características constitutivas, minar as bases objetivas e simbólicas de sua reprodução social. (ABRAMOVAY, 1992, p. 146).
As previsões feitas por Abramovay (1992), de certa forma, não são novas, pois as transformações ocasionadas pelo desenvolvimento do capitalismo na Rússia, nos séculos XIX e XX, sobretudo na agricultura e no campesinato, levaram autores clássicos, como Kautsky (A questão Agrária) e Chayanov (La organización de la unidad económica campesina), a discutirem o destino camponês no capitalismo (ALMEIDA, 2006). Portanto,
[...] estavam lançadas as bases teóricas do entendimento do campesinato no modo capitalista de produção que, de forma elementar, pode ser agrupada em dois grandes paradigmas: desintegração do campesinato e permanência/recriação camponesa. (ALMEIDA, 2006, p.71).
Em geral, as interpretações sobre o campesinato, na atualidade, indicam sua transformação em classe trabalhadora ou na sua permanência como classe social camponesa, resultado do desenvolvimento contraditório do capitalismo no campo. Nesta tese, considera-se, sob a luz teórica de Oliveira (1991; 2004; 2010), o campesinato enquanto classe social resultante do desenvolvimento desigual, combinado e contraditório do capitalismo no campo brasileiro. O capital, ao reproduzir suas relações capitalistas, promove, ao mesmo tempo, relações tipicamente não capitalistas (OLIVEIRA, 1991), apropriando-se de parte da sua produção. Segundo Moura (1986), “[...] o camponês desempenha um contraditório papel que, de um lado, expressa a sua resistência em desaparecer e, de outro lado, é resultado do próprio capitalismo que não o extingue.” (p. 19). Dessa maneira:
[...] o capitalismo atua desenvolvendo simultaneamente, na direção da implantação do trabalho assalariado, no campo em várias culturas e diferentes áreas do país, como ocorre, por exemplo, na cultura da cana-de-açúcar, da laranja, da soja etc. Por outro lado, este mesmo capital desenvolve de forma articulada e contraditória a produção camponesa. Isto quer dizer que parto também do pressuposto de que o camponês não é um sujeito social de fora do capitalismo, mas um sujeito social de dentro dele. (OLIVEIRA, 2001, p. 185).
Todavia, é insuficiente responder as existências do campesinato na atualidade entendendo este sujeito como simples parte do processo desigual e contraditório do capitalismo, pois é mister destacar a luta, a cultura camponesa e suas ações revolucionárias por todo o mundo (ALMEIDA, 2006). No Brasil, a identidade social camponesa sempre esteve associada a diferentes lutas no campo, sendo protagonista em alguns conflitos históricos envolvendo camponeses, como a Guerra de Canudos, na Bahia, e Guerra do Contestado, no Paraná e Santa Catarina (MARTINS, 1981). Portanto:
Muitos foram seus movimentos: Canudos, Contestado, Trombas e Formoso fazem parte destas muitas histórias das lutas pela terra e pela liberdade no campo brasileiro. São também, memórias da capacidade de resistência e de
construção social desses expropriados na busca por uma parcela do território e memórias da capacidade destruidora do capital, dos capitalistas e de seus governos repressores. (OLIVEIRA, 2001, p 190).
Em Canudos, entre 1896 e 1897, centenas de camponeses no Sertão da Bahia, inspirados por Antônio Conselheiro, lutaram contra o latifúndio e acabaram entrando em conflito com o Exército brasileiro. Esta luta resultou na morte de cerca de cinco mil pessoas (MARTINS, 1981). Entre os anos de 1912 e 1916, camponeses na região de fronteira entre os estados de Paraná e Santa Catarina protagonizaram o maior conflito armado contemporâneo brasileiro. Os camponeses lutaram pela permanência na terra contra futuros empreendimentos de madeireiras e de fazendeiros. Este conflito envolveu cerca de 20 mil rebeldes e metade do Exército brasileiro, em 1914 (MARTINS,1981). Por ser região de contestação de fronteiras entre os estados, ficou conhecida como Guerra do Contestado.
As revoltas e as guerras de camponeses no Brasil fizeram com que o Estado compreendesse o poder de mobilização e luta dessa classe social e:
A intervenção militar em Canudos e no Contestado, em defesa da ordem e do regime, constitui a mediação que fez, das guerras camponesas, guerras políticas; que arrancou as rebeliões místicas dos camponeses de sua aparente insignificância localista, municipal e pré-política, descobrindo nelas a dimensão política profunda, o perigo para a ordem constituída, o seu poder desagregador. (MARTINS, 1981, p. 62).
Na contemporaneidade, mais precisamente nas décadas de 1940 e 1950, outro movimento camponês se destacou60 pela amplitude e força política. O movimento chamado de Ligas Camponesas abrangia trabalhadores rurais, camponeses, rendeiros no Nordeste brasileiro, na luta contra o latifúndio e pela Reforma Agrária e a posse da terra (OLIVEIRA, 2001).
As ligas camponesas61 se destacaram no cenário nacional com cerca de 70 mil membros liderados por Francisco Julião e chamaram a atenção do Estado, principalmente por sua ligação com o Partido Socialista Brasileiro. Desta forma:
O movimento das Ligas Camponesas tem, portanto, que ser entendido, não como um movimento local, mas como manifestação nacional de um estado de tensão e injustiças a que estavam submetidos os camponeses e trabalhadores assalariados do campo e as profundas desigualdades nas condições gerais do desenvolvimento capitalista no país. (OLIVEIRA, 2001 p. 108).
60 É preciso, contudo, destacar outros movimentos de luta pela terra que ocorreram em escala regional como:
Guerra do Contestado (1912-1916), em Santa Catarina; Revolta de Porecatu (1940-1950), no Norte do estado do Paraná; o movimento Arranca-Capim (1950-1960), em Santa Fé do Sul (SP); Trombas e Formoso (década de 1950), no Norte de Goiás; e os Brasiguaios, na fronteira Brasil-Paraguai, na década de 1980.
61 Sobre as Ligas Camponesas e demais movimentos sociais no campo recomenda-se: MARTINS, José de Souza.
Os camponeses e a política no Brasil. 4ª. ed. Petrópolis: Vozes, 1981.
Com o golpe militar em 1964, este movimento acabou desarticulado, no entanto, entraram para história pela importância pela mobilização de camponeses. Durante a década de 1980, a organização do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), mesmo sem utilizar o conceito de camponês em seu nome, chamou a atenção para a importância revolucionária destes sujeitos, possuindo como principal ação de luta a ocupação de terras.
Desse modo, a utilização do conceito de agricultura familiar, como apresentado por Abramovay (1992), desassocia dos sujeitos o papel político do campesinato ao longo da história e, consequentemente, enquadra-os em uma parte economicista acessória do capitalismo no campo. Para Martins:
As diferentes palavras, que em diferentes lugares designavam o camponês, tinham um duplo sentido [...]. Definiram-no como aquele que está em outro lugar, no que se refere ao espaço, e como aquele que não está senão ocasionalmente, e nas margens, nesta sociedade. Ele não é de fora, mas também não é de dentro. [...]. A exclusão do camponês do pacto político é o fato que cercará o entendimento da sua ação política. [...]. Essa exclusão define justamente o lugar do camponês do processo histórico. A ausência de um conceito, de uma categoria, que o localize socialmente e o defina de modo completo e uniforme constitui exatamente a clara expressão da forma como tem se dado sua participação nesse processo – alguém que participa como se não fosse essencial. (MARTINS, 1981, p.25).
O paradigma proposto por Abramovay (1992) privilegia a análise da estrutura econômica da produção familiar e sua integração total ao modo capitalista de produção e ignora a força política e revolucionária da classe camponesa. “Portanto, trata-se, [...] do velho discurso que, na aparência, fala da necessidade de um conceito mais puro, claro, mas na essência nega o campesinato como classe como demandas conflitivas específicas.” (ALMEIDA, 2006, p.90).
Portanto, o uso do conceito de camponês ou agricultor familiar vai além da opção teórica e se coloca como posição política. Nesse sentido, Marques (2008) indica a necessidade de uso do conceito de camponês para análise da desigualdade no campo brasileiro:
Enquanto o campo brasileiro tiver a marca da extrema desigualdade social e a figura do latifúndio se mantiver no centro do poder político e econômico – esteja ele associado ou não ao capital industrial e financeiro –, o campesinato permanece como conceito-chave para decifrar os processos sociais e políticos que ocorrem neste espaço e suas contradições. (MARQUES, 2008, p.58).
Portanto, no debate brasileiro atual há dois conceitos com diferenças explícitas teóricas e ideológicas. Autores, como Fernandes (2008) e Camacho (2014), compreendem as diferenças teórico conceituais de interpretação do campo brasileiro em dois distintos paradigmas:
Paradigma da Questão Agrária e Paradigma do Capitalismo Agrário.
De acordo com Camacho (2014, p.113):
A escolha de um paradigma requer que elegemos autores, conceitos e teorias.
Esta é uma forma de se fazer uma classificação. Isto requer que façamos uma opção de termos e conceitos. Cada uma dessas terminologias empregadas está impregnada de valores, intencionalidades e ideologias. Por isso, o cerne da questão da classificação seria, então, a opção político ideológica que fazemos, pois é esta opção que engendra os conceitos e a teoria.
A assertiva de Camacho (2014) corrobora com a discussão feita até aqui sobre a parcialidade do Estado brasileiro em favor oligarquias rurais que o compõem. Com isso, a partir da década de 1990, o conceito de agricultura familiar e sua perspectiva teórica se popularizou na academia, movimentos sociais e nas políticas públicas (FERNANDES, 2008). Desta forma, para Gomez (2006):
[...] A agricultura familiar, nova via para o desenvolvimento rural, ‘nasce’ para reforçar um desenvolvimento rural capitalista. A agricultura familiar que o Banco Mundial incentiva, através de suas políticas de desenvolvimento e que o governo de Fernando Henrique Cardoso decide incorporar, é uma agricultura familiar apropriada aos fins de desenvolvimento capitalista que tanto um como o outro pretendem. (GÓMEZ, 2006, p.68).
Desta forma, um conjunto de políticas foram adotadas a partir da perspectiva da agricultura familiar ou do Paradigma do Capitalismo Agrário (FERNANDES, 2008), objetivando promover a solução dos problemas do campo a partir da “transformação” do camponês “atrasado” em agricultor familiar “moderno” e integrado totalmente aos circuitos econômicos do capitalismo. O uso deste termo tem o propósito de diluir conflitos e desigualdades no campo, colocando os camponeses como iguais e semelhantes a duas classes sociais antagônicas: camponeses e latifundiários-capitalistas. Como resultado, ao longo da história, nunca houve projeto para o Brasil camponês, mas um apanhado de políticas públicas e programas liberais desconexos, esquecidos ou abandonados criados por diferentes governos.
A democratização da terra, entendido aqui como objetivo fundamental para reprodução social do campesinato, foi alinhada a programas de Reforma Agrária no Brasil, sempre com percalços. Estes, por sua vez, passaram por grande resistência dentro do próprio Estado (fora também) e só se realizaram por meio da pressão popular dos movimentos socioterritoriais.
Os camponeses, trabalhadores, indígenas e quilombolas travaram e travam lutas constantes por frações do território, seja pela expansão de posses, pela reivindicação de Reforma Agrária, pelo reconhecimento das terras tradicionais ou mesmo para permanecerem nelas. Por outro lado, a concentração fundiária se tornou característica marcante da estrutura agrária no Brasil, predominando em área ocupada a grande propriedade, elemento contraditório
do capitalismo rentista brasileiro e consolidado pela aliança entre proprietários de terras e capitalistas. A terra, assim, se mantém como elemento central na análise da questão agrária.
3 A REPRODUÇÃO DO LATIFUNDIO NOS TERRITÓRIOS RURAIS PARQUE DAS EMAS (GO) E DO BOLSÃO (MS)
Por onde passei, plantei a cerca farpada, plantei a queimada.
Por onde passei, plantei a morte matada.
Por onde passei, matei a tribo calada, a roça suada, a terra esperada…
Por onde passei, tendo tudo em lei, eu plantei o nada.
Dom Pedro Casaldáliga, Confissões do Latifúndio.
“Malditas sejam todas as cercas!” Clamou Dom Pedro Casaldáliga em um de seus mais célebres poemas. O bispo, falecido no ano de 2020, dedicou a vida na luta ao lado de posseiros e indígenas contra as cercas erguidas por latifundiários no Vale do Araguaia em Mato Grosso.
De mãos dadas com os pobres do campo, Casaldáliga enfrentou a violência dos proprietários de terras e capitalistas à medida que as cercas avançaram e consolidaram a propriedade capitalista da terra. A cerca, símbolo do aprisionamento da terra e consigo a natureza, subverte- os a lógica do capital, privam camponeses, posseiros, indígenas e quilombolas de viver e amar, como afirmou Dom Pedro.
Nem as transformações tecnológicas ocorridas na agricultura foram capazes de romper com o monopólio da terra no Brasil. O latifúndio permanece no século XXI, como uma chaga, presente no campo brasileiro, mesmo que interpretado como marca de um passado pseudo feudal. O seu anunciado desaparecimento, por meio do desenvolvimento da agricultura capitalista, só ocorreu no vocabulário e nas legislações brasileiras. A invisibilidade da concentração fundiária e da violência física e simbólica se reforçaram com a modernização da agricultura na década de 1970 que aliou proprietários de terras e capitalistas, denominado por Martins (1994) de aliança terra-capital.
É fato que a propriedade capitalista da terra no Brasil possui centralidade na produção e reprodução ampliada do capital. Assim, o rentismo é elemento fundamental na construção da
sociedade e do Estado brasileiro, além de permear as relações políticas nos mais diversos espectros partidários. Como afirma Prieto (2016, p. 578), “O desenvolvimento rentista à brasileira se consolidou em uma forma de desenvolvimento capitalista que reproduz o latifúndio, econômica, social e politicamente.”.
O caráter rentista do desenvolvimento capitalista no Brasil indica a grande propriedade não como exceção, mas como característica do campo brasileiro. Com isso, a reprodução do latifúndio decorre da relação social existente entorno da propriedade capitalista da terra (MARTINS, 1991), permitindo aos proprietários fundiários e capitalistas auferirem renda e lucro às custas da exploração do trabalho e da natureza.
Não se pode perder de vista o pano de fundo das relações de produção e reprodução do capital onde o latifúndio é reproduzido. Desta forma, a expansão do capitalismo no campo, por meio da monopolização do território e da territorialização do capital, produz a renda da terra e o reproduz na exploração do trabalho assalariado. Neste mecanismo, a concentração fundiária se torna característica marcante no Brasil pela avidez do pacto de classes objetivando a renda da terra, a aliança do atraso. Dados do IBGE e do INCRA, sobre a estrutura fundiária, apresentados ao longo deste capitulo, demonstrarão a existência de verdadeiros impérios no campo.
A estrutura fundiária concentrada e a aliança entre latifundiários e capitalistas na década de 1970 proporcionaram a territorialização capital no campo nos municípios do Parque das Emas (GO) e do Bolsão (MS). Logo, sob a estrutura concentrada, empresas transnacionais passaram a controlar o campo nas áreas estudadas, em busca de extração de renda e lucro.
Todavia, o gigante que dá sustentáculo ao agronegócio possui “pés de barro”, a propriedade capitalista da terra base para o desenvolvimento do capital no campo e entendida como inviolável possui em sua origem a apropriação ilegal de terras devolutas. A estratégia secular de falsificação de documentos, entendida como grilagem de terras, compõe parte da formação da propriedade capitalista da terra no Brasil e nas áreas estudadas. Diante desta perspectiva, foi proposto ao longo deste capitulo o exercício de análise de cadeia dominial de dois latifúndios, buscando demonstrar a instabilidade jurídica da propriedade da terra no Parque das Emas (GO) e Bolsão (MS). Pode-se, assim, compreender a trama envolvendo latifundiários e capitalistas na formação ilegal de latifúndios por meio da grilagem e a permissividade das estruturas do Estado brasileiro.