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Crimes condicionais negados

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 177-182)

4.3 Dos crimes sexuais aos crimes patriarcais

4.3.2 Crimes condicionais

4.3.2.2 Crimes condicionais negados

Implicitamente, a narrativa apontou que R. teria sido levada pelo desconhecido por estar nas ruas, por morar em um imóvel ocupado, por pedir dinheiro e, de certo modo, se apresentar como uma ameaça aos turistas. No entanto, ela também foi descrita como vítima de uma tragédia anunciada, uma criança que, inocentemente, foi atraída por um adereço de cabelo. Neste exemplo em questão, o caráter de merecimento é bem mais sutil do que no caso da pulseira do sexo, mas ele está presente. De forma oscilante, a imagem da menina ora destoa das outras garotas e garotos, ora está imersa aos “menores-ameça” e, portanto, faz com que ela carregue o mérito pelo que sofreu.

A mediação textual minimizou o foco na vulnerabilidade dos menores de idade.

Mesmo que alguns trechos alertassem para o abandono das crianças e dos adolescentes, como foi visto no depoimento do presidente da AMA-Lapa, o clamor é pela proteção de turistas e moradores da área.

As supostas condutas prévias de Antonia foram trazidas à tona para tentar inocentar o rapaz. Neste ponto, o pensamento de Ricoeur é útil para pensarmos na relação sentido- referência que também se apresenta na mímese III: “[...] o que um leitor recebe é não somente o sentido da obra mas [...] sua referência, ou seja, a experiência que ela faz chegar à linguagem [...] o mundo e sua temporalidade, que ela exibe diante de si (RICOEUR, 1994, p.120). A enumeração das práticas atribuídas a Antonia formatavam uma rede de sentidos que encontrava referência na experiência coletiva, acionando um campo semântico condenatório que fazia sentido em um determinado espaço e tempo histórico.

Circunstâncias semelhantes viveu Celina Augusta, cujo caso já foi apresentado também no capítulo 3. Segundo a denúncia, o noivo da garota de 16 anos, identificado como Ignacio Alves Gonçalves, fez promessas de casamento e conseguiu desvirginar a garota em 1918. A sentença, reproduzida pelo Jornal do Brasil, enumerou uma série de critérios que foram levados em conta para absolver o rapaz: a adolescente não guardava o decoro esperado de uma “moça honesta” e passeava até alta noite com rapazes (JB, 24/03/1919, p. 8).

A esfera jurídica deveria ser um lugar de refúgio e amparo para as vítimas de violência, seja de qual natureza for. Ao ser desqualificada no tribunal, Celina foi exposta a um pré-julgamento que se configurou novamente como uma violência. Em outras situações, ao procurar uma delegacia, um posto da polícia militar, a mulher já se encontra machucada, sensibilizada e muitas vezes chocada. Ali, ela está dando apenas o primeiro passo de um longo percurso constituído por realização de exames, depoimentos, tratamentos médicos/psicológicos etc. Trata-se de um árduo caminho em que ela será, em muitas ocasiões, randomicamente desqualificada, questionada, culpabilizada.

No caso de Celina, as provas levadas em consideração foram as testemunhais, ou seja, o comportamento dela foi socialmente julgado e interferiu diretamente na sentença proferida pelo juiz e reproduzida na coluna do jornal. Segundo Spivak (2010), a constituição da mulher se dá pelo outro e ela se torna sujeito (sub)alterno, no sentido de não possuir uma alteridade, uma subjetividade que lhe seja própria. Em casos de crimes patriarcais, há que se atentar para os modos pelos quais essa prática se manifesta. No episódio envolvendo Celina, e em muitas das matérias analisadas na tese, a mulher não fala. Pode-se pensar, portanto, como o patriarcado está enraizado nas nossas interações comunicativas – incluindo aquelas jornalisticamente mediadas.

Ainda no “caso Celina”, destaco um aspecto interessante. Ao fim da nota do JB, é possível ler que, em episódios de defloramento, a justiça deve “[...] attender ao estado de moralidade da offendida e conceito moral de ambos” (JB, 24/03/1919, p. 8, grifo meu). Ou

seja, não é apenas a conduta prévia das mulheres que fecha o processo de interpretação dos crimes.

É nesse sentido que, na coluna publicada por Raphael de Sant’Anna, mencionada logo acima, ele afirmou que exercia “[...] um cargo publico de grande responsabilidade de imediata confiança do sr. dr. secretario do interior” (ESTADÃO, 22/02/1917, p. 11).

A mesma tônica foi encontrada em uma nota do JB de 1919. O Dr. Licinio Lyrio dos Santos era suspeito de ter deflorado uma telefonista – apenas assim identificada. Como o rapaz havia sido dispensado da prisão preventiva, o pai da garota entrou com um pedido para que a justiça o mantivesse detido, alegando que ele pretendia se ausentar do Rio de Janeiro. O texto não informou se Licinio conseguiu o habeas corpus, mas a sua defesa iria se concentrar no argumento de que ele era “[...] formado em medicina, possuidor de bens, membro de várias associações e chefe de numerosa família” (JB, 17/09/1919, p. 6).

Essa assimetria entre homem e mulher encontra eco no pensamento de Engels (2009).

Segundo o autor, com o passar do tempo e o avanço da dominação masculina, a ideia inicial de feminino foi apagada, como já mencionado. Deu-se lugar às narrativas que conferem aos homens os grandes feitos e as mudanças vividas pela humanidade. O modelo patriarcal omite, portanto, o lugar central da mulher na história. Nas narrativas jornalísticas acima, o lugar delas foi suprimido pelos “feitos”, bens e posições sociais que os supostos agressores ocupavam.

Aciono a sistematização teórica de Engels (2009), cunhada ainda no século XIX, para dar mais corpo à reflexão de d’Eauboone, autora do século XX, no que tange ao inicial patamar privilegiado ocupado pela mulher. “Uma das ideias mais absurdas que nos transmitiu a filosofia do século XVIII é a de que na origem da sociedade a mulher foi escrava do homem” (ENGELS, 2009, p. 11). Ao diminuir Celina e a telefonista pela “superioridade” dos supostos agressores, percebe-se como essa ideia de uma mulher inferior de fato fincou raízes na sociedade patriarcal e se mantém em muitas das nossas práticas interacionais.

Trago agora outro texto, já mencionado nos capítulos 1 e 2: o caso de Albertina, acusada de matar seu suposto deflorador, Arthur Malheiros. Apesar de o jornal relatar o julgamento do homicídio, é possível encontrar elementos que tentaram desqualificar a vítima no que se refere ao delito de defloramento por ela denunciado. A acusação alegou que, com uma mãe supostamente prostituta, a moça viveu uma vida de altos e baixos, tendo perdido

“[...] a sua virgindade a saber como e quando [...]. Percorreu o interior do Estado, só soube praticar actos immoraes [...] ao ponto de conhecer aquilo que a industria franceza inventou para que os filhos não fertilizem” (ESTADÃO, 27/01/2010, p. 3). Malheiros não poderia ter

deflorado a moça nem ter sido o pai do garoto que ela levava ao colo no tribunal – ele já era a verdadeira vítima, mesmo antes de ter sido assassinado.

Numa casa de pensão, em que a mãe vivia com o seu amante [...] ali foi que cresceu a ré. Defeituosa havia, pois, de ser a sua educação, no meio podre em que nasceu, vendo, com o exemplo materno, os quadros os mais dissolutos. Narra em seguida como ali se foi hospedar Arthur Malheiro [...]. Naquelle meio, acentua o orador, Albertina não foi, não podia ser a seduzida, – porque, moral e materialmente, ella já era uma pessoa corrompida. (ESTADÃO, 27/01/2010, p. 3)

Assim como foi visto que os atributos do homem são acionados para conformar a narrativa a respeito da mulher, o comportamento da família também figurou nos casos descritos. Tal asserção aponta para o fato de que a normatividade que incidia sobre as vítimas também se estendia a outros sujeitos sociais envolvidos nos processos.

Além do defloramento, a prática narrativa de reunir comportamentos prévios para desqualificar a vítima também pode ser vista em outros delitos. Em 2010, o suposto escândalo de assédio na empresa HP é um exemplo, conforme análise presente no capítulo 1.

No dia 7 de agosto, o Estadão publicou uma matéria com o título e subtítulo “Acusado de assédio, CEO da HP renuncia – Executivo foi acusado de assédio sexual, e investigações descobriram ‘violações das normas de conduta empresarial’ da empresa” (ESTADÃO, 07/08/2010, p. B13). No texto, não ficaram claras as condutas inadequadas cometidas pelo executivo e ele foi amplamente elogiado. Nada se falou mais a respeito da suposta violência.

Três dias depois, o jornal revelou o nome da envolvida no caso: Jodie Fisher. Ela teria escrito uma carta-denúncia, mas resolvido suas pendências com o CEO de modo privado.

Categoricamente, a mulher afirmou que nunca se envolveu com o chefe e que ficou triste com a demissão. No texto do jornal, originado de uma agência de notícia, ela foi apresentada como responsável por Mark Hurd perder o cargo. Jodie ainda foi descrita como ex-participante de reality show, mãe solteira e atriz de filmes com nomes sugestivos, como já apresentei anteriormente: Obsessão Feminina e Labirintos do Desejo (ESTADÃO, 10/08/2010, p. B15).

Ao defender a adoção do nome patriarcado (e não gênero), Saffioti (2004) acaba enumerando algumas características que nos ajudam a pensar como essa estrutura se manifesta em nossa sociedade: (1) não é uma relação privada, mas civil; (2) confere direitos sexuais aos homens sobre as mulheres; (3) é uma relação hierárquica que se estende a outros espaços da sociedade; (4) tem uma base material; (5) corporifica-se; (6) representa uma estrutura de poder baseada na ideologia e na violência (SAFFIOTI, 2004, p. 57-58).

Gostaria de me ater ao ponto 3. Conforme a autora afirma, o patriarcado extrapola a esfera doméstica. Ele se manifesta nos postos de trabalho, nas universidades, nos cargos políticos. O episódio envolvendo a funcionária da HP exemplifica bem isso. Por esse motivo, reafirmo aqui o uso que tenho feito do termo patriarcado: não me atenho à figura do pai ou de sua importância no âmbito da família, mas a um sistema de opressão em que o agressor é o homem e a vítima é a mulher e que encontra ancoragem em diversas ambiências da nossa vida social.

Por fim, trago uma notícia de estupro publicada nos anos 1980. O foco da matéria era um pedido de interrupção de gravidez negado por um juiz de Contagem (MG). Edna Pereira dos Santos alegava ter sido estuprada por um assaltante e estava grávida de quatro meses.

Após a negativa, ela decidiu ter a criança. Segundo o texto, Edna teria dormido com o companheiro na noite da suposta agressão. Os exames revelaram a presença de espermatozóides e nódoas no pescoço. No entanto, não foi feito um procedimento mais detalhado para saber a quem pertenciam os espermatozóides. Ainda de acordo com a matéria, o juiz disse “[...] que é prova contundente para um aborto legal o fato de a vítima ser menor, virgem e filha de boa família”.

O conjunto de atribuições foi citado para se referir à discussão que envolvia o aborto e não o estupro em si. No entanto, por estar imerso na mesma narrativa, acabou imputando ainda mais descrédito ao fato de que Edna tenha realmente sido violentada naquela noite.

Essa prática de reunir o comportamento prévio das vítimas foi debatida pela própria sociedade, mesmo no longínquo ano de 1924. Naquela data, o Estado de S. Paulo divulgou um informe acerca de uma discussão em curso na Câmara e no Senado Federal. A pauta era:

deveriam os julgamentos de estupros e defloramentos deixarem de ser públicos? O argumento de um dos legisladores era pela não publicidade do processo. O motivo seria o tratamento vexatório que muitas vítimas sofriam, quando os advogados dos suspeitos traziam à tona, em pleno tribunal do júri, comportamentos prévios das mulheres a fim de desqualificá-las.

E sabe-se ainda mais que a defesa no desejo de elevar e defender o deflorador, procura na vida da victima e na vida de sua família, qualquer pequena mancha que porventura appareça: e, se essa desgraçada victima ou sua família, tem por acaso na vida algum facto lamentavel [...], mas que fora occultado a defesa vem resolve-lo, vem traze-lo a tona, vem traze-lo a superfície do todo, vem atrai-lo no recinto do Tribunal do Jury, com [...] toda gente que sorri, que applaude; que gargalha.

(ESTADÃO, 17/10/1924, p. 4)

Quem gargalha, quem sorri, quem zomba também violenta uma vítima de crime patriarcal. Os que foram apresentados acima apontam para a negativa de que tenha existido

algum tipo de delito, de que os suspeitos tenham sido autores de defloramentos e de que as vítimas tenham sido estupradas. Para justificar tal negativa, as narrativas trazem elementos da vida pregressa da mulher.

Alimentado por práticas sutis, o patriarcado se firma não apenas por meio de infrações ou atitudes mais incisivas, porém, com desqualificações, culpabilizações e outras interações cotidianas que ajudaram a transformá-lo no regime autoritário que se desenvolveu na longa duração da história.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 177-182)