constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência.” (MARX, 2008, p. 47).
A noção de totalidade, explicitada por Marx, é constituída de partes heterogêneas desenvolvidas em movimento desigual e contraditório das relações de produção. Na mesma perspectiva, segundo Tse-Tung (2008):
Já que o particular está unido ao universal e que a universalidade, assim como a particularidade da contradição, são inerente a tudo – a universalidade residindo na particularidade –, deveríamos, ao estudar um objeto, tentar descobrir tanto o particular como o universal e sua interconexão dentro do próprio objeto, e descobrir as interconexões desse objeto com os muitos objetos fora dele. (TSE-TUNG, 2008, p. 106).
Para tanto, para se compreender a totalidade, também pelas formulações marxistas, é necessário estabelecer a conexão com a categoria contradição, chave para a intepretação da realidade do campo brasileiro. Netto (2011), discutindo Marx e Engels e sobre a importância no método de pesquisa, baseando-se no livro Ideologia Alemã (1999)4, aponta:
Para ambos, o ser social e a sociabilidade resulta elementarmente do trabalho, que constituirá o modelo da práxis – é um processo, movimento que se dinamiza por contradições, cuja superação o conduz a patamares de crescente complexidade, nos quais novas contradições impulsionam a outras superações. (NETTO, 2011, p.31).
A contradição, neste sentido, não é uma dualidade, mas produto de um movimento único das relações sociais dentro do modo de produção. Segundo Marx, “É preciso [...] explicar essa consciência pelas contradições da vida matéria, pelo conflito que existe entre as forças produtivas sociais e as relações de produção” (MARX, 2008, p. 48). Utilizando a contradição como ferramenta de pesquisa, elementos opostos na realidade devem ser compreendidos como partes contraditórias da totalidade. Descobri-las, compreender sua natureza, condições e limites são desafios na pesquisa.
Oliveira (2016), em sua tese5 de doutorado em Geografia, ao tratar de seu estudo e a escolha do materialismo histórico como teoria dentro do método dialético, afirma:
[...] devemos lembrar que a totalidade orgânica no materialismo histórico é uma totalidade contraditória, ou seja, onde o conceito de contradição é extremamente importante, pois ele não só direciona, como também explica as lutas de classe que são o motor da própria história. (OLIVERA, 2016, p. 46).
4 Foi publicado, originalmente, em 1846.
5 Tese de doutorado em Geografia publicada como livro em 2016. Disponível em: <
http://agraria.fflch.usp.br/sites/agraria.fflch.usp.br/files/CR%C3%8DTICA%20AO%20ESTADO%20ISOLADO
%20DE%20VON%20THUNEN.pdf>. Acesso em: 07 mai. 2020.
Para Oliveira (2016), valendo-se de Tse-Tung (1937), a totalidade é contraditória, não harmônica, e o método dialético e sua principal lei, a da contradição, dá unidade aos contrários.
Com isso, “É na contradição que reside a fonte do movimento, e nela que encontraremos o motor do próprio desenvolvimento da realidade.” (OLIVEIRA, 2016, p. 213). Desta maneira, a realidade é produzida por contradições internas da sociedade;
As transformações na sociedade são resultado sobretudo do desenvolvimento de suas contradições internas, isto é, a contradição entre as forças produtivas e as relações de produção, entre as classes, e entre o velho e o novo; é o desenvolvimento dessas contradições que empurra a sociedade para adiante e dá ímpeto para a substituição da velha sociedade pela nova. (TSE-TUNG, 2008, p. 87).
Na análise da questão agrária, listam-se fenômenos contraditórios, como o campesinato e o latifúndio possuindo na essência uma conexão: desenvolvimento desigual contraditório e combinado do capitalismo no campo. Para Tse-tung (2008), é na particularidade de cada contradição que existe sua universalidade, ou seja, dentro da contradição da existência do latifúndio e recriação da classe camponesa há a razão universal, o desenvolvimento do capitalismo.
Fabrini (2004) indica a particularidade da contradição camponesa:
O sentido contraditório e desigual está no fato do camponês garantir a sua existência no sistema adverso pela luta. É como se o camponês não tivesse lugar no capitalismo, fosse de fora, mas insiste em continuar existindo, ou seja, traindo as leis do capital pela luta. De outro lado, ao se entender a reprodução do campesinato como uma possibilidade aberta pelo capitalismo ao campesinato, está-se admitindo que é uma relação de dentro do capitalismo, ou seja, que tem lugar no capitalismo, servindo inclusive para a produção de mercadoria. (FABRINI, 2004, p. 128).
Colocando em movimento a categoria contradição nas frações territoriais da realidade analisada, pode-se entender a reprodução do latifúndio e a recriação do campesinato como partes de uma lógica universal das relações de produção. Assim:
A contradição é mesmo a essência destas relações reveladas pela existência do campesinato. É neste sentido, da compreensão do desenvolvimento desigual e contraditório das relações capitalistas que se compreende a existência camponesa neste modo de produção que lhe subordina e oprime.
(FABRINI, 2004, p. 135).
O desenvolvimento desigual e contraditório das relações capitalistas também gera, por consequência, relações tipicamente não capitalistas. Segundo Oliveira (1991) o desenvolvimento desigual do modo capitalista de produção é parte do processo de reprodução
ampliada do capital, articulando relações tipicamente capitalista e tipicamente não capitalistas.
A contradição, no entanto, não faz do campesinato um elemento fora do capitalismo:
Assim, o campesinato se recria como classe social capitalista e os múltiplos modos comunitários de produção se reproduzem simultaneamente na sociedade capitalista, processos que se realizam com tensões, conflitos e resistências. (PRIETTO, 2017, p. 817).
Com isso, o desenvolvimento desigual não pode ser resumido há um processo pragmático de permanência do campesinato dentro do modo capitalista de produção.
Camponeses resistem diariamente para conquistar a terra, travando conflitos históricos no Brasil, como bem pontuou Martins (1981). No mesmo sentido, Fernandes (1999) revelou o processo de formação do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e suas lutas por todo o Brasil pela Reforma Agrária. Portanto, dentro da reprodução do campesinato, no interior das contradições do desenvolvimento do capitalismo no campo, há a luta desta classe social para permanecer/entrar na terra e para que sua renda não seja apropriada na totalidade pelo capital.
Nessa perspectiva, o campesinato e o latifúndio, objetos desta tese, são entendidos como particularidades dentro do movimento universal da contradição. Compreende-los em sua forma e essência são a estrutura central, passando também por encontrar interconexões entre estes contrários.
Com estes pressupostos, compreendem-se as contradições presentes na totalidade como resultantes do processo de produção e reprodução ampliada do capital e, consequentemente, promovendo-se a reprodução social dos sujeitos. Com isso,
A força de trabalho existe apenas como disposição do indivíduo vivo. A sua produção pressupõe, portanto, a existência dele. Dada a existência do indivíduo, a produção da força de trabalho consiste em sua própria reprodução ou manutenção. Para sua manutenção, o indivíduo vivo necessita de certa quantidade de meios de subsistência. (MARX, 2011, p. 316).
Outra categoria, a reprodução, auxilia na compreensão da sociedade e suas instituições em seu processo de auto conservação reproduzindo as condições necessárias para a manutenção de suas relações básicas (CURY, 2000). Como afirmado por Marx (2011), a reprodução envolve para além da produção dentro do modo capitalista de produção, mas, também, a reprodução de de toda a sociedade. Assim, “A reprodução de suas relações implica mais do que uma (re)produção de coisas. Implica a tentativa de reproduzir o movimento do capital social como um todo.” (CURY, 2000, p. 39).
Nas relações tipicamente capitalistas de produção, o trabalho assalariado é responsável pela reprodução do capital, desta forma, o capitalista aplica parte do lucro advindo da
exploração do trabalho no aumento da exploração da mão-de-obra para, consequentemente, aumentar a produção, apropriar-se da mais valia e obter mais lucro. Nas palavras de Marx (2011)
Assim, por meio da ação da força de trabalho, não apenas seu próprio valor se reproduz, mas também se produz um valor excedente. Esse mais-valor constitui o excedente do valor do produto sobre o valor dos elementos formadores do produto, isto é, dos meios de produção e da força de trabalho.
(MARX, 2011, p. 317). (Grifo nosso).
Aproximando essas questões teóricas para o campo brasileiro, o processo de reprodução do capital também ocorre na expansão do trabalho assalariado na agricultura. Ao mesmo tempo, Martins (1981) compreende os processos de produção e reprodução do capital no campo como partes da reprodução ampliada do capital. De acordo com o autor, é importante discernir entre produção do capital e reprodução capitalista, pois a primeira nunca é vista como capitalista.
Desta maneira, a lógica do modo capitalista de produção permite no seu interior a reprodução de relações tipicamente não capitalistas, como as estabelecidas com o campesinato, objetivando-se a apropriação de parte da renda gerada por estes sujeitos (MARTINS, 1981;
OLIVEIRA, 1991). Com isso, “[...] o próprio capital pode lançar mão de relações de trabalho e de produção não-capitalistas (parceria, familiar) para produzir capital.” (OLIVEIRA, 1991, p.
19). A renda da terra é chave para compreender a permanência do campesinato como classe social dentro do capitalismo, porque onde a renda é baixa, como no caso de muitos alimentos básicos, o capitalista deixa de empregar capital no trabalho assalariado, permitindo-se a produção camponesa, para depois se apropriar da renda gerada por meio de outros mecanismos, sobretudo na circulação (MARTINS, 1981).
Desta forma, ao passo que a produção familiar camponesa se mantém dentro do capitalismo, ou seja, com base no trabalho familiar não assalariado, a produção do campesinato se subordina na compra de insumos ou no monopólio da circulação, quando ocorre a sujeição da renda ao capital (MARTINS, 1981). Em síntese: “A expansão do modo capitalista de produção, além de redefinir antigas relações, subordinando-as à sua produção, engendra relações não-capitalistas igual e contraditoriamente necessárias à sua reprodução.”
(OLIVEIRA, 2007, p. 40).
A reprodução do latifúndio também se enquadra inicialmente como contradição do processo de reprodução ampliada do capital, sobretudo pela cobrança da renda da terra pelo proprietário fundiário para o capitalista utilizar a terra (MARTINS, 1981). Porém, no Brasil, em casos de renda da terra elevada, como na soja, no eucalipto e na cana-de-açúcar, capitalistas
se tornam proprietários fundiários ou arrendatários capitalistas, reproduzindo o latifúndio, processo denominado por Oliveira (1991;2007) de territorialização do capital.
O movimento de produção e de reprodução ampliada do capital necessita de consenso entre as classes sociais subordinadas, no qual um conjunto de valores sociais passam da exploração como um bem comum para todas as classes. Desta forma:
As transformações ideológicas rebatem sobre as relações econômico-sociais, através das instituições sociais em geral e na própria consciência social das classes. Por isso, a formação da ideologia não é dada, é construída pelas classes sociais, afirmada como atividade política no próprio movimento dessas classes. (CURY, 2000, p. 46).
Desta forma, a construção da ideologia passa pelas manifestações individuais e coletivas envolvendo cultura, leis, educação, entre outros. Gramsci (1999) é a referência utilizada nesta tese sobre ideologia e a categoria hegemonia. A densa construção teórica do autor não se reduz à “hegemonia”, é necessário a compreensão mínima do desenvolvimento do seu pensamento para não limitar o uso da categoria. Desta forma, as formulações de Gramsci passam por outras categorias, como: bloco histórico, aparelho hegemônico, ideologia, consenso, Estado.
Segundo Gramsci (2007, p. 95), o exercício “normal” da hegemonia caracteriza-se pela combinação da força e do consenso. O consenso entre as classes sociais é estabelecido por meio da formação da opinião pública, ou seja, a universalização e reprodução da ideologia construída pela classe social dirigente (dominante).
Sobre ideologia, o autor afirma:
[...] coloca-se o problema fundamental de toda concepção do mundo, de toda filosofia que se transformou em um movimento cultural, em uma ‘religião’, em uma ‘fé’, isto é, que produziu uma atividade prática e uma vontade, nas quais ela esteja contida como ‘premissa’ teórica implícita (pode-se dizer, desde que se dê ao termo ‘ideologia’ o significado mais alto de uma concepção do mundo, que se manifesta implicitamente na arte, no direito, na atividade econômica, em todas as manifestações de vida individuais e coletivas) — isto é, o problema de conservar a unidade ideológica em todo o bloco social que está cimentado e unificado justamente por aquela determinada ideologia. (GRAMSCI, 1999, p. 98) (Grifo nosso).
Na luta de classes, a classe social dirigente busca construir a ideologia dominante sobre as outras classes para alcançar a capacidade de subordina-las e manter a estrutura social produtiva e unificar o pensamento. Em Cury (2000):
A hegemonia é a capacidade de direção cultural e ideológica que é apropriada por uma classe, exercida sobre o conjunto da sociedade civil, articulando seus interesses particulares com os das demais classes de modo que eles venham a se constituir em interesse geral. (CURY, 2000, p. 48).
A hegemonia é o exemplo de força das classes dominantes limitando e conduzindo o pensamento (ideologia) da demais classes sociais. A formação ideológica e sua reprodução na ciência, cultura, educação, leis, entre outros, influenciam as massas populares tornando-as coesas em torno do pensamento e objetivos da classe dirigente. Portanto:
Estes sistemas influem sobre as massas populares como força política externa, elemento de força coesiva das classes dirigentes, e, portanto, como elemento de subordinação a uma hegemonia exterior, que limita o pensamento original das massas populares de uma maneira negativa, sem influir positivamente sobre elas, como fermento vital de transformação interna do que as massas pensam, embrionária e caoticamente, sobre o mundo e a vida. (GRAMSCI, 1991, p. 114).
O aparelho hegemônico, base material para as análises de Gramsci e, segundo Liguori (2017), está ligado à construção ideológica, ou seja, na luta de classes, o aparelho hegemônico
“cria” uma nova concepção de mundo. Na análise da questão agrária no Parque das Emas (GO) e no Bolsão (MS), a luta de classes e a contradição entre capitalistas, proprietários fundiários e camponeses possuem na agricultura capitalista, parte do denominado agronegócio, o fio condutor da manutenção da hegemonia.
O discurso, a propaganda e a defesa política das atividades ligadas ao agronegócio indicam a ideologia6 hegemônica para a manutenção da agricultura capitalista, parte da universalidade da (re)produção ampliada do capital mundial. Inevitavelmente, problemas e contradições, propiciados por tais atividades, geram enfrentamentos com a classe camponesa.
Nesse sentido, as emendas parlamentares para a agricultura e as ações mitigadoras das empresas privadas analisadas nesta tese, são uma das vias de reprodução ideológica do agronegócio nos assentamentos de Reforma Agrária.
Gramsci (2007), ao discutir a passagem e transformação dos interesses de grupos dominantes para os grupos dominados, aponta a formação de ideologias:
[...] ou pelo menos uma única combinação delas [ideologias], tenda a prevalecer, a se impor, a se irradiar por toda a área social, determinando, além da unicidade dos fins econômicos e políticos, também a unidade intelectual e moral, pondo todas as questões em torno das quais ferve a luta não no plano corporativo, mas num plano ‘universal’, criando assim a hegemonia de um grupo social fundamental sobre uma série de grupos subordinados.
(GRAMSCI, 2007, p. 41).
6 A tese de Rodrigo Simão Camacho faz a análise da disputa de paradigmas na educação do campo, ou seja, a disputa ideológica entre as classes pela hegemonia. CAMACHO, Rodrigo Simão. Paradigmas em disputa na educação do campo. 806 f. Tese (Doutorado) - Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho"
Faculdade de Ciências e Tecnologia. 2014.
É mister compreender que a proposição de Gramsci sobre hegemonia advém do pensamento marxiano. Marx (2008) discutindo a base material das relações de produção, aponta para existência de uma superestrutura condicionadora da consciência das classes sociais, sobretudo o proletariado: “A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política e à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência.” (MARX, 2008, p. 47).
Assim, segundo o autor, a superestrutura é formada pelas forças repressivas do Estado e pelo aparelho ideológico do Estado. Com base nestas contribuições teóricas, a categoria hegemonia auxiliará na compreensão da reprodução ideológica de capitalistas e latifundiários por meio do Estado, em diferentes práticas, como as emendas parlamentares.
Desta forma, pode-se observar que as categorias “totalidade, contradição, reprodução e hegemonia” se articulam entorno da teoria e dos conceitos no decorrer da tese. Estas ferramentas estarão presentes no texto, seguidos da interpretação e desenvolvimento da análise do autor sobre a realidade analisada.