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Como é efetivo do BEPE?

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 131-146)

Organograma 3 Atividades “fim”

5.2 Como é efetivo do BEPE?

Neste subtítulo abordarei sobre as respostas mais frequentes que foram transmitidas nas entrevistas. Ao todo foram realizadas as entrevistas com trinta e seis policiais do efetivo, classificados por três categorias principais: 1) policiais com menos de cinco anos na unidade; outra 2) de seis a dez anos de trabalho no GEPE/BEPE; e a última 3) de mais de dez anos de serviço no antigo grupamento. Os policiais também são identificados por suas patentes e graduações, assim como o sexo masculino ou feminino. Para não ficar muito extenso e cansativo, abordarei somente sobre as

questões mais relevantes para a compreensão de como é o efetivo que compõe o BEPE.

Ao total são sete entrevistas com policiais de até cinco anos na unidade, treze entre seis a dez anos e dezesseis servidores com mais de dez anos de atuação no atual batalhão. A divisão quanto as patentes e graduações fica com nove Cabos, dezoito Sargentos, sete Subtenentes e dois Majores. A separação das entrevistas por sexo foram sete entrevistadas do sexo feminino e vinte e nove do sexo masculino.

O principal motivo apontado (treze respostas) para ser Policial Militar foi a estabilidade e garantia de emprego, muitos citaram que no período em que passaram na prova da Polícia estavam realizando uma série de concursos. Logo a seguir, com doze menções estava a identificação com a carreira militar e com o trabalho policial.

A terceira motivação, ou a falta dela, era que dez entrevistados me disseram abertamente que não queriam ser policiais. Portanto, a principal motivação dos entrevistados se tornarem policiais foi a estabilidade, por vezes até sem gostarem da profissão. Lembrando que como era um roteiro de entrevista semiestruturado, não havia opções prévias para os entrevistados e cada um poderia citar mais de uma motivação.

Gráfico 1: Motivação para ser policial militar.

Estas motivações para a escolha da carreira, ou ausência de desejo de ser policial não são aspectos somente dos policiais do BEPE. Podemos perceber de acordo com os trabalhos da Muniz (1999) e Souza (2003). Ao tratar sobre a Polícia Militar do Rio de Janeiro, Muniz (1999) afirma que a escolha por esta carreira, se dá

primordialmente por “natureza instrumental”, principalmente devido à origem popular da maioria destes policiais. O amor e a “conversão” pela profissão se dão com a atuação e a vinculação deste trabalho no cotidiano; depois de estabelecido um vínculo, há uma necessidade de assegurar a causa, isto é, a defesa do trabalho policial perante a sociedade (MUNIZ, 1999). Este amparo e amor adquirido após o exercício da profissão são claramente percebidos no discurso dos policiais do BEPE, mesmo apresentando as inúmeras dificuldades de atuarem nessa área. A autora também demarca que muitos policiais não gostavam da instituição policial, especialmente “os praças” x que não possuíam familiares policiais, pois geralmente são oriundos de origem popular, mais do que estabilidade de emprego, ser policial se configura em poder e distinção (MUNIZ, 1999, p. 195-196).

Ao tratar sobre os cadetes da turma de oficiais da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), Souza (2003) traz a influência familiar, o desejo de ser militar e também a segurança financeira como fatores que influenciam a escolha desta profissão. O status e poder (físico ou não) também foram citados pelos entrevistados pela autora, no entanto, este poder é socialmente ambíguo, pois o mesmo carrega uma visão desvalorizada da sociedade para com essa profissão (SOUZA, 2003), por esta razão compreende-se a necessidade de defesa e autoafirmação de “ser policial”, como abordado por Muniz (1999). As motivações apresentadas pela pesquisa das duas autoras também foram percebidas no BEPE, o que mostra que estes incentivos não são exclusivos dos policiais desta unidade, mas um perfil geral entre os policiais militares.

Ao ser questionado o que é ser policial a maioria das respostas seguiu com a ideia de que é ajudar a população, servir a sociedade, defender quem não conhece estas respostas que seguem a lógica do lema da Polícia Militar “servir e proteger”, com isso, segue um discurso já estruturado; no entanto, poucos utilizam a retórica do herói (somente cinco respostas citaram a figura do herói). Onze respostas ressaltaram o risco e o abrir mão de certas escolhas por conta da segurança pessoal. “Para mim é a melhor profissão que tem, mas é profissão que mais te estressa, mais corre risco de morte, né? Mas eu, hoje em dia, não consigo me ver fora dela [...]” (entrevista com um Sargento que está no GEPE/BEPE entre seis a dez anos); nesta fala o policial ressalta o risco da profissão e como, segundo o mesmo, não consegue se vir fora dela, o que demonstra a “conversão” citada por Muniz (1999), o amor construído com o exercício da profissão. Outros citam o risco de ser policial no Rio de Janeiro, “O risco

também, que você tem no dia a dia, hoje em dia o Rio de Janeiro está muito violento e você sai na rua, você não sabe de volta...” (entrevista com um Cabo que está no GEPE/BEPE há menos de cinco anos). Por outro lado, muitos policiais compreendem o risco concernente à profissão e afirmam que foram para o GEPE/BEPE por ser uma unidade mais tranquila, demonstrando uma fuga de um risco maior.

Você vê que a gente aqui tem poucos casos de polícia envolvido em alguma coisa [...] Policiais mortos [...] também, graças a Deus! Tem poucas ocorrências policiais aqui com os colegas. Até porque o pessoal que vem para cá também é o pessoal que realmente querem outro tipo diferenciado de trabalho. É porque você no teu dia a dia no batalhão operacional você corre riscos iminentes [...] Não dizer que o BEPE aqui você não tenha risco; todo policial tá fardado, com viatura, no deslocamento você tá correndo risco. Só que o trabalho e si; é menos arriscado do que um trabalho que um cara que é combatente [...] 41, 22, 14º... esses batalhões operacionais.

Aqui é um trabalho mais... relativamente tranquilo! (entrevista com um Subtenente que está no GEPE/BEPE entre seis a dez anos).

O risco e o perigo da profissão policial são tratados por Monjardet (2003); em seu texto o autor apresenta que apesar de haver a situação de perigo no trabalho policial, ela não é onipresente; podendo viver cotidianamente com ela ou nunca encara-la. A questão, segundo o autor (MONJARDET, 2003) está na percepção do perigo e seus efeitos sobre a conjuntura de trabalho do policial e a perspectiva quanto ao exercício desta função; isto é, o perigo pode ser constante para aqueles que escolheram esta profissão pela segurança e estabilidade enquanto para os que apresentam uma vocação este fator não os tenciona, por vezes se utilizam até mesmo de sarcasmo sobre esta situação (MONJARDET, 2003. p. 165). Esta observação apresentada por Monjardet (2003) é claramente percebida se observarmos o que o efetivo do BEPE acredita sobre o que é ser policial (com a temática do risco é fortemente demarcada); cruzando com as informações sobre motivações para se tornarem policiais (como a garantia de emprego, segurança financeira e não desejarem ser policiais). Seguindo esta lógica, a maioria do efetivo do BEPE não demonstra esta “vocação” para o exercício da profissão policial, com isso, se alertam com o risco e buscam uma unidade “menos perigosa” em comparação aos batalhões de área, por exemplo.

Quanto ao que se refere a abrir mão de certas escolhas, a maioria destaca estas opções por segurança, como ressaltado pelo Subtenente, “[...] ser policial é abrir mão de muitas coisas! [...] só por você ser polícia aí trava! [...] Como vai ser meu deslocamento aqui para cá? [...].” (entrevista com um Subtenente que está no

GEPE/BEPE há mais de dez anos); as preocupações com trajeto, local e horário são ressaltadas como escolhas que o policial precisa abrir mão por sua segurança;

todavia, também são citadas outras escolhas que precisam abrir mão para estarem no BEPE, como reuniões de família, datas comemorativas, lazer e descanso onde todos estão aproveitando essas datas.

[...] não é qualquer ambiente que a gente pode frequentar... não é todas as festas que a gente pode ir, por exemplo, aqui no GEPE; praticamente todo sábado e domingo; você tá acompanhando e você vê que a gente tá empregado! Então, as vezes tem uma festa de família, um dia das mães... sei lá, um aniversário assim... a gente perde, entendeu? Mas, eu não me arrependo [...] Tem seus prós e contras! Aqui eu moro perto do GEPE, do BEPE, no caso, eu consigo dormir em casa; mesmo chegando tarde eu consigo dormir em casa! Tem os R$ 1000 da gratificação, que mal ou bem faz diferença para gente! Então... tem seus prós e contras! Se tivesse um final de semana no mês seria, assim, seria o melhor lugar do mundo aqui!

(entrevista com uma Cabo que está no GEPE/BEPE há menos de cinco anos).

O custo de conviver com um risco menor é alto e o trabalho em todo final de semana a perda da “vida social”, a ausência em datas comemorativas, são alguns exemplos do “preço” que este efetivo paga para estar em uma unidade “mais tranquila”. Os policiais frequentemente pedem a folga em um final de semana por mês; no entanto, os policiais que permanecem no BEPE possuem as razões por esta escolha.

Ao questionar quais foram as trajetórias destes policiais antes de estarem lotados no BEPE, algumas similaridades foram encontradas. Onze policiais entrevistados saíram do Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP) e foram para o GEPE à época; seis policiais informaram que serviram em alguma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no estado, possivelmente, por conta do grande aumento no efetivo da PMERJ durante as instalações destas unidades52. Outras duas unidades em que os policiais do BEPE, em geral, passaram durante os anos de serviço são o 6º BPM e o Batalhão de Policiamento de Choque. O 6º BPM, que faz o policiamento nos bairros próximos ao Maracanã e possuem um contato com o GEPE/BEPE por esta circunstância. Já os dados do Choque podem ter sofrido uma influência pelo fato do GEPE ter sido vinculado ao Choque, pois muitos policiais estão na unidade desde quando a mesma era vinculada a este batalhão.

52 De final de 2010 para março de 2012 o efetivo de policiais das UPPs saiu de 1.472 policiais para 3.466 (MUSUMECI et. al, 2013). A média de Policiais Militares por mil pessoas pré e pós as treze primeiras UPPs, aumentou de 2,3 PMs para 18,2 PMs por cada 1000 habitantes das respectivas comunidades; aproximadamente oito vezes mais que a média estadual do período. (CANO, BORGES, RIBEIRO, 2012).

Gráfico 2 - Trajetória dos policiais - batalhões anteriores.

Ao perguntar sobre o que levou o (a) entrevistado (a) a estar lotado no GEPE/BEPE muitos falaram que foi por ordens superiores ou por convite do Comandante do período. Muitos desses foram por conta da refundação do grupamento em 1999, como informado no capítulo três, “Do ‘limbo’ ao status de Batalhão Especializado da Polícia Militar”.

A busca pela de “qualidade de vida” foi o segundo tema mais citado. A referência de qualidade de vida abarca diferentes questões citadas pelos policiais;

como o ambiente de trabalho “[...] aqui é um ambiente familiar; tem bons policiais, tem bons comandantes que vem para cá.” (entrevista com um Sargento que está no GEPE/BEPE entre seis e dez anos); o horário de serviço, “[...] eu vim para cá para poder estudar a escala era mais favorável para quem estudava, porque na escala de rotina é muito difícil!” (entrevista com um Sargento que está no GEPE/BEPE há mais de dez anos); até a proximidade do batalhão e a casa do policial, como citado anteriormente, sobre conseguir dormir em casa, mesmo chegando tarde; e “sair da rua” (entrevista com um Sargento que está no GEPE/BEPE há mais de dez anos), isto é, sair da exposição do policiamento ostensivo de um batalhão de área, este Sargento se referia especificamente sobre deixar de fazer as escalas de serviço de madrugada na rua.

Esta unidade possui um público específico diferenciado, que em geral são os diferentes tipos de torcedores. Um diferencial deste batalhão em comparação aos outros é a abordagem, mais próxima de um policiamento comunitário; onde os

policiais, geralmente, não trabalham fortemente armados, somente com uma pistola e o bastão, pois “não há suspeitos” (conversa informal com um Major que está na unidade há menos de cinco anos). Dependendo do clamor do jogo, por vezes alguns policiais que estão na torcida visitante e na força de choque utilizam o elastômero, que é a arma que utiliza a munição menos que letal. Quanto ao armamento letal, para além da pistola, somente a Força de Choque do batalhão que durante o trajeto ao estádio utilizam fuzis e durante o jogo portam o elastômero.

Outro motivo também mencionado foi gostar de esportes e frequentar futebol e saber da existência do GEPE/BEPE após a inserção na PM. Ao citarem sobre a vinculação com o esporte, é fundamental destacar que mesmo com seis respostas relacionando esta motivação ao ingresso a este batalhão especializado, somente duas Cabos, que estão no BEPE, conheciam o GEPE/BEPE antes de entrarem na polícia.

Foi, antes de entrar [na polícia]. [...] quando eu frequentava os estádios, indo aos jogos de futebol com meu marido, eu já observava o trabalho do GEPE e sempre achei muito bonito o trabalho deles; sempre muito certinho e profissional o pessoal daqui, entendeu? Sempre achei muito bacana!

(entrevista com uma Cabo que está no GEPE/BEPE entre seis e dez anos)

Antes, só quando eu ia para jogo. Tanto que uma vez eu assistindo o jogo, acho que foi 2008/2009... E aí é meu esposo perguntou „por que você não faz prova para a polícia? ‟, aí eu ainda sacaneei ‘não, prova para polícia só faço se for para ficar ali igual aquele povo que não faz nada! ’. Aí eu falei assim e na época, de sacanagem eu tirei foto ainda... Era um Sub, Sub [omitido]; trabalhava aqui... Eu ainda peguei ele quando eu cheguei e eu contei essa história para ele. Eu tinha tirado uma foto de sacanagem, botei zoom e tirei a foto dele com uma prancheta, que trabalhava no campo, que ele era auxiliar do Comandante e ele ficava com essa panchetinha... Aí eu falei, ‘não, quero trabalhar só se for ali; para não fazer nada! ’. Quando eu cheguei aqui aí ele falou para mim ‘ah... a gente não faz nada não, né? Então quando você tiver cansada eu vou te falar ‘não, nós não fazemos nada! ’’... e eu mostrei a foto... foi em 2009! (entrevista com uma Cabo que está no GEPE/BEPE entre seis e dez anos)

Estas duas policiais possuem o fato de se interessarem pelo militarismo como um elemento em comum; fator pelo qual influencia o maior conhecimento e observação do trabalho policial. Os trinta e quatro restantes não conheciam o trabalho deste antigo grupamento antes de entrarem na Corporação, nem mesmo aqueles que frequentavam estádios. A maioria conheceu o serviço do GEPE/BEPE durante o período no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP) 53 e mesmo assim conheciam de modo superficial.

53 Ao longo de sua história a unidade sempre recebeu muitos apoios dos alunos do CFAP, inclusive alguns ex-comandantes informaram que preferiam receber o apoio de alunos a de policiais formados e com traquejos de serviço. Em meu trabalho de campo percebi que os alunos que

A maioria dos policiais entra na unidade sem a realização de um treinamento específico para o batalhão, além da formação do CFAP. Trinta entrevistados informaram que não realizaram nenhum curso para entrar no BEPE, apesar de alguns terem feito o Curso de Policiamento em Praças Desportivas (CPPD) depois do ingresso ao antigo grupamento. Lembrando que o CPPD foi criado somente em 2012, com isso, a maioria dos entrevistados está no batalhão antes mesmo deste curso ser desenvolvido. Somente seis policiais que entraram no batalhão após realizarem um treinamento específico; um deles foi para a fundação do grupamento em que os policiais fizeram treinamento de Controle e Distúrbio Civil no Batalhão de Policiamento de Choque, em 1991; três policiais femininas fizeram um curso de capacitação básica, como um pequeno curso do CPPD para irem para a unidade antes dos grandes eventos, no ano de 2013; e dois policiais que ingressaram ao batalhão por meio do CPPD, tendência que paulatinamente ficará mais comum, como os policiais da décima turma do curso, formandos de 2019, que foram transferidos para o BEPE.

Em suma, posso resumir as motivações citadas pelo efetivo do BEPE em um relato em conversa informal de um Cabo que está na unidade por menos de cinco anos; ele me informou que antes de ir para o BEPE só havia trabalhado em comunidades e que depois do nascimento do seu filho e com uma série de reações físicas do estresse, como a queda de cabelo, ele se inscreveu para o Curso de Policiamento em Praças Desportivas e ao final conseguiu se classificar para o batalhão. Isto é, além da boa relação ente o efetivo, seja no estabelecimento de ajuda mútua e uma integração entre os policiais; há um ambiente de trabalho mais ameno,

“mais tranquilo” como ouvi deste Cabo, onde não há incursão em comunidades, com menos possibilidade de troca de tiros e com escala de trabalho que o permite aprimorar sua educação formal, com graduações e cursos.

Com todos os elementos acima citados, o policial do BEPE tem uma qualidade de vida melhor que a de outros policiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro e o próprio policial da unidade reconhece esta diferença.

[...] A [diferença do BEPE para os outros batalhões da PM] primordial que eu vejo é a qualidade de vida [...] o pensamento dos policiais são pensamentos totalmente diferenciados, pela unidade não está voltada para a guerra, não estar voltada para diretamente no combate ao crime [...] não que o BEPE não vai combater! Só que a nossa missão especifica é outra [...]. (Entrevista realizada com um Sargento entre seis a dez anos na unidade).

prestavam apoio eram mais ativos, seja em proibir os torcedores de circularem em uma área que tinham sido instruídos a não deixarem os torcedores ficarem ali.

Neste discurso o policial afirma que, em geral, a polícia é voltada para a

“guerra”, o Sargento não especifica sobre contra o que ou quem é esta “guerra”

enfrentada pela Polícia Militar, no entanto, postula o BEPE em um papel distinto desta

“guerra”, possuindo uma “missão” específica diferente. Inclusive com lógica e objetivos distintos, como a preservação da saúde física e mental, como afirmado por outro policial que foi para a unidade para ter qualidade de vida e lá não faz serviço de vinte e quatro horas na rua:

[O que o levou a estar lotado no BEPE?] Pra eu ter qualidade de vida! Porque o serviço fim do GEPE, são os eventos. Então, você não trabalha 24 horas;

você não vira a noite! Na época, eu não era casado. Então, por mais que você perca o final de semana, os feriados e tal... os intervalos dos eventos eu conseguia aproveitar minha folga. Fazer uma atividade física... porque é muito complicado, por exemplo, como nós ficamos no ano passado um ano apoiando a Rocinha... você fica a noite toda acordado, no sereno, no risco, numa tensão! Aí você fica [com] algum problema de coração, qualquer momento é um susto! Que todo mundo tá te vendo, mas você não tá vendo todo mundo que tá no carro com insulfilm, quem tá descendo do morro, assim... e aqui não! Você trabalha nos eventos, a não ser apoiando outros lugares, você pode proporcionar essa qualidade de vida! Apesar de que tempos em tempos tem mudanças de escala... mudou muito, né? Mas você consegue ter um tem uma qualidade [...] Porque [se] você trabalha no batalhão convencional... no mínimo, no tempo que eu tenho na polícia, já tava [sic.] tomando uns três a quatro remédios, por dia! (Entrevista realizada com um Sargento que está na unidade há mais de dez anos).

Estas respostas que se referem a “qualidade de vida” são fortemente relacionadas com as visões que possuem sobre o que é ser um (a) policial, os riscos, perigos e as consequências desta profissão.

Em resumo, a atividade profissional é representada pelos agentes de segurança pública de forma dialética. A maioria a considera como fonte de prazer e de satisfação: ‘os policiais gostam de sentir esse medo, essa adrenalina’, disseram alguns dos [policiais] civis num grupo focal. Até o estresse é citado de forma positiva como fonte de excitação para a realização do trabalho. [...] O sentimento de prazer e de amor à profissão é verdadeiro, e o captamos na pesquisa: se lhes fosse dado escolher de novo, mais de 70%

dos membros de ambas as corporações escolheriam, outra vez, a mesma profissão. No entanto, esse sentido de pertença é contraposto ao ressentimento pela falta de reconhecimento social, o que, segundo os policiais, mais os aflige [...]. Assim, a maioria considera o trabalho também como fonte de sofrimento e de adoecimento. De várias formas, assinalam que o estresse é responsável por doenças subjetivas, não reconhecidas pelo médico clínico, tais como as enxaquecas e as dores de estômago. Dizem que, por se tratar de sintomas subjetivos, não são levados em consideração pelas chefias e não são tomados a sério quando eles se queixam. (MINAYO, et. al., 2011. p. 2205-2206)

Em estudo sobre o impacto do trabalho na saúde de policiais civis e militares do Rio de Janeiro, Minayo et. al. (2011) apontam o mesmo desejo por adrenalina e

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