trata de um novo tipo de comportamento, além de envolver todas as particularidades da saúde da mulher. Destarte, é fundamental a realização de novos estudos semelhantes ou mais aprofundados em nossa cidade, visando a captação de novos dados importantes e a comparação com o estudo atual, o que permitirá noção de evolução ou involução dos importantes achados.
5. REFERÊNCIAS
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