relação com a política, com as relações de poder constituídas, de acordo com a finalidade com que nos utilizamos dela, é que deve ser sempre levada em consideração.
Dito de outro modo, nesse contexto, em qualquer prática, seja esta definida como clínica ou como política, há uma política que é afirmada em torno da fabricação de realidades subjetivas e/ou objetivas. Trata-se, portanto, de pensar não uma suposta oposição entre clínica e política, mas a emergência de saberes e práticas variadas, como por exemplo, as ciências sociais, a psicologia e a medicina moderna, na condição de técnicas de poder que atuam na formatação dos humanos com base nas exigências de uma nova configuração das forças sociais. (ABREU; COIMBRA, 2005, p.
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Dessa forma, podemos perceber nos projetos analisados que suas justificativas se apropriam de parte de um discurso científico para embasar o caráter punitivo que propõem. A psicologia pode muitas vezes servir para a estigmatização de certos comportamentos, como pudemos ver através de pesquisas como de Sampaio e Gomide (2007), que parecem identificar um jeito “certo” de criar filhos.
Assim como a produção de laudos e pareceres que muitas vezes analisam os problemas concernentes à criminalidade e à violência como uma dimensão unicamente do indivíduo. Nesse sentido, a Psicologia pode se distanciar de uma prática reflexiva e crítica, deixando de levar em consideração sua intervenção - também política - no funcionamento dos diversos espaços que ocupa.
criança e, principalmente, do jovem” (p.2). Entendemos que o acesso à informação e as mudanças da tecnologia midiática não têm necessariamente relação com o amadurecimento dos adolescentes. Sobre este assunto, Batista (2015) problematiza argumentado que, ao contrário, as mudanças da contemporaneidade podem estar contribuindo para uma maturidade mais tardia dos jovens, visto que eles estão demorando mais a sair da casa dos pais e seu acesso à cultura está mais ligado ao que é ditado pela televisão.
Há um elemento do senso comum midiático que me irrita especialmente: é a afirmação de que os adolescentes hoje amadurecem muito mais cedo, de que o jovem dispõe hoje de mais informações do que o seminarista do Caraça. Antes de mais nada, as dificuldades de colocação profissional retêm hoje os jovens na casa de seus pais muito mais que há cinco décadas. Enquanto o aluno do Caraça lia os trágicos gregos e os poetas latinos, o adolescente de hoje assiste à Malhação: mais amadurecidos?!
(BATISTA, N., 2015, p. 5)
Sete dos dez projetos de leis aqui analisados se encaixam nesta categoria e descrevem uma necessidade de mudança no ECA. Seja pela busca de um possível
“aperfeiçoamento e atualização” (PL 2575/2003); seja para “adequar” o ECA à realidade atual (PL 5454/2013 e PL 7008/2010); ou por entender que é uma
“legislação altamente permissiva” (PL 120/2007). Além disso, a PL 7590/2014 também afirma que “os tempos são outros, o jovem de hoje não tem mais a inocência do mesmo jovem de 50 ou 60 anos atrás.” E continua: “diante da gravidade do problema e da falsa punição que o Estatuto da Criança e do Adolescente trás aos jovens que cometem crimes, apresentamos este projeto de lei”
(p.3).
Vemos que estes argumentos têm coro, não somente nas justificativas dos PLs, que raramente são lidas pela maioria da população, mas também nas notícias veiculadas na grande mídia através de pessoas públicas. Um exemplo pode ser observado na entrevista concedida pelo presidente da Câmara Federal, Deputado Eduardo Cunha, que fez uma coletiva de imprensa no dia 26 de junho de 2015 para Associação de Correspondentes Internacionais no Rio de Janeiro. Na ocasião, o Deputado declarou que a proposta da redução da maioridade penal seria votada na semana seguinte e, segundo notícia do site59 da Câmara, afirmou que o adolescente
59 Disponível em: http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/POLITICA/491114-EDUARDO- CUNHA-CONFIRMA-VOTACAO-DA-MAIORIDADE-PENAL-NESTA-SEMANA.html. Acesso em: 10 ago. 2015.
dos dias de hoje mudou e que “ele tem muito mais consciência do que faz, pois tem mais acesso à informação”. O argumento do “maior acesso à informação” é utilizado desde que o ECA se fixou como uma lei, como podemos perceber na PEC 171/1993. Aparentemente, o argumento induz o leitor a pensar que antigamente existiria certa inocência, que hoje não é alcançada devido aos meios de comunicação, ou que as mudanças atuais interferem no modo como os sujeitos lidam com as leis.
Sobre essa inocência a que muitos projetos se referem, nos parece que ela é explicitada na dicotomia vítima-agressor anteriormente enfocada. Arantes e Vaz (2012) escreveram artigo intitulado “Entre a delinqüência e o risco. Notas sobre a infância no contemporâneo.” No estudo, os autores debatem essa noção ambígua da infância - que podemos facilmente transportar para a questão da adolescência – em que ora é necessário criar programas para sua defesa, ora ela é tida como a ameaça e portadora de risco.
(...) algumas questões tem permanecido à margem do noticiário e mesmo da agenda de muitos grupos de militantes de direitos humanos, recaindo a preferência de ambos nas situações pontuais de violência contra crianças e adolescentes ou de atos infracionais cometidos pelos mesmos. Essa marginalização de outras questões possíveis decorre da ênfase numa imagem ambígua e idealizada da criança, simultaneamente boa vítima e má infratora, como se toda a infância tivesse de ser pensada sob a ótica redutora da proteção tutelar. (ARANTES; VAZ, 2012, p. 80)
No que concerne às mudanças da contemporaneidade, várias transformações aconteceram em nossa sociedade desde que o ECA foi aprovado. Mudanças estas que atingem diretamente nossos adolescentes como, por exemplo, o aprofundamento da noção de que o consumo é o que nos faz ser cidadãos, idéia inclusive largamente difundida pelos meios de comunicação. Segundo Melman (2009,p.56)
É considerado cidadão aquele que pode exibir as insígnias de um consumo de qualidade, como se os outros estivessem então excluídos da cidadania.
Em nossa sociedade utilitarista, temos a surpresa de ver que elementos tão supérfluos quanto os artigos de luxo tem um sucesso inigualável, simplesmente porque se tornaram as insígnias de uma cidadania bem- sucedida, que nos permitem mostrar aos nossos concidadãos que somos campeões, que somos alguém bem-sucedido no âmbito do consumo.
Esse modo de vida que nos é posto diariamente atinge diretamente nossos adolescentes, no sentido de quererem alcançar um lugar nessa sociedade de consumo. Dessa forma, vemos que todos nós e especialmente esta parcela da população busca uma forma de reconhecimento na sociedade. Visto que este reconhecimento é dado especialmente através do poder de consumo, somos todos levados a crer que quanto mais temos, mais somos seres importantes. Nesse sentido, de fato a mudança na contemporaneidade traz uma busca por consumo que gera sofrimento e modificação nos comportamentos. Porém, a resposta a este estilo neoliberal de vida não pode ser o encarceramento em massa de nossa juventude.
Existe o estigma de ser pobre no seio de uma sociedade rica, na qual a participação ativa na esfera do consumo tornou-se condição sine qua non de dignidade social – um passaporte para a cidadania, mesmo entre os despossuídos. (...) a violência e o crime são amiúde o único meio à mão dos jovens da classe trabalhadora sem perspectivas de emprego para adquirir dinheiro e os bens de consumo indispensáveis para ascender a uma existência socialmente reconhecida. (WACQUANT, 2005, p. 33)
O ECA, lei 8.069 de 1990, foi construído em plena efervescência da redemocratização brasileira, após pouco mais de duas décadas de ditadura de militar. Como aponta Oliveira (2000, p.11), a doutrina de proteção integral, que é um dos princípios fundamentais do ECA, tem sua gênese na Constituição Federal de 1988, a qual “enraíza-se num projeto de sociedade brasileira democrática, participativa, inclusiva”. Naquele momento da política nacional, o processo de formulação do Estatuto não foi aceito por algumas parcelas da sociedade, que até hoje a tem como uma lei demasiadamente protetiva.
Os opositores da doutrina de proteção integral, que apostam numa política de controle social da pobreza, avaliam o insucesso do ECA sem que ao menos tenham sido dadas as condições de implantação de vários de seus artigos, em especial aqueles referentes à aplicação de medidas socioeducativas. (OLIVEIRA, 2000, p.11)
Dessa maneira, as mudanças propostas para esta lei no intuito de
“modernizá-la” indicam reformas a artigos que nem ao menos foram cumpridos de forma plena. Sendo, portanto, uma avaliação simplista acreditar que o aumento do tempo de internação em instituições que em sua maioria não cumprem o que define o ECA - como pudemos ver no levantamento nacional socioeducativo em relação à
superlotação, garantia de direito à saúde, dignidade humana, etc. – melhoraria o cumprimento de tais medidas e diminuiria a violência no país.
O Projeto de Lei 7590/2014, afirma: “diante da gravidade do problema e da falsa punição que o Estatuto da Criança e do Adolescente trás aos jovens que cometem crimes, apresentamos este projeto de lei”. Esta alegação vai na contramão do que alguns teóricos já analisaram em documento emitido pelo CFP sobre socioeducação (CFP, 2013), como também nas cartilhas contra a redução da maioridade penal, ambas já analisadas no primeiro capítulo. Isto porque o ECA indica seis diferentes modos de responsabilizar o adolescente autor de ato infracional: advertência; obrigação de reparar o dano; prestação de serviços à comunidade; liberdade assistida; inserção em regime de semi-liberdade; internação em estabelecimento educacional (BRASIL, 2007, p.57-58). Ou seja, não há falsa punição, mas uma lógica de responsabilização, que pretende manter a proteção integral da criança e do adolescente como diretriz de ação, não deixando de responsabilizá-lo por atos praticados contra as leis vigentes, inclusive privando o adolescente infrator de sua liberdade. Dessa forma, o que é estabelecido no ECA vai de encontro ao que alguns projetos de lei justificam que “é consenso de que a atual legislação é extremamente leniente com a prática de delitos por menores de idade"
(PL 7789/2014).