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O TRÍPTICO TEMÁTICO NO CONTO O MUJIQUE MAREI DE DOSTOIEVSKI 1

No documento Uniandrade (páginas 147-150)

Rita de Cassia Alves de Souza2

RESUMO: Este trabalho faz uma leitura do conto O mujique Marei, de Fiódor M.

Dostoievski, publicado em 1876 na obra Diário de um escritor. Nesse conto, o autor se utiliza das lembranças de um de seus dias na prisão como moldura para contar um fato ocorrido em sua infância. Para embasamento teórico, foram utilizados os conceitos teóricos da obra Dostoievski artista, de Leonid Grossman, especialmente a análise do tríptico temático, apontado por Grossman como um dos princípios literários construtivos da obra de Dostoievski. Para contextualizar o espaço e o tempo dos acontecimentos, foram utilizadas informações biográficas fornecidas por Natália Nunes na introdução de Fiódor M. Dostoievski: obra completa.

Palavras-chave: Contos russos. Dostoievski. Tríptico temático.

ABSTRACT: This paper is a reading of the short-story The peasant Marey by Fiodor M.

Dostoevsky, published in 1876 in the Diary of a writer. In this short-story the author uses the memories of one of his days in prison as a frame to tell an episode occurred in his childhood. As theoretical basis, this analysis uses Leonid Grossman´s concepts of the literary work in Dostoievski artista, especially the analysis of the thematic triptych, mentioned by Grossman as one of the principles of literary construction in Dostoevsky´s works. Biographical information was used, provided by Natália Nunes in the introduction of Fiódor M. Dostoievski: obra completa, to contextualize the place and time of the events,

Keywords: Russian short stories. Dostoevsky. Thematic triptych.

1 Artigo recebido em 12 de abril de 2012 e aceito em 11 de junho de 2012. Texto orientado pela Prof. Dra. Sigrid Renaux.

2 Mestre em Teoria Literária pelo Centro Universitário Campos de Andrade.

E-mail: [email protected]

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Scripta Alumni - Uniandrade, n. 7, 2012.

INTRODUÇÃO

Fiódor Mikhailovitch Dostoievski (1821-1881) é considerado pela crítica literária como um dos dez melhores escritores de todos os tempos.

Nasceu em 1821 em Moscou, no Hospital Mariínski, onde o pai médico residia e exercia a profissão. Viveu no hospital com sua família até 1831, quando o pai adquiriu uma pequena aldeia no campo – Daravóie – na Província de Tula (Rússia), para onde logo se mudou com a família (DOSTOIEVSKI, 1967, p.171-172).

Em 1837, aos dezesseis anos, ingressou na Escola de Engenharia Militar, em São Petersburgo, onde começou a escrever suas primeiras obras.

Em 1846 publicou seu primeiro romance, Pobre gente, e passou a conviver com o sucesso: “(...) estou embriago com minha própria glória”, diria em uma de suas cartas (DOSTOIEVSKI, 197-, p. 13).

Considerado subversivo por defender sua posição política e sua visão liberal da sociedade russa, Dostoievski foi preso em 1949, e, condenado a trabalhos forçados na Fortaleza de São Pedro e São Paulo e, depois, na Prisão de Omsk, na Sibéria, de onde foi libertado em 1854. Sobre a prisão de Dostoievski, Natália Nunes, organizadora e tradutora da obra completa do autor, afirma: “Quase todos os seus biógrafos são unânimes em considerar que a sua estada no presídio siberiano foi decisiva na evolução do seu gênio e, portanto da sua obra.” (DOSTOIEVSKI, 1963, p. 38).

Em 1872 começou a trabalhar como chefe de redação no jornal O cidadão, onde publicava o Diário de um escritor (1873/77). Posteriormente, já desligado desse jornal, o Diário de um escritor tornou-se uma publicação independente. Natália Nunes acrescenta, a respeito dessa obra, o comentário de Henry Troyat: “Com o Diário de um escritor Dostoievski inaugura um gênero novo, em que mistura impressões pessoais sobre política externa, (...) fantasias romanceadas, e fatos do dia a dia (...). As suas crônicas são redigidas em estilo familiar, frouxo, difuso, mas que se eleva de repente a uma eloqüência bíblica.” (DOSTOIEVSKI, 1963, p. 50). Ainda conforme a tradutora, “os escritos do Diário de um Escritor dão-nos as idéias políticas, religiosas e sociais do escritor (...). Além dessas idéias inclui também Dostoievski (...) narrativas puramente literárias e até os episódios da infância, como o episódio do Camponês Marei” (DOSTOIEVSKI, 1963, p. 50) – objeto deste estudo.

Dostoievski Faleceu em 1881, deixando um legado de grandes obras:

Memórias da casa dos mortos (1862), Os irmãos Karamazov (1889), Crime e Castigo (1865/66), entre muitas outras. Natália Nunes enfatiza “a verdadeira glória de Dostoievski começa depois de sua morte. É então que vai surgir a exegese apaixonada de sua obra e da sua personalidade e a sua dispersão pelos países cultos da Europa” (DOSTOIEVSKI, 1963, p. 51).

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Scripta Alumni - Uniandrade, n. 7, 2012.

Este trabalho faz uma leitura do conto O Mujique Marei, publicado em 1876, no Diário de um escritor. Para embasamento teórico, serão utilizados os conceitos teóricos da obra Dostoievski artista (1967), de Leonid Grossman.

Será feita a análise do Tríptico temático, apontado por Grossman como um dos princípios construtivos da obra de Dostoievski, observados aqui em três encontros: o primeiro, entre Dostoievski e o prisioneiro polonês M-cki – personagem essencial no contraponto entre a imagem do nobre e a do camponês –; o segundo, entre Dostoievski criança e o Mujique Marei; o terceiro, novamente entre Dostoievski e o prisioneiro M-cki. Outros princípios construtivos do autor, como crítica social e dados da vida real, também estão presentes e serão descritos na análise. Para contextualizar o espaço e o tempo dos acontecimentos, serão utilizadas informações biográficas fornecidas por Natália Nunes na introdução da obra Fiódor M. Dostoievski:

obra completa (1963).

O conto O mujique Marei (1876), considerado um relato autobiográfico, está classificado como uma das obras da maturidade do autor, onde relata fatos de sua vida como preso político na Sibéria, cuja única liberdade na época era para dentro de si mesmo, viajando em suas próprias lembranças. Numa dessas lembranças, o autor rememora um encontro de sua infância entre ele e um trabalhador da fazenda do pai, construindo, assim, uma segunda narrativa. Como uma narrativa está encaixada na outra, antes de ter acesso à história do mujique, o leitor tem acesso à primeira narrativa - Dostoievski prisioneiro - utilizada pelo autor para fazer conhecer e relembrar circunstâncias e atos de sua vida. A rememoração do encontro com o mujique Marei na segunda narrativa dá título ao conto.

Relacionadas ao conto, aparecem três datas importantes: uma delas é a data relativa ao tempo do escritor, configurada em 1876, com a publicação da obra; as outras duas são complementares e fazem a temporalidade do conto propriamente dita. A primeira época, ligada à primeira narrativa, está configurada entre os anos de 1850-1854, período em que o autor esteve detido como preso político na Sibéria. A segunda época está ligada à segunda narrativa, e faz um flashback do encontro entre Dostoievski e o camponês Marei, ocorrido na infância do autor, teoricamente em agosto de 1831, quando ele tinha nove anos de idade.

O espaço e a ambientação do conto estão contextualizados em dois cenários distintos: o da primeira narrativa é o interior da prisão de Omsk, na Sibéria; ali, é descrito o ambiente interno: lúgubre, escuro, violento e frio, metaforizando infelicidade, solidão e tristeza. Na segunda narrativa, o ambiente descrito é externo: a floresta nos arredores da aldeia de Daravóie, Rússia, onde o autor passou parte da infância; um lugar ensolarado, vivo, claro, pulsante, iluminado e colorido, metaforizando a felicidade, a liberdade, a saúde e a paz.

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Scripta Alumni - Uniandrade, n. 7, 2012.

Ao relatar suas experiências como personagem central, o protagonista das duas narrativas é o próprio autor/narrador, sendo que na primeira narrativa o protagonista é Dostoievski prisioneiro e, na segunda Dostoievski criança. Na primeira narrativa, as personagens secundárias são os guardas da prisão e os outros prisioneiros, especialmente o prisioneiro polonês M-cki, que dialoga com Dostoievski prisioneiro. Na segunda, o coadjuvante de Dostoievski menino é o servo Marei, que também pode ser visto como protagonista, já que seu nome dá título ao conto, e ser ele o responsável pela transformação de Dostoievski prisioneiro na primeira narrativa. Há, ainda, na segunda narrativa, a figura do lobo imaginário como personagem secundária.

Ao estruturar o conto, Dostoievski também faz uso do recurso de metaficção, citando o conteúdo de uma obra sua escrita anteriormente, e colocando uma narrativa dentro da outra. Recorre igualmente à metalinguagem, pois as narrativas - Recordações da casa dos mortos (1862) e O mujique Marei (1876)- estão ao mesmo tempo unidas e separadas como histórias individualizadas, como explica o autor no próprio conto:

Ter-se-á talvez observado que até este dia, quase nunca falei da minha vida na prisão. Quanto às minhas Recordações da casa dos mortos, há quinze anos que as publiquei como sendo de um personagem imaginário, de um assassino que teria matado a mulher.

Acrescento, a este propósito, a título de simples pormenor, que muita gente crê e sustenta, ainda hoje, que estive exilado na Sibéria por ter matado minha mulher! (DOSTOIEVSKI, 1970, p. 204)

No documento Uniandrade (páginas 147-150)