Com relação à escolaridade dos entrevistados a grande maioria não completou o primeiro grau. Entretanto, entre meus entrevistados, um deles possui 2° grau completo, curso técnico, e trabalhou em empresas de autopeças por vinte anos em São Paulo; uma delas, atendente de enfermagem, trabalhou no hospital do Município por alguns anos. Assim como eles, todos, com exceção de um deles, menino com treze anos, realizaram trabalhos em diversas áreas antes de se tornarem catadores, trabalhando como: pintor, pedreiro, cobrador, doméstica, atendente de enfermagem, motorista de caminhão, porteiro, açougueiro, vendedor, técnico de autopeças.
Trabalhava de pedreiro, mas sofri um acidente no trabalho quebrei o “bacio”
e machuquei a mão. Fiquei com dois dedos sem movimento. Então procurei um serviço mais leve. Cato em muitos lugares, nas ruas, no centro da cidade.
As lixeiras dos prédios são fechadas, é mais difícil. (catador com 45 anos).
Às vezes a gente trabalha com outra coisa, mas também cata porque a gente paga aluguel, paga luz, tem bastante coisa pra pagar. Tem que comer, o aluguel é muito caro. (catador com 33 anos).
Alguns deles complementam a renda em algum período do ano acumulando outras funções como cobrador de ônibus, cabelereira, pintor, faxineiro, etc.
A faixa etária dos entrevistados vai de treze anos a sessenta e cinco anos.
Entretanto, pode-se observar que o maior número de catadores está na faixa que vai dos trinta aos cinqüenta anos, em segundo lugar, a faixa que vai dos cinqüenta e um anos aos setenta anos. Aqui cabe ressaltar que há muitas crianças trabalhando com seus pais ou mesmo sozinhas, dirigindo carroças, bicicletas, puxando carrinhos, ou mesmo a pé.
Em recente reportagem, o Jornal Página Três (2006, p. 4), deste Município, traz em primeira página uma foto revelando “crianças com idade média de nove anos carregando lixo reciclável” nas ruas do município. A este respeito os próprios catadores dão sua opinião:
Eu sei que tem pais que colocam as crianças pra catar latinhas, mas criança nesse trabalho é coisa que eu não concordo. E a maioria eu acho que os pais que mandam. Alguns só catam latinhas, mas não concordo. (catadora com 57 anos).
Agora não tem muita gente, antes tinha mais, mas ainda tem gente que usa a criança para ganhar alguma coisa a mais, pra comover as pessoas. Eu jamais usaria uma criança minha para isso, jamais! Um dia chegou um menino em meu carrinho, ele passava todos os dias vendendo sanduíches e tal, e eu comprava todos os dias e dava um real para ele, sempre comprava. Um dia ele me falou: “Oh Gringo, se você fora meu pai eu trabalharia com você”. Eu
olhei para ele e falei assim: “se você fora meu filho não trabalharia para mim, estaria na escola”. (catador com 41 anos, argentino).
Ah, isso tem bastante, eles ficam nos carrinhos com os pais, sempre vejo.
Passam de carroça, de carrinho. (catador com 48 anos).
O combate ao trabalho infantil, tema de diversos movimentos sociais a partir dos anos oitenta, foi definitivamente incluído na agenda nacional de políticas sociais e econômicas em 1992. De acordo com dados do IBGE: “de 1995 a 2003 o número de crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos que trabalhava caiu 47,5%. De acordo com a Pesquisa de Amostra por Domicílios (PNAD 2003/IBGE), a mão-de-obra infantil nessa faixa etária diminuiu de 5,1 milhões para 2,7 milhões”. Entretanto, não só neste Município ainda vemos todos os dias crianças trabalhando nas ruas de cidades brasileiras.
Com relação à cidade de origem, entre os catadores observa-se que, na sua maioria, eles vêm de diferentes lugares do Brasil como São Paulo, Minas Gerais, Paraná, oeste de Santa Catarina e também de fora do Brasil, a Argentina. O fato de Balneário Camboriú se destacar como cidade turística atrai pessoas de diferentes lugares em busca de oportunidades de trabalho, iludidos pela temporada de veraneio.
Tentei várias coisas, mas não consegui nada. Tentei lojas de peças, lanchonetes, qualquer coisa. Quando acaba a temporada “eles” mandam muita gente embora. Então comecei a pegar latinhas. Foi muito difícil me acostumar, mas depois fui catando de tudo. (catador com 48 anos).
Na temporada é material todo dia, agora nessa época é mais fraco. (catador com 48 anos).
Selhorst (2005), que viveu literalmente na pele a experiência de ser um catador por quatro dias nos conta a história de “Cabelo” e “Polaco”, colegas de trabalho, que aqui chegaram vindos do Paraná, puxando seus carrinhos e coletando material pelo caminho. Eles foram trazidos pela vontade de “conhecer a cidade” e a certeza de que “aqui haveria bastante lixo para reciclar e o mercado de trabalho não seria tão concorrido como o da capital paranaense”. Outro exemplo é o catador de 41 anos, argentino, vivendo há alguns anos no Brasil e que, segundo os colegas, é um dos catadores que mais trabalha. Está catando há cinco anos, é açougueiro, e conta como começou a catar:
Fiquei desempregado e comecei a ver que a “gente” fazia isso aí. Então peguei um saco preto e comecei a sair à rua catar latinha. Como não tenho segundo grau, sou argentino, as chances de arrumar um bom emprego são
pequenas. Tenho que pagar as contas e isso dá porque também tem gente que sempre dá um presente, um móvel, essa tv ali. (catador com 41 anos).
A atendente de enfermagem e catadora há 10 anos em Balneário Camboriú, entrevistada, ganha mais como catadora do que ganhava no hospital onde trabalhava muito mais. Trabalhando com o marido, conseguem uma renda suficiente para pagar o aluguel e fazer as despesas da casa.
Quando a gente vê que já deu uma base desse material pra cobrir o aluguel a gente vende, chama o caminhão e ele leva e paga. A gente tenta administrar como pode, quem tem aluguel tem que guardar primeiro o aluguel. (catadora de 57 anos).
A grande maioria dos catadores de recicláveis prefere receber seu dinheiro diariamente. Coleta o material e vende para os depósitos no mesmo dia. Alguns levam duas a três cargas no mesmo dia aos depósitos. São poucos os que guardam material em casa para vendê-lo depois de juntar uma quantidade maior. No caso de duas catadoras entrevistadas, elas explicam que esta é a maneira mais vantajosa em termos de conseguir melhor preço na hora da venda. Inclusive o caminhão do depósito para onde costumam vender vai apanhar a mercadoria em suas casas.
FOTO 5 : CATADORES E SEUS INSTRUMENTOS DE TRABALHO
FONTE: Arquivo da autora. Junho de 2006.