ASPECTOS METODOLÓGICOS
Esta análise tem orientação qualitativa e consiste em um estudo de caso, por meio do qual, a partir de uma iniciativa específica, buscou-se extrair aprendizados, princípios e conceitos aplicáveis a outros contextos. O caráter qualitativo permite explorar não só os aspectos relacionados ao financiamento, mas também a outros temas da economia da cultura.
O estudo deu-se, basicamente, a partir da avaliação dos documentos constitutivos da iniciativa.
Trata-se de uma análise ex-ante, que considera os impactos e efeitos potenciais da iniciativa, uma vez que esta ainda será implementada.
Os resultados da pesquisa presentes neste artigo serão essenciais para estabelecer as expectativas para posterior monitoramento e avaliação do Programa Matchfunding de Cultura BNDES, assim como de outros desdobramentos esperados a partir desta iniciativa específica.
HISTÓRICO DO BNDES NO APOIO AO PATRIMÔNIO CULTURAL BRASILEIRO E A OPORTUNIDADE DE NOVOS CANAIS DE FINANCIAMENTO
Ao longo de 20 anos de atuação continuada no setor cultural, o BNDES construiu uma ampla e diversificada carteira de projetos de preservação e revitalização do patrimônio cultural brasileiro (patrimônio histórico e artístico, acervos memoriais e patrimônio imaterial). Nesse período, foram realizadas 232 operações para apoio a cerca de 180 diferentes monumentos em
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todo o país, entre os quais estão museus, bibliotecas, arquivos, sítios arqueológicos, igrejas e outros bens, totalizando mais de R$ 600 milhões aplicados.
A partir da experiência acumulada no período, é possível perceber que a questão do financiamento adequado é essencial para a transformação das instituições responsáveis pela guarda do patrimônio cultural brasileiro e pela dinamização econômica a partir de seus usos.
Atualmente, o setor de patrimônio é financiado por meio de uma lógica de projeto cultural, na maioria das vezes com recursos de patrocínio, objeto de incentivo fiscal ou de orçamento público. Como consequência desse subfinanciamento, o impacto tende a ficar muito aquém das potencialidades, com as instituições culturais dedicando grande esforço à obtenção de recursos a serem utilizados no curto prazo, em despesas de custeio e atividades básicas.
Assim, a estratégia do BNDES, nos últimos anos, priorizou estimular e apoiar a busca por fontes alternativas de recursos, sejam elas derivadas de doações, bilheterias, assinaturas, venda de serviços ou de produtos inspirados no conteúdo ou na estética do patrimônio.
A evolução das TIC e o amadurecimento da Internet representam uma valiosa oportunidade para o desenvolvimento de novos instrumentos financeiros e de novos canais de financiamento.
Segundo o relatório desenvolvido pelo Cambridge Centre for Alternative Finance, da Universidade de Cambridge, e pelo The Polsky Center for Entrepreneurship and Innovation, da Chicago Booth School of Business, as tendências de canais alternativos de financiamento, especialmente on-line, têm o potencial de remoldar as bases dos serviços financeiros (Cambridge Centre for Alternative Finance – Universidade de Cambridge & The Polsky Center for Entrepreneurship and Innovation – Chicago Booth School of Business, 2016). Entre 2013 e 2015, o volume de transações on-line triplicou e ultrapassou US$ 36 bilhões nas Américas.
Crowdfunding, financiamento direto (peer-to-peer lending) e outras plataformas on-line de financiamento alternativo têm-se destacado dentre as inovações tecnológicas.
As plataformas de financiamento coletivo – crowdfunding – surgidas em meados dos anos 2000 arrecadaram mundialmente US$ 16 bilhões em 2014 (Thuy, 2017). Projeções apontam para uma movimentação de US$ 90 bilhões até 2025, tendo o Brasil potencial para representar pelo menos 10% desse valor (Canteras, 2015).
O modelo do crowdfunding parte da dinâmica de arrecadação on-line e coletiva para determinado fim, oferecendo recompensas criativas para os colaboradores do projeto e garantindo a eles devolução do dinheiro, caso o valor mínimo necessário para viabilizá-lo não seja atingido dentro do prazo. Assim, ou todos ganham ou ninguém perde – porque os colaboradores recebem dinheiro de volta e a proponente não precisa realizar o projeto.
Além da captação de recursos, o crowdfunding permite divulgar uma ideia, produto ou serviço e testar sua aceitação – e, principalmente, engajar o público, pois os colaboradores se sentem parte fundamental da viabilização de algo em que acreditam.
Com base nesse diagnóstico do setor cultural e a partir da oportunidade oferecida pelas plataformas on-line, notadamente as de crowdfunding, é que foi estruturado o Programa Matchfunding de Cultura BNDES.
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O PROGRAMA MATCHFUNDING DE CULTURA BNDES
Por meio das plataformas de crowdfunding, produtores e instituições culturais podem apresentar suas propostas, e o público pode realizar doações, normalmente em troca de recompensas ligadas ao projeto. Embora venha se difundindo no Brasil, o potencial desse instrumento ainda é aproveitado de maneira tímida pelo setor cultural.
Como forma de atrair e ampliar o interesse do público para determinados temas, diversas empresas e instituições têm utilizado o matchfunding, no qual a responsável pela iniciativa se compromete em combinar recursos à medida que há contribuições do público. A ideia é que cada R$ 1 do público permita o casamento de mais R$ X da empresa em favor do projeto.
Essa alavancagem estimula a doação do público e aumenta a chance de arrecadar os recursos necessários à realização de projetos.
O Programa Matchfunding de Cultura BNDES lançará o primeiro canal de combinação de recursos do país a ter apoio da esfera pública, voltado especificamente para projetos que deixem legado para o patrimônio cultural brasileiro.8
O objetivo do programa contempla o apoio à capacitação de instituições culturais sobre o instrumento financeiro denominado crowdfunding, além da estruturação e da operacionalização de seleções públicas de projetos culturais para campanhas de arrecadação, bem como o acompanhamento das iniciativas culturais selecionadas e financiadas pela sociedade por meio do matchfunding.
A coordenação e operacionalização do programa será realizada pela Sitawi Finanças do Bem, organização da sociedade civil que atua no campo das finanças sociais e que terá como parceira técnica a Benfeitoria, uma das principais plataformas de crowdfunding no país e a primeira a operar seleções públicas de projetos para apoio via matchfunding.
O projeto foi aprovado e contratado com o BNDES em dezembro de 2018, dando início à fase de preparação e pré-produção do edital de seleção a ser lançado no primeiro semestre de 2019. O apoio do BNDES será de R$ 7 milhões, com recursos do Fundo Cultural. Desse montante, até R$ 4 milhões serão aplicados em projetos que receberem doações da sociedade por meio de crowdfunding entre 2019 e 2020.
Nos projetos culturais selecionados pelo edital, a cada R$ 1 captado do público, o BNDES aportará R$ 2, até que a meta mínima da campanha de arrecadação seja alcançada. Se a primeira meta for batida antes do prazo da campanha terminar, o projeto poderá continuar captando do público, porém sem o match do BNDES, como uma campanha de arrecadação normal.
Na primeira onda de seleção, os projetos poderão ter metas entre R$ 30 mil e R$ 300 mil. Ou seja, os projetos deverão captar entre R$ 10 mil e R$ 100 mil do público, e o BNDES poderá aportar entre R$ 20 mil e R$ 200 mil em cada um deles.
8 O patrimônio cultural brasileiro é definido pela Constituição (Artigo 216) como os bens materiais e imateriais portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira.
O conceito abrange o patrimônio histórico, artístico, arqueológico, acervos memoriais e o patrimônio imaterial, dentre outros (Constituição da República Federativa do Brasil, 1988).
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Para receber os recursos do banco, as iniciativas deverão, além de atingir suas metas de arrecadação, apresentar um mínimo de “pulverização” de recursos. A ideia, com isso, é que sejam efetivamente viabilizadas somente as ações que contem com amplo engajamento do público.
Considerando que a arrecadação esperada do público é de aproximadamente R$ 2 milhões, o valor total destinado a projetos será de pelo menos R$ 6 milhões, com o programa atingindo R$ 9 milhões de investimento. As ações de capacitação de instituições culturais em elaboração de projetos, engajamento de públicos, boas práticas de sustentabilidade (para além do financiamento coletivo), entre outros, assim como os custos de operacionalizar e divulgar os editais de seleção, acompanhar a realização dos projetos e avaliar a efetividade do próprio programa, contam com orçamento de até R$ 3 milhões para os dois anos previstos da iniciativa.
A expectativa é que o programa apoie até 80 projetos selecionados ao longo de 2019 e 2020 por meio de edital. A cada ano ocorrerão cinco ondas de seleção, com a expectativa de oito projetos selecionados em cada uma delas, em média. A curadoria do Matchfunding de Cultura BNDES será responsável pela seleção inicial de propostas que possam deixar legado para o patrimônio material ou imaterial brasileiro em temas como digital/mídia/games, educação patrimonial, turismo e acervo.
Os responsáveis pelos projetos escolhidos receberão treinamento aprofundado com foco nas campanhas de arrecadação, de forma que consigam captar os recursos necessários à execução das propostas. Após passar por essa fase, os projetos serão apresentados no canal do programa hospedado na plataforma Benfeitoria, para que o público possa conhecê-los e efetuar doações àqueles que acharem mais interessantes.
Mudanças táticas no programa poderão ser feitas ao longo do tempo, de acordo com os aprendizados de percurso, com o escopo dos projetos aceitos, valores máximo e mínimo, prazos de arrecadação, entre outros.
O POTENCIAL DE USO DAS TIC NA CULTURA E SEUS IMPACTOS: UM OLHAR EX-ANTE A utilização de plataformas on-line de financiamento, em particular o instrumento de crowdfunding, é inovadora e relevante para o setor cultural e para o setor público. No Programa Matchfunding de Cultura BNDES, mais imediata é a oportunidade para o segmento de patrimônio cultural, considerando o potencial de uso das TIC como uma alternativa de financiamento e um estímulo à sustentabilidade financeira, como visto anteriormente.
Configura, também, uma nova forma de relacionamento das instituições culturais com os públicos e a sociedade civil mais ampla, com impactos perenes e muito positivos para sua dinâmica futura e mesmo para a percepção da sua relevância. Finalmente, a expectativa é que o programa, com seu potencial de destacar o tema do patrimônio cultural para atores da cultura digital, possa desenvolver projetos na vertente digital, incluindo mídia e games. Essas experiências poderão demonstrar e concretizar o potencial de uso das TIC na ampliação do acesso, do consumo e da produção de cultura.
Para o setor público, trata-se de uma experiência piloto para prospectar novas fontes de recursos e, novamente, para desenvolver novos relacionamentos com seus públicos e clientes. Além disso, destaca-se que a participação da sociedade no cofinanciamento garante que apenas
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projetos com interesse coletivo e com público engajado sejam contemplados, viabilizando a realização de propostas consideradas pela sociedade como as mais relevantes, com potencial de retorno em externalidades e geração de valor público. Ou seja, trata-se de aproximação e parceria com a sociedade, o que deve resultar em maior eficiência e efetividade dos projetos, uma vez que aumentará as fontes de financiamento e favorecerá projetos percebidos pela sociedade como geradores de resultados e impactos meritórios. A aproximação, a parceria e a escala permitidas pelas TIC podem ser inspiração para desdobramentos em muitas outras iniciativas do setor público, ainda pouco exploradas mesmo na experiência internacional.
Outra dimensão fundamental é o potencial de comunicação e difusão baseado essencialmente em aplicação de TIC. Há três elementos que ampliam a visibilidade da iniciativa e potencializam o seu efeito sobre toda a cadeia produtiva e consumidora de cultura e para o público em geral.
Primeiramente, a convocação de iniciativas será feita por meio de edital. O chamamento público tem grande alcance e mobiliza um conjunto amplo de stakeholders. O segundo ponto refere-se às campanhas de arrecadação em si, que dependem de esforço de divulgação e convencimento para sensibilização de uma rede de colaboradores. Destaca-se que essa é uma comunicação com perfil diferente da anterior, com maior profundidade, visando o engajamento do público com as iniciativas e resultando na construção de uma relação de confiança entre os participantes. Por fim, todo o programa tem a característica de desenvolver-se fortemente no ambiente digital. Todos os materiais produzidos, as campanhas de arrecadação e os resultados obtidos com cada uma das iniciativas e com o programa como um todo poderão ser facilmente compartilhados na Internet.
Por fim, o Matchfunding de Cultura BNDES é uma proposta de fomento, divulgação e capacitação teórica e prática em uma nova forma de arrecadação de recursos: o financiamento coletivo ou crowdfunding. É esperado que as ações auxiliem as proponentes das iniciativas na construção de padrões elevados de sustentabilidade financeira, o que se traduziria em redução gradual da dependência por recursos públicos. Sob essa ótica da capacitação, o programa também se desenvolve fortemente no ambiente digital. As ferramentas de webinar, webconferências, vídeos e tutoriais on-line são exemplos do uso de TIC para otimizar recursos humanos e financeiros e, consequentemente, ampliar o alcance das ações de capacitação.
Nesse sentido, o aprendizado com o programa pode inspirar outras iniciativas inovadoras de educação e capacitação.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Programa Matchfunding de Cultura BNDES possui potencial para ajudar o setor cultural a criar mecanismos de doação e novas habilidades de engajamento com seus públicos, alavancando a captação de recursos. Além disso, o programa tem como objetivo desenvolver uma visão mais estratégica sobre diversificação de recursos e seus vínculos com o desenvolvimento de públicos e comunicação digital.
As habilidades a serem desenvolvidas são importantes para conferir a autonomia e o salto qualitativo necessários para que o patrimônio cultural brasileiro possa alcançar seu potencial pleno. A experiência também poderá servir de inspiração para outros setores culturais e para instituições e empreendimentos que gerem impactos positivos percebidos pela sociedade.
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Para o BNDES, o programa também se propõe a desenvolver um novo modelo para atuação, que poderá ser replicado em outras políticas públicas e iniciativas privadas de apoio à cultura e outros setores. Trata-se de um modelo que, por meio de tecnologia e valendo-se das redes sociais, aumenta a possibilidade de alavancar recursos de terceiros, trazendo novos apoiadores, não tradicionais, para se juntar ao financiamento de projetos. O modelo permite, ainda, obter ganhos de escala, com volume e abrangência muito maiores do que o proposto no projeto piloto.
O novo modelo permite capilarização para um conjunto de iniciativas que usualmente não teriam acesso aos recursos do BNDES e uma mudança qualitativa no relacionamento do banco com seus clientes e cofinanciadores. A experiência com o Programa Matchfunding de Cultura BNDES será fundamental para permitir aprendizados sobre esse formato, possibilitando que, no futuro, ele seja replicado em outras políticas – do setor cultural e de outros setores prioritários para a atuação do BNDES.
REFERÊNCIAS
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jbs.cam.ac.uk/fileadmin/user_upload/research/centres/alternative-finance/downloads/2016-americas- alternative-finance-benchmarking-report.pdf
Canteras, L. T. (2015). A evolução do crowdfunding no Brasil e no mundo. Recuperado em 20 outubro, 2018, de http://www.kickante.com.br/blog/blog/crowdfunding-brasil-mundo
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www.imf.org/external/pubs/ft/ar/2018/eng/assets/pdf/imf-annual-report-2018-pt.pdf
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