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República latifundiária

No documento Tese - Danilo Souza Melo - 2021.pdf (páginas 91-103)

A partir da discussão até aqui, intenciona-se compreender a construção do Estado brasileiro por meio do desenvolvimento da força dos proprietários fundiários, bem como no surgimento da burguesia engendrada na extração da renda da terra e da mais valia. A manutenção do controle e do poder político dos proprietários de terras no Brasil deixa claro a perpetuação desta classe como parte do Estado e continua reproduzindo seus interesses na atualidade por meio de seus representantes. Atualmente, um conjunto de políticos se associa às pautas da agricultura capitalista no Congresso brasileiro, popularmente conhecido como Bancada Ruralista. Além dos interesses dos proprietários rurais, a representação política brasileira também se tornou proprietária fundiária em uma simbiose, pois não se distingue quem veio primeiro, o político ou o latifundiário. Mas é certo: a reprodução do latifúndio permanece.

mil, oitocentos e dezoito (31.818) hectares, foram declarados como posse, mas a rigor são grilagem de terras declaradas. (COSTA, 2012, p.234).

De um modo geral, destacam-se na bancada políticos ligados ao agronegócio, como a latifundiária Senadora Kátia Abreu, do Partido Progressista (PP), eleita em 2007 pelo estado de Tocantins, noticiada em matérias sobre suposta grilagem de terras neste estado39, além de desmatamento ilegal40 e trabalho escravo41, bem como membros de sua família de proprietários rurais. Kátia Abreu foi Ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, no Governo Dilma, entre 2015 e 2016. Sucedendo a Senadora para o mesmo ministério, no Governo de Michael Temer (PMDB), o Senador Blário Maggi, do Partido Progressista (PP), pelo estado de Mato Grosso, foi nomeado e atuou entre os anos de 2016 até o fim de 2018, também latifundiário em Mato Grosso e com várias notícias denunciando os mesmos problemas vividos pela sua antecessora42.

Como afirmado, dentre os objetivos, a Bancada Ruralista se articula valendo-se do Estado para se apropriar cada vez mais de terras e dos fundos públicos, via financiamentos agropecuários. Como exemplo, segundo Oliveira (2008), os membros da bancada buscaram se apropriar das terras devolutas por meio da “[...] Medida Provisória 422, que dispensa de licitação a venda de terras públicas do INCRA até 1.500 hectares. E, por de trás dela, está a estratégia de ação do agrobanditismo em sua sanha de se apropriar das terras públicas griladas daquela região” (OLIVEIRA, 2008, s/p).

As ações da bancada ruralista se intensificaram pós-golpe, em 2016. De acordo com Paulino (2018), o apoio da classe dos proprietários fundiários e capitalistas do agronegócio ao impeachment da Presidente Dilma (PT) vislumbraram ações mais incisivas para viabilizarem o aumento da apropriação terras, como os Decretos 9.309, 9.310 e 9.311/2018 que, segundo a pesquisadora, permitiram outros retrocessos, como a regularização fundiária de grandes áreas griladas no país. Segundo a autora:

A desordem fundiária no Brasil não resulta da incapacidade do Estado em assumir a gestão territorial como tarefa primordial, muito pelo contrário. Ela expressa o eficiente projeto de classe para o qual a aplicação discricionária

39 Disponível em: <http://g1.globo.com/to/tocantins/noticia/2014/02/suposto-esquema-de-grilagem-compromete- 80-familias-do-tocantins.html>. Acesso em: 25 ago. 2020.

40 Disponível em: < https://reporterbrasil.org.br/2018/03/deputado-campeao-de-desmatamento-filho-de-katia- abreu-legisla-em-defesa-dos-negocios-da-familia/>. Acesso em: 25 ago. 2020.

41 Disponível em: < https://reporterbrasil.org.br/2013/10/fiscalizacao-flagra-trabalho-escravo-em-fazenda-de- irmao-da-senadora-katia-abreu/>. Acesso em: 25 ago. 2020.

42 Disponível em: < https://www.brasildefato.com.br/2017/07/25/fazenda-do-ministro-da-agricultura-em-

rondonopolis-mt-e-ocupada-pelo-mst>. Disponível em: <

https://valor.globo.com/politica/noticia/2016/08/04/empresa-do-ministro-blairo-maggi-e-investigada-por- desmatamento.ghtml>. Disponível em:<https://deolhonosruralistas.com.br/2020/01/12/pai-de-blairo-maggi- escravizou-trabalhadores-nos-anos-80-diz-relatorio-da-pf/>. Acesso em: 25 ago. 2020.

dos instrumentos legais do ordenamento público pode ser conduzido segundo a dinâmica das contradições geradas em seu bojo. (PAULINO, 2018, p. 283).

Sob a tutela de Michel Temer, foi elaborada a Medida Provisória 759, em 2016, legitimando a apropriação de áreas públicas na Amazônia Legal e por todo o país. Segundo Sauer e Leite (2017, p. 29):

A MP 759 realiza uma série de mudanças na Lei nº 11.952, de 2009, ou Programa Terra Legal de regularização das terras. Em primeiro lugar, a referida lei e o Terra Legal passam ter validade para todo o território nacional,pois ‘as disposições desta Lei à regularização fundiária das ocupações fora da Amazônia Legal em áreas urbanas e rurais e do Incra’ (Art.

40-A). Associado a essa nacionalização do Programa Terra Legal, o texto aprovado do PLV ampliou o limite máximo de áreas ocupadas que podem ser legalizadas de 1500 para 2500 hectares (Art. 6o. §1o). Ainda mais, nos casos de ocupações de áreas maiores que 2500 hectares, o pretenso proprietário poderá regularizar até este limite (Art. 14), sem haver previsão para a destinação do restante da área pública ocupada irregularmente. (Grifo nosso).

A MP 759, de 2016, foi posteriormente convertida em Lei (13.465/2017), nela ficou estabelecido a possibilidade de regularização de áreas com tamanho até 2.500 hectares para pessoas físicas e jurídicas. Além disso, a referida lei representa um verdadeiro assalto ao patrimônio público. Segundo o Caderno de Estudos43 elaborado em conjunto44 pela CPT/ABRA/GRAIN/AATR:

A regularização para pessoas físicas dispensa licitação e é realizada mediante pagamentos muito abaixo do valor de mercado, com subsídios governamentais que chegam a ofertar descontos de 90% a 50% do valor mínimo da pauta de valores da terra nua fixado pelo Instituto Nacional de Terras (INCRA). (2020, p. 5)

Como se não bastasse a intensificação do ataque às terras públicas, a Lei 13.465/2017 prevê a titulação dos lotes em assentamentos de Reforma Agrária após 10 anos de sua implementação independentemente de estarem estruturados (CPT/ABRA/GRAIN/AATR, 2020). Essa mudança permite a venda de lotes da Reforma Agrária, fenômeno comum principalmente em casos de assentamentos abandonados pelo Estado.

A hegemonia de determinadas classes sociais no interior do Estado possibilita a organização política para sua expansão e manutenção de poder. Nesse sentido, destaca-se o uso de meios legais, principalmente da legislação para validar os interesses de classe. No Brasil,

43 Disponível em:<https://www.cptnacional.org.br/publicacao/download/78-publicacoes-juridicas/14212- caderno-de-estudos-mudancas-atuais-das-leis-de-terras-do-golpe-politico-ao-golpe-fundiario>. Acesso em: 18 dez. 2020.

44 A análise foi construída em conjunto pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), GRAIN, Associação de Advogada/os de Trabalhadores Rurais (AATR) e da Associação Brasileira de Reforma (ABRA).

observam-se ações de políticos da Bancada Ruralista objetivando a acumulação, como exemplo a expansão geográfica da agricultura capitalista em sentido à Amazônia Legal, e os recentes casos de desmatamento e queimadas em 201945.

Antes mesmo da MP 759, a Senadora Kátia Abreu (PP), Presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA), entre outras ações em favor da agricultura capitalista, foi relatora da Medida Provisória Nº 458/2009, dispondo sobre a regularização fundiária das ocupações de terras situadas em áreas da União, no âmbito da Amazônia Legal. Esta MP, convertida em lei, permitiu a regularização fundiária de terras devolutas griladas na Amazônia Legal, pois em seu texto “Autoriza a transferência sem licitação de terrenos da União, com até 1,5 mil hectares, na Amazônia Legal, a quem esteja em sua posse antes de dezembro de 2004.” (BRASIL, 2009, s/p).

O mencionado Ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento no Governo Temer, Blário Maggi, junto com sua família, é um dos maiores produtores de soja do mundo46 e representa grandes empreendimentos de produção, processamento e comercialização de grãos no Brasil. Além disto, o ex-ministro e sua família possuem grandes extensões de terras no Centro-Oeste brasileiro. Segundo Costa (2012, p 263), “[...] o senador Blairo Maggi e sua família concentram terras em quarenta e cinco mil, cento e quinze (45.115) hectares em vinte e nove (29) propriedades rurais de acordo com o INCRA (2003) dentre estas foram declaradas onze (11) propriedades improdutivas”.

Castilho (2012) relata o processo de elaboração e votação do novo Código Florestal Brasileiro, no qual participaram diretamente deputados e senadores multados por diferentes crimes pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA). Como resultado, foi aprovado um novo código, mais brando, anistiando multas aplicadas pelo Ibama até julho de 2008. Um prêmio para quem desrespeitou a lei (CASTILHO, 2012).

A Bancada Ruralista e todos os políticos ligados à agricultura capitalista atuaram e atuam em outros processos e projetos em favor de seus interesses. O Senador Nilson Leitão (PSDB-MT) elaborou, em 2016, o Projeto de Lei nº6442, tramitando no Congresso, e tem como

45 Noticia reproduzida pelo portal Globo sobre o aumento do desmatamento e queimadas na Amazônia em 2019 quem repercutiram mundialmente. Disponível em: <https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/09/08/um-a-cada- tres-focos-de-queimada-na-amazonia-esta-relacionado-com-desmatamento-diz-wwf.ghtml>. Acesso em: 08 fev.

2020.

46 Segundo a revista FORBES (2017): “Os Maggi chegaram a ser líderes mundiais na produção de soja no início dos anos 1990 e 2000, o que rendeu a Blairo o epíteto de ‘rei da soja’. Embora o grão dourado tenha dado fama à família e seja sua principal commodity, o gigante do agronegócio também produz milho e algodão”. Disponível em: <https://forbes.com.br/negocios/2017/03/de-rei-da-soja-a-ministro-conheca-a-trajetoria-de-blairo-maggi/>.

Acesso em: 08 fev. 2020.

objetivo flexibilizar a legislação sobre o trabalho no campo e não enquadrar a superexploração do trabalho como análogo à escravidão. Essa “flexibilização” das leis trabalhistas proporcionará a intensificação na acumulação do capital.

Segundo o Projeto,

Art. 3.º Empregado rural é toda pessoa física que, em propriedade rural ou prédio rústico, presta serviços de natureza não eventual a empregador rural ou agroindustrial, sob a dependência e subordinação deste e mediante salário ou remuneração de qualquer espécie. (LEITÂO, 2016, p.01). (Grifo do autor).

O Projeto de Lei ainda prevê ao trabalhador rural receber até 45% do seu salário em alimentação e moradia;

Art. 16. Salvo as hipóteses de autorização legal ou decisão judiciária, só poderão ser descontadas do empregado rural as seguintes parcelas, calculadas sobre o salário mínimo:

I - até o limite de 20% (vinte por cento) pela ocupação da morada;

II – até o limite de 25% (vinte e cinco por cento) pelo fornecimento de alimentação sadia e farta, atendidos os preços vigentes na região; (LEITÂO, 2016, p.06).

De fato, a força dos latifundiários e da burguesia, expressas no Estado, atuam como sustentáculo de manutenção e expansão da agricultura do Brasil ao longo da história brasileira.

Teixeira (2020) é taxativo ao apresentar a quantidade de artifícios legais e econômicos que possibilitam o fictício sucesso do chamado agronegócio. O autor destaca algumas das ações do Estado permitindo a sustentação e competitividade em escala mundial da agricultura capitalista:

processo de renegociação e remissão de dívidas junto ao crédito rural e à Previdência Social;

passivos ambientais com a “inimputabilidade” pelos crimes correspondentes. Também:

Subvenções de toda ordem, em especial os chamados gastos tributários que incluem desonerações bilionárias sobre os insumos químicos. Acrescente-se os estímulos dos estados/União às exportações como a Lei Kandir; e, ainda, o Convênio 100 do Confaz, que desonera do ICMS os produtos agrotóxicos.

(TEIXEIRA, 2020, p .272).

O autor complementa afirmando a constante expansão do crédito oficial por meio do Tesouro Nacional, no qual os valores passaram de R$ 8,5 bilhões, em 2000, para R$17 bilhões, em 2018 (TEIXEIRA, 2020). De acordo com Paulino (2008), a eficiência e sustentação do agronegócio brasileiro é baseada no financiamento público que, por muitas vezes, além de subsidiar a produção, concede calotes bilionários. A autora destaca: “No início de 2008, ela estava calculada em 140 bilhões de reais, resultado de uma situação em que ano após ano, governo após governo, assiste-se a uma mobilização do setor ruralista para adiar o pagamento [...]” (PAULINO, 2008, p.230).

A eleição de Jair Bolsonaro (sem partido), em 2018, para Presidência da República, trouxe consigo o endurecimento da pauta conservadora que, como visto, nunca deixou o Estado brasileiro, mas agora é livremente defendida por grande parte dos políticos eleitos no mesmo pleito. São 1.783 políticos, entre senadores, governadores, deputados federais e estaduais, eleitos para o mandato 2019-2022, somados a outros 51 senadores eleitos, em 2014, com mandato até 2022. Desta maneira, um conjunto de 1.834 políticos estão encarregados de gerir o país, e parte destes estão associados à Bancada Ruralista, mesmo sem, necessariamente, possuírem imóveis rurais. Por outro lado, há um conjunto de políticos eleitos proprietários fundiários em seus estados de origem.

Proprietários fundiários ou não, há no Brasil um conjunto de políticos representando os interesses classistas relacionados à agricultura capitalista por dentro do Estado em suas mais variadas escalas (municipal, estadual e federal). Por meio dos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sobre as declarações de bens feitas pelos próprios políticos, é possível observar como a relação de grandes proprietários rurais no Brasil com o Estado se perpetuou. Além das declarações de bens feitas ao TSE, os ainda candidatos informam sua profissão e, a partir dela, constatam-se alguns políticos “sem-terra”, mas que declararam serem agricultores ou pecuaristas, característica observada por Costa (2012) em períodos anteriores.

Desta maneira, dos 1.834 políticos com mandato entre 2019 e 2022, apenas 20 declaram profissões associadas à agricultura, sendo 13 agricultores e 7 pecuaristas. Estes agricultores e pecuaristas “sem-terra” são todos deputados federais e estaduais e, em grande parte (7), foram eleitos no estado do Rio Grande do Sul. Os números se ampliam ao analisar a quantidade de políticos associados à Frente Parlamentar de Apoio à Agropecuária, como apresentou a reportagem do site De Olho nos Ruralistas47. Segundo a reportagem, o crescimento da FPA, em 2019, ocorreu no contexto de ampliação e apoio buscado pelo governo de Bolsonaro na mais forte estrutura representativa de poder classista no Estado.

Assim, um grande número de políticos pertencentes à base aliada ao Governo Bolsonaro se alinha às pautas da agricultura capitalista, mesmo não sendo proprietários fundiários ou representantes do mesmo. Segundo o repórter;

O partido [Foi eleito pelo PSL] do presidente é, disparado, o que mais engordou as fileiras da FPA. Na sequência, vêm os demais membros da base governista: PSD (16), DEM (15), PP (14), PSDB (11), MDB (10), PRB (9) e PR (7). Os nanicos PSC, PTB e PMN entram com mais cinco parlamentares.

Considerando também os deputados e senadores que mantiveram seus cargos

47 De Olho nos Ruralistas. Disponível em: <https://deolhonosruralistas.com.br/2019/03/22/nova-frente-

parlamentar-da-agropecuaria-reune-257-deputados-e-senadores-com-25-psl-de-bolsonaro-so-fica-atras-de-pp-e- psd/>. Acesso em: 25 jul. 2020.

na última eleição, que compõem 90 parlamentares, o bloco de sustentação ao governo Bolsonaro corresponde a 71% da nova bancada ruralista.

(BASSI, 2019, s/p).

Este fato simboliza o reconhecimento do Governo Bolsonaro da importância e força política da agricultura capitalista no Estado, mas também, na troca de favores políticos para sua sustentação no poder por meio da barganha com a Bancada Ruralista. A aproximação da base governista com a FPA amplia o poder político dos proprietários fundiários e capitalistas ligados à terra. Com isso, se observa a intensificação de pautas favoráveis ao comumente chamado agronegócio, dentre elas, o número recorde de autorizações de uso de agrotóxicos no país. De acordo com o site Globo.com48, “O Brasil aprovou o registro de 474 agrotóxicos em 2019, maior número documentado pelo Ministério da Agricultura, que divulga esses dados desde 2005.”.

Os retrocessos constitucionais também caminharam sobre as terras públicas no Governo Bolsonaro. O Decreto 10.165 de 2019 facilita a regularização de áreas até 15 módulos fiscais, permitindo a autodeclaração pelo proprietário dispensando a vistoria do INCRA. Segundo a CPT/ABRA/GRAIN/AATR:

O alcance deste procedimento que facilita a transferência de terras e orçamento público para médios e grandes proprietários e de ocupações cada vez mais novas, com dispensa de vistoria e flexibilização de exigências ambientais está no centro das discordâncias no Congresso Nacional com relação a MP 910/2019 e ao PL 2633/20, demonstrando a completa ilegalidade em se regulamentar a matéria via Decreto e normas infra legais. (2020, p. 7).

Além do apoio direto ao agronegócio e aos proprietários fundiários, criando condições como leis e medidas provisórias respaldando o seu desenvolvimento, o governo fomenta ainda mais a ideologia latifundiária contra a política de Reforma Agrária e mais ríspido contra movimentos socioterritoriais e povos indígenas e quilombolas. Este comportamento é semelhante ao da UDR no passado, porém, o atual Presidente da República amplifica o discurso por meio das redes sociais. Como exemplifica uma postagem49 em sua página oficial na rede social Twitter, em 11 de dezembro de 2019, na qual o Presidente se vangloria pela redução no número de “invasões” no primeiro ano de mandato e ao final afirma: “A propriedade privada é SAGRADA. O Estado tem o dever de preservá-la”.

48 Noticia disponível em: <https://g1.globo.com/economia/agronegocios/noticia/2019/12/28/numero-de- agrotoxicos-registrados-em-2019-e-o-maior-da-serie-historica-945percent-sao-genericos-diz-governo.ghtml>.

Acesso em: 25 jul. 2020.

49 Postagem disponível em: <https://twitter.com/jairbolsonaro/status/1204813394353807360?>. Acesso em: 25 jul. 2020.

É importante lembrar que Bolsonaro já acenava aos interesses do agronegócio antes mesmo de sua ascensão à Presidência da República. Ainda em 2017, o então Deputado Federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) atacara50 indígenas e quilombolas em uma palestra no clube Hebraica no Rio de Janeiro. Na ocasião, o Deputado prometeu não demarcar terras para indígenas e quilombolas, “[...] não vai ter um centímetro demarcado para reserva indígena ou para quilombola", e ainda realizou afirmações racistas contra os povos quilombolas: "Eu fui num quilombo. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada. Eu acho que nem para procriador ele serve mais. Mais de R$ 1 bilhão por ano é gasto com eles.”.

Além disso, soma-se ao discurso reacionário, o desmonte de políticas referentes ao campesinato, indígenas e quilombolas do Brasil, colocando-os sob controle de ruralistas no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Segundo Teixeira (2020, p.285):

A política de desconstrução do governo Bolsonaro na temática agrária teve início no seu primeiro dia de governo. Por meio da Medida Provisória 870 de primeiro de janeiro (lei 13.844, de 2019) Bolsonaro extinguiu a Secretaria Especial de Agricultura Familiar e transferiu as suas atribuições na reforma agrária, agricultura familiar e na regularização das terras indígenas e quilombolas, justamente ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA).

Com isso, o Presidente afaga o outro lado ruralista presente no Estado, lado realmente proprietário fundiário e todo o interesse desta classe. Segundo dados do TSE, são 297 políticos com mandato entre 2019-2022 possuindo imóveis rurais. Estes políticos declararam 964 imóveis, porém, em 337 não foi informado suas dimensões. Desse modo, dos 627 imóveis rurais com seus respectivos tamanhos declarados por políticos ao TSE, somam-se 254.110,00 hectares, número inferior ao encontrado em 2010 por Castilho (2012).

Do ponto de vista geral, políticos eleitos pelas regiões Nordeste e Sul declararam mais propridades rurais, 283 e 197, respectivamente. Todavia, quando analisada a área dos imóveis, como apresentado na figura 4, é evidente que políticos eleitos nas regiões Centro-Oeste e Norte possuem maiores áreas, 98.702 ha e 71.679,72 ha, respectivamente. Constatam-se, nestas duas regiões com maiores áreas pertencentes a políticos, são também onde se reúnem as maiores concentrações fundiárias e as atividades da agricultura capitalista em expansão nas últimas décadas e que avançam sentido à Amazônia Legal.

50 Informação noticiada pelo jornal Estadão. Disponível em: <https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,nao- podemos-abrir-as-portas-para-todo-mundo-diz-bolsonaro-em-palestra-na-hebraica,70001725522>. Acesso em:

16 dez. 2020.

Brasil: Área dos imóveis rurais de políticos declaradas ao TSE, por região brasileira – 2018

Fonte: Tribunal Superior Eleitoral (TSE), 2020.

Destes dados, destaca-se na região Norte o Senador Acir Marcos Gurgacz (PDT), eleito pelo estado de Rondônia, proprietário de 15 fazendas, totalizando 31.594,04 hectares.

Os números de imóveis no Nordeste são relativiamente menores, lá o Senador Marcelo Costa e Castro (MDB), eleito pelo estado do Piauí, declarou 38 imóveis rurais, totalizando 17.281,60 hectares. Na mesma região, o Deputado Federal Sérgio Toledo de Albuquerque (PR) declarou a maior área (5.053,68 hectares), dividida em quatro imóveis rurais. O Deputado Federal Ronaldo Carleto (PP) declarou 4.850 hectares, resultantes da soma de seus quatro imóveis rurais. Na região Centro-Oeste, o Senador pelo estado de Mato Grosso, Jayme Verissimo de Campos (DEM), com 58 imóveis rurais, totalizando 55.821 hectares, é o maior politico/proprietário de terras do Brasil, com mandato entre 2019-2022. No mesmo estado, Carlos Gomes Bezerra (MDB), eleito Deputado Federal, é o segundo maior prorpietário de terras, com 6 imóveis rurais, totalizando 8.953,25 hectares.

Detentor de 3.589,99 hectares, em seis imóveis rurais, o Deputado Estadual em Minas Gerais, Inácio Franco (PV), é o maior proprietário da região Suldeste. Merece destaque o Deputado Estadual em São Paulo, Carlos Eduardo Pignatari (PSDB), daclarando ao TSE 15 imóveis rurais que totalizam 1.021,78 hectares. No Sul, o Deputado Federal eleito pelo estado do Paraná, Ricardo José Magalhães Barro (PP), é proprietário de 5.298 hectares, divididos em três imóveis. No mesmo estado, Plauto Miro Guimarães Filho (DEM) declarou seis imóveis rurais, totalizando 2.967,88 hectares.

71.679,72

57.819,21

98.702

5.060,52

20.748,00

0,00 20.000,00 40.000,00 60.000,00 80.000,00 100.000,00 120.000,00

Norte Nordeste Centro-Oeste Sudeste Sul

Área em Hectares

Regiões brasileiras

No documento Tese - Danilo Souza Melo - 2021.pdf (páginas 91-103)