3.2 A mulher-flor: ode à virgindade
3.2.1 Uma questão de honra
Mil novecentos e treze. Jornal O Estado de S. Paulo. Na seção “Notícias diversas”, o leitor tomava conhecimento de uma ocorrência policial classificada pelo impresso como “um caso melindroso”. Segundo o periódico, Alexandrina Arantes estudava na Escola Normal, em
São Paulo, com o objetivo de se preparar para a profissão de professora, como fazia grande parte das moças daquela época. Entre uma aula e outra, a jovem acabou se envolvendo com o professor René Barreto, com quem veio a perder a virgindade.
Porém, o pior para aquele contexto aconteceu: Alexandrina ficou grávida e, desesperado, René pediu que ela tomasse remédios abortivos para, dessa forma, apagar qualquer rastro de sua “deshonra”. O namoro continuou e Alexandrina engravidou novamente. Mas, dessa vez, a jovem não queria interromper a gestação, mesmo que isso sacrificasse a honra da família. René, no entanto, não aceitava o desejo da parceira e insistia para que ela o acompanhasse até uma casa de aborto clandestina. “Queres sacrificar duas famílias inteiras? A honra dessas famílias e em que entram meus filhos, seus pais, seus irmãos, a minha e a sua vida [...]?” (ESTADÃO, 18/07/1913, p. 6) – foi o que René teria dito, de acordo com o jornal.
Mil novecentos e dezenove. Jornal do Brasil. Ignacio Alves Gonçalves e a noiva, Celina Augusta Coelho, de 16 anos, tiveram relações sexuais. Acusado pelo crime de defloramento, Ignacio foi a júri e acabou sendo absolvido. A alegação do juiz Almiro Campos foi que “[...] as provas testemunhaes produzidas fazem certo que a dita menor não guardava o decoro proprio de uma moça honesta [...] porquanto passeava até altas horas da noite, em companhia de rapazes” (JB, 24/03/1919, p. 8).
Segundo a sentença, uma garota honrada (virgem) deveria guardar o decoro, ou seja, acatar aos padrões de comportamento vigentes, permanecendo na residência dos pais, sob tutela permanente, em vez de sair com outras pessoas para se divertir – principalmente à noite.
No caso de Celina e Ignacio, a única prova que o juiz levou em consideração foram as testemunhas que, provavelmente, devem ter pré-julgado a moça por suas supostas saídas. A própria matéria do jornal confirmou o peso moral do julgamento ao afirmar que “[...] o julgador em taes crimes, deve atender ao estado de moralidade da offendida, conceito social de ambos e ainda mais por não ter havido promessa de casamento anterior ao primeiro concubito” (JB, 24/03/1919, p. 8, grifos meus).
Mil novecentos e quatorze. Jornal do Brasil. Outro crime sexual, dessa vez seguido de homicídio, foi relatado. Na seção “Noticiário policial”, Rodoaldo Godofredo da Costa foi classificado como “salteador da honra”. A vítima era Maria de Lourdes, de 14 anos, com quem Rodoaldo desejava ter um relacionamento. No entanto, o acusado disputava o coração da garota com outro rapaz, identificado como Luiz Alegria.
Rodoaldo morava nos fundos da residência do Capitão Luiz Leonel Assis e a família de Maria de Lourdes, a Mariazinha, se encontrava hospedada na casa quando tudo ocorreu. A
moça já havia se retirado para dormir, quando foi surpreendida por Rodoaldo em seu quarto.
Ao pedir que ela mantivesse relações sexuais com ele, Mariazinha respondeu que, se fosse para ser desonrada, escolheria Luiz Alegria. Rodoaldo, então, decidiu matar a garota com um golpe de faca.
A morte de Maria de Lourdes foi comparada com a de uma santa, uma “heroína da honra”, cujo enterro foi acompanhado pela população. O jornal pediu que se conservasse a memória daquela que “[...] provou com a vida [...] quanta força tem a consciência da dignidade da defesa do thesouro da honra” (JB, 23/06/1914, p. 9).
A narrativa novelesca com que os jornais retrataram os casos, com fortes tons melodramáticos (HUPPES, 2000; MARTÍN-BARBERO, 1997; THOMASSEAU, 2005) e recheados de detalhes, estabeleceu vilões, mocinhos, desfechos esperados ou inesperados e fez o leitor mergulhar na história. Nessa imersão, ele encontrou um valor protagonista: a honra. A palavra foi acionada repetidas vezes como sinônimo de pureza, inocência, pudor. A de Alexandrina encontrava-se no hímen. Ao perdê-lo na relação sexual com o professor René, a estudante passou a ser, portanto, uma moça desonrada. Por outro lado, Mariazinha foi descrita como uma mártir da honra. Ao preferir a morte à perda da virgindade, a menor se tornou guardiã daquilo de mais precioso que uma moça da sua idade poderia ter: a castidade que, de acordo com a notícia, era ameaçada pelo vilão Rodoaldo, o “salteador da honra”, como o próprio jornal o classificou, o homem que vivia pela vida a roubar a candidez de garotas vulneráveis, como Maria de Lourdes.
Neste ponto, é preciso reforçar que, conforme alertam Barbosa e Ribeiro (2005), a prática profissional do jornalismo carrega uma ideia particular de tempo, vinculada ao contexto de sua profissão. Desse modo, a mensagem que os jornais passaram nada mais era do que ecos de um código moral vigente na sociedade brasileira do começo do século passado.
Além disso, conforme Bakhtin (1992), a todo momento, em nossas interações sociais comunicativas, mesmo as mediadas jornalisticamente, proferem-se e acionam-se discursos de outros. Por mais que algum impresso considere seu enunciado como 100% autoral, estará sempre evocando outras redes de sentido. Cada enunciado é, portanto, um pequeno componente dentro de uma cadeia comunicativa.
Ao tecer narrativas, estamos imersos em um processo contínuo de acionamento de signos. De alguma forma, os signos precisam remeter a significados compartilhados. E tal compartilhamento ocorre em todas as esferas sociais, incluindo o jornalismo.
O padrão valorativo de um tempo também inspira de modo intertextual o Direito. Nos relatos jurídico e jornalístico, estava impressa a noção de “segurança da honra” e de
“honestidade das famílias”, terminologias associadas a crimes sexuais e encontradas na legislação vigente na época, o Código Penal de 1890. De fato, os documentos jurídicos que buscam normatizar a vida em sociedade são atravessados pelos discursos morais predominantes em uma dada temporalidade, como já foi dito. Enquanto produtos elaborados pelos sujeitos sociais, os Códigos Penais, bem como as interpretações dos juristas que os colocam em vigor, podem acompanhar (mas também destoar dos) padrões de sociabilidade da época/espaço em que estão inseridos – ao mesmo tempo em que influenciam estes padrões.
Nos jornais dos anos 1910, a palavra “honra” também apareceu associada a outras esferas: perante outros países, a honra brasileira foi tratada como sinônimo de soberania nacional, à lealdade do cidadão à nação, ao amor pelo país, especificamente porque nesta década houve um importante acontecimento bélico: a 1ª Guerra Mundial (1914-1918). O termo ainda surgiu relacionado à ausência de dívidas externas – mas sempre ligado a uma imagem positiva da República em fase de solidificação.
No entanto, é na gramática valorativa que associa um comportamento íntimo à qualidade de dignidade da mulher que o uso da palavra chamou mais atenção. Além de imputar a uma pessoa o atributo de ser honrada ou não pelo fato de possuir ou não um hímen, o padrão normativo extrapolava a esfera privada do casal e qualificava (ou desqualificava) toda a base familiar de ambos. Quando o jornal narrou o caso entre a aluna e o professor, a fala do rapaz deixou claro que expor a perda da virgindade – e a consequente gravidez – era
“sacrificar a honra de duas famílias inteiras”.
Assim, percebe-se um tratado moral rígido que vigiava bem de perto e constrangia o comportamento sexual da mulher. Além disso, atrelava sua conduta à manutenção de determinada imagem da família esperada por todo o seu círculo social. Dependendo da forma como uma garota se comportasse, a reputação de toda a sua casa estaria comprometida. Este era o peso que recaía sobre as moças solteiras daquela época – e que aparecia impresso também no noticiário policial. Grosso (2016, p. 68) argumenta que a mulher era preparada para se casar (virgem), pois exercia na Velha República uma função civilizadora, ao acatar seu papel de mãe e esposa. Desse modo, ela ajudaria na construção do ideal de nação. O valor positivista “ordem e progresso” se estendia à vivência da sexualidade e ajudava a formular o sentido encontrado nas matérias do começo do século XX – discussão semelhante a que foi apresentada no Quadro 3, no qual também foi observado que uma função capitalista está embutida nesse ideal.
Passam-se as décadas. Muda-se o século. A expressão “segurança da honra” foi excluída da lei em 1940, na parte que se refere aos crimes sexuais. De 2000 a 2010, na outra
ponta da linha empírica, a palavra-chave sequer é encontrada no Jornal do Brasil ou no Estado de S. Paulo. Entretanto, não se percebe um decréscimo dos resultados ou um esperado desuso de “defesa da honra”. Em ambos os jornais, há uma irregularidade na incidência da expressão e algumas curiosidades, como a quase equivalência entre as décadas de 1910 e 2000. Por outro lado, há pouquíssimos textos nos anos 1920 e 1930 no Estadão. Já no Jornal do Brasil, a década de 1980 apresenta mais que o quádruplo de registros do que a década de 1910, contendo o mesmo termo.
O estranhamento fica menor quando se analisam de perto as edições dos dois jornais.
No Estado de S. Paulo, de 2000 a 2010, a expressão aparece para se referir a casos em que indivíduos sofreram algum tipo de dolo à sua imagem e que, portanto, reivindicam a defesa de sua honra pessoal. A palavra honra, sozinha, é encontrada muito mais próxima à noção de qualidade de uma pessoa do que de um valor comportamental ligado à sexualidade. É possível perceber o vocábulo em colunas de opinião e em carta dos leitores, elogiando ou cobrando essa característica de algumas classes de cidadãos, como magistrados, jogadores de futebol, juízes, artistas etc.
Em setembro de 2010, O Estado de S. Paulo trouxe uma coluna esportiva, assinada por Ugo Giorgetti, em que o assunto era a disciplina na seleção brasileira de futebol masculino.
Ao relatar um episódio em que dois jogadores saíram para se divertir antes da concentração do time, o colunista disse que “É uma história em que não há bandidos, ao contrário. Há dignidade, honra e caráter dos personagens. Mas ninguém na seleção se dispôs a averiguar melhor as coisas” (ESTADÃO, 26/09/2010, p. E3, grifo meu).
Também se encontra o termo para rememorar crimes famosos, como o assassinato da socialite Ângela Diniz pelo namorado Doca Street, em 1976, que foi inocentado no primeiro julgamento com o argumento de ter matado a moça de 32 anos para defender sua honra, após o descobrimento de uma traição (ESTADÃO, 01/09/2006, p. C6).
No Jornal do Brasil, a palavra apareceu ligada, nos anos de 2000-2010, à defesa da soberania nacional ou para denunciar a persistência de crimes de honra como forma de controle das mulheres em alguns países muçulmanos (JB, 09/07/2000, p. 20). Já em janeiro de 2010, o jornal publicou uma matéria sobre a peregrinação da imagem de São Sebastião por hospitais do Rio de Janeiro. Com o título “Padroeiro leva bênçãos as enfermos”, o texto relatava que houve uma “[...] celebração em honra ao santo” (JB, 12/01/2010, p. A13, grifo meu).
A ruptura semântica encontra-se, portanto, no novo uso do termo honra, afastando-o dos crimes sexuais que recorrentemente apareciam a ele associado. Um dos possíveis motivos
é o fato de, no Código de 1940, o defloramento ter deixado de existir, termo recorrentemente associado às palavras honra, honradez etc.
Neste ponto do capítulo, é possível perceber um exemplo em que as normatividades proferidas juridicamente e pela imprensa caminharam com certa sincronicidade. As alterações dos padrões sociais parecem ter conformado (e ajudado a conformar), em algum grau, aquilo que foi estabelecido pela via da autoridade jurídica: a letra da lei – o que acabou sendo também apropriado pelos diários. Jornais das décadas mais recentes ligavam a palavra honra a questões distintas da vida sexual da mulher.
No entanto, um adjetivo análogo à noção de honra (honesta, para se referir às vítimas) sobreviveu nos textos jurídicos até os anos 2000. Koselleck (2014) fornece um esclarecimento para tal fato. As durações na vida social, segundo o autor, se modificam em diferentes ritmos.
O mesmo vale para a linguagem. Se lógicas temporais distintas podem coexistir, sentidos também díspares conseguem operar concomitantemente no fluxo da vivência humana, dando origem a experiências particulares, mas divergentes no que se refere ao âmbito simbólico.
Com tal afirmação em mente, a respeito da palavra honra, dos crimes de rapto e defloramento, proponho agora a pensar se os arranjos reflexivos apresentados se aplicam ao delito de estupro, o mais duradouro no fio temporal.