Organograma 3 Atividades “fim”
6.7 Raiz x Nutella
mudanças que ocorreram ao longo da existência da unidade, conforme tratadas acima. Todos estes fatores confluíram para a alteração dos moldes de atuação do GEPE em seu início, para como o BEPE realiza o policiamento atualmente. Geraram alterações na unidade da PMERJ, mas também modificaram o modo como o efetivo deste batalhão atua como observaremos a seguir.
deixam as armas no carro”. Esta ideia perpassa por basicamente todas as entrevistas que realizei entre os praças e, até oficiais em menor recorrência.
A partir da leitura de outros trabalhos sobre a polícia (MUNIZ, 1999; CARUSO, 2006), assim como uma percepção das informações a mim apresentadas, creio que esta diferenciação de outros batalhões se dá por alguns fatores:
a) Um dos motivos que explica essa aparente união entre os policiais é devido o batalhão ser pequeno com somente 240 policiais73, com isso só possui uma companhia.
b) A rotatividade entre os policiais ser baixa, a maioria dos praças possui mais de cinco anos na unidade. Inclusive a alteração de comando também é menor, em geral, os comandantes passam mais de um ano no GEPE/BEPE.
c) O ambiente de trabalho em que eles convivem é distinto do ambiente de um batalhão de área, com menor nível de estresse. Este fator é reconhecido por eles mesmos. Muitos me falaram que ao estar no BEPE ganharam qualidade de vida, “é uma rotina menos estressante”, “quando eu vim para cá meu cabelo deixou de cair”,
“hoje minha mãe dorme, pois estou neste batalhão”, “aqui é mais tranquilo”.
d) A grande maioria dos policiais não quer sair deste batalhão, apesar de algumas críticas, são satisfeitos de trabalhar nesta unidade.
e) Confraternização entre os policiais. Os policiais me informaram que antes de começar minha pesquisa, todas as sextas-feiras eles jogavam partidas de futebol no campo do batalhão. Apesar deste tipo de reunião não ter ocorrido até o momento da minha pesquisa;
eu fui convidada para algumas comemorações no batalhão, como aniversário, despedida de um oficial, homenagem meritória das ocorrências do quadrimestre, final da colônia de férias promovida pela P5 para os filhos dos policiais, formatura da Xª turma do CPPD, confraternização de final de ano em um salão de festas.
73 O batalhão conta com 1 Tenente-Coronel, 4 Majores, 8 Capitães, 2 1º Tenentes, 26 Subtenentes, 18 1º Sargentos, 72 2º Sargentos, 28 3º Sargentos, 63 Cabos e 18 Soldados.
Apesar de acreditar que, em um contexto mais amplo, a grande maioria dos policiais defenderiam a unidade onde estão e apontar que ela é especial e unida; estes são os cinco principais fatores percebidos que justificam a repetição da ideia de que o BEPE é uma “casa de família”. No entanto, conforme os policiais foram adquirindo confiança em mim, ao longo do meu trabalho de campo, fui me atentando para as reclamações de que as coisas não estavam mais iguais. Isto me atentou para um saudosismo como uma das características que os “gepianos” mais antigos possuíam.
Geralmente, estas falas são entre os que possuem mais de dez anos no extinto grupamento e entre alguns do que possuem entre seis a dez anos de serviço no antigo grupamento. Informavam que a unidade não era mais a mesma. Mesmo os policiais que frisavam que a unidade é uma família, ao serem perguntados sobre o que não eram mais o mesmo os policiais informavam sobre a “raiz” e a “essência”.
E a partir desta narrativa foram criadas duas categorias pelos próprios policiais;
os policiais do GEPE raiz vs GEPE nutella. Esta categorização se dá a partir de uma brincadeira, que se tornou meme viral na internet; que diferencia algo, ocasião ou alguém que é autêntico, original, antigo; de alguma pessoa, situação ou objeto que é moderno, reformulado, “gourmetizado”.
Apesar de reforçarem a narrativa de que o batalhão é uma família, em conversa informal ouvia desabafos de que “Toda família passa por momentos de crise!” (relato de um Sargento que está na unidade há mais de dez anos). Os policiais do BEPE que se veem como “raiz” ressaltam sobre como foi difícil realizar o policiamento neste setor, que para “conseguir o respeito na geral demorou” e que “a torcida aprendeu a se comportar na porrada”.
Para compreender, me atentei a alguns elementos que eram citados, como “[...]
antes a gente controlava as torcidas somente com a pistola e o bastão!”, “[...] a gente controlava a geral com o bastão.”, “impomos nosso respeito à força”, “a torcida aprendeu a se comportar na porrada”. De acordo com os relatos e com a história, o batalhão surgiu com uma inspiração de policiamento comunitário; efetivamente, contou com reuniões com os líderes de torcidas organizadas em todos os períodos de atuação.
Todavia, em um dado comando, o uso da força como método de controle era recorrente e de certa maneira estimulado. Um Sargento do efetivo do BEPE, que está na unidade há mais de dez anos, informou que foi para o antigo grupamento por
convite do comandante do período e o outro motivo foi porque ele gostava de bater, principalmente em torcedor “baderneiro”. Segundo relatos, neste período a torcida respeitava o GEPE, os policiais mais antigos que compõem o efetivo falam que se faziam respeitar e os torcedores apanham muito no início até aprenderem, porque “ou os torcedores paravam ou corriam”.
[...] a gente trabalhava com bastão e uma garrafinha desse tamanhozinho [sic.] de spray de pimenta e a gente dava conta de tudo! Hoje em dia o cara ele quer sair daqui parecendo o Robocop, acha que não vai dá conta... trazia meu povo todo de volta, para ver se eles não apanhavam era muito... eles apanhavam era muuuito [sic.], ninguém tira onda. [...] Eu fiz escolta do ônibus do Vasco, num Flamengo e Vasco; primeiro jogo com aquele ônibus todo caracterizado. [...] eu e mais um, numa viatura e fiz! Esse dia foi o dia mais engraçado da minha vida! Eu desci na viatura ali na estação de São Cristóvão, que a torcida Jovem do Flamengo ela se concentra ali; eles vêm do trem ali... ah, quando eles viram o ônibus do Vasco [...]. Eu tava [sic.] com fuzil pendurado no pescoço, desci da viatura e falei com meu motorista assim
‘Vai! Vai! ’. Aí foi quando eu apontei para eles, assim... agora foi tipo assim, fodeu! Se eles vierem para cima eu vou ter que dar! [...] xingar vocês podem;
fazer vocês o que quiserem. Aí meu motorista pegou e abriu sirene! Depois foi um tal de voltar polícia atrás de mim [...]. Eu pisava e parecia que estava flutuando! Isso foi em 2009! Parecia que eu estava flutuando! Pensei que eu fosse morrer! Eu achei até que era meu espírito que tava [sic.] ali. Mas assim, era muito bom, muito bom! A gente fazia tudo sozinho! (Entrevista com uma Subtenente que está há mais de dez anos na unidade).
Esta Subtenente se vê como raiz e demonstra em sua fala alguns elementos, juntamente com os outros relatos, que exemplificam esta categoria. A belicosidade é marcante na fala desses policiais, a “porrada”, o “fuzil”, a “pistola” são itens centrais neste discurso, por mais que estivessem vinculados a uma unidade de policiamento de “proximidade”.
Atualmente, os policiais do efetivo falam em policiamento de proximidade, dificilmente afirmam sobre policiamento comunitário. Acredito que esta associação com a nomenclatura de policiamento de proximidade se dá pela influência do programa de Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). É necessário destacar que apesar de serem similares ambas não exercem a mesma filosofia.
Outro relato mostra a dificuldade da atuação do GEPE sem um grande aparato do estatuto do torcedor, sem o Juizado Especial do Torcedor; sem o conhecimento legal do CPPD; sem equipamentos menos que letal além do bastão, a pistola e a força física:
[...] Em um jogo do Botafogo, tava [sic.] brigando pra não ser rebaixado, não lembro qual foi o ano. E nosso efetivo tava [sic.] muito reduzido porque tinha outro jogo. [...] eu nunca tinha vivido uma cena daquela. De torcedores quebrando os ônibus, tanto do Botafogo como ônibus visitante. [...] Invadiram o campo, queriam agredir os jogadores, sabe? Aí, o que eu falei para o meu
policial? „Meu irmão olha só, já quebraram ônibus, já quebraram tudo, vamos prender! Temos que fazer alguma prisão‟. [...] Invadiram tudo, primeiro torcedor que passar na frente de vocês, comunica no rádio, prende e delegacia. [...] O gramado foi todo invadido, vestiário, arquibancada, quebraram ônibus, quebraram até uma viatura nossa, retrovisor, para-brisas.
Perdemos o controle realmente, aquilo ali foi um fato realmente, mas efetuamos várias prisões. Não foi muito criticado pela imprensa não. Foi mais criticado a ação dos torcedores, não da polícia. Porque nós efetuamos, quem a gente podia prender, a gente prendeu. Mas ficou na cabeça da gente. Um fato bem marcante. (entrevista com o Subcomandante de 2002 a 2006).
Constantemente há a comparação entre estrutura anterior e a atual. “A gente não tinha o que hoje o BEPE tem. [...] Não tinha uma bomba, uma granada de luz, de som, um escudo, não tinha nada disso. Era no talento.” (entrevista com um Sargento que está na unidade há mais de dez anos). “Tudo era jeitinho! Nós já trabalhamos aqui no passado com um bastão e vai ser feliz no estádio!” (entrevista com um Subtenente que está na unidade há mais de dez anos). Apresenta de modo muito claro a precariedade de equipamento que eles conviviam, ainda mais quando se trata do policiamento da geral do Maracanã:
[...] você atuava nos 150 mil apenas com um bastão policial. Você não tinha recursos, os armamentos não letais. Não tinha nada. Era você e Deus. Tinha um grupo na geral que era muito bom de trabalho. Muito bom mesmo. Se não fosse bom tu apanhava [sic.]. Eu já vi policial apanhando, tomando banda.
Mas, falando mais do policiamento do GEPE, o GEPE ele evoluiu mesmo.
(entrevista com um Sargento que está na unidade há mais de dez anos).
Este relato apresenta que se o policial não fosse muito bom, apanharia, levaria “banda”
no policiamento do setor da geral. Apesar das reuniões de torcida, na prática, a segurança dos setores populares era baseada na agressão “era resolvido na base do bastão e eles respeitavam muito, muito, muito!” (entrevista com uma Subtenente que está na unidade há mais de dez anos).
Em contrapartida, a esta precariedade apresentada e sofrida pelos “gepianos”
raiz, hoje, após massivo investimento após os grandes eventos sediados no Rio de Janeiro. “Antigamente só tínhamos bastão para oferecer, revólver 38, depois que chegaram as pistolas. Mas hoje o GEPE tem fuzil, tem granadas, tem escudo, tem uma gama de materiais [...]” (entrevista com um Sargento que está na unidade há mais de dez anos). Além de maior quantidade de equipamentos, conhecimento técnico com o curso, elitização dos estádios; atualmente o batalhão também conta com uma força de choque, apresentando grandes mudanças e maior facilidade no serviço policial.
Hoje nós utilizamos munição de elastômero, o gás, o taser, a arma de choque... antigamente era a arma de munição real e um bastão!
Popularmente, uma madeira na mão e isso que era utilizado! Batalhão hoje tem uma estrutura formidável, temos uma força de choque, hoje nós temos a
nossa própria força de choque para atuar contra turbas muito grande... Como eu te falei! Hoje o batalhão cresceu de uma forma absurda, ele é excelência no que faz! (entrevista com um Sargento que está na unidade há mais de dez anos).
Os policiais mais antigos no GEPE trazem consigo o sentimento que o
“gepiano” raiz - são aqueles que “sabem de verdade!” são os policiais que lidaram com maiores dificuldades e com restritos recursos para estabelecerem a segurança nos estádios. Aqueles que sofreram na pele a precariedade, atuaram em estádios com maior presença popular, em setores vistos como “submundo” e por vezes até apanharam de torcedores.
Enquanto aqueles policiais que são classificados como “nutellas”, pelos policiais “raiz”, não enfrentaram todas estas adversidades. Já entraram em um batalhão com recursos, em um ambiente desportivo mais elitizado, com menos riscos e, principalmente, com a gratificação. Em relação a este tema recebi o seguinte relato
Quando eu cheguei no GEPE, ‘tem certeza? Você vai trabalhar todo final de semana... ’ e assim foi. Praticamente, 12 anos trabalhando todo final de semana! Sem reclamar! Sempre apaixonada, entendeu? E a gente não tinha essa gratificação que a gente hoje tem; era amor mesmo! Éramos uma tropa desse tamanhozinho [sic.] assim; éramos uma família! [...] Hoje em dia tem muita vaidade, hoje tem muita gente que tá [sic.] aqui pela gratificação.
Se a gratificação acabar vai um bando embora... mas antigamente era uma família! Onde um tava [sic.], tava [sic.] todo mundo. (Entrevista com uma Subtenente que está há mais de dez anos na unidade).
Esta policial falou claramente para mim esta relação com a gratificação e os policiais
“nutella”, outros também indicaram esta relação; apontando inclusive um aumento da rotatividade dos policiais pós algumas mudanças, em especial a gratificação.
Todas as facilidades trazidas por estas mudanças citadas ao longo do capítulo forjaram o policial “nutella”, e, é de acordo com os policiais mais antigos, principalmente, os com mais de dez anos que afirmam tudo estar mais fácil. Os policiais que se veem enquanto “raiz”, consideram-se os mais hábeis por terem tido mais “sacrifício” no trabalho, com a conotação simbólica ao “dever militar” de dedicação e fidelidade à Pátria mesmo com o sacrifício da própria vida, como exposto no art. 31º do estatuto militar (BRASIL, LEI Nº 6.880/80); o sacrifício cotidiano, a morte, o enfrentamento de intempéries de realizar o policiamento nas condições mais diversas (FRAGA, 2006; HATHAZY, FREDERIC, 2018). Também pontuam a diferença de “risco” sofrido entre eles e os policiais atuais; a categoria de risco aqui citada foi abordada no capítulo anterior.
É preciso ressaltar que as rotulações em que o BEPE padece dos policiais de outros batalhões da Polícia Militar por não serem vistos enquanto “verdadeiros policiais” conforme abordado no capítulo anterior. São reproduzidos ao mesmo modo pelos gepianos “raiz” para com os “nutella”; por atuarem em um ambiente mais facilitado, controlado, com melhores condições técnicas, teóricas e materiais. Isto é, todas as representações em que os policiais que são do “GEPE raiz” afirmam sobre o
“GEPE nutella”, de não serem “verdadeiros policiais” por não terem enfrentado mais riscos e não terem feito o sacrifício de policiar a geral como eles fizeram; possuem a mesma lógica argumentativa em que outros policiais da PM observam o GEPE/BEPE, que não fazem incursões em comunidades, que não enfrentam o risco e não se sacrificam. Argumento no qual o BEPE como um todo (seja “raiz” ou “nutella”) não aceita e contra argumenta com a justificativa da especialidade e serviço diferenciado da unidade. No entanto, esta ideia de “verdadeiros policiais” 74 não existe; é somente uma representação do imaginário que opaca as distinções internas e ressalta as diferenças externas, diferenciando o “nós” e os “outros” (HATHAZY, FREDERIC, 2018).