Organograma 3 Atividades “fim”
2.3 Um olhar a partir da Literatura Estrangeira
sociais que abordam. A segunda por outra percepção da população abordada a uma nova identidade que os policiais demonstram; com característica mais passiva, mediadora e mais próxima (COELHO, SENTO-SÉ, 2016), por exemplo, na operação Lei Seca. Em oposição à identidade rude, grosseira, menos polida e violenta (RAMOS, MUSUMECI, 2005).
Especificamente sobre o BEPE, também é possível notar as duas vias desta distinção; conforme será aprofundado nos capítulos sobre o efetivo do batalhão e as mudanças sofridas na unidade. Tanto a de tratamento para os diferentes locais onde os torcedores estão localizados, como a presença policial em setores mais populares e a ausência dos mesmos nos setores mais elitizados, com ingressos mais caros, como os camarotes e o setor do Maracanã mais (típico de uma “nova arena”, com um buffet sendo servido durante o jogo inteiro); quanto a uma identidade policial mais próxima a um policiamento comunitário, por exemplo, as constantes reuniões com as torcidas organizadas e a menor utilização de armas como fuzil. Estas categorias, distinções e relações serão abordadas nos capítulos posteriores.
desmistifica a ideia de que o consumo de álcool é a causa da violência nos eventos esportivos.
O hooliganismo só foi considerado um problema social no Reino Unido a partir da década de 1970, passando a ter um policiamento mais forte (MURPHY, WILLIAMS, DUNNING, 2003; GARLAND, ROWE, 1999). Na década de 1980, os membros do governo de Margareth Thatcher buscavam uma polícia autoritária para resolver este problema e aclamavam a lei e a ordem (MURPHY, WILLIAMS, DUNNING, 2003).
Todavia, este fenômeno continuava a crescer neste período. Dunning (2000) grifa a necessidade de políticas urgentes para este problema.
Dentre a literatura estrangeira, específica sobre policiamento e vigilância em eventos (BENNETT, HAGGERTY, 2011; BRECHBÜHL, SCHUMACHER DIMECH, SCHMID, SEILER, 2016; GARBARINO et. al., 2011), é perceptível o uso de tecnologias e alguns eventos que são citados basicamente em todos os trabalhos, como o caso da tragédia de Heysel, onde mais de 30 pessoas morreram no ano de 1985 em decorrência de conflitos entre torcedores da Juventus e do Liverpool.
Sobre as estratégias de segurança para eventos esportivos internacionais podemos citar o livro Security Games (BENNETT, HAGGERTY, 2011) que aborda detalhadamente a utilização das tecnologias, a presença dos stewards20 na segurança interna dos jogos, do policiamento particular e principalmente do caráter financeiro do policiamento e vigilância dos megaeventos, em especial para organizações como a FIFA, por exemplo.
Especificamente sobre as tecnologias, o livro aborda sobre o aumento da vigilância por câmeras com identificação facial e monitoramento via satélite utilizado no perímetro de segurança, dispositivos de identificação por rádio frequência nos ingressos, entre outras tecnologias citadas. Os autores (BENNETT, HAGGERTY, 2011) afirmam que a segurança durante os megaeventos é como um laboratório de experiências; sempre utilizando novas ondas de tecnologia. Todavia Bennet e Haggerty (2011) trazem questionamento sobre a privacidade das pessoas envolvidas, como o panóptico21 tratado por Foucault (2004).
20 Stewards é o modo como os seguranças privados em eventos esportivos são chamados.
21 O panóptico para Foucault é uma alegoria a um molde de vigilância e poder onde os indivíduos estariam submetidos e disciplinados, convivendo com a possibilidade de estarem sendo observados (FOUCAULT, 2004).
Alguns eventos internacionais como a Copa do Mundo e a Euro foram estudados para analisarem a segurança em eventos esportivos internacionais, dentre eles Eick (2011) e Scott et al (2008). Eick (2011) verificou os valores, a quantidade de pessoas e equipamentos destinados à segurança para a Copa na Alemanha em 2006, o maior evento ocorrido no país desde 1945 (EICK, 2011, p. 93). No estudo de Scott et al (2008) os autores tratam sobre Euro de 2004, que ocorreu em Portugal.
Cada trabalho enfoca um evento futebolístico internacional, Eick (2011) aprofunda nas exigências da Federação Internacional de Futebol (Fédération Internationale de Football Association, FIFA) e alterações na segurança pública ao receber uma Copa do Mundo, no caso específico da Alemanha em 2006. Nesta Copa houve uma mudança de atuação de segurança; com forte presença policial, de vigilância e de aparato tecnológico. Diferentemente da Euro 2004 (SCOTT ET. AL., 2008) que teve um esquema de segurança menos ostensivo.
Stott et.al. (2008) chamam atenção que o uso indiscriminado da força policial gera uma espécie de retaliação, um confronto, devido ao comportamento e psicologia das multidões, principalmente se o policiamento for high profile22. Também chamam atenção para a necessidade de uma direção estratégica de um perfil tático orientado pela informação e dinamismo; evitando confrontos e sempre focado no monitoramento e coleta de informações. A força só é utilizada contra os transgressores do “limite comportamental”. Essas instruções são de acordo com o Modelo Elaborado de Identidade Social.
O esquema de segurança da Copa do Mundo realizada na Alemanha em 2006 se enquadraria no high profile (STOTT et. al., 2008). Eick (2011) aponta que este policiamento teve a parceria de várias polícias e forças de segurança, além de stewards, voluntários, polícia de países vizinhos e uma força policial da própria FIFA.
Outro fato marcante deste evento foi a redução de capital humano substituindo-o por hardwares e softwares, como veículos automáticos, robôs de equipamento de vídeo, sensores de temperatura, scanners detectores de bombas e explosivos, entre outros equipamentos (EICK, 2011).
22 De acordo com a tradução literal, significa perfil alto, em oposição ao low profile que seria o perfil baixo. Ambos são em referência à visibilidade e equipamentos utilizados na segurança dos eventos esportivos. Nem sempre o perfil escolhido é condizente com a necessidade. Ao longo do texto preferi me ater às expressões originais.
Apesar do governo e da mídia acharem que a Copa de 2006 foi um sucesso em termos organizacionais e de imagem; os grupos de direitos humanos e torcedores questionaram como este evento impactou os direitos civis, pelo desrespeito às garantias fundamentais e pela lógica privada se sobrepor aos domínios públicos23 (EICK, 2011, p. 94). Eick (2011) afirma que a Copa do Mundo traz uma experiência para segurança nacional e internacional com a atuação de forças militares, empresas de segurança privada, organizações sem fins lucrativos e voluntários; para o autor, segundo a perspectiva do Estado a Copa é uma oportunidade de desenvolver o policiamento urbano, mas para a FIFA esta segurança se traduz em uma grande quantidade de dinheiro.
Enquanto a Copa de 2006 se enquadra no modelo high profile, o policiamento da Euro 2004, foi de acordo com o modelo low profile e com baixos níveis de desordem comparados a eventos anteriores e posteriores. Scott et.al. (2008) ressaltam que é necessário o estudo da psicologia das multidões para compreender suas dinâmicas, conforme foi abordado no capítulo anterior, e afirmam que esta é uma alternativa de combate à violência baseado na evidência científica e não na confrontação.
Outro artigo, escrito pelos autores Poutvaara e Priks (2009) também afirma que os métodos de policiamento que não diferenciam os torcedores comuns dos torcedores violentos (no caso, hooligans) tendem a aumentar a violência. Os autores concordam que a presença policial com mais aparatos, estilo high profile, causa mais violência. Apontam (POUTVAARA, PRIKS, 2009) que as brigas têm seus custos (sanções criminais, registros, prisões, punições judiciais, custo psicológico da violência, entre outros); entretanto, os jovens brigam por diversos motivos (seja pelas amizades, obsessão pelo time ou pelo desejo de lutar). O aumento do custo desta violência, com uma atuação policial despreparada e sem o conhecimento das dinâmicas destes grupos, pode gerar, por exemplo, ações mais radicais e mais violentas (POUTVAARA, PRIKS, 2009).
Os trabalhos (POUTVAARA, PRIKS, 2009; SCOTT ET.AL., 2008) evidenciam a necessidade de um policiamento mais próximo e conhecedor das configurações das
23 Segundo o autor (EICK, 2011) muitos torcedores foram banidos de entrar na Alemanha, por serem hooligans conhecidos; os hooligans alemãs foram contatados pela polícia em suas casas ou ambientes de trabalho sobre seu banimento ao estádio. Além da a FIFA controlar não somente as regras no interior dos estádios, mas fora deles, com cidades e até nações se submetendo às ordens da Federação Internacional de Futebol, inclusive com o monopólio de produtos comercializados no evento.
associações torcedoras, para lidar melhor com as torcidas e torcedores violentos, sem muitos aparatos e equipamentos. Assim como Coelho e Sento-Sé (2016) demostraram com os policiais da Lei Seca e como, de maneira geral, o BEPE age, conforme será explicado e analisado no capítulo sobre as atribuições da unidade.