dominiais, consideradas incomuns. Após sucessivos atendimentos, os funcionários passaram a solicitar documento formal (requerimento) exigindo nome do pesquisador, endereço e o motivo da procura por tais informações. Apesar da burocracia, foi possível acessa-las. Em síntese, a estratégia se mostrou relevante em demonstrar a insegurança jurídica do latifúndio nas áreas rurais nas quais se desenvolve a agricultura capitalista, sobretudo da soja e de eucalipto, no Parque das Emas (GO) e, sobretudo, no Bolsão (MS).
também confirmação in loco das possíveis reflexões/conclusões encaminhadas pelo pesquisador. A realidade pode dar as respostas não encontradas pelo pesquisador em bibliografias, como também pode contrariar as hipóteses formuladas.
Seguindo as exigências do Programa de Pós-Graduação da UFG/UFJ, o primeiro passo para o trabalho de campo desta pesquisa foi sua aprovação no Conselho de Ética na Plataforma Brasil31. O processo de aprovação demanda tempo, sobretudo de formulação nas normas exigidas e no período de avaliação. A Plataforma Brasil não foi elaborada para pesquisas em Ciências Humanas, assim alguns questionamentos e exigências não se enquadram neste estudo, como, por exemplo, perguntas sobre coleta de materiais biológicos.
Nesse sentido, a aprovação da pesquisa no Comitê de Ética demorou, aproximadamente, três meses, entre o enquadramento do projeto nas normas e sua avaliação na plataforma. Na elaboração do projeto, é exigido do pesquisador a apresentação de quem serão os entrevistados e o roteiro (perguntas) de entrevista, questionamento aparentemente simples em pesquisa sobre campesinato, mas novos sujeitos são encontrados em campo, como funcionários públicos, prefeitos, comerciantes, entre outros, fugindo do projeto inicial.
Além disso, exige-se do pesquisador a apresentação de termo de consentimento de entrevista ao entrevistado e a coleta de sua assinatura em uma segunda via. Em pesquisas qualitativas como esta, o número de pessoas entrevistadas é relativamente pequeno, no entanto, para pesquisas quantitativas, com levantamento em campo de informações via aplicação de questionários, essa exigência demanda grande quantidade de material impresso.
O trabalho de campo se embasou nas experiências de Marcos (2006) e no uso de fontes orais de Almeida (2006). Sendo assim, a postura e o comportamento diante dos sujeitos entrevistados devem ser pensados, principalmente, quando são camponeses, com baixa escolaridade. Assim,
Um ponto importante da pesquisa, talvez o mais importante, se refere à
‘chegada’ à área de estudo. A forma como nos apresentamos e nos (com)portamos reflete muito do que somos e pode servir a nos abrir as portas, ou a fechá-las definitivamente. (MARCOS, 2006, p. 111).
Considerando sempre a necessidade de o pesquisador deixar de ser estranho no local para transformar-se em visita agradável, a necessidade de coleta de assinatura durante o campo prejudica o andamento da pesquisa. Camponeses, em sua maioria, possuem pouca escolaridade, porém são sempre desconfiados, ainda mais diante de um estranho fazendo perguntas e fotografando. Muitos aceitaram simpaticamente conversar, mas sem assinar o termo; outros
31 Plataforma pode ser acessada em: <http://www.comitedeetica.saomateus.ufes.br/plataforma-brasil>. Acesso em: 17 ago. 2020.
começaram a se portar mais reservadamente após a solicitação da assinatura, limitando a entrevista em respostas curtas e vagas. Os camponeses mais jovens, titulares de lotes de Reforma Agrária, ou seus filhos, receberam melhor o pedido de assinatura do termo de consentimento. Até mesmo funcionários públicos se mostraram receosos com o pedido de assinatura do documento. Esta experiência mostra como a exigência de assinatura imposta pelo Comitê de Ética é limitante e desconfortável para o pesquisador e entrevistados.
Por outro lado, a apresentação da pesquisa de forma escrita e resumida foi bem aceita.
Sendo assim, para os camponeses entrevistados e visitados, foi distribuído material impresso em uma folha, com informações sobre a pesquisa e o pesquisador, incluindo telefone e endereço da Universidade.
O trabalho de campo foi realizado, em grande parte, nos assentamentos de Reforma Agrária no Parque das Emas (GO) e no Bolsão (MS). Foram realizadas, pelo menos, uma visita em cada um dos 16 assentamentos estudados. Órgãos federais, como INCRA, em Brasília (DF), e a representação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, em Campo Grande (MS), também foram locais visitados durante o procedimento.
Ocasionalmente foram utilizados os veículos da Universidade para trabalhos de campo em locais próximos. A demanda por veículos, somada à falta de funcionários, e a perspectiva de campos com duração de mais de um dia, inviabilizaram o uso de recursos da Universidade.
Dadas às longas distâncias e à necessidade de trabalhos de campo mais extensos, fez com que se optasse pela locação de veículos com recursos próprios, permitindo trabalhos nos feriados e nas férias escolares. No mapa 2, demonstra-se a abrangência da área pesquisada e a relação em quilômetros entre os assentamentos e os municípios de Jataí (GO) e de Três Lagoas (MS).
Calcula-se, nesta pesquisa, apenas em trabalhos de campo a assentamentos rurais, mais de 3 mil quilômetros percorridos em rodovias, sem considerar o deslocamento entre os lotes das famílias. No Parque das Emas (GO), estima-se que o caminho percorrido nos trabalhos de campo, apenas nos assentamentos rurais, totalizou 1.640 quilômetros. A maior distância foi de Jataí (GO) até a área rural de Santa Rita do Araguaia (GO), correspondendo a, aproximadamente, 350 quilômetros, totalizando 700 quilômetros no percurso completo (ida e volta). No Bolsão (MS), a soma das distâncias percorridas de todos os trabalhos de campo nos assentamentos de Reforma Agrária totalizou 1.732 quilômetros. Em um único trabalho de campo, de Três Lagoas (MS) até o assentamento Aroeira, em Chapadão do Sul (MS), foram 418 quilômetros percorridos, totalizando 836 quilômetros no trajeto de ida e volta.
Mapa 2 –Parque das Emas (GO) e Bolsão (MS): rodovias e distâncias percorridas na pesquisa
A chegada até aos assentamentos se apresentou como desafio para o pesquisador em virtude das péssimas condições das estradas de chão batido. As dificuldades dos camponeses, para além da distância, puderam ser constatadas no início do trabalho de campo, como apresentado na figura 3, da estrada de acesso ao assentamento Serra, no município de Paranaíba (MS).
Assentamento Serra, Paranaíba (MS): estrada de acesso
Fonte: Trabalho de campo, 2019. Foto: do autor.
Estar em campo significa viver a pesquisa para além de conhecer os sujeitos, mas sentir, mesmo que parcialmente, toda as subjetividades na realidade. Vivenciar o cotidiano do campesinato permite compreender as decisões e as lutas diárias dos camponeses estudados. A fala dos sujeitos é uma das formas de expressão mais potentes no trabalho de campo, pois alimenta a pesquisa com informações carregadas de emoções e de olhares sobre a realidade.
As fontes orais, utilizadas nesta pesquisa, auxiliam na compreensão da realidade em suas particularidades e singularidades por fornecerem informações concebidas e ou reproduzidas no local onde se dão as relações inerentes à questão agrária, mas, ao mesmo tempo, trazem elementos da universalidade. As fontes orais possuem a autoridade de confirmar e/ou refutar fatos e dados oficiais. Assim;
A classe hegemônica tem na escrita o seu marco essencial, o seu suporte para contar e interpretar a história, e não permite à classe não hegemônica as mesmas condições para desenvolver o dom da escrita e contar os percalços sobre sua vida. (CASSAB, RUSCHEINSKY, 2004, p.12).
Portanto, a riqueza das fontes orais, para além das informações, está na expressão, na forma como os sujeitos demonstram a relevância dos acontecimentos. Desta forma, situações e acontecimentos, que poderiam passar desapercebidos pelo pesquisador, são realçadas com a entonação de voz e de gestos. Esta percepção não é simples, e exige o olhar apurado do pesquisador e a relação mais próxima dos camponeses, justamente pelas contradições e pela difusão do pensamento hegemônico.
Geralmente, as entrevistas se desenvolvem melhor quando os entrevistados oferecem
“café” e convidam o pesquisador para dentro do lote e da casa. Este gesto é um sinal de confiança e também de curiosidade dos camponeses sobre o pesquisador e a pesquisa. Ocorre na cozinha, na presença da família, a ampliação da entrevista; pai, mãe, filhos e outros agregados revisitam os fatos ocorridos no assentamento e com a família. A habilidade em conduzir a entrevista é necessária, por momentos, pois os familiares vão se confrontar, isso se explica porque a individualidade e a experiência de cada familiar lhes proporcionam percepções diferentes do mesmo fato. Nesse sentido:
[...] é na fala, isto é, no processo de revisitar sua memória que o entrevistado, muitas vezes, se descobre como sujeito da história, interpreta os encontros e desencontros que a vida apresenta nos seus múltiplos aspectos, nos espaços de luta constituídos pelo desejo da terra. Assim, fontes orais ‘conta-nos não apenas o que o povo fez, mas o que queria fazer, o que acreditava estar fazendo e que agora pensa que fez’. (ALMEIDA, 2006, p.38).
Por mais curta que seja a conversa, houve o registro com gravador ou celular e, ainda, anotações sobre outras informações consideradas pertinentes no momento. A depuração e a organização das informações coletadas em campo são procedimentos que demandam tempo.
Os cuidados com a organização incluem separar as entrevistas, listar os nomes dos entrevistados com datas e os locais.
O tempo de duração das entrevistas em campo variaram muito, de 15 minutos a mais de duas horas. Histórias familiares e outros assuntos constantemente estão presentes nas falas, havendo a necessidade de filtrar apenas o conteúdo pertinente da conversa para o processo de transcrição. Por se tratar de sujeitos, majoritariamente, que não tiveram acesso à escola, erros de concordância e de pronúncia são comuns nas entrevistas. Diante dessa característica, optou- se por transcrever as falas na norma culta da Língua Portuguesa. Esta escolha fundamenta-se por considerar a manutenção da fala informal pejorativa aos camponeses. O ajuste formal das falas retira vícios de linguagem como “que”, “né”, “então”, entre outros, facilitando, também, a leitura e a compreensão.
Em situações de uso de expressões informais, consideradas erros na Língua Portuguesa, são necessárias para dar sentido à informação, optou-se por mantê-las na íntegra. De toda forma, houve o cuidado para que as informações fossem precisamente transcritas sem depreciar o campesinato. As fontes orais se mostraram eficientes na pesquisa evidenciando detalhes, fatos no movimento contraditório de reprodução do latifúndio e de recriação do campesinato.
2 HEGEMONIA LATIFUNDIÁRIA NO ESTADO BRASILEIRO
A propriedade da terra é o centro histórico de um sistema político persistente. Associada ao capital moderno, deu a esse sistema político uma força renovada, que bloqueia tanto a constituição de uma verdadeira sociedade civil, quanto da cidadania de seus membros.
José de Souza Martins, 1994, p. 13.
A compreensão da questão agrária brasileira e seus processos contraditórios de reprodução do latifúndio e de recriação do campesinato exige cuidados teóricos acerca do Estado, pois o desenvolvimento do capitalismo tem nesta instituição um de seus pilares.
Portanto, a questão agrária brasileira permeia a compreensão do Estado e sua capacidade em criar condições para produção e reprodução do capital e suas contradições.
Parte-se da concepção inicial do Estado como instituição, ou seja, como sujeito expressando sua vontade por meio de determinadas pessoas ou órgãos (DALARI, 1998). Esta abstração não é suficiente para entender como e porque um país com população predominantemente urbana32, segundo o IBGE, 81,25%, possui uma bancada parlamentar significativamente ligada ao rural e ao agronegócio. Talvez o leitor indague que esta seja uma questão de governo e não de Estado, mas o exercício realizado aqui esclarecerá como no Brasil o Estado foi erigido a partir das classes de proprietários fundiários e de capitalistas, perpassando historicamente de forma hegemônica diferentes governos.
Inicialmente, será preciso recorrer à Teoria Geral do Estado para compreender sua construção social e revelar a verdadeira estrutura de poder no qual os sujeitos se valem para impor as aspirações de classes ou frações de classes representadas. A distinção entre o Estado instituição/sujeito e Estado enquanto produto da sociedade de classes se baseará nas concepções marxistas que, por conseguinte, fomentam a análise sobre seu poder e sua legitimidade no processo de reprodução ampliada do capital.
32 Não é objeto de análise neste trabalho, mas compreende-se que “[...] a maioria das cidades brasileiras tem população inferior a 20 mil habitantes, ou seja, 4.642 sedes de município, de um total de 5.6564 (IBGE, 2010) [...]” e “De acordo com os dados demográficos do IBGE (2010), somente 130 municípios brasileiros tinham mais de 200 mil habitantes”. (NARDOQUE, 2015, p.161-2). É certo que há significativa população residente no campo brasileiro, ou seja, quase 40 milhões de pessoas.
Neste caminho, revisitar a História, por meio das referências bibliográficas, e reconhecer como a construção deste Estado brasileiro, a partir dos anseios de proprietários fundiários e capitalistas, possibilita compreender como determinadas classes sociais se perpetuam no poder. Em vista disso, desde arranjos políticos locais, passando pela União Democrática Ruralista (UDR), até a atual Bancada Ruralista, latifundiários e capitalistas, ligados à agropecuária e ao agronegócio, representaram seus interesses particulares por meio desta instituição.
Para comprovar esta condição, buscou-se informações no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre as campanhas eleitorais no Brasil, sobre os bens (imóveis rurais) declarados e também os principais financiadores das campanhas. Este procedimento metodológico demonstrará o interesse de políticos na propriedade capitalista da terra em regiões de intenso desenvolvimento da agricultura, como, também, a participação de empresas territorializadas no Parque das Emas (GO) e no Bolsão (MS), nos arranjos políticos locais e estaduais.
A hegemonia de latifundiários e de capitalistas no Estado afetam diretamente a luta de classes, sobretudo a luta pelo acesso à terra por meio da Reforma Agrária. Com isso, é preciso compreender como a luta de camponeses e de trabalhadores no Brasil foi diluída por diferentes governos sob a influência de ruralistas com objetivo de sustentar o desenvolvimento das atividades econômicas ligadas ao agronegócio, no campo e na cidade.