Está claro, até aqui, que as pesquisas quantitativas mostram perfis semelhantes para quem mais acessa a Internet e para quem mais vai a atividades culturais off-line. Mais ainda, os estudos indicam que indivíduos que passam mais tempo navegando também são os que mais frequentam cinemas, museus, teatros e festas populares – ao menos, é o que acontece com os moradores de capitais e municípios de médio porte do interior paulista. Ou seja, é possível que atualmente uma atividade não esteja “roubando” tempo da outra. Por que isso estaria ocorrendo?
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A hipótese é que a renda (neste artigo, vista sob o prisma da classificação econômica) e a escolaridade facilitem o acesso a esses dois “mundos” (on-line e off-line). A relação com nível econômico parece evidente: usar a Internet com frequência é mais fácil para quem pode pagar por conexão fixa ou boa conexão móvel. Do mesmo modo, como boa parte da programação cultural é paga, quem tem mais recursos pode acessá-la mais. Além disso, de modo indireto, renda maior colabora para aquisição de referências que constroem um repertório e incentivam o acesso a manifestações artísticas.
No caso da escolaridade, dois aspectos se sobressaem. Na escola, crianças e jovens tomam contato com livros, filmes, exposições e peças de teatro. Além disso, estão num ambiente que valoriza e estimula as atividades culturais como forma de aquisição de conhecimento, reflexão e expressão. Outro ponto está relacionado à socialização. Ambiente coletivo, a escola favorece o florescimento de laços de amizade – e a cultura pode funcionar como uma espécie de facilitador dessas relações. Com exceção da leitura, as atividades culturais off-line são quase sempre feitas em grupo (casais, amigos, famílias). É pequeno o percentual de pessoas que vão sozinhas ao cinema, ao teatro, a shows de música ou a museus.9
Quanto à idade, a ligação entre jovens e novas tecnologias de comunicação tem sido bastante explorada. A TIC Domicílios sugere que, em alguns casos, as diferenças não são tão expressivas nas três primeiras faixas etárias (ou seja, dos dez aos 34 anos), mas, a partir daí, a “escada”
aparece claramente. No acesso a atividades culturais off-line, a tendência é parecida. Aqui, talvez tenha peso a disponibilidade de tempo livre (maior entre adolescentes e jovens e entre adultos ainda sem filhos).
De qualquer forma, é possível que passar mais tempo conectado já esteja afetando as atividades culturais off-line, mas que isso ainda não esteja sendo captado pelos levantamentos da área.
As pesquisas da JLeiva indicam se as pessoas foram ao menos uma vez em 12 meses a algumas atividades culturais. Caso haja redução na frequência (de uma vez por mês a uma vez por semestre, por exemplo), isso escapa ao radar do estudo.
Outra hipótese é que, sobretudo após a disseminação dos smartphones (96% dos usuários de Internet recorrem a esses equipamentos para acessar a rede, segundo a TIC Domicílios), a realização de atividades fora de casa não seja sempre incompatível com manter-se conectado.
Na área cultural, festas populares10, museus11, shows12, teatros13 e concertos de música clássica14 estão estimulando o uso de celulares para fotos e compartilhamento de experiências.
9 Entre as pessoas que frequentam esses locais, só 11% costumam ir sozinhas a museus; 8% ao cinema e 8% ao teatro, segundo a já citada pesquisa Cultura nas Capitais (JLeiva Cultura & Esporte, 2018).
10 Mais informações nos websites da Prefeitura de São Vicente (SP) e do jornal Correio Popular. Recuperados em 25 janeiro, 2019, de http://www.saovicente.sp.gov.br/579 e http://correio.rac.com.br/mobile/materia_historico.php?id=470668
11 Mais informações no website da PBS. Recuperado em 25 janeiro, 2019, de https://www.pbs.org/newshour/arts/
is-instagram-killing-our-museum-culture-or-reinventing-it
12 Mais informações no website Techtudo. Recuperado em 25 janeiro, 2019, de https://www.techtudo.com.br/listas/
noticia/2015/09/rock-rio-tem-app-com-mapa-pontos-de-wi-fi-e-shows-veja-como-usar.html
13 Mais informações no website Olhar Digital. Recuperado em 25 janeiro, 2019, de https://olhardigital.com.br/noticia/
teatro-permite-plateia-interagir-pelo-smartphone/33114
14 Mais informações no website UOL. Recuperado em 25 janeiro, 2019, de https://entretenimento.uol.com.br/noticias/
redacao/2017/03/06/theatro-municipal-de-sp-cria-bis-para-publico-tirar-fotos-dos-espetaculos.htm
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A própria TIC Domicílios indica que o ambiente on-line pode ser relevante para o acesso à cultura off-line. Os entrevistados foram indagados sobre o uso dos meios digitais para busca de informações para realizar algumas atividades culturais. Os resultados mostram a relevância que a Internet tem como plataforma de divulgação também para a cultura (Gráfico 8).
GRÁFICO 8
INDIVÍDUOS, POR BUSCA DE INFORMAÇÕES NA INTERNET PARA REALIZAR ATIVIDADES CULTURAIS PRESENCIAIS (2017) Total da população (%)
100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0
20
14
6 6 6
Cinemas Shows de música ou apresentações
musicais 14
Festas, festivais e eventos
públicos 7
Peças ou espetáculos
no teatro
Feiras de arte, artesanato ou antiguidades
5
Museus ou exposições Monumentos
ou lugares históricos Bibliotecas
Fonte: Pesquisa TIC Domicílios 2017 (CGI.br, 2018).
Uma leitura rápida pode dar a impressão de que os números são baixos, mas uma análise mais cuidadosa mostra que são relevantes: os percentuais dizem respeito ao conjunto da amostra, e não ao grupo que acessa a Internet ou que frequenta as atividades pesquisadas, uma vez que as práticas off-line não são o foco da TIC Domicílios.
As pesquisas da JLeiva Cultura & Esporte indagam sobre o acesso a sete das oito atividades pesquisadas pela TIC Domicílios, ainda que, por vezes, com variações de nomenclatura. Na Cultura nas Capitais, o percentual de pessoas que afirmaram ter ido a essas atividades varia de 64% (cinema) a 31% (teatro e museus). É razoável imaginar que o acesso no universo considerado na TIC Domicílios seja menor, pois também inclui cidades de menor porte e de todo o país, chegando a municípios que não têm salas de cinema ou museus. Levando-se isso em consideração, pode-se entender melhor a relevância das cifras colhidas pelo CGI.br.
Além disso, os levantamentos da JLeiva apontam na mesma direção, embora a pergunta tenha sido formulada de forma distinta e o universo seja restrito a centros urbanos. Aqui, a questão não é segmentada por atividade, como na TIC Domicílios, permitindo apenas uma leitura genérica, não por área. Quando perguntados sobre quais meios usam para escolher a programação cultural, os entrevistados citam TV (47%), redes sociais (44%), boca a boca (32%) e Internet (26%).
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Em suma, ainda que o ambiente on-line possa representar uma concorrência às atividades culturais presenciais, as mídias digitais têm se mostrado uma ferramenta de comunicação decisiva para atrair o público para a programação off-line. Avançar na compreensão dessa dinâmica, como tem feito o CGI.br, será de grande importância nos próximos anos.