• Nenhum resultado encontrado

As implicações do termo sexual

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 160-163)

Vítimas da cultura do estupro, mulheres que já sofreram violência sexual carregam uma ferida que se estende para além da corporeidade. São pessoas violadas não apenas em seus corpos, mas em suas subjetividades, em suas dignidades enquanto sujeitos sociais, em suas condições enquanto cidadãs plenas de direitos. São machucadas, abdicadas do direito de escolha, instrumentalizadas para o prazer alheio.

De fato, o crime sexual não está alinhado à mesma lógica do roubo, do assalto, do sequestro ou do estelionato. Não há correlação entre estuprar uma pessoa e a necessidade ou desejo de ganhar mais dinheiro, de matar a fome, de fazer fortuna ou de usufruir de bens que pertençam a outrem. As infrações sexuais são, ontologicamente, de natureza opressora. Elas se manifestam para que seja exercido poder por parte do agressor sobre a vítima.

Mas, o que dizer da exploração sexual, delito no qual é possível perceber uma intenção lucrativa por trás do ato dos cafetões e cafetinas? A resposta é simples, pois o raciocínio que se aplica é análogo. Mesmo no lenocínio ou no tráfico internacional de mulheres, por exemplo, realizados nos prostíbulos e nos aeroportos Brasil afora, existe uma tônica objetificadora que despreza a dignidade das vítimas, aprisionando-as, cerceando-as e transformando-as em commoditie a ser comercializada – o que configura também uma modalidade de opressão.

Não é à toa que algumas narrativas mostram certa inclinação da sociedade em combater tais práticas e em livrar as vítimas dessas situações. Esse revestimento textual foi

pouco encontrado na análise, mas as ocasiões em que apareceu merecem ser destacadas. Em 2005, o Jornal do Brasil publicou uma matéria com o título “Senado aperta o cerco contra a exploração sexual”, assinada por um repórter. Na fotografia de destaque, foram mostradas duas meninas em uma rua do Rio de Janeiro, mas os rostos de ambas estavam desfocados. Ao versar sobre as medidas em tramitação no Congresso, o leitor tomava conhecimento de que

“A intenção é acabar com anacronismos, como os artigos que condicionam a ocorrência de violência sexual ao sexo da vítima ou à virgindade e à honestidade da mulher” (JB, 01/03/2005, p. A2).

A exploração do lenocínio (tipificação em voga em 2005 e ainda hoje) leva mulheres e meninas à condição de objetos. Do mesmo modo, há um caráter dominador em outros delitos, como a tentativa de estupro contra a vítima portadora de necessidades especiais – caso apresentado anteriormente. Em função disso, problematizo a utilização do adjetivo sexual para se referir a crimes de natureza opressora.

No senso comum, o vocábulo sexual é revestido de um ethos consensual: as pessoas fazem sexo, têm relação sexual, se envolvem sexualmente. Portanto, falar de violência sexual é entrar em um terreno árido por dois motivos.

Primeiramente, os crimes denominados como sexuais se configuram como atos de coerção que, em nada, lembram uma atitude consensual, acordada (mesmo que inicialmente pela vítima). Um homem não faz sexo forçado com uma mulher – ele a violenta. Um marido não apenas comete estupro marital – ele esvazia de toda dignidade a esposa para exercer controle sobre ela. Mais de trinta homens não estupram e divulgam imagens de uma adolescente carioca de 16 anos desacordada: eles a transformam em um objeto, um troféu a ser visto.

Em segundo lugar, este é um esforço pessoal para desnudar as narrativas jornalísticas do persistente aspecto que associa o crime a uma roupagem erótica, sensual, como apresentei nos capítulos anteriores. Um exemplo emblemático foi o caso das universitárias violentadas no campus da UFRRJ, cuja matéria analisei e cheguei à conclusão de que o relato apontou para um aspecto amplamente voyeurista.

Mais que inserido em uma dimensão meramente linguística, o uso do adjetivo sexual traz implicações para a dimensão hermenêutica, para a produção simbólica e para onde ela aponta. Não se trata de uma problematização exagerada, um cuidado excessivo, mas sim um alerta para o fato de como o uso das palavras pode criar mundos e redes de sentidos (RICOEUR, 1994).

Em 2010, o Jornal do Brasil publicou uma matéria assinada por um homem e intitulada “Filhos de pais ‘bonzinhos’ têm mais propensão a beber muito”. O texto discutia a relação entre álcool e adolescência. Em um dos trechos, era possível ler:

Segundo a pesquisa, adolescentes que consomem bebidas alcoólicas podem ter consequências negativas: “desde problemas sociais e nos estudos, até maiores agravantes, como praticar sexo sem proteção e/ou sem consentimento, maior risco de suicídio ou homicídio e acidentes relacionados ao consumo”. (JB, 21/04/2010, p.

A15, grifos meus)

Semelhantes à matéria do JB, são encontrados diferentes relatos cotidianamente tanto na conversação interpessoal quanto na jornalisticamente mediada. Por isso mesmo, considerei importante trazer a reflexão aqui posta. A grande questão é que pessoas não praticam sexo sem consentimento: pessoas estupram, violentam as outras. A diferença pode parecer sutil, mas nas sutilezas também residem lógicas opressoras: narrar que os jovens embriagados podem praticar sexo sem consentimento em vez de estuprar é minimizar o problema, a culpa dos agressores (tratando-os enquanto “garotos imaturos” e fora de si em função do álcool) e a condição de vítima da mulher.

A perigosa associação dos crimes às dimensões eróticas ou consensuais também opera enquanto articuladora de dominação. É nesse sentido que o jornalismo contribui para a opressão pelo homem, na medida em que algumas narrativas erotizam as cenas relatadas. No início do século, ainda que o objeto do texto não fosse o tipo de agressão que hoje classificamos como estupro, já encontrávamos detalhes íntimos dos corpos das vítimas de delitos como o defloramento, por exemplo. Já nos anos mais recentes, observou-se um tratamento também pornográfico dos ataques, com destaque para o estupro.

Independentemente da tipificação penal, o corpo da mulher foi erotizado nos textos jornalísticos encontrados.

Nas palavras de Kolodny, Masters e Johnson (1982, p. 431), associar o crime sexual ao erotismo naturaliza narrativamente “[...] um comportamento sexual a serviço de necessidades não sexuais”. Talvez por isto devêssemos deixar de falar em crime sexual e passássemos a tratar o delito de outro modo como discutirei a seguir. Neste ponto, é importante reforçar que a opressão que me interessa é aquela que recai sobre a mulher pelo fato de ela ser mulher e é exercida pelo homem. De forma alguma, negligencio a dor de meninos e homens que também sofrem alguma modalidade de agressão, mas é sobre elas que lanço meu olhar analítico – até porque, como foi dito na abertura deste capítulo, as mulheres representam a maioria esmagadora das vítimas, o que serve à perpetuação do patriarcado.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 160-163)