Ao ler e reler Tutaméia (exercício este fundamental, proposto pelo autor nas epígrafes dos índices4), não resta dúvida de que o livro deve ser considerado em conjunto. Um elemento fornece pistas sobre os outros, principalmente os prefácios. Quando Guimarães Rosa escreveu quatro prefácios intercalados por contos, não entendemos que ele estivesse separando as histórias em grupos de conteúdos correspondentes aos preâmbulos que as cabeceiam, mas que se trata de um único prólogo dividido em quatro partes. Sendo fragmentada a configuração do prefácio, esse exerce
4 Consta no índice de Tutaméia esta citação, atribuída a Schopenhauer: “Daí, pois, como já se disse, exigir a primeira leitura paciência, fundada em certeza de que, na segunda, muita coisa, ou tudo, se entenderá sob luz inteiramente outra”. No índice de releitura, há outra epígrafe do mesmo autor com ideia semelhante à primeira:
“Já a construção, orgânica e não emendada, do conjunto, terá feito necessário por vezes ler-se duas vezes a mesma passagem”. ROSA, G. Tutaméia: terceiras histórias. 6 ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
_____________________________________________________________________________________________________
Scripta Alumni - Uniandrade, n. 7, 2012.
um papel análogo ao da linha de costura, isto é, une os contos sob um projeto estético uno e bem delimitado.
Lívia Ferreira dos Santos resumiu o conteúdo dos prefácios em dezoito pontos5, entre os quais destacamos alguns: o uso do humor como estratégia de rompimento das relações usuais (entre seres, entre seres e meio, entre seres e objetos etc.); a cautela diante do automatismo e da ditadura da linguagem cotidiana; o uso do neologismo quando houver um vazio no discurso a ser tapado; a dissolução do eu, especialmente no confronto com o outro; a busca do ausente, do vazio; o tratamento da vida sem recorrer à autobiografia; a dúvida e a incompletude da escrita; a obra sendo maior do que o escritor.
Tutaméia trata da vida, representa-a por meio de tantas anedotas, tristes e/ou cômicas, mas, sobretudo, sempre regidas pelo amor, ainda que indiretamente. Acreditamos que a chave da estrutura desse curioso livro está insinuada no desfecho do conto O outro ou o outro, quando tio Diógenes diz:
“O que este mundo é, é um rosário de bolas...” (ROSA, 1985, p. 122). Numa visão holística do livro, principalmente mirando-se o primeiro índice de leitura, está lá um rosário aproximado – um pouco mais adiante apontaremos o porquê. Outro trecho que reforça tal leitura está no quarto prefácio, Sobre a escova e a dúvida:
E como é que às criaturas confere-se possibilidade de existirem soltas, assim, separadas umas das outras, como bolas ou caixas, com cada qual um mistério particular, por aí? A gente aceita Adão e seu infinito quociente de almas; não o tremendo esperdiçar de forças que há em todo desastre; com o que, cite-se neste ponto-e-vírgula o risco da mesma fórmula em situação, conforme R. se traçou, onde o povo circula de comum armado. (ROSA, 1985, p. 169, ênfase acrescentada)
A resposta da pergunta grifada no excerto acima, não tão explícita, corresponde à frase destacada no final da citação. Também poderíamos simplificá-la, afirmando que o autor não crê no viver só em si: tudo está interligado. Seu livro, portanto, não poderia ser diferente.
5 Desconstrução em Tutaméia, artigo publicado originalmente em 1979. Também editado nesta coletânea:
COUTINHO, E. F. (Org.). Guimarães Rosa: seleção de textos. Coleção Fortuna Crítica. Vol. 6. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1991.
_____________________________________________________________________________________________________
Scripta Alumni - Uniandrade, n. 7, 2012.
Várias características no arranjo das histórias indicam a comparação com o terço, a começar pela intercalação de contos e prefácios. O rosário é uma longa oração católica composta por cento e cinquenta ave-marias, quinze pais-nossos e quinze mistérios. Para facilitar a contagem ao fiel, usa-se o terço, um objeto formado por uma linha com contas grandes e pequenas. As maiores indicam a reza de um pai-nosso e uma passagem sobre a vida de Maria e/ou de Jesus (o mistério), as menores, uma ave-maria. O ritual espiritual inicia-se com o creio e o oferecimento do rosário, reza-se então o primeiro mistério e o pai-nosso. Em seguida, vêm dez ave-marias. Depois, o segundo mistério e outro pai-nosso. Mais dez ave-marias. E assim vai até que se tenham rezado cinquenta ave-marias, cinco mistérios e cinco pais-nossos.
A linha do terço termina no ponto de partida (tem o formato circular), indicando que se deve começar tudo de novo. É preciso dar três voltas no terço para se ter rezado um rosário.
Façamos agora o paralelo desse ritual de oração com Tutaméia. O livro possui nesta ordem: índice, primeiro prefácio, quatorze contos, segundo prefácio, oito contos, terceiro prefácio, onze contos, quarto prefácio, sete contos, índice de releitura. Esse último elemento, mais o fato de o protagonista do primeiro conto reaparecer no derradeiro, indica que o leitor precisa refazer o caminho para aprofundar o entendimento das histórias, só que com uma pequena diferença: os quatro prefácios devem ser lidos seguidos. Ao se fazer isso, observa-se que, de fato, os quatro prólogos, juntos, compõem um manifesto estético único cujos preceitos serão aplicados nas obras de criação literária do mesmo livro. Da mesma forma, existem quatro tipos de mistérios na oração do rosário: gozosos, luminosos, dolorosos e gloriosos. Embora recebam essa divisão, todos contam a trajetória de um único homem/deus, Jesus.
Os contos de Tutaméia não se dividem em grupos de dez exatamente como as ave-marias no terço. Também a releitura do livro não deve ser idêntica à primeira, enquanto o traço maior do rosário é o da repetição. Isso mostra que a identificação da forma do livro com a do rosário não é plena. A principal semelhança jaz no ato de refletir sobre a vida. No rosário, isso ocorre por meio de pequenas histórias sobre a sagrada família, em particular sobre Jesus, para conhecimento e modelo dos fiéis. Na obra de Guimarães
_____________________________________________________________________________________________________
Scripta Alumni - Uniandrade, n. 7, 2012.
Rosa, são os contos em forma de anedotas que nos apontam a onipresença do mistério no dia a dia.
Ainda seguindo o raciocínio de aproximar a estrutura do livro à do rosário, poderíamos sugerir que o intrigante subtítulo Terceiras histórias relaciona-se às três voltas do rosário. Mas, na falta de evidências que corroborem essa interpretação, mantenhamo-la sob a condição de especulação.