• Nenhum resultado encontrado

Aumento do tempo de internação dos adolescentes

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 42-48)

No mesmo dia 13 de julho, o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) lançou seu relatório de balanço dos 25 anos do ECA. Segundo Mariz (2015), em notícia para o jornal O Globo, o representante da UNICEF no Brasil, Gary Stahl, disse que a entidade é contra a redução da maioridade penal. Afirmou, entretanto, que o aumento do tempo de internação poderia vir a ser necessário em alguns casos. Segundo a matéria, Stahl teria dito que

para recuperar um adolescente de 16 anos que nunca recebeu educação, que não tem família, morador de rua, precisa talvez de mais de três anos, mas com garantias de educação, de apoio psicológico, de nutrição, atenção médica. (MARIZ, 2015)

No relatório divulgado também foi possível perceber que o UNICEF se posiciona de forma flexível no que diz respeito a mudanças no Sistema Socioeducativo, desde que estas não signifiquem o ingresso no Sistema Penal.

Além disso, podemos perceber que o discurso protetivo é usado como justificativa mesmo quando se fala em aumentar o tempo de encarceramento da juventude.

No atual debate, qualquer caminho a ser proposto para a responsabilização com mais rigor de adolescentes que cometem graves delitos deve reafirmar a necessidade de uma resposta distinta do sistema criminal e das penas aplicáveis ao adulto. É preciso fortalecer o sistema atual tendo como referência experiências bem-sucedidas de outros países — e não faltam bons exemplos. Este é um momento oportuno para o debate sobre melhores formas de prevenir delitos e responder de forma efetiva aos crimes violentos cometidos por adolescentes. Aperfeiçoar o sistema socioeducativo, garantindo que ele ajude a interromper a trajetória do adolescente na prática do delito, é uma das tarefas mais importantes que o País tem diante de si. (UNICEF, 2015 p. 29)

O Senado brasileiro aprovou no dia 14 de julho de 2015 a mudança no ECA que diz respeito ao aumento do tempo de internação para adolescentes que cometem atos infracionais análogos a crimes hediondos. Segundo matéria do site11 do senado, o substitutivo ao PLS 333/2015 (apresentado no dia dois de junho de 2015 pelo senador José Serra) foi votado apesar de não haver uma comissão especial para o debate mais aprofundado do tema. Segundo matéria do site12, alguns senadores questionaram sobre a criação da comissão especial que Renan

11 Disponível em: http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/2015/07/14/senado-agrava-pena- para-menores-infratores. Acesso em: 12 ago. 2015.

12 Disponível em: http://noticias.r7.com/brasil/senado-aprova-projeto-que-altera-eca-e-aumenta- internacao-de-menores-que-cometerem-crimes-graves-15072015. Acesso em 12 ago. 2015.

Calheiros, presidente da casa, teria prometido. Ao votar o requerimento que pedia o adiamento da votação para aumentar o debate, este foi negado por 35 votos contra 32. O substitutivo de autoria do senador José Pimentel – aprovado por 43 votos a favor e 13 contrários - prevê também um regime especial de atendimento que seria para jovens entre 18 e 26 anos, já que a internação teria o limite máximo de 10 anos. O projeto precisa ser ainda votado na Câmara dos Deputados para depois, se aprovado, entrar em vigor.

No dia 17 de julho de 2015, o Instituto Sedes Sapientiae debateu em São Paulo os avanços e desafios dos 24 anos da promulgação do ECA. No evento, diversos especialistas se disseram contrários ao aumento do tempo de internação.

Segundo matéria do site da EBC13 o advogado Ariel de Castro Alves, do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente, teria dito que

Tem um princípio do Estatuto que é o da brevidade das medidas socioeducativas. Oito anos [de internação] para um jovem de 16 anos representa 50% de seu tempo de vida. Fere esse princípio que está na Constituição. Essa é uma forma de tentar driblar a questão da redução da maioridade penal, que é inconstitucional. (CRUZ, 2015)

13 Disponível em: http://www.ebc.com.br/cidadania/2014/07/especialistas-criticam-aumento-do-tempo- de-internacao-para-menores-infratores. Acesso em 12 ago.2015.

2 DO AUMENTO DO APRISIONAMENTO E DAS ESTRATÉGIAS PARA A CONSTRUÇÃO DE UM ESTADO MAIS PUNITIVO

Fonte: QUINO. Potentes, prepotentes e impotentes – 18ª Ed. Ediciones de La Flor. Buenos Aires: 2014

Diante do desconhecido, nada mais fácil, nada mais cômodo e consolador do que proferir uma sentença, uma solução final. Aí sim tudo parece resolvido e superado para que a vida siga como se bastasse percorrer um trajeto já conhecido, limpo e liso.

Acácio Augusto

Para analisar o crescente aprisionamento nos Estados Unidos da América – o qual observamos que logo se refletiu no Brasil -, Loïc Wacquant em seu livro “As prisões da miséria” (2001), contribui para o debate sobre como chegamos à glorificação do Estado Penal. Este, que estaria substituindo o Estado Social, se efetiva no sentido de criminalizar e arraigar o mito que a “tolerância zero” resolveria os problemas da pobreza. Além disso, o autor descreve a história do endurecimento das penas a partir da chegada do neoliberalismo nos Estados Unidos e na Europa, que se irradia pelo restante do mundo:

[...] o novo senso comum penal visando criminalizar a miséria – e, por esse viés, normatizar o trabalho assalariado precário – concebido nos Estados Unidos se internacionaliza. Sob formas mais ou menos modificadas e irreconhecíveis, a exemplo da ideologia econômica e social fundada no individualismo e na mercantilização, da qual ele é a tradução e o complemento em matéria de “justiça”. (WACQUANT, 2001 p. 18)

O aumento do número de prisões, que aconteceu na Europa na década de noventa do século XX, segundo o autor é também resultado de um sistema que penaliza a pobreza, enfraquece o Estado Social e fortalece e glorifica o Estado Penal, sobrecarregando a Justiça. Voltando para o Brasil, segundo Nascimento (2008), dados do Ministério da Justiça revelam um aumento de 247% da população carcerária no período de dez anos (entre 1997 e 2007). Nosso país tem hoje a terceira maior população carcerária do mundo, segundo os últimos dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ)14. Aparentemente, este dado não diminui a criminalidade, visto que a quantidade de pessoas presas segue aumentando. Além

14 O CNJ divulgou em junho de 2014 o novo ranking da população carcerária mundial, desta vez incluindo pessoas que cumprem prisão domiciliar. Levando isto em conta, temos agora 711.463 e não 563.526 presos, como anteriormente era computado. Passamos à frente da Rússia. O primeiro e segundo lugar dos países com maior população carcerária do mundo são EUA e China, respectivamente.

disso, os projetos de lei e propostas de autoridades do governo continuam sugerindo a aplicação de penas privativas de liberdade que duram mais tempo para diversas ocorrências alegando, em grande medida, o restabelecimento da “’sensação de segurança da população” - como exposto na carta dos quatro secretários de segurança pública do sudeste. Por que, então, as prisões e instituições totais são tão glamorizadas em nossa sociedade? Por que existe a ideia de que a privação de liberdade poderia “ressocializar” alguém? A que/quem servem as prisões? Estas são algumas pistas e questionamentos que ao longo da pesquisa seguimos. Segundo Coimbra e Nascimento (2005,p. 341):

Em nosso país, a partir de meados dos anos 1980, com a gradativa implantação de medidas neoliberais – onde a nova ordem mundial começa a aparecer com seus corolários de globalização do mercado, Estado Mínimo, flexibilização do trabalho, desestatização da economia, competitividade, livre comércio e privatização temos uma massiva produção de insegurança, medo e pânico articulados ao crescimento do desemprego, da exclusão, da pobreza e da miséria.

Nesse contexto, parece que o Sistema Penitenciário se torna depósito de uma parcela da população que já não tem lugar produtivo no seio da sociedade, entendendo que a função das instituições prisionais hoje está mais ligada à exclusão do que a um lugar de possível reabilitação do sujeito que praticou algum crime.

Segundo Garland (2008), na era do Estado de bem-estar se entendia que o crime apresentava relação direta com um processo de socialização deficitário do sujeito, em que o papel do Estado deveria ser o de assistir e contribuir para sua reintegração social. Já no Estado punitivo, o qual vivemos atualmente

As teorias de controle partem de uma visão muito mais obscura da condição humana. Elas preceituam que indivíduos são fortemente propensos a assumir condutas egoístas, anti-sociais e criminosas a menos que sejam inibidos de fazê-lo por controles robustos e eficazes, e recorrem à autoridade da família, da comunidade e do Estado para sustentar restrições e inculcar controle. Onde a antiga criminologia demandava mais em termos de bem-estar e assistência, a nova criminologia insiste em intensificar o controle e reforçar a disciplina. (GARLAND, 2008, p. 61)

O autor pesquisa e observa esta mudança nos EUA e na Grã-Betanha, porém podemos perceber que a tradição do norte logo recai sobre o sul, como também aconteceu com a implantação da política de “tolerância zero” que herdamos da lógica norte-americana (WACQUANT, 2001), guardada as devidas proporções e

contextos diferenciados entre os países. Nascimento (2008,p. 9), em apresentação à edição brasileira do livro de Garland, alerta

(...) a reconstrução histórica da criminologia a América Latina deve ter em mente, sempre, a natureza dependente do capitalismo da região, o que significa dizer que as políticas e práticas dos países centrais normalmente encontram ressonância em nosso continente, pois as elites latinas advogados, médicos, professores universitários, enfim, os “especialistas’

formadores de opinião – importam tais experiências alienígenas, divulgam- nas nos seus círculos de conhecimento (produzindo consenso através do argumento de autoridade que se ampara na irrefutabilidade do conhecimento dito ‘cientifico’) e tentam implementá-las nas instituições dos sistemas penais domésticos.

Visto isso, o processo que torna uma criminologia mais punitiva também chega paulatinamente em terras brasileiras, importando a lógica dos países que possuem diferentes culturas e história. A instalação de um Estado penal necessita também da construção de uma lógica de guerra, em que há um inimigo interno a ser combatido, além da valorização do lugar da vítima (SOUSA, 2014) e do papel fundamental que a mídia tem nesse contexto.

No documento Universidade do Estado do Rio de Janeiro (páginas 42-48)