Lavo roupa. (catadora de 65 anos).
Se, por um lado observa-se o cansaço, a desesperança, as limitações em termos de condições e oportunidades para satisfação de necessidades básicas, por outro lado, entre eles ainda resta um espaço para a alegria:
Eu trabalho direto. Mas domingo eu folgo. Domingo é o meu pagode e o meu baile. Aí você não me conhece. Aí boto uma roupa boa, pego minha motozinha e vou lá pra Itajaí pra dançar um pouco, né?(catador com 48 anos).
Restam, também, expectativas de que seu trabalho seja bem visto e reconhecido como uma importante contribuição tanto para a sustentabilidade ambiental, quanto social, com vistas a um futuro em parceria com sua própria organização e as instituições públicas.
Hoje em dia as pessoas tão cuidando um pouco mais, mas ainda tem os relaxados. Todo lugar tem os que não cuidam. É, parece que as pessoas do centro cuidam mais, não sei se é porque tem mais coleta. No bairro às vezes tem uns que deixam meio jogado. Mas tem os que cuidam também.(catador com 48 anos).
Além da percepção do ambiente próximo onde vivem e trabalham, os sujeitos entrevistados demonstram perceber também os locais para onde se destina o lixo que não é separado e que não pode ser aproveitado. Mesmo os que não conhecem o “aterro”, demonstram saber dos efeitos deste material no ambiente:
O caminhão leva e vai pro lixão ser enterrado, né? È um lixo que vai pra natureza, vai ser enterrado, vai ser jogado fora, uma coisa perdida, né? Hoje em dia é tudo enterrado, fica tudo lá, plástico, ferro. (catador com 31 anos).
Sei. Isso tudo vai pro lixão e nunca se acaba.(catador com 48 anos).
Sei que vai pro lixão, fica ocupando espaço, é muito ruim isso. As pessoas deviam pensar mais, mas alguns não ligam, ignoram tudo isso. Nem “tão” aí se estraga o ambiente. É como eu falei, acumula tudo, fica lá ocupando espaço, contamina tudo e é coisa que se pode vender, fazer novo. É uma coisa aquilo lá, quem já conhece falou.(outro catador com 48 anos).
Os serviços prestados pela Prefeitura nos bairros dos entrevistados constam de:
postos de saúde, escolas, creches, esgoto, água encanada, energia elétrica, coleta de lixo e coleta seletiva. Balneário Camboriú é, hoje, a primeira cidade de Santa Catarina em qualidade de vida, segundo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) apurado pelo IBGE21 (2005).
De acordo com os catadores que residem em Balneário Camboriú os serviços prestados em seus bairros são adequados e estão satisfeitos de modo geral. A coleta domiciliar passa três vezes por semana nos bairros e a coleta seletiva uma vez por semana em cada bairro, o que, segundo eles é suficiente.
Tem tudo. Não tenho nada a reclamar da Prefeitura, meu bairro é um bom bairro. Não falta nada. (catador com 48 anos).
Olha, para mim mesmo, eu acho que essa parte aqui em Balneário é muito legal, nosso bairro é bom, tem tudo. Eu gosto daqui.(catador com 40 anos).
Com relação ao que falta nos bairros algumas colocações foram feitas:
21 Disponível em: www.ibge.gov.br
O que falta é a gente ter a casa própria. Já fizeram um programa pra casa própria. Na Caixa nós não podemos porque não temos comprovante de renda e sem isso não dá. O resto, o nosso bairro é bom.(catadora com 57 anos).
Falta água, às vezes comida. (catador com 13 anos).
O que falta no meu bairro é remédio, lá no posto, o resto tem tudo.(catador com 45 anos).
Uma catadora que reside na divisa entre Balneário Camboriú e Itajaí faz suas comparações com relação aos serviços que faltam no seu bairro na Praia Brava:
Nós não temos esgoto, mas o nosso não é clandestino, tem o que a gente faz quando constrói a casa e sai canalizado, sai no córrego. A única pessoa que eu vejo que chama o ESGOTEC sou eu. De vez em quando eu chamo, mas ninguém mais. Eu vejo, eu fico admirada com isso. (catadora com 57 anos) Falta tanto, 38 anos morando aqui. Esta rua falta asfalto, esta e a Lucy Canziani. Eles brigam, mas não tem interesse. E esta rua tem só 80 metros (a mesma).
As pessoas estão com mais cuidados com o lixo, os terrenos não têm mais lixo, você não vê mais isso em Balneário. Outro dia ouvi na rádio que Itajaí devia se espelhar em Balneário, nesse ponto, muito mais cuidado.(catadora com 57 anos).
Percebe-se que os catadores que vêm de Itajaí tendem a comparar os serviços básicos prestados no seu município como deficitários em relação a Balneário Camboriú.
CAPÍTULO IV
O PROCESSAMENTO DO LIXO E A ATUAÇÃO DOS CATADORES: AS REPRESENTAÇÕES DOS GESTORES PÚBLICOS E PRIVADOS
4.1 AS REPRESENTAÇÕES DA ENGEPASA
Na opinião da empresa contratada para a limpeza urbana, “as coisas estão funcionando em Balneário Camboriú”, porque houve uma preocupação do poder público em contratar uma empresa para prestar um serviço de qualidade:
Quanto ao poder público, houve esta preocupação, sabe-se que existem muitos outros municípios que não têm um serviço de limpeza urbana adequado. Sabemos que aqui no Balneário Camboriú, antes da privatização do serviço de limpeza, a situação era bem ruim, as pessoas comentam.
(Engepasa)
Outro ponto a destacar é com relação às tarifas cobradas à população. De acordo com as pesquisas e também em programas das rádios locais há reclamações quanto ao valor das tarifas cobradas pela limpeza urbana, segundo a gerente da Empresa, “as pessoas acham caro”. Por outro lado, ela também destaca que a população, de modo geral, elogia e comenta de forma positiva os serviços de limpeza, assim como se diz, satisfeita com os serviços prestados pela empresa.
Uma das questões formuladas à Empresa com relação à população diz respeito à orientação que seria dada aos diferentes segmentos da sociedade, ou seja, a cada público especificamente: condomínios, restaurantes, comércio em geral. Uma vez que produzem resíduos com diferentes características, teriam informações diferenciadas e específicas sobre os cuidados e formas corretas de cuidar do lixo?
A Engepasa, de acordo com a gerente regional, mantém um contato permanente com a população, e os motoristas são orientados a comunicar qualquer problema, qualquer dificuldade. As informações e orientações, portanto, se dão através da distribuição periódica de folhetos explicativos e orientação direta através dos fiscais. De acordo com a referida gerente, quando ocorre qualquer problema, um fiscal é enviado ao local, conversa e orienta as pessoas. Na temporada de verão ocorrem mais problemas devido ao grande número de pessoas que estão de férias na cidade. E também porque há muito mais lixo neste período.
Na opinião da gerente entrevistada, do comportamento da população com relação ao lixo são observadas algumas diferenças: na região central as pessoas já estão mais orientadas, e têm um cuidado maior com o lixo e também com o material reciclável. Nos bairros é mais comum o lixo não ser tão bem acondicionado, o que compromete o visual quando fica mais exposto na rua. Entretanto, de acordo com a informante, não se pode afirmar que este aparente desleixo seja apenas um comportamento típico dos bairros, pois o fato da coleta domiciliar realizar-se em dias alternados poderia também estar contribuindo para este quadro. No caso dos restaurantes, os proprietários são instruídos a utilizar sacos mais reforçados porque os restos de alimentos pesam e os sacos rompem com facilidade.
Na perspectiva da sustentabilidade apregoada pela Agenda 21 as questões ambientais urbanas e sociais não podem ser dissociadas. Neste sentido, de acordo com a empresa responsável pela limpeza urbana, através de sua gerente, ainda falta muito para se alcançar esta nova cultura:
As pessoas ainda não se sentem responsáveis. Quando todos entenderem que o lixo é de responsabilidade de cada um, quando compreenderem como é difícil conseguir uma área, o alto custo de um aterro sanitário, a degradação do meio ambiente...Acredito que seja necessária muita orientação ainda.
O novo aterro sanitário dos Municípios de Balneário Camboriú e Itajaí estará entrando em operação ainda este mês (julho de 2007). Para a Empresa, a redução da quantidade de lixo produzida pela população iria prolongar a vida útil do aterro. “E é fácil fazer isso, é só separar os resíduos para a coleta seletiva”, comenta a responsável.
Alertar e orientar a população para estas questões é uma das estratégias utilizadas pela Engepasa Ambiental, através de materiais de divulgação, programas e campanhas como forma de conscientização da população. A divulgação da coleta seletiva é trabalhada em conjunto com a SEMAN. Atualmente, conforme a gerente da Engepasa, a divulgação da coleta seletiva está sendo feita de duas formas: a distribuição dos folhetos, pela segunda vez este ano, em todas as residências de todos os bairros do município, e a divulgação permanente no “Jornal Página Três”, orientando o que deve e o que não deve ser separado para a coleta seletiva. “A empresa hoje trabalha somente com essa divulgação”, completa a responsável.
O projeto de Educação Ambiental que engloba não só a coleta seletiva, mas também a limpeza urbana em geral, é desenvolvido em parceria com a SEMAN. Desde 2004, já cerca de 14 mil alunos das escolas municipais, estaduais e particulares participaram. Para os alunos de ensino fundamental é apresentada uma peça teatral, enquanto que o segundo grau
tem uma aula diferenciada. A revista em quadrinhos que conta a história de Garibaldo deixa as crianças muito empolgadas, comenta a responsável:
A ponto de recebermos varias ligações de pais que estão sendo cobrados pelos próprios filhos para que separem o lixo em casa. Nós sabemos que esse projeto não vai trazer um retorno imediato, mas sim futuro. (Gerente da Engepasa).
Sabe-se, entretanto, que os resultados, em termos de mudanças de comportamento com relação ao lixo não são imediatos. De acordo com a referida entrevistada, a necessidade de colocar mais um caminhão nas ruas para coleta seletiva representa um avanço que pode ser atribuído às campanhas em rádios e jornais e ao projeto de educação ambiental desenvolvidos no município, assim como aos outros projetos desenvolvidos pela SEMAN.
Quando se fala em material reciclável, atualmente, não é mais possível deixar de vincular a figura do catador, este agente que resgata, nos lixos das cidades, materiais aproveitáveis dando início com seu trabalho a todo um processo de reciclagem em nosso país.
De acordo com a gerente regional, a Engepasa encara a presença dos catadores no contexto da reciclagem como sujeitos que estão fazendo também um trabalho para a sociedade retirando este material das ruas, “mesmo que o objetivo deles seja uma fonte de renda, vemos também como um grande benefício o aproveitamento deste material”.
A empresa, questionada com relação a alguma ação para com os catadores, esclarece e destaca que a responsabilidade da Engepasa é somente com a coleta e limpeza do Município, esse trabalho não envolve qualquer relação com os catadores.
A responsabilidade da Engepasa é somente com a coleta e limpeza do município. Nós não temos qualquer relação com os catadores. Somos contratados apenas para levar os resíduos da coleta seletiva naquele local indicado pela Prefeitura e aí termina nosso trabalho.
De acordo com a entrevistada da Engepasa, a SEMAN é que está envolvida com os catadores e iniciou uma associação próxima aos escritórios da Engepasa, num galpão alugado pela prefeitura por um curto período:
A Prefeitura pagou o aluguel deste galpão por um período, só que depois eles é que teriam que arcar com isto e daí eles não conseguiram. A Associação não estava bem estruturada. Então eles foram para aquele espaço que é da Prefeitura, na Usina de Triagem, na Várzea do Ranchinho. Só que eles mesmos reclamam porque é muito longe pra eles. Mesmo que eles queiram participar não há como chegarem até lá, não há como se
locomoverem com todo aquele material com os carrinhos. Aqui perto eles iam e vinham o dia todo com o material.
De início foi quando foi formada a associação a intenção era que todos os catadores fossem trabalhar lá. Mas acontece que lá eles teriam que esperar até o final do mês para receber seu dinheiro. E os catadores de rua estão acostumados a ter todos os dias o seu dinheiro. Coletam e vendem diariamente o material.
Com relação a problemas entre funcionários da Empresa e os catadores durante as coletas, foram relatados alguns episódios, segundo informações da Empresa:
Já aconteceram atritos, de chegar o caminhão e eles quererem tirar alguma coisa do caminhão. Isso a gente não permite porque o nosso trabalho tem que ser feito, nós temos que realizar a coleta seletiva. Se nós cedermos a essas situações criam-se outras. Então, se eles passam antes, recolhem, tudo bem, não nos opomos a isto nem criamos atritos por isso. Mas já aconteceu de alguém parar o caminhão e pedir pra tirar coisas que estão lá dentro. Aí não permitimos. Mesmo porque esse material de qualquer forma será destinado a Associação. Então, temos que cumprir nosso trabalho. Mas isso é uma regra que eles já aprenderam a respeitar.
O maior problema, entretanto, é o fato de deixarem os sacos de lixo abertos, rasgados e o lixo espalhado nas lixeiras. Isto provavelmente acontece devido à pressa, uma vez que os catadores se antecipam à coleta, pois eles já conhecem o roteiro e os horários, e quando o caminhão passa naquele local eles já passaram e levaram o material. Uma catadora descreve sua corrida contra o tempo:
Tem dia que a gente sai às duas da manhã, tem dia que sai às cinco horas. O dia que o lixeiro passa eu saio mais cedo pra dar tempo de pegar os recicláveis antes que o lixeiro chega. Tem dia que vou numa rua e ele na outra.(catadora com 57 anos).
4.2 O AUTO-RETRATO DO DESEMPENHO DA SEMAN E SUAS REPRESENTAÇÕES SOBRE A ACATELI
O Secretário do Meio Ambiente de Balneário Camboriú, por sua vez, informa sobre a Agenda 21 neste município, que os trabalhos vinham sendo elaborados há cerca de quatro anos, inclusive até o ano passado aconteceram diversas reuniões com a participação da comunidade. Entretanto, “este ano demos uma parada pra repensar”:
A Agenda 21 é muito ampla, tudo o que estou falando com você é Agenda 21. Então nós pretendemos desenvolver a Agenda 21 propondo primeiro o capítulo do meio ambiente. Em contrapartida nós estamos fazendo a Agenda 21 na prática. As reuniões acabaram se esgotando em si próprias, houve uma saturação, as pessoas acabaram viajando demais. Então em vez de ficar discutindo teorias estamos tentando agir. Estamos com um projeto de gestão Ambiental Integrada que vai concatenar todas estas ações que estou falando pra você. Isto é Agenda 21. (Gestor).
Segundo o secretário da SEMAN, a questão dos resíduos é uma preocupação dos gestores de políticas públicas deste município:
Na realidade nós temos um programa de gestão que está sendo revisto e há falhas neste programa. Mas enfim, há uma gestão, já é alguma coisa. Faz parte desta gestão a responsabilidade que o município tem, você sabe que o serviço de coleta aqui do município é terceirizado, é privatizado. Mas a destinação dos resíduos sólidos (recicláveis) a Engepasa recolhe por toda a cidade e destina ao local indicado por nós para que seja feita a triagem.
De acordo com as duas gestoras da SEMAN entrevistadas, diversas ações vêm sendo realizadas junto aos moradores de Balneário Camboriú. Isto pode ser comprovado em reportagem do jornal Tribuna Catarinense (Anexo C). As mudanças são percebidas no comportamento dos cidadãos com relação ao lixo no município como resultado dessas ações:
Conversando com a Dona Maria da Associação dos Catadores ela tem nos falado que ultimamente a Coneville tem levado mais material para a Associação. Nós acreditamos que isso tenha a ver também com o nosso trabalho. As coisas vão acontecendo devagar, mas principalmente pelo depoimento da Dona Maria percebemos que isso está mudando. Ela sempre reclamava que na temporada a demanda de lixo era bem grande e quando chegava a baixa temporada caia muito, e agora essa quantidade se manteve nos meses de baixa temporada. Claro que não se compara à temporada, mas deu uma melhorada. E outro ponto comentado por ela é que o lixo tem ido mais limpo, menos misturado, as embalagens até lavadas.
Segundo as gestoras, estas mudanças são atribuídas mais especificamente ao trabalho realizado com a Coneville junto às escolas, com as crianças e os adolescentes de ensino médio. Havendo uma boa receptividade. A gestora explica que a Coneville foi como que “empurrada goela abaixo” para as pessoas, principalmente porque o serviço é pago. Por esta razão, no início da Coleta Seletiva ouve certa resistência: “muitas pessoas diziam que não
iriam separar porque já pagavam a taxa de lixo, como se o lixo não fosse também responsabilidade de cada um”.
É realizado, portanto, um trabalho de sensibilização mostrando a responsabilidade do cidadão com relação à questão ambiental e também a questão social, segundo a entrevistada:
As pessoas desconhecem que a Coneville leva estes resíduos para a associação, veja também o lado social. Alem da possibilidade de prolongar a vida útil do Aterro Sanitário se todo esse material não for misturado ao lixo comum, as pessoas que trabalham na associação estarão tendo sua renda. A maioria das pessoas ainda desconhece tudo isso. (Gestora)
Segundo uma das entrevistadas da SEMAN, “é um trabalho lento e contínuo para que aconteçam as mudanças dos hábitos e a conscientização de que a responsabilidade do lixo é de cada um de nós”.
A questão da separação, por outro lado, é bastante percebida nas escolas municipais onde é desenvolvido o projeto para coleta seletiva Terra Limpa:
A gente percebe muito mais nos bairros que as pessoas estão separando mais. As próprias crianças aprendem e passam para os pais, cobram deles. O que acontece é que muitos não praticam, mas as crianças já têm bem marcada esta consciência da questão ambiental.(Gestora).
Uma das estratégias utilizadas pela SEMAN em parceria com a Secretaria de Educação para atingir, sensibilizar e conscientizar o maior número de cidadãos, é o programa Terra Limpa de Educação Ambiental, já referido segundo uma gestora da SEMAN. Uma peça teatral é desenvolvida nas escolas, na qual o personagem principal é o Gari, que pergunta:
“Você quer ser igual a mim?” Segundo observações as reações das crianças diferem: para criança da escola particular tal pergunta é uma ofensa! Já para as crianças das comunidades, nos bairros, nas escolas públicas, é uma coisa natural: “é muito interessante isso porque a gente percebe os dois lados da moeda”. Entretanto, de acordo com a entrevistada, enquanto a maioria das crianças de escolas públicas já demonstrava mais humanidade com relação ao trabalho do gari, as crianças das escolas particulares, após o desenvolvimento deste trabalho, vêm demonstrando uma maior aproximação com o agente que faz a limpeza da cidade.
Com este trabalho também nas escolas particulares eu tenho percebido que estas crianças estão mais próximas dessas pessoas porque se identificam com o personagem, passam a compreender a importância do seu trabalho e
passam a respeitá-lo. Estão tendo atitudes mais humanas. Eu encontro crianças nas ruas e no supermercado e elas me reconhecem desses trabalhos e dizem: “Você não é a amiga do Garibaldo, cadê ele? Então, isso é uma coisa que aproxima”.(Gestora).
De acordo com esta entrevistada, as crianças de escola pública estão mais próximas do gari, do catador, uma vez que estas pessoas fazem parte do seu cotidiano, das suas experiências. Através dos projetos de educação ambiental as crianças de outras camadas sociais, ou seja, de escolas particulares, passam a conhecer o gari de uma outra perspectiva, valorizando seu trabalho e percebendo também a responsabilidade de cada um como cidadão a partir da sua própria responsabilidade. Vale lembrar que o papel da educação - segundo Freire (1999, p. 110):
Ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo.[...] Intervenção que além do conhecimento dos conteúdos [...]
implica tanto o esforço de reprodução da ideologia dominante quanto o seu desmascaramento.
Segundo Legaspe (1996, p. 26) há uma ênfase no processo de reciclagem normalmente veiculada para a sociedade da qual eles discordam, por acreditarem que a indústria da reciclagem visa a lucratividade do negócio como qualquer outra atividade industrial do mercado capitalista e discordam dessa imagem. Legaspe (1996, p. 123) chama atenção para o fato de que:
Tudo que é produzido pelo processo industrial não pode ser entendido sem vincularmos a ele o consumo, um não vive sem o outro (dentro do modelo capitalista), a necessidade de reciclagem é conseqüência disto tudo. A reciclagem é apresentada de forma distorcida para a sociedade, pois o cidadão pensa que ele é o beneficiário direto dela, esta associação da idéia de que reciclando o cidadão urbano contribui com sua parcela, como agente ambiental, é reforçada pelos meios de comunicação [...]
No mesmo sentido, Blauth (1998, p. 175 apud PERIN, 2003, p. 31) também coloca as contradições deste processo ao questionar:
Afinal, o que é mais ecológico: reciclar ou evitar sua produção? O processo de estímulo da reciclagem como solução para os males do consumismo contemporâneo, quando desvinculado das noções de redução e de reutilização, pode servir para legitimar o desperdício.