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Recebidos pelo BEPE

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 124-128)

Organograma 3 Atividades “fim”

4.4 Apoios

4.4.1 Recebidos pelo BEPE

Em entrevista com o Comandante (2012-2015) ele ressaltou sobre a especialização do BEPE e como isto auxilia as alianças entre as torcidas organizadas do Rio com as de outros estados e como é necessário o conhecimento dos policiais do BEPE um saber específico. Em contrapartida, muitos policiais de apoio são utilizados no policiamento dos jogos, como visto nos planos de ação.

[...] A Jovem do Flamengo é aliada da Independente do São Paulo, já a Raça do Flamengo não é; então por isso quando tem jogo Flamengo e São Paulo tem uma briga muito grande na torcida do Flamengo [...], então policial tem que ser especialista nisso, né? O policial que tá [sic.] no seu dia ali fazendo um patrulhamento [...], trabalhando em cabina, trabalhando na série de funções [...], por exemplo, muitos policiais [que] trabalham aqui no QG [Quartel General], trabalham no Maracanã também. Então, por exemplo, você passou aqui você vai ver os policiais ali digitando, fazendo algumas coisas...

hoje é quarta-feira, daqui a pouco eles vão sair [...], hoje tem jogo do Vasco [...].” (entrevista realizada com Comandante 2012 a 2015).

É preciso ressaltar que os apoios utilizados pelo BEPE são policiais que trabalham em diversos batalhões da PMERJ. Estes servidores não possuem conhecimento específico, não compreendem as especialidades do serviço de policiamento em estádios; muitas vezes ainda são alunos do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças.

Ao ficarem em forma para serem distribuídos, ao serem chamados informam seu documento ao Subtenente responsável e depois de saberem seus postos durante o jogo; colocam o braçal da unidade; pegam o lanche e depois de comerem vão para seus lugares. No policiamento interno os apoios são comumente vistos na área de

circulação e no policiamento externo, frequentemente atuam em Policiamento Ostensivo Geral (POG), próximo ao estádio ou no gradil. Comumente, os policiais do BEPE que ficam liderando estes pequenos grupos de apoio são Cabos e como na polícia a unidade que recebe o apoio que comanda, há casos em que o policial do BEPE lidera outros policiais que estão até a mais tempo do que ele na corporação, apesar dos policiais que prestam apoio frequentemente serem Cabos e Soldados.

Os apoios recebem os braçais do BEPE a fim de uniformizarem o policiamento, no entanto nem todos os policiais que prestam apoio ao BEPE utilizam este braçal de identificação do mesmo. Policiais do Batalhão de Policiamento de Choque (BPChoque), do Batalhão de Ações com Cães (BAC) e do Regimento de Polícia Montada (RPMont) que de acordo com as condições do jogo prestam apoio ao BEPE, não utilizam o braçal da unidade, utilizam somente as identificações específicas de seus batalhões. Não obtive nenhuma resposta sobre esta distinção, todavia, o BPChoque e o BAC são batalhões que respondem ao Comando de Operações Especiais (COE), e o RPMont ao Comando de Policiamento Especializado (CPE).

Todos são unidades especiais e especializadas; os policiais de outras unidades recebem o braçal do BEPE, apesar de ser possível diferencia-los pela cor distinta da cobertura (o boné) e o cinto de guarnição onde o efetivo do BEPE utiliza esses acessórios na cor branca e os demais policiais na cor preta. Entretanto, a maioria dos torcedores que vão ao estádio desconhece essa distinção entre o BEPE e os apoios.

Observando a atuação dos policiais de apoio no BEPE temos, a priori, três problemas: 1) eles não dispõem da especialização específica do batalhão; 2) o BEPE, comumente, age com um número de apoio maior que do efetivo; e 3) a população não sabe que dentre os policiais que estão com o braçal do BEPE a maioria não é da unidade. Cada policial do BEPE, por mais novo que seja na unidade, trabalha ordinariamente com quatro a cinco policiais de apoio sempre com um, ou no máximo dois, policiais do BEPE. Em uma briga no estádio, por exemplo, se há cinco policiais próximo do foco da briga um policial do BEPE atuaria em conjunto com os policiais de apoio que não possuem o hábito de trabalharem em um policiamento específico como é o policiamento em praças desportivas, muitos nem experiência de policiamento comunitário; por vezes agem de modo reativo, com uma força desproporcional ao momento devido à inabilidade de lidar com uma situação de briga de torcida. De acordo com minha observação em casos de briga em que há a presença de policiais de apoio na proximidade, os policiais de apoio são os que mais agem usando

cassetete ou o gás de pimenta de maneira indevida, por não ter o costume de agir nesta circunstância e não possuir a especialização do serviço. Porém é preciso destacar que apesar das instruções que o efetivo da Unidade possuir, com a capacitação continuada, nem mesmo todos os policiais do BEPE possui o Curso de Policiamento em Praças Desportivas. Abordarei de maneira mais aprofundada no capítulo sobre as alterações que o GEPE/BEPE sofreu ao longo dos anos.

Para além destas três problemáticas do grande número de policiais de apoio, a falta de especialização dos mesmos e a não diferenciação para população que recebe o contato direto deste policiamento, parte do meu trabalho de campo realizei estes apoios eram serviços sem Remuneração Adicional de Serviço (RAS). Isto significa que o policial de apoio ia para o BEPE, prestava o serviço além do seu horário de trabalho comum e não recebia por este trabalho; com isso não trabalhavam satisfeitos e atuavam de maneira descompromissada. Durante o meu trabalho de campo conversei com alguns policiais de apoio, dentre essas conversas, dialoguei por bastante tempo com um Soldado da Diretoria de Abastecimento e de acordo com sua opinião os jogos de futebol no Brasil deveriam ser sempre de portões fechados, pois em sua opinião é

“um gasto de dinheiro público”; a única medida cabível para a redução do gasto público, sem me explicar ao certo a motivação central seria ter jogos sem torcida, uma medida completamente inadmissível, pois não resolveria o problema dos gastos públicos e nem das brigas de torcida. Mas o ponto é que ele acredita que a atuação da polícia é desnecessária neste espaço, da mesma maneira como acredita que a manifestação cultural das torcidas e o direito ao lazer das pessoas em um jogo de futebol sejam desnecessários.

Em outro diálogo, uma Soldado, que era do Centro de Educação Física e Desportos da PMERJ, me informou que preferia prestar apoio ao BEPE o que em operações na praia, pois no evento esportivo sabia qual horário iria sair de serviço.

Nos dois casos não há plena satisfação em realizar o apoio, em um caso por não vê a necessidade da atuação policial e nem mesmo a presença das torcidas nos jogos e no segundo caso pela perspectiva de acabar o serviço. Sendo que este foi o primeiro jogo que acompanhei em que os policiais receberiam RAS, imaginava-se um pouco mais de entusiasmo.

Todos estes fatores desencadeiam em uma problemática para o BEPE, em que o próprio Comandante (2015-2020) reconhece.

A gente sofre aqui um grande problema, por quê”? O meu efetivo é pequeno, então você pega um evento que eu trabalhei... vamos falar [sobre a final] da Copa América. Trabalhei lá com 600 homens; meus eram 150! Então assim...

Isso é complicado; que ali você tem policiamento que talvez nunca tenha ido no estádio. Apesar de todos os setores a gente ter a preocupação de ter o nosso policial junto, comandando; mas mesmo assim existem algumas atitudes isoladas do policial, que tem o seu equipamento de gás, que vem da unidade com gás e utiliza o gás na hora que não é utilizar... acaba criando um tumulto muito maior do que o necessário; acaba criando desgaste para imagem da Corporação, que desagrada as pessoas e aí cai na conta do BEPE. Porque o cara tá com o braçal, é BEPE, mas na verdade não é! Não era o policial do BEPE; é o policial do apoio. Talvez utilize a violência no momento que não é para utilizar... então assim, acaba generalizando e isso faz com que a minha unidade talvez não tenha a imagem que deveria ter, se fossem só os policiais especializados, né?! Acaba arranhando a imagem, mesmo não sendo que. O policial que vai ali me apoiar ele não tem o compromisso com o BEPE. Ele tá indo ali apoiar! Talvez não quisesse estar ali; então às vezes vai tratar mal uma pessoa; às vezes não vai dar uma informação de forma cordial... E aí você arranha a imagem da minha unidade;

mas não foi o meu policial que foi treinado para aquilo. Então assim, esse é um problema para a gente e é difícil resolver isso. Porque eu entendo que hoje a corporação não tem como me dar um efetivo necessário para eu cobrir o evento sozinho. E estádios como o Maracanã e Engenhão eu preciso do apoio, que se não tem como gerenciar um evento com 60 mil pessoas, que é um muito grande! Então assim, eu acho que quem conhece, efetivamente, o policial do BEPE, que sabe quem é o policial do BEPE e quem não é; ele entende esse serviço, ele consegue fazer essa diferenciação. Mas o torcedor, de forma geral, não consegue! Ele vê ali, para ele todo mundo é BEPE; todo mundo igual. Então trabalhar essa imagem, às vezes, é difícil. Mas, mesmo assim, pelo que eu vejo as nossas páginas de rede social e tudo mais eu acho que não chega a ser de forma negativa. Até porque, hoje o BEPE tem um reconhecimento nacional. Todos os estados, todas as polícias conhecem;

todos os nossos cursos têm policial de outros estados vindo para cá;

querendo aprender como a gente faz e todos os eventos que acontecem aqui nós somos elogiados nacionalmente; até por torcidas organizadas que vêm de outro estado para cá, PRINCIPALMENTE por eles. Então eu acho que esse é um retorno positivo do que a gente faz. (entrevista realizada em meu trabalho de campo com o Comandante de 2015 a 2020)

Segundo relato dos próprios policiais, os torcedores que conseguem diferenciar o BEPE e o apoio, em geral, são os torcedores organizados, que possuem maior acesso ao efetivo e um conhecimento da estrutura e simbologia do batalhão. Alguns policiais do efetivo também citam que os torcedores antigos, sabem diferenciar o BEPE, por conta do retorno do GEPE, em 1999, contar com radialistas como Apolinho falarem sobre o “GEPE é o branco da paz” (em referência a cor do equipamento utilizada pelo GEPE/BEPE). Também apontam os torcedores, que apesar de não participarem de nenhuma torcida organizada, vão regularmente aos jogos conseguirem identificar os mesmos policiais nos mesmos postos com o tempo, reconhecendo quem sempre trabalha nos jogos e os policiais que não estão sempre realizando o mesmo serviço. São poucos os torcedores que identificam os policiais do BEPE, que são uma minoria nos dias de evento, mesmo possuindo maior conhecimento para trabalhar neste policiamento especializado.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 124-128)