CAPÍTULO IV........................................................................................................................ 97
4.1 AS REPRESENTAÇÕES DA ENGEPASA
Na opinião da empresa contratada para a limpeza urbana, “as coisas estão funcionando em Balneário Camboriú”, porque houve uma preocupação do poder público em contratar uma empresa para prestar um serviço de qualidade:
Quanto ao poder público, houve esta preocupação, sabe-se que existem muitos outros municípios que não têm um serviço de limpeza urbana adequado. Sabemos que aqui no Balneário Camboriú, antes da privatização do serviço de limpeza, a situação era bem ruim, as pessoas comentam.
(Engepasa)
Outro ponto a destacar é com relação às tarifas cobradas à população. De acordo com as pesquisas e também em programas das rádios locais há reclamações quanto ao valor das tarifas cobradas pela limpeza urbana, segundo a gerente da Empresa, “as pessoas acham caro”. Por outro lado, ela também destaca que a população, de modo geral, elogia e comenta de forma positiva os serviços de limpeza, assim como se diz, satisfeita com os serviços prestados pela empresa.
Uma das questões formuladas à Empresa com relação à população diz respeito à orientação que seria dada aos diferentes segmentos da sociedade, ou seja, a cada público especificamente: condomínios, restaurantes, comércio em geral. Uma vez que produzem resíduos com diferentes características, teriam informações diferenciadas e específicas sobre os cuidados e formas corretas de cuidar do lixo?
A Engepasa, de acordo com a gerente regional, mantém um contato permanente com a população, e os motoristas são orientados a comunicar qualquer problema, qualquer dificuldade. As informações e orientações, portanto, se dão através da distribuição periódica de folhetos explicativos e orientação direta através dos fiscais. De acordo com a referida gerente, quando ocorre qualquer problema, um fiscal é enviado ao local, conversa e orienta as pessoas. Na temporada de verão ocorrem mais problemas devido ao grande número de pessoas que estão de férias na cidade. E também porque há muito mais lixo neste período.
Na opinião da gerente entrevistada, do comportamento da população com relação ao lixo são observadas algumas diferenças: na região central as pessoas já estão mais orientadas, e têm um cuidado maior com o lixo e também com o material reciclável. Nos bairros é mais comum o lixo não ser tão bem acondicionado, o que compromete o visual quando fica mais exposto na rua. Entretanto, de acordo com a informante, não se pode afirmar que este aparente desleixo seja apenas um comportamento típico dos bairros, pois o fato da coleta domiciliar realizar-se em dias alternados poderia também estar contribuindo para este quadro. No caso dos restaurantes, os proprietários são instruídos a utilizar sacos mais reforçados porque os restos de alimentos pesam e os sacos rompem com facilidade.
Na perspectiva da sustentabilidade apregoada pela Agenda 21 as questões ambientais urbanas e sociais não podem ser dissociadas. Neste sentido, de acordo com a empresa responsável pela limpeza urbana, através de sua gerente, ainda falta muito para se alcançar esta nova cultura:
As pessoas ainda não se sentem responsáveis. Quando todos entenderem que o lixo é de responsabilidade de cada um, quando compreenderem como é difícil conseguir uma área, o alto custo de um aterro sanitário, a degradação do meio ambiente...Acredito que seja necessária muita orientação ainda.
O novo aterro sanitário dos Municípios de Balneário Camboriú e Itajaí estará entrando em operação ainda este mês (julho de 2007). Para a Empresa, a redução da quantidade de lixo produzida pela população iria prolongar a vida útil do aterro. “E é fácil fazer isso, é só separar os resíduos para a coleta seletiva”, comenta a responsável.
Alertar e orientar a população para estas questões é uma das estratégias utilizadas pela Engepasa Ambiental, através de materiais de divulgação, programas e campanhas como forma de conscientização da população. A divulgação da coleta seletiva é trabalhada em conjunto com a SEMAN. Atualmente, conforme a gerente da Engepasa, a divulgação da coleta seletiva está sendo feita de duas formas: a distribuição dos folhetos, pela segunda vez este ano, em todas as residências de todos os bairros do município, e a divulgação permanente no “Jornal Página Três”, orientando o que deve e o que não deve ser separado para a coleta seletiva. “A empresa hoje trabalha somente com essa divulgação”, completa a responsável.
O projeto de Educação Ambiental que engloba não só a coleta seletiva, mas também a limpeza urbana em geral, é desenvolvido em parceria com a SEMAN. Desde 2004, já cerca de 14 mil alunos das escolas municipais, estaduais e particulares participaram. Para os alunos de ensino fundamental é apresentada uma peça teatral, enquanto que o segundo grau
tem uma aula diferenciada. A revista em quadrinhos que conta a história de Garibaldo deixa as crianças muito empolgadas, comenta a responsável:
A ponto de recebermos varias ligações de pais que estão sendo cobrados pelos próprios filhos para que separem o lixo em casa. Nós sabemos que esse projeto não vai trazer um retorno imediato, mas sim futuro. (Gerente da Engepasa).
Sabe-se, entretanto, que os resultados, em termos de mudanças de comportamento com relação ao lixo não são imediatos. De acordo com a referida entrevistada, a necessidade de colocar mais um caminhão nas ruas para coleta seletiva representa um avanço que pode ser atribuído às campanhas em rádios e jornais e ao projeto de educação ambiental desenvolvidos no município, assim como aos outros projetos desenvolvidos pela SEMAN.
Quando se fala em material reciclável, atualmente, não é mais possível deixar de vincular a figura do catador, este agente que resgata, nos lixos das cidades, materiais aproveitáveis dando início com seu trabalho a todo um processo de reciclagem em nosso país.
De acordo com a gerente regional, a Engepasa encara a presença dos catadores no contexto da reciclagem como sujeitos que estão fazendo também um trabalho para a sociedade retirando este material das ruas, “mesmo que o objetivo deles seja uma fonte de renda, vemos também como um grande benefício o aproveitamento deste material”.
A empresa, questionada com relação a alguma ação para com os catadores, esclarece e destaca que a responsabilidade da Engepasa é somente com a coleta e limpeza do Município, esse trabalho não envolve qualquer relação com os catadores.
A responsabilidade da Engepasa é somente com a coleta e limpeza do município. Nós não temos qualquer relação com os catadores. Somos contratados apenas para levar os resíduos da coleta seletiva naquele local indicado pela Prefeitura e aí termina nosso trabalho.
De acordo com a entrevistada da Engepasa, a SEMAN é que está envolvida com os catadores e iniciou uma associação próxima aos escritórios da Engepasa, num galpão alugado pela prefeitura por um curto período:
A Prefeitura pagou o aluguel deste galpão por um período, só que depois eles é que teriam que arcar com isto e daí eles não conseguiram. A Associação não estava bem estruturada. Então eles foram para aquele espaço que é da Prefeitura, na Usina de Triagem, na Várzea do Ranchinho. Só que eles mesmos reclamam porque é muito longe pra eles. Mesmo que eles queiram participar não há como chegarem até lá, não há como se
locomoverem com todo aquele material com os carrinhos. Aqui perto eles iam e vinham o dia todo com o material.
De início foi quando foi formada a associação a intenção era que todos os catadores fossem trabalhar lá. Mas acontece que lá eles teriam que esperar até o final do mês para receber seu dinheiro. E os catadores de rua estão acostumados a ter todos os dias o seu dinheiro. Coletam e vendem diariamente o material.
Com relação a problemas entre funcionários da Empresa e os catadores durante as coletas, foram relatados alguns episódios, segundo informações da Empresa:
Já aconteceram atritos, de chegar o caminhão e eles quererem tirar alguma coisa do caminhão. Isso a gente não permite porque o nosso trabalho tem que ser feito, nós temos que realizar a coleta seletiva. Se nós cedermos a essas situações criam-se outras. Então, se eles passam antes, recolhem, tudo bem, não nos opomos a isto nem criamos atritos por isso. Mas já aconteceu de alguém parar o caminhão e pedir pra tirar coisas que estão lá dentro. Aí não permitimos. Mesmo porque esse material de qualquer forma será destinado a Associação. Então, temos que cumprir nosso trabalho. Mas isso é uma regra que eles já aprenderam a respeitar.
O maior problema, entretanto, é o fato de deixarem os sacos de lixo abertos, rasgados e o lixo espalhado nas lixeiras. Isto provavelmente acontece devido à pressa, uma vez que os catadores se antecipam à coleta, pois eles já conhecem o roteiro e os horários, e quando o caminhão passa naquele local eles já passaram e levaram o material. Uma catadora descreve sua corrida contra o tempo:
Tem dia que a gente sai às duas da manhã, tem dia que sai às cinco horas. O dia que o lixeiro passa eu saio mais cedo pra dar tempo de pegar os recicláveis antes que o lixeiro chega. Tem dia que vou numa rua e ele na outra.(catadora com 57 anos).
4.2 O AUTO-RETRATO DO DESEMPENHO DA SEMAN E SUAS REPRESENTAÇÕES