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Apontamentos sobre a unidade: elogios e críticas

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 146-152)

Organograma 3 Atividades “fim”

5.3 Apontamentos sobre a unidade: elogios e críticas

Nesta seção apontarei os elogios e críticas mais citados pelo efetivo ao próprio batalhão. A fim de tratarem sobre o trabalho do BEPE, seu efetivo geralmente possui algumas frases marcantes e recorrentes utilizadas por grande parte dos policiais que compõem esta unidade.

Os termos elogiosos são fortemente marcados em um sentido de autoafirmação em oposição a qualquer tipo de desvalorização ou menosprezo à unidade. Em alguns relatos os policiais apontam uma depreciação em relação ao trabalho do BEPE, além da frase já citada em que os chamam de “babá de torcedor”. Há um caso recentemente sofrido por um Sargento que está na unidade por mais de dez anos que me informou em conversa informal, que ao ser parado em uma blitz comunicou ao policial que também fazia parte da corporação e o mesmo perguntou de qual batalhão o Sargento pertencia; ao falar que era do GEPE, à época, ele recebeu a seguinte resposta “isso não é polícia!”. Após receber esta resposta o Sargento do BEPE perguntou ao policial da blitz quantas prisões e exclusões houve no batalhão dele ao responder que formam muitas e, em contrapartida o efetivo do GEPE/BEPE nunca teve alguma.

55 Ao longo da atuação do GEPE/BEPE a unidade utilizou três braçais distintos, expostos em anexo.

Os policiais do BEPE muitas vezes não são vistos enquanto policiais por outros companheiros de instituição. O próprio Comandante (1999-2001) informou que muitos não queriam ir para o GEPE,

[...] muitos queriam pula fora e era comum também policiamento de fora não queria ir para o GEPE; porque também tem esse... quem ficar preso estereótipo [...] „Ah poxa, eu sou polícia! ‟, aí você tinha que trabalhar isso na cabeça... não mata, não dá tiro, fica só ali sendo babá de torcida e as orientações também não é agir violentamente, é mais com diálogo...

(Entrevista realizada por mim durante o trabalho de campo com ex- subcomandante, e ex-comandante do GEPE).

O policiamento do GEPE não correspondia com a imagem policial; mas sim “babá de torcida”. Com esta questão o comandante tinha o trabalho motivacional e de clarear para o policial que o ser policial de policiamento de proximidade também é ser policial e não somente a lógica de policiamento de combate. Desconstruindo uma formação imagética muito difundida em sendo comum, para uma reconstrução de que o policial nem sempre só age de maneira reativa e explosiva.

No início da história do GEPE os policiais não se viam enquanto tais; fenômeno similar ao ocorrido com parte do efetivo no período das UPPs (MUSUMECI SOARES, 2012). Devido ao modelo de policiamento mais próximo à população, mais alinhado ao policiamento comunitário. Não obstante, houve uma mudança neste quadro, hoje os policiais da unidade se veem enquanto policiais, apesar de por vezes não serem reconhecidos, até dentro da própria Polícia Militar.

Devido a esta dissonância de como o efetivo do BEPE se observa e como são classificados, eles afirmam (de modo constante) que são uma unidade especializada.

Colocam-se de modo equânime ao nível de importância aos batalhões mais conhecidos da Polícia Militar, como o Batalhão de Operações Especiais (BOPE) e Batalhão de Policiamento de Choque (BPChoque); estas afirmações são um modo de autodefesa.

Segundo Muniz, após a sua “conversão” e amor à Polícia Militar os policiais se veem imbuídos a causa de defesa da mesma; partindo deste pressuposto, os policiais do BEPE defendem duas causas: 1) a da Polícia Militar para com a sociedade e 2) a da relevância e especialidade do trabalho do BEPE, esta segunda causa é defendida por eles para com a sociedade, mas também para com a própria Polícia Militar do Rio de Janeiro. Esta dupla defesa da unidade, para com os de fora e para com os companheiros de farda, se dá na exaltação do trabalho da unidade; pontuando sobre a especialidade do batalhão, e também acerca do padrão comportamental dos

policiais. Ao ser perguntado como os torcedores percebem o BEPE e como percebem os policiais de outros batalhões este policial informou

Eles [torcedores] já sabem porque o batalhão tem a estigma de truculento mesmo, de agressivo, de ladrão... e com a gente eles veem um pouco diferente. Tanto que você não vê muito... acho que nem tem aqui, policial do BEPE envolvido com crime, extorsão, com isso, com aquilo... e eu acho que por tá sempre em contato, eles tem um pouquinho mais de empatia.

Não são todos não... vai sempre pegar, mas a maioria que a gente vê gosta.

(entrevista com um Cabo que está no GEPE/BEPE entre seis e dez anos)

Sempre que é possível o efetivo do BEPE destaca que lá não tem crimes e extorsão, que não possuem essa prática, colocando-se em oposição aos outros policiais da instituição. Esta retórica é claramente presente entre o efetivo do batalhão.

Os elogios recorrentes do efetivo para a unidade afirmam sobre a importância da mesma; orgulham-se de possuir uma tropa especializada, cujo serviço é dinâmico e diferenciado; ressaltam que o BEPE é diferente dos outros batalhões e que não há corrupção ou ocorrências graves dos policiais do efetivo.

Os policiais valorizam em suas falas, por vezes com expressões até extremadas; por exemplo, “não há futebol sem o GEPE” (conversa informal com um Sargento que está na unidade há mais de dez anos). Mas, em geral afirmam que gostam de atuar no batalhão e por este motivo o trabalho do BEPE é bem desempenhado segundo a visão do efetivo; “[...] porque quem trabalha aqui, quer trabalhar aqui! Então, você não pode deixar aquele padrão de serviço cair!” (entrevista com um Sargento que está na unidade entre seis e dez anos).

Por outro lado, as críticas se mostram em menor quantidade do que os elogios, mas são marcantes. Na maior parte das vezes são relacionadas aos dias de serviço da tropa, antes da instituição do Regime Adicional de Serviço (RAS)56, números de vezes em que o policial do BEPE apoia outros batalhões.

O RAS compulsório, serviço em que o policial “apto A”57 que trabalha no administrativo é escalado para a atividade fim do batalhão, não era pago no Regime Adicional de Serviço (RAS). Isto gerava muitas reclamações até eu perguntar para uma Cabo que está menos de cinco anos na unidade, como funcionava essa escala

56 O RAS, é uma espécie de hora extra paga ao policial. Ela foi instituída no BEPE no mês de junho de 2019, durante o andamento do meu trabalho de campo, todavia, não consegui acesso a esta documentação.

57 Classificação em que o policial possui capacidade física e mental para realizar o serviço de atividade fim, que no caso do BEPE é o policiamento em praças desportivas. Esta e as outras duas categorias são tratadas no capítulo sobre as Atribuições do Batalhão.

e ela me responder “é hora extra de experiência”, em tom de brincadeira. Até o segundo mês do meu trabalho de campo, em junho de 2019, onde os policiais começaram a ser pagos.

A crítica mais recorrente é sobre não terem finais de semana com folga. Para ilustrar essas reclamações trago o exemplo de dois Sargentos que estão no batalhão há mais de dez anos me relataram crises familiares devido aos dias de trabalho da tropa; devido a esta circunstância até preferiram sair da tropa e trabalharem em serviço de vinte e quatro horas.

Os mais antigos falam com um saudosismo sobre a época em que os policiais tinham o “folgão” durante o período do comandante que atuou entre 2007 e 2008. O

“folgão” era a dispensa de alguns policiais por um final de semana por mês, segundo o ex-comandante a folga por jogo era no máximo 10% do efetivo para não comprometer o policiamento. Em conversas o efetivo citava a possibilidade do sistema de “folgão” retornar, do mesmo modo em que reclamavam sobre a quantidade de serviços de apoio que vinham prestando a outros batalhões.

Em entrevista com o comandante em exercício no momento da pesquisa;

perguntei sobre estes temas e o oficial informou que este sistema de folgas.

Não existe há muito tempo, mas é um pleito dos policiais por trabalhar todos os finais de semana”. [...] as escalas hoje, na Polícia Militar, elas têm que sofrer uma regulamentação de carga horária. Então assim, antigamente, o controle era menor. [...] cada Comandante acabava fazendo ali as suas escalas; hoje existe um controle mais rígido e as escalas que eu faço aqui, o órgão central de pessoal da polícia [...] consegue ver. Então, eu não posso pegar aqui e simplesmente não escalar policiais; deixar o cara em casa [...]

[em um] período longo de tempo, porque isso vai ser vai ser cobrado, né?

Mas é um pleito sim dos policiais aqui... trabalha todo sábado e domingo. É uma situação complicada, a gente tá estudando uma forma de fazer isso. Até porque Corporação ela tem regulamentado que o policial tem [...] direito a dispensa meritória, ou seja, aquele policial produz uma ocorrência, ou que se destaca no serviço, ele tem direito a uma dispensa [...] a gente tá [sic.] para implementar aqui novamente o folgão, para o policial ter, pelo menos, um final de semana livre, aí a cada, pelo menos, um mês e meio; ter um final de semana livre a título de dispensa meritória, pelo bom serviço desempenhado ele poder gozar aquela folga, né? [...] até porque hoje há um empenho muito grande os policiais do BEPE em outros eventos que não são o futebol. Então, qualquer período que não tem jogo o policial do BEPE apoia o quinto batalhão, nas manifestações no centro do Rio; o policial do BEPE apoia o Batalhão de Vias Expressas, colocando policiamento nas vias expressas, na linha amarela, na Avenida Brasil... e isso está sobrecarregando mais ainda o policial do BEPE. Então acho que é justo dar uma dispensa meritória e ele tem um final de semana de folga para família. [...] a gente tá [sic.] estudando agora fazer isso; até por um pleito da própria [tropa] que tem conversado com a gente. [...] direcionando para o final de semana, para ele poder tá [“sic”] em casa no final de semana com a família dele. (entrevista realizada com Comandante de 2015 a 2020).

O Comandante afirma que esta tentativa de retorno do “folgão”, após a grande solicitação da tropa; este sistema está sendo projetado para ser empregado por meio das folgas meritórias; quando um policial consegue realizar ocorrências e seus serviços de modo destacado.

A grande quantidade de serviços de apoio prestados pelos policiais do BEPE também foi citada pelo comandante (2015-2020) e com isso perguntei sobre este aumento; pois o efetivo me informou que anteriormente, o único serviço extra que faziam era no réveillon e durante a pesquisa o efetivo era muito empregado no Batalhão de Policiamento de Vias Expressas.

“É, na verdade essa mudança ela vem através de uma cobrança que existe na corporação. O efetivo da polícia, com a criação das UPPs ele sofreu um aumento, mas esse aumento não foi parar nas vias, nos batalhões convencionais. Esse aumento de efetivo ele foi parar nas UPPs e aí você vem... crise no estado, todo ano a polícia perde cerca de 1000/1500 policiais que estão indo para reserva, se não houver uma renovação o efetivo vai ficar enxuto. Em contrapartida, hoje você tem uma cobrança muito maior, por conta dos indicadores de criminalidade, em que você basicamente tem que ficar atuando em cima disso e cada vez mais reduzir os indicadores de criminalidade, coisa que antigamente não existia. Antigamente a produção policial ela era medida pela quantidade de prisões e apreensões de armas;

hoje a produção policial é medida por isso, mas também por reduzir os índices de criminalidade. Não adianta eu aprender 300 armas e mil pessoas estarem sendo assaltadas todo dia; a sensação de segurança vai ser mínima. Então, objetivo hoje é trazer a sensação de segurança para a população; então assim; é toda uma mudança, uma mudança cultural que vem acontecendo e a cobrança cada vez mais aumentando; que faz com que a Corporação enxergue que o nosso efetivo aqui ‘pô, ali tem cem homens que estão essa semana toda sem evento. Por que esses cem homens vão ficar em casa?

Não, esses cem homens eles têm que trabalhar! ’. E aí ‘você vai atuar onde tem a mancha criminal; onde tá [sic.] tendo problema e é isso que tá acontecendo. No meu antecessor, o [...] [Comandante de 2012-2015], os quatro anos quase que ele ficou aqui; [...] foi o período que o CFAP mais estava formando policiais. Foi a época que as UPPs estavam sendo criadas;

então o CFAP tinha 2.000 / 3000 policiais sendo formados; com isso, o apoio no estádio, basicamente, era formado pelos recrutas, né? E a polícia na época, o estado vivia uma situação financeira mais tranquila; nós tínhamos no estado, naquela época, se gerava em torno de quase 18 mil vagas de RAS por mês; então assim todos os batalhões tinham muitas vagas de RAS disponíveis que o policial trabalhava na folga, então não havia necessidade de usar o efetivo aqui; porque as unidades não precisavam. Hoje não; hoje você precisa trabalhar de uma forma mais enxuta; o efetivo diminuiu, as vagas de RAS diminuíram, por conta da crise, né? [...] Hoje você tem o CFAP com poucos alunos... [...] O cara que é o responsável pelo planejamento da Polícia Militar, ele tem na mão dele todo recurso disponível da Polícia Militar. E aí de acordo com a necessidade, ele vai utilizar o que tá [sic.] disponível e quando o nosso efetivo fica disponível, ele passa a ser utilizado. Mas, dentro da carga horária; ninguém está sendo utilizado também de forma exacerbada; então, eu acho até que é um emprego que é razoável! É razoável! Não tem explicação você ter a Avenida Brasil, a linha vermelha, linha amarela... você pensando como gestor da Polícia Militar, né? Que o policial só vê o problema dele; mas eu... a gente... quem tá [sic.] lá em cima, tem que enxergar o problema como um todo. [...]. Você precisa dar segurança para a sociedade

e você vai deixar o policial ficar em casa cinco, seis dias, né? É uma carga horária que não condiz com a realidade. Então é normal que haja esse emprego; acho até que é justo esse emprego!”(entrevista realizada com o Comandante de 2015 a 2020)

Estas mudanças apresentadas pelo comandante (2015-2020) nesta fala são algumas explicações para um sentimento de que “antes, o GEPE era melhor”. Este sentimento é descrito por grande parte dos policiais que estão na unidade por mais de dez anos;

este cenário será destrinchado ao longo do próximo capítulo.

Para além das críticas quanto ao horário de trabalho e apoios existem algumas críticas mais pontuais, como o não aproveitamento da imagem do BEPE pela PM. As praças desportivas e os jogos de futebol possuem uma grande visibilidade; o Rio de Janeiro está no eixo dos estados que possuem maior visibilidade do futebol e em todos os jogos do Campeonato Carioca e do Campeonato Brasileiro ocorrido aqui no estado, os pinças58 entram em campo, os policiais estão em volta do gramado. Apesar de terem tanta visibilidade, alguns policiais questionaram que este fato poderia ser melhor explorado pela Corporação, a fim de mudar a imagem da PM.

Tendo em vista que a maioria do efetivo da unidade só conheceu o GEPE/BEPE e soube das suas especificidades ao entrar no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP); muito provavelmente a população não conhece este batalhão. Até mesmo a comunidade torcedora, que não é vinculada a torcidas organizadas, pode conhecer o GEPE/BEPE de modo superficial, mas não possuem o conhecimento das atribuições desta unidade da Polícia Militar. Este desconhecimento é refletido no escasso número de estudos sobre o policiamento e segurança em praças desportivas.

Outras críticas pontuais são sobre estrutura. A falta estrutura física do batalhão muitas vezes é suprida pelos próprios policiais de setor, como, por exemplo, colocar cortinas na sala de trabalho. E a estrutura organizacional da Polícia Militar; alguns praças afirmam que é “mão de obra barata”, pois possuem um conhecimento adquirido fora da corporação, sem seu auxílio, como cursos e graduações e muitas vezes são utilizadas pela PMERJ sem o devido valor e recompensa; outros praças questionam a disparidade de tratamento entre praças e oficiais e a estrutura militar da instituição, defendendo até a desmilitarização da polícia.

58 Policiais do BEPE que realizam a segurança da equipe de arbitragem.

Mesmo com estas críticas, somente cinco, dos trinta e seis policiais entrevistados afirmaram que possuem o desejo de sair do BEPE, em algum momento posterior. Sem a pretensão no momento, mas pela necessidade de respirar “novos ares”, pois ainda faltam muitos anos de serviço e não se veem a vida inteira na mesma unidade, diferentemente, de muitos policiais que só foram vinculados ao GEPE/BEPE durante todo tempo de serviço na Polícia Militar até o momento.

Um dos entrevistados, um Sargento que está na unidade entre seis a dez anos, me informou que: “Eu não me vejo trabalhando aqui no expediente para o resto da vida; mas eu não quero voltar para tropa aqui do batalhão. Porque essa história de ficar trabalhando todo final de semana é inviável!” (entrevista com um Sargento que está no GEPE/BEPE entre seis a dez anos). Já os outro trinta e um policiais me informaram que não possuem o desejo de sair do BEPE, oito entrevistados destes trinta e um me informaram que falta pouco tempo para completarem os trinta anos de serviço e se aposentarem.

Percebemos que apesar do BEPE ser uma unidade mais tranquila para se trabalhar, dos policiais possuírem uma qualidade de vida melhor em comparação aos batalhões de área, por exemplo, possui um custo muito alto. Estarem de serviço, basicamente, todos os finais de semana do ano é a queixa mais apresentada pelos policiais como uma crítica ao serviço no batalhão. Por trabalharem diretamente com esportes e principalmente o futebol, os dias em que a tropa mais trabalha são finais de semana e feriados, dias onde normalmente ocorrem os jogos. Este fator gera muita reclamação por parte efetivo, pois não conseguem tem uma “vida social”. Para a maioria dos policiais do efetivo, mesmo com este alto custo, ainda assim vale a pena pertencer ao BEPE, pela qualidade de vida que possuem, mesmo sem ter os finais de semana livres.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 146-152)