argumentações adentram nosso cotidiano e são de fácil adesão popular. Nesse sentido, nos fazem pensar e sentir que podemos ser a próxima vítima, já que não somos os criminosos. Novamente, há presença de um discurso dicotômico, em que a perspectiva de oposição bem-mal, vítima-agressor, indivíduo-coletivo serve para a construção de uma sociedade mais violenta e medrosa.
A vítima é a medida paradoxal da violência e da paz, da violência na medida em que é através dela que a ira decorrente da prática do crime será extravasada pela sociedade e da paz porque é por meio dela que serão feitas as tentativas de restabelecimento da ordem e da paz social. (ALEIXO, 2012 p. 109)
A proposta de substituição do Código Penal republicano pela elaboração de uma legislação específica para a infância, o código de Menores de 1927, partiu do falso discurso alarmista do aumento da criminalidade infantojuvenil. Reclamava-se que o Código Penal não viabilizava uma ampla ação do Estado sobre esta população, pois sua intervenção era limitada à legalidade descritiva do crime e da pena. (ALEIXO, 2012, p.98)
Entre as justificativas dos projetos que se referem ao aumento da violência, existem alguns argumentos diferentes. Os projetos 2575/2003, 5454/2013 e 7008/2010 afirmam que há um crescente envolvimento de adolescentes no cometimento de delitos. Nos trechos a seguir podemos observar as afirmações: “(...) além do aumento dos delitos praticados por menores, que se sentem livres para a prática de condutas tipificadas na legislação penal” (PL 2575/2003); "(...) criando instrumentos eficazes no combate à crescente participação de menores de idade na prática de atos infracionais." (PL5454/2013); "O crescendo alarmante da delinquência juvenil (...)” (PL 7008/2010). Outros Projetos de Lei falam de uma “onda de violência” com esses termos (2575/2003, 120/2007, 5524/2013) e do aumento da violência de forma mais geral, como no trecho "Nosso país vem passando por sérios problemas de segurança pública” (7590/2014) ou “(...) as medidas que contribuirão para reduzir a violência que vem acometendo, principalmente, os grandes centros urbanos” (5454/2013). Alguns projetos descrevem o "crescente sentimento de impunidade no seio da sociedade" (PL 5524/2013) como fator principal do aumento da violência, tais como 2575/2003, 7732/2014 e 7789/2014. Além disso, três projetos de leis nos chamaram a atenção por afirmarem que os adolescentes estariam cometendo crimes mais graves. Na PL 120/2007, no trecho “a sociedade já não suporta mais a ocorrência de crimes bárbaros praticados por menores”; PL 7589/2014 “reiterados e cada vez mais audaciosos atos de violência praticados por menores”; PL 7590/201 “considerando a alta periculosidade da maioria esmagadora dos jovens infratores” e “ocorre que estes [os jovens] são os que cometem os piores crimes”. Não podíamos deixar de mencionar aqui a PEC 171/1993, que já na década de 1990 afirmava um “aumento considerável da criminalidade por parte dos menores de dezoito anos de idade.” É necessário reiterar que, neste caso, também não há uso de qualquer dado científico ou menção a estatísticas que comprovem tal declaração.
Diante de tais afirmações, a análise da violência em nossa sociedade se faz necessária. A pauta da segurança pública é sempre debatida na
contemporaneidade, seja nas conversas informais, nos debates políticos ou nos noticiários televisivos. Entendemos que a insegurança pública é fruto da sociedade capitalista na qual vivemos, que gera desigualdade e exploração. A produção do medo também se apresenta de forma que o controle da população e o aumento das punições são apresentados como respostas ao enfrentamento da violência.
O estado regulamentado pela lógica do mercado e associado a uma variedade de fatores do mundo atual produz o sentimento de insegurança social e, simultaneamente, as políticas de governos para a redução dessa insegurança se ampliam, trazendo mais polícia, mais controle, mais rigor, mais punição; ou produzem mais mal-estar ao condicionar a obtenção de direitos a mudanças no comportamento das classes populares.
(NASCIMENTO; RODRIGUES, 2012 p. 198)
Além disso, os projetos de leis e a PEC 171/1993, aqui analisados, em nenhum momento citam a violência cometida contra adolescentes em nosso país, fazendo parecer que o “aumento da violência” não atinge esta parcela da população.
Segundo dados do Mapa da Violência 2015 (WAISELFISZ, 2015) o crescimento da mortalidade por armas de fogo no período de 1980 a 2012 foi muito maior entre os jovens (entre 15 e 29 anos de idade). A pesquisa também afirma que aos 19 anos de idade, os óbitos por armas de fogo atingem a marca de 69,9 mortes a cada 100 mil jovens (WAISELFISZ, 2015, p. 73), além das vítimas de homicídio por armas de fogo abrangerem quatro vezes mais jovens que não jovens (WAISELFISZ, 2015, p.65). Dessa forma, a realidade constatada nos projetos de leis parece contemplar apenas uma parte de todo o conjunto da sociedade.
Outra questão importante para esta reflexão se dá no âmbito do mercado da segurança. A constante vigilância a que somos submetidos diariamente com câmeras de segurança, cadeados, grades, alarmes, etc. faz com que todo um mercado gire em torno do medo. Nesse sentido, a prisão também começa a fazer parte do ciclo de geração de lucro.
A prisão não é mais lucrativa pelo trabalho dos presos, mas pela sua gestão, a ser terceirizada e privatizada, pela sua simbiose com as periferias urbanas e pelo seu capital simbólico. A indústria do controle do crime vai gerar uma nova economia, com seus medos, suas blindagens, suas câmeras, suas vigilâncias, sua arquitetura. A segurança privada vai substituir a construção civil como grande absorvedora de mão de obra desqualificada. (BATISTA, V., 2012, p.313)
Visto isso, podemos afirmar que as justificativas dos projetos de leis circunscrevem apenas parte da realidade brasileira e entendem os jovens como os principais agentes da suposta “onda de violência”, sendo caracterizados muitas vezes como mais violentos e cruéis que os adultos. Nenhum dos projetos citados revela as fontes destas afirmações. Entendemos que o discurso presente nestes projetos de lei é construído em grande medida pelo imaginário contido no senso comum, que a grande mídia veicula e dá visibilidade, como anteriormente debatido.