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Discurso Biológico/Psicológico

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 78-81)

O discurso biológico e psicológico, entendido como aquele que utiliza algumas produções científicas para dar legitimidade aos seus argumentos, há muito tempo é utilizado no Brasil para o controle dos mais pobres e considerados indesejáveis em nossa sociedade. Vimos no primeiro capítulo que algumas teorias científicas, como a de Lombroso, foram muito utilizadas para análises dos criminosos do século XIX. Ainda hoje, esses discursos ditos científicos embasam as justificativas para manter certa parte da população encarcerada. Por exemplo, a realização de exames criminológicos, como anteriormente debatido, com a finalidade de oferecer ou não ao detento a progressão do regime; como se fosse possível algum profissional ter o poder de definir se o encarcerado viria ou não a cometer um crime. Ou quando se entende que a parcela pobre da população necessita de maior controle ou assistência, para que seus filhos não se tornem, no futuro, um problema de segurança pública (NASCIMENTO, 2008; RODRIGUES, 2012).

A PEC 171/1993 traz uma justificativa que é bastante utilizada pelos grupos que querem reduzir a maioridade penal, por exemplo no trecho: "já possuem, indiscutivelmente, um suficiente desenvolvimento psíquico e plena possibilidade de entendimento" ou ainda "nessa faixa de idade já estão sendo criados os fatores que marcam a identidade pessoal" (p.2). Para nós, não se trata de um possível não entendimento por parte de um adolescente das ações que ele pratica. A discussão precisa se dar de forma mais aprofundada, problematizando outras questões que se relacionam ao cometimento de crimes e atos infracionais. Vemos no livro escrito por Aleixo (2012), a análise e questionamento desses discursos reiteradamente presentes em projetos que visam o aumento do encarceramento de adolescentes.

A partir da avaliação das propostas de redução da inimputabilidade penal percebe-se que não há, em nenhum momento, problematização sobre a questão da aplicação efetiva do Estatuto da Criança e do Adolescente, da desigualdade social no país, da desigualdade de direitos ou da violação de direitos humanos de crianças e adolescentes.

Os políticos têm preferido trilhar o caminho mais fácil, que passa pela segregação e punição em vez de pensar em projetos que desenvolvam políticas que propiciem a inclusão e integração sociais (ALEIXO, 2012, p.

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Podemos entender, então, que a discussão das políticas que sugerem uma solução punitiva aos problemas da criminalidade está distante de solucionar uma questão que vai muito além do comportamento de um grupo de indivíduos que não cumprem a lei. Dessa forma, esse tipo de intervenção, ou seja, o aumento do aprisionamento, não tem resultados concretos na diminuição da violência, como já demonstrou Wacquant (2001, p.25) em seu estudo sobre a doutrina de “tolerância zero” nos Estados Unidos. Argumenta o autor que esta política passa às forças de ordem total liberdade para perseguir o que chama de “pequena delinqüência”, sustentando uma teoria não comprovada de que “é lutando passo a passo contra os pequenos distúrbios cotidianos que se faz recuar as grandes patologias criminais”

(WACQUANT, 2001, p.25). Sendo assim, o autor afirma que é contra o subproletariado urbano que esta política se afirma, se utilizando desta teoria como álibi para a reorganização do trabalho policial.

Na base de muitos argumentos que sugerem o aumento do aprisionamento no Brasil vemos que as ciências biológica e psicológica são utilizadas de uma maneira determinista, reduzindo o debate da criminalidade apenas ao indivíduo que cometeu algum crime, atribuindo à ciência a legitimação do discurso punitivo.

Podemos perceber isso em alguns dos Projetos aqui analisados, entre eles o PL 7208/2010 que versa o seguinte

Verificamos, portanto, que a prática de atos infracionais graves ou de excepcional gravidade, por um adolescente, revela, na maioria dos casos, um estado de periculosidade fruto de alteração, distorção ou deformação da personalidade ou do caráter, motivadas por inúmeros fatores incidentes sobre determinadas pessoas na sua fase de formação e desenvolvimento.

(PL 7208/2010, p.4)

Na PL 5524/2013 esta categoria aparece desse modo:

Já no modelo biopsicológico que estou propondo, há a união dos dois modelos (biológico + psicológico). Na situação proposta no PL, a punição é escalonada conjugando a idade do indivíduo com a averiguação, por meio de perícia médica, da capacidade do agente entender o caráter ilícito do ato praticado. (PL 5524/2013)

Novamente, vemos certas questões atribuídas à psicologia e a características de personalidade com destaque. Consequentemente desponta a demanda aos profissionais de saúde para a “averiguação” da capacidade de entendimento do ato praticado pelo adolescente. Não é novidade, dentre os autores já analisados, que os chamados “especialistas psi” sejam convocados a tomar frente de exames que supostamente poderiam medir certos comportamentos, como vimos no primeiro capítulo. Sobre essa questão, Coimbra e Nascimento (2005) afirmam:

Entendemos por discurso “psi” uma certa prática, ainda hoje hegemônica, que reduz a subjetividade a uma dimensão psicológica interiorizada, isolando-a de um contexto mais amplo.

Observamos que o psicólogo era e tem sido chamado a atuar nos casos considerados mais difíceis, em especial naqueles classificados como atos infracionais. Dessa maneira, a demanda endereçada ao psicólogo solicita que ele exerça a função de um perito individual, assumindo uma postura pretensamente neutra, desvendando “mistérios”, “desejos” e “verdades” do sujeito. (COIMBRA; NASCIMENTO, 2005 p. 345)

O lugar do psicólogo, dessa maneira, se reduz frente a uma intervenção direcionada predominantemente às avaliações psicológicas e relatórios destinados ao juiz, não vislumbrando uma atuação que possibilite a análise e reflexão de toda a instituição socioeducativa. Como expõe o documento construído pelo CFP (2010, p.

27), “é importante que o psicólogo possa intervir na dinâmica institucional, no apoio e suporte aos demais trabalhadores no sentido de garantir a qualidade do atendimento diário”. Nesse sentido, Brito (2000, p. 124) destaca também que após a aprovação do ECA o compromisso dos profissionais deve ser com os direitos dos jovens e, para isso, “temos que apontar, não simplesmente suas patologias (patologias segregam, afastam), mas as indicações para o completo desenvolvimento, seguindo-se os parâmetros indicados pelo Estatuto”, quais sejam, o que se oferece para promover os direitos desses adolescentes “à saúde, educação, convivência familiar e comunitária”.

O avanço das ciências fez com que o conhecimento acadêmico fosse largamente difundido, produzindo diversas verdades sobre os corpos, os comportamentos, as “anormalidades”. Obviamente, o progresso da ciência é necessário e fundamental para a melhoria da sociedade. Por este motivo é importante destacar que este conhecimento é produzido e não neutro, ou seja, recebe influência direta da sociedade em que se constrói, assim também como a influencia. Isto não quer dizer que a ciência em si é algo bom ou ruim, mas sua

relação com a política, com as relações de poder constituídas, de acordo com a finalidade com que nos utilizamos dela, é que deve ser sempre levada em consideração.

Dito de outro modo, nesse contexto, em qualquer prática, seja esta definida como clínica ou como política, há uma política que é afirmada em torno da fabricação de realidades subjetivas e/ou objetivas. Trata-se, portanto, de pensar não uma suposta oposição entre clínica e política, mas a emergência de saberes e práticas variadas, como por exemplo, as ciências sociais, a psicologia e a medicina moderna, na condição de técnicas de poder que atuam na formatação dos humanos com base nas exigências de uma nova configuração das forças sociais. (ABREU; COIMBRA, 2005, p.

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Dessa forma, podemos perceber nos projetos analisados que suas justificativas se apropriam de parte de um discurso científico para embasar o caráter punitivo que propõem. A psicologia pode muitas vezes servir para a estigmatização de certos comportamentos, como pudemos ver através de pesquisas como de Sampaio e Gomide (2007), que parecem identificar um jeito “certo” de criar filhos.

Assim como a produção de laudos e pareceres que muitas vezes analisam os problemas concernentes à criminalidade e à violência como uma dimensão unicamente do indivíduo. Nesse sentido, a Psicologia pode se distanciar de uma prática reflexiva e crítica, deixando de levar em consideração sua intervenção - também política - no funcionamento dos diversos espaços que ocupa.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 78-81)