fomentar o imaginário com papéis sociais, normas e enredos que sopram vida à configuração brasileira no encerramento da primeira década pesquisada.
No dia 4 de fevereiro, o JB relatou a absolvição de um “estrangeiro”, suspeito de lenocínio e de ter retornado ao Brasil após supostamente ser expulso do país. De acordo com a legislação da época, o lenocínio estava tipificado em dois artigos (277 e 278) e podia ser entendido como uma ação equivalente à exploração sexual. No jornal, o leitor assim era informado sobre este caso específico:
Summariado o accusado, hontem o Juiz Federal, Dr. Octavio Kelly, proferiu sentença e attendendo a que conforme teve decidido para que se dê a infracção prevista no art. 9º do decreto legislativo 1.641, se faz necessária a certeza de que o accusado tivesse sciencia do acto de expulsão [...]; attendendo a que, tambem não está provado, que o accusado chegasse a se ausentar do paiz, condição essencial para o facto do “regresso” elementar de delicto que lhe é attribuido, [...] julgou o juiz improcedente a accusação feita ao réo. (JB, 04/02/1920, p. 6)
O vocabulário era rebuscado, distante da oralidade e até mesmo da escrita da vida cotidiana – demandando um grande esforço para interpretar o texto. Tal caráter de diário oficial também pode ser visto em duas páginas de uma edição do Estado de S. Paulo. O governador do Paraná, Affonso de Camargo, prestou contas de seu mandato no periódico.
Sobre os feitos realizados especificamente pela Polícia Civil, a notícia-relatório destacou a
“[...] manutenção da ordem, o combate ao jogo e ao lenocínio e os esforços que tem feito na sua acção preventiva para afastar do caminho do crime os menores abandonados moralmente”
(ESTADÃO, 06/02/1920, p. 4, grifo meu).
Aqui, chego ao segundo ponto que desejo ressaltar. O relato dos jornais não apenas informava, mas buscava se conectar a uma gramática valorativa para o universo do leitor, por meio de “[...] adjetivos que explicitavam o julgamento moral atrelado à notícia” (MATHEUS, 2011, p. 166). No texto publicado pelo Estadão, o que estava em jogo não era apenas a extinção do lenocínio, mas sim o combate a um ecossistema ameaçador aos “bons costumes”, pois envolvia posicionamentos e condutas moralmente reprovados pela sociedade da época – principalmente pela elite. A preocupação não parece ser a condição a qual as meninas eram sujeitadas, mas sim a retirada de qualquer traço que ameaçasse a ordem urbana. Por isso mesmo, o relato de prestação de contas prosseguiu, apresentando a atuação da polícia também no controle da sífilis e na inspeção de teatros e diversões públicas. O texto não deixou claro se existia relação entre o combate ao lenocínio e essas duas outras ações. Nem detalhou como exatamente os agentes de segurança ajudariam na profilaxia de uma doença venérea, tampouco o motivo da inspeção aos locais de lazer. Porém, em sua totalidade, o texto assinado pelo governador do Paraná deixou claro que todas as iniciativas policiais foram
tomadas no sentido de “[...] prestar relevantes serviços à causa pública” (ESTADÃO, 06/02/1920, p. 4).
A situação das meninas exploradas, a disseminação da sífilis, o controle do acesso ao lazer estão postos em uma mesma teia narrativa que lançava luz para políticas públicas voltadas muito mais para uma higienização social do que para a proteção de pessoas em situação de comércio do sexo.
O fato de os primeiros jornalistas serem profissionais do Direito (BARBOSA, 1996, 2007) permite compreender não só a forte adoção do tom jurídico, mas justamente este segundo aspecto que o material empírico apresentou: o alinhamento entre uma normatividade legal moralizante e uma narrativa noticiosa que seguia as mesmas características.
Sob essa mesma matriz semântica, o Jornal do Brasil divulgou uma pequena matéria, com o título “Saneando a zona”, que também relatava uma operação da Polícia Civil contra a prática do lenocínio. É neste contexto que apareceu Odette Silva, uma das “infelizes menores”
que trabalhavam na casa de prostituição de Albertina Costa, conhecida como “Catita”. O relato informou que Odette foi apreendida e “[...] removida para a Policia Central a fim de ser entregue à sua familia ou internada no Asylo de Menores” (JB, 08/02/1920, p. 11). O texto não se resumiu a informar a operação. O desconhecido autor da matéria fez cobranças e criticou agentes públicos que não realizavam ações da mesma natureza.
Pena é que os delegados de outros districtos onde o lenocinio é escandalosamente exercido não secundem os esforços que vem sendo empregados pelo Delegado do 13º Districto no saneamento de sua zona. (JB, 08/02/1920, p. 11)
Dessa forma, o periódico se apresentou como arena de enunciação para os redatores- advogados construírem seu capital simbólico (BOURDIEU, 2012) e intensificarem autoridade para “[...] conseguir a distinção necessária para ocupar um cargo na administração pública.
Ter um emprego público é a aspiração primeira. Ocupar um lugar na política, a aspiração máxima” (BARBOSA, 2007, p. 90).
Aliado a esses dois papéis dos jornais, a publicação de crimes sexuais se justificava tanto pela boa aceitação entre leitores, quanto por permitir a publicização de ideais caros à República: a honra sexual (associada à virgindade) e a moralidade feminina. Não é aleatório, portanto, o fato de os diários acionarem recorrentemente os termos “honra” e “moral” nos relatos das infrações: os vocábulos funcionavam como costura enunciativa que legitimava ou não a denúncia de uma mulher violentada, bem como sua versão.
Moral e honra eram vangloriadas pelos diários, pois se constituíam como pilares para atender ao projeto de Brasil moderno. “Sem a força moralizadora da honestidade sexual das mulheres, a modernização [...] causaria a dissolução da família, um aumento brutal da criminalidade e o caos social” (CAULFIELD, 2000, p. 26). A moralidade do ano 1920 deve ser vista por um viés historicizado, ou seja, era uma força motriz aceitável para o contexto de um determinado tempo e de um determinado espaço.
Nesse regime de historicidade, é sobre a mulher que recaía a responsabilidade de higienizar e dar exemplo às famílias, à casa e à sociedade como um todo – princípio reproduzido nas páginas dos impressos pesquisados. Isso porque, ainda segundo Caulfield (2000), após o fim da escravidão e do Império, a burguesia liberal necessitava criar uma nova lógica disciplinadora dos corpos, incluindo os das mulheres.
Quadro 3 – Fluxograma do peso valorativo sobre a virgindade feminina na Velha República Mulher com hímen → honra → exemplo de comportamento →
família disciplinada → nação disciplinada → nação “civilizada” e ordeira → progresso
Mulher sem o hímen → desonra → comportamento desprezível → dissolução da família → aumento do caos e do crime →
barbárie da nação → subdesenvolvimento
Fonte: ELABORADO A PARTIR DE CAULFIELD (2000), ESTEVES (1989) E SOIHET (1989).
A preocupação em excluir da sociedade qualquer ato ligado à prostituição enquanto comércio também estava presente na reforma implantada pela Lei nº 2.992, de 1915. Entre as alterações, foi dada uma maior abrangência ao crime e ao leque de pessoas envolvidas no negócio. A legislação deixou claro que o aliciamento de menores virgens ou não, “[...] mesmo com o seu consentimento [...]” (BRAZIL, 1915) era crime e frisou que era passível de pena induzir menores de idade à “[...] prática de atos desonestos, viciando a sua inocência ou pervertendo-lhe de qualquer modo o seu senso moral” (BRAZIL, 1915).
Há exatos 100 anos, a tônica valorativa se sustentava por ideais que separavam de forma bem circunscrita as dualidades rua/casa, honesta/prostituta, trabalhador/vadio, ordem/atraso. Essa moralidade era apregoada, principalmente, por aqueles que formavam a elite intelectual e política do Brasil. Como amálgama de tais ideais, estavam a mulher e seu comportamento. Catitas deveriam ser punidas, o espaço público higienizado, as zonas
saneadas e só eram considerados partícipes da construção de uma nova nação os que se alinhassem à essa definição bem específica de país.