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O ano 1990: vitrine criminal

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 70-75)

A presença de múltiplos tempos apontou para um novo modo de experienciar a existência daquele agosto de 1980. Nos moldes deweyanos, é por meio da experiência que sujeitos são afetados pelos acontecimentos e também reagem a eles, assumindo o lugar de agentes da transformação histórica e social (DEWEY, 1980). Dessa maneira, a problematização encontrada nas duas edições do JB assumiu a função de âncora enunciativa para os leitores não apenas sofrerem aquele período de mudanças, mas também agirem sobre ele.

De fato, como toda época de transformação, os anos 1970 e o início da década de 1980 foram classificados como “anos contraditórios” pelo próprio JB em sua edição centenária (JB, 07/04/1991, p. 37). Enquanto o mundo vivenciava mudanças importantes, como a segunda onda feminista, o Brasil, de certa forma, se mantinha blindado (à medida do possível) pelo Regime Militar. A abertura política sinalizada no começo da década de 1980 significava também uma abertura comportamental. Havia uma certa demanda reprimida no ar com reação a diversas questões, incluindo a tolerância a crimes contra a mulher.

Portanto, como sintoma do momento, a empiria indicou oscilações semânticas em dois níveis analíticos: dentro e também entre as narrativas de agosto de 1980 – sendo que algumas textualidades se constituíram em tentativas de romper com as amarras de uma lógica baseada no autoritarismo.

A atmosfera de mudanças também se refletiu no âmbito legal. Recém-liberto do Regime Militar, o Brasil realizou uma ampla reforma normativa. Agora, éramos regidos pela Constituição Federal de 1988, a Constituição Cidadã. O texto-base recebeu esse nome, pois o documento tentava se desvencilhar das amarras do passado ditatorial, avançar no ideal democrático, bem como restabelecer direitos e deveres antes vetados aos brasileiros.

Em 1985, foi inaugurada a primeira Delegacia de Mulheres na cidade de São Paulo.

Longe de ser uma iniciativa pontual do Estado, o órgão se constituiu como uma resposta ao movimento feminista e aos anseios de cidadãs e cidadãos por maior participação política nas decisões e ações públicas (PASINATO;SANTOS, 2008).

Em julho de 1990, também foi sancionada a Lei dos Crimes Hediondos, incluindo alguns delitos nessa tipificação e endurecendo a pena de outros, inclusive o estupro. No mesmo mês17, foi instituído o Estatuto da Criança e do Adolescente. O ECA agravou as penalidades para autores de estupro e atentado violento ao pudor contra menores de idade, entre outras alterações. O documento introduziu a noção de proteção integral, garantindo defesa jurídica e sanções para autores de quaisquer tipos de violação contra garotas e garotos, incluindo as de natureza sexual (SOUZA; ADESSE, 2005).

Todas essas mudanças na gramática normativa apontaram para dois aspectos: uma discussão que ganhava força na sociedade (proteção de crianças e adolescentes) e a urgência em frear a crescente criminalidade urbana (pela Lei dos Crimes Hediondos, por exemplo).

Com relação ao primeiro aspecto, o ECA se estabeleceu como bússola para defesa e promoção da cidadania dos menores de idade. Em meio a esse cenário, o Estadão publicou duas reportagens, ocupando 3/4 de página cada, ambas assinados por um promotor. Com os títulos “Novas leis causam controvérsia” (ESTADÃO, 12/09/1990, p. 27) e “Lei aumenta pena prevista no Estatuto” (ESTADÃO, 30/09/1990, p. 68), o autor trouxe um debate público sobre o ECA, relacionando-o à Lei de Crimes Hediondos e mostrando possíveis incoerências/duplicidades nos dois documentos. Por sua vez, o Jornal do Brasil publicou factuais de crimes cometidos contra menores, porém, majoritariamente, no formato de pequenas notas. A exceção ficou por conta da matéria “Brasil tem 500 mil jovens de até 20 anos na prostituição” (JB, 21/09/1990, p. 12). Sem assinatura ou ilustração, o texto de três colunas não fez qualquer menção ao ECA.

Como se vê, os jornais chegaram a falar do assunto do momento. Entretanto, esperava- se que as edições de setembro de 1990 denunciassem com mais afinco os crimes cometidos

17 O estatuto entrou em vigor apenas em outubro de 1990.

contra crianças e adolescentes – visto que a temática estava na pauta de conversação social.

Até mesmo as duas reportagens do Estadão sobre os novos marcos legais se ativeram mais a levantar um debate jurídico do que propiciar uma discussão publicizada de um problema estrutural.

Já a respeito do segundo aspecto, ou seja, a atmosfera de insegurança, percebeu-se uma diluição dos textos em uma grande vitrine de ocorrências policiais – incluindo crimes sexuais. Os jornais se apresentaram como um mosaico de violências factuais e se comportaram como a representação de um urbano caótico. Não houve aprofundamento. A violência contra a mulher foi noticiada apenas por meio de notas, como já foi dito, formatando um emaranhado de relatos policiais e de acontecimentos citadinos. Exemplifico: a matéria do JB sobre prostituição foi diagramada junto a textos sobre assaltos a bancos e a roubos de artes sacras em Minas Gerais. Uma menção às mudanças advindas com a Lei de Crimes Hediondos dividiu a página com a notícia de que uma bazuca foi encontrada durante uma blitz e de que a apresentadora Xuxa Meneghel estava na mira de uma quadrilha de sequestradores (ESTADÃO, 18/09/1990, p. 21). Os diários se transformaram em um grande palco no qual a constante ameaça da violência urbana performava para os públicos dos diários.

Mas, havia poucas exceções. Uma delas se refere a um texto de quatro colunas, com o título “Agência de casamento assusta prédio”. Tratava-se de um estabelecimento que viabilizava matrimônios entre brasileiras e homens alemães, austríacos ou suíços. Deize de Paula Gomes, uma das diretoras, explicou que os estrangeiros tinham preferência pelas “[...]

brasileiras porque são dóceis e boas donas de casa” (JB, 26/09/1990, p. 6D, grifos meus).

Figura 3 – Clézia, 22 anos, uma das moças atendidas pela agência de casamento

Fonte: JORNAL DO BRASIL (26/09/1990, P. 6D). ACERVO ONLINE HEMEROTECA DIGITAL BRASILEIRA.

Mesmo não afirmando que o imóvel em Copacabana fazia parte de uma rede ilegal, o Jornal do Brasil relembrou um caso semelhante com o intuito de incluir o negócio carioca na mesma tessitura narrativa.

“Negócio” já é tradição alemã - Nos últimos 15 anos, foram descobertos inúmeros casos de estrangeiros que atuavam no Brasil como agenciadores de mulheres, em negócios bem menos ingênuos que uma agência de casamento. [...] Em 1985, os alemães Bernd Stelzmann e Ingfried Harbsmeier se hospedaram no Hotel Glória e passaram a recrutar brasileiras para se casarem com alemães. [...] Acabaram sendo obrigados pela Polícia Federal a deixar o Brasil, acusados de praticar tráfico de mulheres. (JB, 26/09/1990, p. 6D, grifos meus)

Além do tráfico de mulheres (1 ocorrência), outras cinco palavras-chave foram encontradas em setembro de 1990: estupro (17); pudor (2); lenocínio (1); sedução (1); casa de prostituição (1). Sobre o estupro, o corpus contemplou um fato memorável: a célebre e espantosa frase de Paulo Maluf, dita quando ele concorreu à presidência da República. Na ocasião, o político havia dito “O que fazer com um camarada que estuprou uma moça e matou? Tá bom. Tá com vontade sexual, estupra mas não mata”18. Maluf era um dos

18 Disponível em: <www.youtube.com/watch?v=VVY1ksZw-XE>. Acesso em: 1º Set. 2020.

candidatos ao governo de São Paulo nas eleições de 1990, por isso, seu passado acabou sendo resgatado em meio à disputa do pleito.

O número de resultados com o termo estupro em 1990 superou a quantificação dos anos anteriores. Sugeria-se, portanto, um cenário no qual esta modalidade de crime passasse a ter maior protagonismo nas interações comunicativas. Entretanto, nas páginas dos jornais analisados, a alta ocorrência não significou maior problematização dos fatos e o crime ocupou lugar coadjuvante nos textos.

O estupro apareceu como ingrediente para polêmicas, envolvendo personagens conhecidos ou pertencentes à elite empresarial - sempre em formato de pequenas notas. O Estado de S. Paulo informou a sentença do jogador de futebol da Costa Rica, Hector Marchena, acusado de estuprar uma menina de 15 anos (ESTADÃO, 12/09/1990, p. 21). No Jornal do Brasil, o menor investimento narrativo também foi dado ao caso (JB, 12/09/1990, p.

22). Oito dias depois, o jornal paulistano (ESTADÃO, 20/09/1990, p. 27) e o carioca (JB, 20/09/1990, p. 17) divulgaram a pena sentenciada ao proprietário de uma rede de açougues, Jerônimo Barbosa, que estuprou três mulheres na cidade de Santos.

Se as narrativas organizam nossa vivência temporal (RICOEUR, 1994), os jornais de setembro de 1990 experienciaram a chegada do ECA e dos novos anseios por justiça e proteção aos cidadãos de forma tímida. O jornalismo tentava dar conta da nova configuração do período. Porém, em vez de impulsionar e dar vazão às políticas públicas e aos marcos legais, os impressos preferiram criar um labirinto da violência, onde o leitor não passava de refém. A mecânica do jornal cria uma dependência autoritária: o leitor não apenas lê porque assim o deseja, mas porque precisa dos diários para se manter informado. Ele se torna, desse modo, refém dos jornais pelo medo (MATHEUS, 2011).

A cidade foi narrativamente construída como um lugar perigoso para todos, incluindo a mulher, as crianças e as adolescentes potenciais vítimas de crimes sexuais. “O Brasil vive em pânico com medo dos bandidos” (ESTADÃO, 09/09/1990, p. 2). “A menor foi raptada e violentada pelo agente federal” (JB, 19/09/1990, p. 5). “Seu estabelecimento foi saqueado diversas vezes e a filha de 15 anos foi ameaçada de estupro” (ESTADÃO, 05/09/1990, p. 25).

Em setembro de 1990, estavam lançados os pilares que tentavam estabelecer um roteiro para o comportamento no perímetro urbano: temos, sobretudo nós, mulheres, direito à cidade? Como devemos nos portar diante de tantas ameaças? O Estadão e o JB tentavam dar conta de responder a tais questionamentos.

O medo é um importante desencadeador e também encadeador de histórias que proporciona uma experiência simbólica da vida urbana. E a reportagem policial constitui oportunidade privilegiada de conformar mentalmente a cidade que se vive materialmente. (MATHEUS, 2011, p. 43)

Ainda que de forma não intencional, os jornais teceram tais narrativas com base no medo, que poderiam gerar pânico entre os leitores. Isso não significava que, enquanto agentes sociais, os próprios jornalistas não participavam dessa experiência coletiva do medo. Cabia a eles, junto com o público, mapear essa cartografia do perigo, encontrar motivações e soluções – ou apenas mencionar casos ilustrativos, como ocorreu na maior parte dos textos analisados neste intervalo do corpus.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 70-75)