_____________________________________________________________________________________________________
Scripta Alumni - Uniandrade, n. 7, 2012.
visão diferenciada do artista como criador, tornando a criatividade mais importante que a utilização tradicional de regras formais e acadêmicas. A pressuposição de que as transformações que acontecem no que já está estabelecido decorrem exclusivamente do desejo de aperfeiçoamento e adaptação cronológica de valores é um equivoco, quando direcionada ao processo desencadeador dos movimentos reacionários e renovadores da arte, como ocorre na estética Naïf. O crescimento, a maturidade e o declínio (ou simplesmente a perpetuação) do clássico encaminharam a vertente artística diferenciada e com preocupações valorativas da emoção e da poesia, sem a preocupação da perfeição estética acadêmica almejada. A inexistência da pré- avaliação, pela característica Naïf não acadêmica, encaminha um processo criativo diferenciado e inovador, que desemboca na poética expoente das obras. A pura e ingênua síntese formal participa efetivamente na comunicação artística, e se torna sua principal virtude.
_____________________________________________________________________________________________________
Scripta Alumni - Uniandrade, n. 7, 2012.
inopinadas observadas em seus rostos, indica simbolicamente a condição da realidade social em que o indivíduo retratado está inserido, realidade em que a funcionalidade do sujeito em prol do pseudo discurso consensual encerra-se em sua utilidade. “Sob o ponto de vista da semiótica, a definição de signo comporta a ideia de que é algo que representa alguma coisa para alguém, sob certo aspecto e em certa medida. A ideia de equivalência aí faz sentido.”
(CHALHUB, 2005, p. 21)
A tela Ciranda da banda ilustra algumas importantes características poéticas Naïf. Simbolicamente, as figuras representativas das pessoas integrantes da banda fazem o espectador da pintura relacionar a pequena importância que o indivíduo possui perante o meio social, mas que dele se utiliza para alcançar seus objetivos, que vão desde a manipulação ideológica até a perpetuação de uma dominação cultural.
O sentido das figuras humanas (muito frequentes nas obras Naïf ) são as marcas imagéticas usadas para, por meio da irrealidade dual que representam, produzirem o seu principal elemento discursivo. As expressões inopinadas, as proporções e os gestuais pouco habituais para a estética acadêmica produzem efeitos que simulam a busca pelo sentido em conflitos e contratos sociais não-consensuais estabelecidos. Antonio Candido, em seu livro Literatura e sociedade, exemplifica a idealização humana presente num clássico da literatura brasileira: “(...) elemento básico do Caramuru é o homem natural, o índio, que aparece vivendo, sob certos aspectos, num estado de pureza cuja perfeição o europeu admira.” (CANDIDO, 2006, p. 186)
A interação significativa que ocorre entre as imagens, a mimese presente e o destaque à dualidade imagética sensível encaminham o evento criativo ao seu significado, pelo afastamento da articulação normatizadora acadêmica:
A função poética traz e torna presente o que existe em ausência na linguagem, ou seja, a equivalência de formas sígnicas. (CHALHUB, 2005, p. 25)
O aspecto posicional dos signos, das palavras em um poema, acaba revelando que a significação está na própria relação que une esses termos. Assim, o código verbal e suas qualidades, sejam sonoras, sejam visuais, ao se desenharem (configurar) diagramadoramente (desenho que mostraria, no conjunto, os elementos em relação), adquirem características do objeto que definem. (CHALHUB, 2005, p.
39)
_____________________________________________________________________________________________________
Scripta Alumni - Uniandrade, n. 7, 2012.
O surgimento da arte Naïf ocorreu na França, mas tem o Brasil, a Itália, o Haiti e a Iugoslávia como os países expoentes. Inclusive, pertence ao Brasil o maior acervo mundial deste gênero.
No Brasil, a arte dos chamados artistas primitivos passou a ser valorizada após o Movimento Modernista, que apresentou, entre as suas tendências, o gosto por tudo que era genuinamente nacional. E um artista primitivo é alguém que seleciona elementos da tradição popular de uma sociedade e os combina plasticamente, guiando-se por uma clara intenção poética. (PROENÇA, 1998, p. 247)
A característica predominante no Romantismo, da liberdade espiritual voltada à necessidade de mudanças relativas aos padrões estabelecidos pelo classicismo científico e artístico, desencadeou uma revolução que excedeu seus propósitos iniciais, projetando com vigor a manifestação artística Naïf.
Percebemos, na tela Ciranda da banda, influências diretas dos ideais Românticos. A pura e ingênua arte plástica e literária, isenta de preciosismo acadêmico e, sobretudo, com o mínimo de controle racional, diferencia a manifestação Naïf da arte primitiva e daquela presente na arte clássica e acadêmica. Corina Ferraz, que possui formação acadêmica, tendo cursado Belas Artes em Ribeirão Preto – São Paulo, e Curso Superior de Pintura em Curitiba – Paraná, optou pela linguagem estética e discursiva Naïf para expressar em sua tela uma ideologia e maneiras próprias de pensar, que envolvem política, direitos humanos e principalmente a parte poética.
Os exemplos de pinturas Naïf dos artistas Pilar Sala e Edgar Calhado reproduzidos a seguir ilustram características de utilização de cores vivas, estilização e síntese. A alegria e a espontaneidade encontradas em obras tipicamente Naïf decorrem da autonomia que os artistas possuem, onde manifestam sua necessidade de utilizar a arte como um canal de sua expressão interior, não raro onírica.
_____________________________________________________________________________________________________
Scripta Alumni - Uniandrade, n. 7, 2012.
Bordando, de Pilar Sala. Imagem disponível em:
http://blogillustratus.blogspot.com.br/2009/12/arte-naif.html
Flamboyant, de Edgar Calhado. Imagem disponível em:
http://blogillustratus.blogspot.com.br/2009/12/arte-naif.html
A forte influência da forma singular e do estilo ilustrativo utilizado nas obras de Henri Rousseau (já abordado nesse estudo), com característica não convencional, contribuem para o advento da Pop-art e da Op-art, pela utilização de magnífico colorido e formas simplificadas, e exemplificam a diferenciação entre as manifestações artísticas citadas neste parágrafo.
Movimentos vanguardistas de arte surgiram a partir do afastamento do classicismo, sendo Pablo Picasso, Salvador Dali, Henri de Toulouse-Lautrec, Vincent Van Gogh, Henri Matisse, Cândido Portinari, entre outros, exemplos de artistas que, por meio do Expressionismo, do Dadaísmo, do Fauvismo, do
_____________________________________________________________________________________________________
Scripta Alumni - Uniandrade, n. 7, 2012.
Cubismo, do Abstracionismo, do Surrealismo, e do Romantismo utilizaram os meios oníricos, de ímpeto, da sobreposição de ideias e, sobretudo, da emoção em suas expressões artísticas, todas derivadas da ausência do controle racional imposto pelo academicismo.
CONCLUSÃO
O surgimento de novas vertentes artísticas pressupõe um entendimento histórico adequado, mas tal afirmação não encontra consonância na pintura Naïf, o que justifica o fato de essa manifestação ser entendida de maneira deturpada, com os críticos comparando-a com desenhos rupestres ou com pinturas feitas por doentes mentais.
Mas com o que deve um pintor experimentar e por que não se contenta em sentar-se diante da natureza e pintá-la com todo o talento que possuir? A resposta parece ser que a arte perdeu o rumo porque os artistas descobriram que a simples exigência de que deviam "pintar o que veem" é contraditória. (...). Recordemos como o artista primitivo costumava construir, digamos, um rosto a partir de formas simples, em vez de copiar um rosto verdadeiro; reportamo-nos frequentemente aos egípcios e seus métodos de representarem numa pintura o que conheciam e não o que viam. A arte grega e romana insuflou vida nessas formas esquemáticas; a arte medieval usou-as, por sua vez, para contar a história sagrada; a arte chinesa para contemplação. Em nenhum desses casos o artista era instado para "pintar o que via".
Essa ideia só veio a surgir durante a Renascença. (...). De então para cá, são cada vez mais amplos os conhecimentos que nos provam ser impossível separar claramente o que vemos do que conhecemos.
Uma pessoa que tenha nascido cega, e adquira a vista mais tarde, deve aprender a ver. Com alguma autodisciplina e auto-observação, todos podemos descobrir por nós mesmos que aquilo a que chamamos "visão" é invariavelmente colorido e modelado pelo nosso conhecimento do (ou crença no) que vemos. (GOMBRICH, 2000, p.
404)
O pintor Naïf cria sua expressão a partir de códigos próprios, independente da preexistência de formação acadêmica. Isso é decorrente de uma visão particular de mundo, que surge de sua condição particular. A
_____________________________________________________________________________________________________
Scripta Alumni - Uniandrade, n. 7, 2012.
necessidade de expressão desse particular e único entendimento impulsiona o artista a realizar sua obra sem grande preocupação, no que tange à sua importância, direcionando o espectador a compartilhar sua experiência atemporal e visionária, o que busca transfigurar situações cotidianas.
Ingenuidade torna-se então ferramenta desarticuladora e transformadora da pseudo coesão hegemônica tecnicista presente na comunidade representada na tela. Estruturalmente, a obra retoma valores emocionais ingênuos como contraponto sensível à imposição acadêmica na busca estética do belo. O modo como os elementos figurativos utilizados na obra de arte encaminham o entendimento narrativo, pelo inter- relacionamento perceptível, descreve o discurso presente, ilustrando a eterna busca dos significados e do sentido relacional humano.
A maneira fragmentada, contemporânea, de entendimento dos valores, relacionada à transitoriedade dos valores humanos, indica o caminho da emoção e do sentimento inseridos na criação artística, trajeto percorrido pela maioria dos artistas Naïf, e marcado por ingenuidade acadêmica e poética superlativa.
REFERÊNCIAS
ARGAN, G. C. As fontes da arte moderna. Trad. Rodrigo Naves. São Paulo:
CEBRAP, 1987.
CANDIDO, A. Literatura e sociedade. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2006.
CHALHUB, S. A metalinguagem. São Paulo: Ática, 2005.
GOMBRICH, E. H. A história da arte. São Paulo: LTC, 2000.
PROENÇA, G. História da arte. São Paulo: Ática, 1998.
VERISSIMO, J. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro: Ministério da Cultura; Fundação Biblioteca Nacional; Departamento Nacional do Livro, 1915.
Voltar ao Sumário
_____________________________________________________________________________________________________
Scripta Alumni - Uniandrade, n. 7, 2012.